O analista desconcertado e a sexualidade

*Sandra Lorenzon Schaffa

O tema do analista desconcertado e a sexualidade faz lembrar o canto do poeta que exaltou o amor como desconcerto do mundo. Eu cantarei de amor tão docemente, por uns termos em si tão concertados que dois mil acidentes namorados faça sentir ao peito que não sente.  

No soneto de Camões, o eu lírico exalta a visão  do objeto do amor apontando ao mesmo tempo para seu gesto inefável : Para cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa aqui falta saber, engenho e arte.  No amor platônico e no cortês, o gesto – corpo – é intraduzível.

Também aos protagonistas da cena originária da psicanálise teria faltado saber, engenho e arte.  Entre um homem e uma mulher –  Joseph Breuer e Bertha Pappenhein,  que ficou conhecida como Anna O a partir dos Estudos sobre Histeria –  aconteceu o inaugural  desconcerto. No caminho de levar a paciente a recordar experiências traumatizantes sofridas na infância, o médico austríaco deparou-se com o principal obstáculo do método que ela batizou de talking cure.

Diante do movimento erótico, Breuer retrocede,  Freud segue adiante com seu desejo de investigar a natureza do envolvimento entre os protagonistas da aventura psicanalítica.

“O psicanalista sabe que trabalha com as forças mais explosivas e que são necessárias cautela e meticulosidade, assim como no caso dos químicos. Mas quando é que a um químico foi interditado se ocupar com materiais explosivos, indispensáveis, por sua periculosidade, apesar de seu efeito?” (Freud, 1914)

Escrito sob o impacto da eclosão da guerra, “Observações sobre o amor transferencial” cria o neologismo  Übertragungsliebe que associa  transferência  (Übertragung) – fenômeno de deslocamento do afeto e da passagem de uma representação a outra –  e amor (Liebe).

Freud dá estatuto de resistência a essa moção amorosa, no entanto, acentua a necessidade de não afugentá-la. Mas, como responder a essa injunção técnica paradoxal de acolhimento da demanda amorosa sem satisfazê-la?

“Acatar as demandas de amor por parte da paciente é tão fatal para análise quanto a repressão [Unterdrückung] delas. O caminho do analista é outro para o qual a vida real não oferece modelo. Evitamos desviar da transferência amorosa, afugentá-la ou estragá-la na paciente; também nos abstemos ferrenhamente de toda correspondência desse amor. Mantemos a transferência amorosa, a tratamos como algo irreal, como uma situação que deva ser enfrentada no tratamento e reconduzida às suas origens inconscientes (…)” (Freud, 1914)[1]

Freud  admitiu assim o  desconcerto na raiz do  método da nova disciplina.  O caráter escandaloso do procedimento não está,  entretanto, em  aceitar o inevitável  transtorno experimentado pelo analista (contratransferência), mas em  admitir a desordem temporal entre as cenas (transferência) que o diálogo comporta. Em reconhecer nessa exigência crucial da análise seu método de investigação.

Em termos freudianos, a irrealidade do amor de transferência reside em sua condição inatual. Esse amor,  escreve Freud :

“Não traz um único traço novo, oriundo da situação presente, mas é composto integralmente de repetições e retomadas de reações antigas até mesmo infantis.” (Freud, 1914)[2]

O caminho do analista é outro para o qual a vida real não oferece modelo.

Desde o tempo de Freud, a tendência a abandonar essa concepção  reitera-se.   O caráter  desconcertante da descoberta  afirma-se desde a época de Freud. Ernest Jones escreve no editorial do primeiro  International Journal of Psychoanalysis, em 1920,  que  a mais insidiosa forma de resistência à Psicanálise advém de uma parte de  seus  sectários que,  « fingindo desenvolver uma atitude mais positiva em relação à Psicanálise,   faz uso de seus termos técnicos, libido, “repressão”, etc., mas de tal maneira a tirar-lhes o seu significado intrínseco.” 

Nossos tempos assaltados pela urgência e pela pressa demandam uma psicanálise cada vez mais terna, mais rápida. A tendência voltada para uma psicanálise mais leve, próxima da clínica, derivada do abandono do solo da sexualidade infantil e da teoria das pulsões,  difunde-se hoje.  Uma clínica do atual, dos afetos e da reciprocidade, que subestima o caráter explosivo da demanda erótica infantil (inatual).

O termo pulsão é introduzido por Freud em 1905 nos Três ensaios sobre a teoria sexual[3]. Freud reconheceu um caráter do sexual irreprimível que se separa dos fins do instinto. O caráter distintivo da sexualidade humana opõe-se à vida sexual de outros animais, não é regulada como um instinto. Uma crise de bulimia é um exemplo de uma insaciabilidade que busca  preencher um vazio do corpo numa dimensão que não é a da fisiologia. A  teoria sexual, como Freud a apresentou supõe uma não-separação do saber inconsciente do sintoma e da teorização infantil na gênese do psiquismo.

Analista desconcertado seria aquele que sabe que não há tradução possível do gesto sexual senão pelo sonho que trabalha a partir da inatualidade da memória do sexual.  Pois a sexualidade infantil não corresponde à memória intencional da infância: o sexual infantil não tem idade, sua natureza pulsional  ignora o tempo, resiste ao primado da genitalidade. Seu material é explosivo e exige cautela e meticulosidade do analista que dele não pode prescindir para colocar-se o mais próximo do impronunciável do infante.

Saber, engenho e arte é preciso.  Saber da sexualidade, construindo-se na renúncia a compreender para que o  ideal arcaico de que sofre o amor tome corpo.  Engenho e arte, engendrando-se  no rompimento de ligações representacionais, no desarranjo dos  concertos que  se fazem e desfazem por efeito da violência do pulsional, sob o regime das transferências.

 

Referências bibliográficas:

[1] Obras Incompletas de Sigmund Freud, OISF, p.173-4

[2] OISF, p.175

[3] Da pulsão ao desejo, a mitologia pulsional constitui o próprio fundamento da metapsicologia freudiana. Freud a ela se refere inicialmente no  “Projeto de uma psicologia” (Freud, 1895)  até  “Análise sem fim, a análise finita” (Freud, 1937).

 

Imagem:

Kneeling Girl, Resting on Both Elbows, de Egon Schiele.

Sandra Lorenzon Schaffa é psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SPPSP). Foi editora do Jornal de Psicanálise. Publica em diversas revistas de Psicanálise de São Paulo.

 

 

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