Fantasia inconsciente: o desconcerto inaugural

*Izelinda Barros

Em uma conferência, apresentada em 1917, Freud afirma que “…a humanidade teve que tolerar, “por parte da ciência” dois grandes insultos ao “seu ingênuo amor–próprio”: aceitar que a Terra não é o centro do universo e conviver com teoria da evolução das espécies que “aniquilou a suposta prerrogativa humana na criação” [1]

A seguir, ele pondera que a psicanálise é o terceiro e mais grave insulto à “mania de grandeza humana” pois ela, em detrimento da racionalidade… “busca provar ao “Eu” que ele não é nem mesmo senhor de sua própria casa, mas tem de satisfazer-se com parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[2]

Vinte anos antes, ele mesmo tinha sido vítima desse argumento e abandonou, com grande dasapontamento, uma brilhante teoria que construíra a respeito da etiologia das diferentes formas de histeria e mesmo das neuroses obsessivas.

Voltemos ao episódio desse desconcerto inaugural da história da psicanálise:

Em torno de 1896, Freud estava entusiasmado com os resultados obtidos na terapia analítica que substituía, com vantagens, a técnica da hipnose para tratar os sintomas incapacitantes da histeria que interferiam na vida diária de muitas mulheres jovens.

Independente da idade, classe social ou grau de cultura se repetiam nas narrativas de suas pacientes, lembranças ligadas a abusos sexuais sofridos infância e perpetrados  por adultos do círculo íntimo dessas meninas.

Havia uma relação constante entre o relato de tais acontecimentos nas sessões de análise e o subsequente desaparecimento dos sintomas, indicando uma relação etiológica entre eles.

Confiante na racionalidade (e também movido pela “mania de grandeza humana”), Freud escreveu um artigo em que sustentava essa hipótese, ilustrando-a como o relato de treze casos

Entretanto, uma série de evidências contrárias a essa possibilidade- do abuso efetivo envolvendo pessoas da família – fez com que lentamente Freud pusesse em dúvida e finalmente renunciasse à sua “ teoria da sedução”.  Foi o primeiro desconcerto e “quase fatal para a jovem ciência”[3]

Mas o desânimo durou pouco.  “A reação de Freud ao abandono da teoria da sedução foi a de levar as mensagens, tanto as suas como de seus pacientes, mais a sério do que antes, mas de maneira muito menos literal. Passou a lê-las como mensagens vindas de uma realidade psíquica, muito mais poderosa do que a realidade objetiva cifradas- distorcidas, censuradas , significativamente disfarçadas”[4], pois é  assim que o homem recebe  as “parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[5]  e chamou essas manifestações da realidade psíquica de fantasias inconscientes.

Com essa nova hipótese, formulou seu entendimento sobre a origem dos sintomas da histeria da seguinte maneira: fantasias românticas, criticadas como sinal de ociosidade, prejudicando as atividades de trabalho e estudo, eram repudiadas e afastadas do espírito.

Mas, uma vez que negadas e reprimidas, essas fantasias eram adicionadas aos processos primários do inconsciente e, como tal, tornavam-se conteúdos de desejo em potencial. Como todo desejo busca sua efetivação, as fantasias, agora inconscientes, se apresentavam “significativamente disfarçadas” sob a forma de sintomas.

A análise de crianças pequenas, em particular, ampliou a potencialidade do conceito de fantasia inconsciente ao evidenciar que o brincar e o comportamento da criança na sala de análise podem ser lidas como expressões não verbais de fantasias inconscientes.

Assim, desde os seus primórdios, o conceito de fantasia inconsciente é um dos pilares da teoria psicanalítica e instrumento indispensável para o psicanalista clínico como uma das vias de acesso privilegiado para o acesso ao conteúdo latente das comunicações verbais e não verbais inconscientes.

Pois bem: no presente, notamos um esgarçamento da vida de fantasia em boa parcela das patologias que afligem as pessoas que buscam nossa ajuda, o que, com relação ao uso clínico das fantasias inconscientes não deixa de ser um novo desconcerto a ser respeitado, valorizado e enfrentado.

Voltamos, então, ao ponto de partida de cem anos atrás?  Certamente que não.

Pelo contrário, eu diria que o desconcerto atual sugere que estamos nos aproximando de algo ainda mais complexo e desconhecido, algo que ainda não podemos intuir e que   nos desafia na sala de análise e convoca nossa curiosidade.

Essa breve resenha do conceito de fantasia inconsciente particulariza o modelo evolutivo da teoria e da técnica em Psicanálise, o qual em uma espiral ascendente de desconcertos e ampliações subsequentes sustenta sua continua vitalidade.

Referências Bibliográficas:

[1] Freud, S (1917) Conferências introdutórias à Psicanálise. Teoria geral da neuroses. P. 380-1 Companhia das letras, 2017

[2] idem

[3] Gay, P. (1998) Freud Uma vida para nosso tempo. p,102. Companhia da Letras

[4]Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

[5] Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

 

Izelinda Garcia de Barros, nascida na cidade de São Paulo, Brasil, é psiquiatra, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro efetivo da Associação Psicanalítica Internacional. Sua prática clínica, em consultório particular e as atividades didáticas como coordenadora de seminários na mesma instituição, somam-se à escrita de trabalhos científicos sobre análise de crianças, em particular sobre a clínica dos transtornos do espectro autista e, na mesma faixa de interesse, à investigação sobre os estados limítrofes que se apresentam com variadas configurações sintomáticas no atendimento de pacientes adultos.

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