O mesmo, o outro – psicanálise em movimento

*Bernardo Tanis

A psicanálise desmitifica a ideia de que somos sujeitos indivisos e unificados, com uma identidade coerente e sintônica com o nosso grupo. A ideia de inconsciente, assim como a complexidade e riqueza dos processos de  identificação, coloca em evidência que regiões de nossa mente contradizem nossa consciência, somos movidos por desejos dos quais não queremos tomar conhecimento e evitamos ter notícias, vivemos conflitos entre amor e ódio e sentimentos ambivalentes, evitamos entrar em contato com a dor psíquica, no entanto, pagamos um alto preço por lançar mão de mecanismos defensivos que empobrecem as nossas vida e criatividade.

A tensão entre “eu e o outro” é constitutiva do humano. Vale a pena assinalar várias dimensões do outro e o lugar que este ocupa nas nossas vidas como descrita pela conhecida passagem em Psicologia das Massas e Análise do Ego, em que afirma Freud: “na vida psíquica individual, está sempre integrado o outro, efetivamente, como modelo, objeto, auxiliar ou adversário e, sempre a Psicologia Individual é, ao mesmo tempo e desde o princípio, Psicologia Social.” Como pensar a ética do analista se não sairmos da esfera do eu, do mesmo, para nos lançarmos ao encontro do outro nas relações interpessoais e no vasto campo da cultura? Que novos desafios nos convocam se nos deixamos atingir pela diferença e a alteridade?

A quebra da ilusão que se inicia já com o próprio objeto materno e ganha poder estruturante na tramitação do complexo de Édipo, na renúncia ao incesto e na elaboração da angústia de castração, representa abertura para o desejo, para a vida. Assim, graças a esse lugar paradoxal do outro, como objeto da paixão, mas ao mesmo tempo que interroga constantemente nosso narcisismo, e nossas ilusões nos humanizamos.

Xenos, em grego, alude ao hóspede, ao visitante, ao estrangeiro e ao estranho. Daí xenofobia, que carrega um conjunto de significados que passam pelo horror, pelo desprezo, ao sentimento de ameaça pelo estrangeiro, pelo diferente.

Freud, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, já assinalava o fenômeno expresso na ideia de “narcisismo das pequenas diferenças”, que alude à forma como os integrantes de uma comunidade podem se unir, mascarando ou disfarçando inconscientemente seus conflitos e projetando no outro, no vizinho, no estrangeiro, no imigrante, a sua agressividade. “Amamos nossos irmãos” e repudiamos os outros a quem tratamos com intolerância. “A diferença encontra os mais variados discursos para ser transformada em ameaça”. A atualidade desse fenômeno é assustadora no nosso País e no mundo.

Homi Bahbah, destacado professor de teoria literária de Harvard e um dos grandes estudiosos das sociedades pós-coloniais, assinala a ancoragem ideológica do poder colonial em uma lógica binária, dividido os indivíduos  entre uma dimensão presa à ideia de identidade (eu/nós), segundo a qual me reconheço nesta imagem de mim e do meu grupo/nação (o colonizador), tanto no campo individual como cultural, em contraposição a algo que alude à exterioridade, a ele/ao outro (o colonizado) ou ao estrangeiro. Esta lógica binária foi extrapolada para o campo social, político ou da sexualidade, e não admite a multiplicidade nem reversão de perspectivas.

A psicanálise nos conduz a um questionamento dessa postura colonial na qual o outro é objeto de desprezo e desqualificação na medida em que nos sugere que devemos conhecer o estrangeiro em nós. Reconhecer o estrangeiro que nos habita, a outra face de nossa identidade, produz uma fenda na ideia de identidade, que faz com que nos consideremos um e outro ao mesmo tempo. A ideia de completude ideal e de superioridade é colocada em questão e desconstruída.

Talvez isso nos ajude a acolher o outro como radicalmente diferente, como alguém ou algo que na sua natureza nos é estranho, incompreensível, indizível.

Isso, no contexto em que eu também me constituo neste outro para meu semelhante, como sustentado também pela perspectiva ética proposta pelo filósofo Levinas.

Acredito que o tema do I Simpósio Bienal da SBPSP será um fórum privilegiado para abordar esses assuntos que demandam uma urgente reflexão por parte da sociedade em geral e os analista em particular, em um mundo no qual posturas autoritárias e excludentes ressurgem com assustadora intensidade.

*Bernardo Tanis é psicanalista, membro efetivo da SBPSP e doutor em Psicologia Clínica.

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