Ilusão: o perigoso fio que nos conecta mesmo sem wi-fi

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a Revista Psique.

Abaixo, reprodução do artigo de Helena Cunha Di Ciero Mourão* para a revista Psique nº 150, de agosto de 2018

 

Recentemente testemunhei a seguinte cena num restaurante. Eram dois adolescentes com os pais. Logo que a comida chegou, um apetitoso sanduíche acompanhado de batatas fritas, cada membro da família sacou do bolso seu celular e fotografou o prato antes mesmo de experimentá-lo. Parecia uma cena de faroeste. Estavam ávidos e felizes por registrar o cheeseburguer que comeriam em segundos. Orgulhosos. A ligeireza em fotografar a cena veio antes do que a fome. Surpreendi-me, também, por não ter me espantado, assisti à cena como quem contempla um movimento habitual do sujeito contemporâneo: a pausa para a fotografia.

Curioso pensar que, apesar do imediatismo ser uma marca forte do tempo em que vivemos, essa suspensão está sempre presente. Pausa antes de postar, pausa para registrar a foto ou filmar, pausa na conversa ao vivo para responder a um comentário do mundo virtual.

Os diálogos pelos aplicativos de mensagens instantâneas nada têm de instantâneos, todos somos escravos desse mesmo tempo de espera. Atualmente, essa forma de comunicação é muito mais frequente do que os telefonemas, possibilitando um tempo de reflexão antes da resposta, uma reformulação da frase antes do envio e, muitas vezes, uma quebra da espontaneidade.

O lugar mais temido pelos adolescentes hoje são as marcas azuis do Whatssapp, que indicam que o outro visualizou a mensagem e não respondeu. Elas tornam real o maior pesadelo dessa geração: a sensação de invisibilidade.

Posto, logo existo

As fotos hoje são compartilhadas em busca da validação de uma experiência. É preciso que alguém testemunhe minha vivência, assista às minhas experiências, dê likes nos meus registros fotográficos para que a cena seja completa. A função da rede social é a de uma plateia que assiste, contempla, celebra um fragmento do tempo recortado e editado numa imagem.

Como uma mãe que aplaude o filho em seus passos, os amigos virtuais reafirmam nosso narcisismo[1] (há inclusive um emoji de palmas). O espelho virtual representa algo muito valioso para todos nós, aquele primeiro olhar que delineia nossa existência e de onde vem o amor: O olhar materno. Seria este o lugar onde se iniciam as primeiras trocas significativas com o mundo. Esse espelho inaugura nosso psiquismo e traz uma sensação que buscamos a vida inteira: a de segurança.

Possivelmente, essa é a causa de serem tão poucos os que conseguem não se render aos encantos da Internet. A busca por curtidas seria uma forma resgatar a lembrança de que existimos para alguém de maneira concreta. Não é raro ouvir de pacientes apaixonados: “Estou feliz, ele curtiu minha foto”. Ou seja: “Ele se lembra de mim, eu tenho a prova viva”.

Há também os que se filmam em seus stories, enquanto olham para a tela, conversam com seus seguidores e pedem opinião sobre roupas, corte de cabelo etc. ou divagam sobre a vida.  Existem também as filmagens ao vivo, os lives, nos quais as pessoas em tempo real interagem com outros usuários da rede. Seria possível se isentar da persecutoriedade nesse tipo de postagem? Pois essa exposição traz riscos, haters e falas de estranhos protegidos pelo escudo da tela de computador. Nem tudo é like, há também o haters. Freud diria que entre fezes e sangue nascemos. Não dá para esperar só aplausos da plateia virtual.

Tal qual a bruxa da história da Branca de Neve, o espelho de pixels contemporâneo tem uma função oracular. Seria este oráculo poderoso o suficiente para evitar o fim trágico do sujeito atual que nos remeteria à história de Narciso? Importante adicionar que há muitos registros de pessoas que arriscam sua vida para fazer uma selfie em lugares perigosos, colocando-se em situações de risco e morrendo por acidente ou distração. Não é uma causa mortis incomum, inclusive vem crescendo. O mito de Narciso segue mesmo bastante atual.

O que chama atenção para um outro ponto que considero interessante: o que aparece nos filtros virtuais é um fragmento da realidade, um pedaço, muitas vezes editado com o objetivo de contar ao outro sobre o quanto sou feliz. É comum, por exemplo, as postagens serem recados endereçados a alguém com uma finalidade provocativa. Uma bela foto de um momento pode não revelar o que de fato se passava no instante, pois há um aspecto da cena que é impossível de ser captado em sua totalidade: as emoções.

A psicanalista Marielle Kellerman Barbosa (2012, p. 101) escreve:

Podemos considerar a virtualização das relações, da comunicação, sob essa perspectiva freudiana da busca da felicidade na medida em que recriamos para nós uma realidade mais agradável e digerível. A tecnologia nos permite fazer um photoshop das relações, dos momentos, da imagem com que nos apresentamos ao mundo

As fotos poderiam ser recortes daquilo que gostaríamos de ser, representando um ideal de ego, isto é, como gostaríamos de ser vistos e como acreditamos que um dia fomos tratados em nossa tenra infância.

No artigo do jornal Folha de São Paulo, “Felicidade nas telas”, de 2010, Calligaris discute essa necessidade de expor a felicidade nas redes sociais como sendo um desejo de ter a vida invejada pelo outro:

Além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.

Recentemente li um post com fotos de pessoas tiradas na semana ou até no dia em que se suicidaram como um alerta. Era uma campanha chamada “Depressão não tem cara”, na qual fotografias de cenas felizes, repletas de pessoas sorrindo e aparentemente leves, escondiam a morte que as espreitava. Vendo as fotos imagina-se algo bem diferente do que se passava internamente com as personagens ilustravam as fotos.

Em outro artigo, “A inveja dos outros”, de 2013, Calligaris acrescenta um ponto bastante interessante:

Num mundo em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas, pois comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é ser feliz, mas parecer invejavelmente feliz.

Nesse mundo o ter é mais importante do que o ser apenas por que à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios da vida interior e pedir que nos invejem por isso.

Recordação

Esquecer-se de fotografar uma experiência deveria ser sinal de estar vivendo-a com plenitude, de maneira inteira e, no entanto, há uma lástima: “Puxa, nem sequer tiramos fotos!”. Mas, por que a lástima?

Ao registrar momentos em nossos iPhones, nossos “eus” de bolso, criamos também uma ilusão de poder a qualquer momento revisitar aquela memória. Um pedaço de nossa história poderia ficar salvo, eternamente, da passagem do tempo, aprisionado numa nuvem virtual como lembranças que nunca se apagam. A prova de que um dia eu existi. Daqui a alguns anos o Facebook será um enorme catálogo de pessoas que já não existem mais. Para quem poderemos escrever no mural, revisitar as fotos, pensar nos posicionamentos políticos, se eram ou não coerentes, e até mesmo postar flores nas páginas daqueles que se foram ao invés de visitar seus túmulos no dia de Finados. Um pedaço da nossa vida que pode ficar inesquecível.

Na cultura mexicana uma pessoa não deixa de existir quando morre, mas sim quando ninguém mais fala dela. Por isso o dia dos mortos é tão importante. Para que a memória do falecido nunca se perca na história de uma família, todos aqueles que partiram são rememorados nesse dia.

Na plataforma virtual a morte também não é sinônimo de esquecimento. Hoje nas redes sociais não é incomum homenagear, no dia das Mães ou dos Pais, os que já faleceram numa tentativa de, em algum lugar, reativar aquela lembrança e, principalmente, buscar alguma solidariedade, seja na forma de comentário ou de curtida. Nesse sentido a rede social se tornaria um espaço de acolhimento pela identificação. Busco alguém que saiba o que estou sentindo, comunico ao mundo minha dor: uma espécie de catarse eletrônica.

Todavia, há certas pessoas que, se não morrem na nossa história, assombram todo nosso trajeto e nos aprisionam. Servem apenas para assombrar nosso disco rígido mental, sobrecarregando-o. É o caso dos ex-amores, por exemplo, que nas redes sociais só deixam de existir quando bloqueados ou deletados e para isso é necessária muita força de vontade no dedo indicador. Visitas virtuais às páginas da pessoa que um dia amamos não são raras, pelo contrário. Trazem mal-estar, alimentando, assim, a melancolia[2] e impedindo-nos de completar o trabalho do luto[3]. Uma memória permanece semiviva rondando as timelines da nossa mente. Se antigamente, quando terminávamos uma relação, temíamos encontrar nosso antigo amor na fila do cinema, hoje nos deparamos com vídeos diversos daquele alguém vivendo uma outra história e somos, muitas vezes, espectadores de cenas virtuais desnecessárias e que afetam nossa vida real: como um beijo apaixonado daquele pedaço da sua história que hoje tem vida própria.

Sou mais um na multidão

Hoje, as crianças brincam com tablets, disputam com seus pais os celulares, dividem seu tempo com a onipresença dos aparelhos eletrônicos. Estamos todos unidos pelo mesmo fio, invisível e poderoso: o fio da ilusão. De acordo com o Comitê Invisível, em Motim e destruição agora (2017, p. 57):

A Condição do reino dos Gafa (Google, Apple, Facebook, Amazon) é que os seres, os lugares, os fragmentos do mundo permaneçam sem contato real. Onde os Gafa pretendem ‘vincular o mundo inteiro’ é, ao contrário, trabalhar para o isolamento real de cada um. É imobilizar os corpos. É manter cada um recluso em sua bolha significante. O golpe da força cibernético consiste em gerar, em cada um, a sensação de ter acesso ao mundo inteiro, quando se está na realidade, cada vez mais, separado de ter cada vez mais ‘amigos’, quando se é cada vez mais autista”.

O sujeito contemporâneo mantém a ilusão de estar sempre conectado, e essa ilusão contribui para sua solidão. Se hoje Freud pudesse acrescentar algo a sua frase “É preciso amar para não adoecer”, acrescentaria: “é preciso desconectar para não adoecer”.

Não há antídoto contra o desamparo, condição inerente ao ser humano. Não há escudo que nos proteja dos riscos da existência e das dores da vida.

Referências bibliográficas

BARBOSA, M. K.. Viver conectado, subjetividade no mundo contemporâneo. Ide, v. 35, 2012, p.89 – 101.

CALLIGARIS, C: Felicidade nas telas. Folha de São Paulo, 2010.

______. A inveja dos outros. Folha de São Paulo, 2013.

COMITÊ INVISÍVEL. Cinquenta tons de rupturas. In : ______. Motim e destruição agora. São Paulo: N1 Edições, 2017, p.57.

FREUD, S. Luto e melancolia. Tradução de Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

______. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: ______. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. V. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 83-119.

 

[1] Freud (1914) atribuiu ao narcisismo a atitude de uma pessoa que trata seu próprio corpo como objeto sexual.

[2] Termo usado por Freud em Luto e melancolia que descreve o estado da mente diante da perda de um objeto de amor – que não necessariamente morreu, mas que se perdeu como objeto de amor – em que há a suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda a atividade e o rebaixamento do sentimento de autoestima.  “A sombra do objeto recai sobre o próprio ego. O luto profundo em reação à morte de uma pessoa amada contém o mesmo estado de ânimo doloroso, o mesmo desinvestimento no mundo externo, a perda da capacidade de encontrar um novo objeto de amor – em substituição ao pranteado -, porém não há o rebaixamento de autoestima”.

[3]  Freud coloca nesse mesmo texto que o trabalho do luto consiste em um hiper-investimento nas lembranças que se referem ao objeto perdido afim de desligar a energia que vinculava o ego ao objeto de amor. “Mas de fato, uma vez concluído o trabalho do luto o ego fica novamente livre e desinibido” (1914/2011, p. 50).

 

Helena Cunha Di Ciero Mourão é psicóloga formada pela PUC -SP, especialista em psicoterapia psicanalítica pela Universidade de São Paulo e colaboradora da Revista Amarello  É membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. E-mail: hcdiciero@gmail.com

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