Mês: agosto 2018

Brincar para se tratar

*Marion Minerbo

Olá, Ana Lisa, sobre o que gostaria de conversar hoje?

Olá, Marion, veja só que loucura! Estava na casa de uns amigos que têm um filhinho de um ano. Lá pelas tantas, quando ele ficou com sono, se deitou de bruços sobre uma mesa de centro revestida de azulejos e ficou se contorcendo de barriga para baixo, como uma minhoca, até adormecer. Os pais disseram que faz uns meses que ele criou este ritual e não dorme sem ele. Achei estranho, pois em geral as crianças escolhem lugares macios e quentinhos para adormecer. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Ele criou um ritual, mas também podemos dizer que criou uma brincadeira. Me lembrei daquela famosa que foi inventada pelo neto de Freud. A brincadeira era a seguinte: ele atirava um carretel para debaixo da cama exclamando “miu”! E depois puxava a linha e o recolhia exclamando “tou”! Freud entendeu que ele estava brincando de sumiu-voltou.

É verdade. Ele fazia isso quando a mãe saía de casa. Começou atirando o carretel, talvez para se livrar do pavor de ficar sozinho, mas depois acabou virando uma brincadeira.

É simplesmente genial. Em vez de sofrer passivamente o sumiço inesperado da mãe, produz seu desaparecimento ativamente. A graça da brincadeira é que, ao atirar o carretel, ele já sabe que este vai voltar. O pavor vai cedendo lugar ao prazer. A repetição acaba “domesticando” o trauma. A criança brinca para se tratar.

Entendo. Ela vai se dando conta de que há uma diferença entre o horror do abandono definitivo e uma simples ausência.

O repertório conceitual e emocional se amplia. Quando estão psiquicamente saudáveis, as crianças inventam continuamente novas brincadeiras para se tratar daquilo que as assombra. O filho dos seus amigos brinca de minhocar numa mesa gelada até dormir. De que “trauma” será que ele está se tratando?

Tenho um palpite. Mas antes, eu queria perguntar o seguinte: como alguém cria uma brincadeira para poder se tratar?

Excelente questão. Obviamente, para o neto do Freud, o carretel representa a mãe. Isto quer dizer que ele transferiualguma característica da mãe para o carretel. E ele escolheu o carretel para fazer esta transferência porque, para ele, ambos têm algo em comum.

Como assim? O que o carretel e a mãe têm em comum?

A mãe some e volta. O carretel também. Graças a esse traço em comum, a criança pode transferir o sumiço/retorno da mãe para o carretel. O carretel se torna um objeto investido transferencialmente como um equivalente da mãe. Nesse contexto afetivo, o carretel interpreta para a criança o que ela está vivendo.

Ah, agora é demais. Um carretel interpreta?

Claro! É por isso que brincar é terapêutico. Ao ser atirado para baixo da cama, o carretel “conta” para o menino que ele está às voltas com o problema do sumiço da mãe. Dessa forma, ele tem a oportunidade de perceber do lado de “fora”, de forma concreta, aquilo que o inquieta e assombra “dentro”. Num primeiro momento, antes dessa concretização, é uma inquietação vaga, sem cara, sem forma, e por isso mesmo, aterrorizante.

Hum. Então, ao ser resgatado, ao reaparecer, o carretel “conta” para o garotinho que, assim como ele voltou, a mãe vai voltar?

Isso. E agora vem o mais importante: é a criatividade psíquica da criança que lhe permite equiparar o carretel à mãe por meio do traço em comum. A criança faz uma associação livre, que é sinal de saúde mental.

Quer dizer que as características reais do carretel são importantes para que ele possa transferir o que precisa ser elaborado?

São. Um ursinho de pelúcia “aceita a transferência” dos aspectos acolhedores da mãe porque é macio e quentinhoJá o lobo mau “aceita a transferência” dos aspectos aterrorizantes da mãe.

Você está usando o conceito de transferência de um jeito diferente daquele que eu aprendi, que é a relação com o analista.

Sim, a transferência para o analista é um caso particular disto que estou descrevendo. Ele se dispõe a aceitar todos os tipos de transferência para que o paciente consiga reconhecer “fora” o que o assombra “dentro”. Mas voltando à situação que você descreveu: o bebê que precisa minhocar sobre a mesa gelada para adormecer.

Eu te disse que tinha um palpite sobre qual poderia ser o “trauma” do qual ele estava se tratando. Ele nasceu com um pequeno cisto na coluna. Com horas de vida fez uma ressonância magnética. E depois outras, até que os médicos decidiram operar. Depois da cirurgia fez novos exames para acompanhar a evolução.

Sempre com a barriga para baixo! Claro, seu palpite tem tudo a ver! Os bebês saem do útero esperando encontrar alguma continuidade do ambiente que conhecem. Mas este encontrou algo duro, liso e frio. Essa experiência sofrida e impossível de ser digerida certamente ficou gravada em sua memória corporal.

Pelo que entendi da sua explicação sobre o jogo do carretel, essas sensações desconhecidas foram traumáticas. Quando ele se deita sobre a mesa de azulejos gelados ele está sendo ativo lá onde antes foi passivo. Está recriando essa situação horrível para conseguir reconhecer “fora” o que ficou inscrito “dentro”, e assim ir se apropriando do que viveu.

“Ir se apropriando” é a expressão exata. A mesa de azulejos “atrai” o traumático porque tem traços em comum com a de ressonância magnética. O frio, duro e liso do passado é transferido para o presente. E por isso mesmo se presta a ajudar a elaborar o que ficou encruado no inconsciente. A mesa de azulejos “interpreta” para ele seu sofrimento inconsciente.

Posso até imaginar o diálogo entre o bebê e a mesa.

Ele: “Esta superfície gelada me dá medo e não sei bem por que. Sinto que é algo de estranhamente familiar.

Ela: Sim, você já viveu isto antes. Na época foi muito sofrido e você não tinha como entender que diabo era aquilo.

Ele: Reconheço vagamente esta sensação. Mas não tenho palavras para descrevê-la.

Ela: Então preste atenção em mim que eu vou te contar: eu sou dura, lisa e fria. Acho que são estas as palavras que você está procurando.

Ele: Ah, então é isso que me assombra desde sempre!

Adorei! Um diálogo dentro do nosso diálogo!

Fiquei com uma dúvida. Você disse que nem todas as crianças conseguem usar este recurso para se tratar.

Exatamente. Um ambiente emocional turbulento prejudica a instalação do chip da capacidade de brincar. E isso desde as primeiras horas de vida.

O quê tornaria esse ambiente emocional difícil para o bebê?

Em duas palavras: o inconsciente dos pais sempre dá trabalho para os filhos. Normal. Mas quando ele transborda demais e há uma “inundação”, a criança tem que gastar muita energia para dar algum destino a esse “material radioativo”. E aí sobra pouca energia para brincar. Podemos até falar mais sobre isso numa próxima conversa.

Com certeza! Muito louco tudo isso!

 

Texto originalmente publicado no blog Loucuras Cotidianas.

 

Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

O ANALISTA DESCONCERTADO

*Silvana Rea

Em 1883, o jovem Freud escreve à sua então noiva, Martha Bernays: “Um fracasso em uma investigação estimula a criatividade. Cria um livre fluxo de associações, faz surgir uma ideia atrás de outra, ao passo que uma vez assumido o êxito, aparece com ele um estreitamento e torpor mental que obriga a retroceder ao estabelecido e impede uma nova combinação” (Caparrós, 1997, p. 309).

Poucos anos à frente, ele se desconcerta com as ideias de Charcot, em Salpêtrière. E no prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, ele afirma que só pôde se dedicar a esta tarefa “após superar minha perplexidade inicial diante das novas descobertas de Charcot, e depois que aprendi a avaliar a sua grande importância…” (Freud, 1886/1969, p.53).

Podemos perceber que Freud considerou o desconcerto como algo útil por toda a sua vida. De fato, foi a sua capacidade de se surpreender com aquilo que escapa ao estabelecido, como os lapsos de memória, a troca de palavras, os sonhos, que permitiu que ele construísse a psicanálise. Dando atenção ao equívoco e ao inusitado, que neles encontrou o indício de que existe, no homem, uma comunicação que se subordina a outra ordem – o inconsciente conquista o estatuto de alteridade, com leis e lógica próprias.

Por sua vez, a psicanálise desconcertou a comunidade cientifica da época, ao abalar as convicções do século das luzes e sua defesa da racionalidade humana. Com ela, o homem racional e unitário deu lugar ao homem fendido do inconsciente. Algo que, para certa surpresa, ainda hoje desconcerta setores do conhecimento científico.

A Psicanálise supõe o desconcerto. O método psicanalítico leva a que o paciente se desconcerte de suas percepções cristalizadas, para que surja o novo. Mas não isenta o analista, porque o exercício clínico o convida a confrontar a alteridade do inconsciente nele mesmo e na relação com o paciente, que chega com suas questões e com sua proposta transferencial. E, como o encontro com o outro é sempre traumático, em algum momento algo desconcertante quebra as suas certezas, destrói a sensação de êxito e, por consequência, estimula a sua criatividade.

São muitas as situações que podem deixar o analista desconcertado. Um engano, uma provocação, uma quebra de setting. Pode ser um sobressalto que excede a sua possibilidade de representação. Ou o impacto da surpresa, do estranho que surge no familiar das sessões com determinado paciente. Algo que o leva a um acting-out. Ou o analista age guiado por um pensamento não pensado que só pode ser organizado a posteriori, muitas vezes depois da conversa com um colega, ou, talvez, de uma supervisão.

Do mesmo modo, o analista pode se desconcertar quando recebe seu jornal diário e o abre à leitura. Certos fenômenos nacionais e mundiais provocam a experiência de espanto, uma surpresa por muitas vezes desconfortável. Como compreender este choque em si? Como, pela psicanálise, compreender o mundo?

Qualquer analista já viveu algumas destas situações. São aquelas que não se aquietam; voltam à lembrança recorrentemente pois o espanto que elas causam produz uma memória que permanece incômoda (um fracasso?), exigindo alguma elaboração. Que nos exigem a ir além do estabelecido, criando novas combinações, como nas palavras de Freud. São oportunidades para a reflexão e a teorização psicanalítica.

O desconcerto é fundamental. De fato, na visão aristotélica, a origem e a evolução do pensamento dá-se a partir do espanto, momento no qual aquilo que era evidente torna-se inédito e incompreensível. O sentido da perplexidade leva a suspensão de certezas, incita o querer conhecer, exige uma reorganização do saber. Aqui o analista é aparentado do filósofo. Pois, como diz Kristeva (2000), é fundamental a qualquer psicanalista em seu exercício, a experiência de uma surpresa desconhecida e a posterior compreensão desse choque.  Eu completaria, fundamental para o analista em seu exercício e na vida.

Referências

Caparrós, N. (1997). Correspondencia de Sigmund Freud. Tomo I. Espanha. Biblioteca Nueva.

Freud, S. (1886/1969). “Prefácio à tradução das conferências sobre as doenças do sistema nervoso, de Charcot”. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol.II. Rio de Janeiro. Imago.

Kristeva, J. (2000). Sentido e contrassenso da revolta. Rio de Janeiro. Rocco.

Silvana Rea é Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pela Universidade de São Paulo.

 

Imagem: Olaf Hajek

O analista desconcertado e a sexualidade

*Sandra Lorenzon Schaffa

O tema do analista desconcertado e a sexualidade faz lembrar o canto do poeta que exaltou o amor como desconcerto do mundo. Eu cantarei de amor tão docemente, por uns termos em si tão concertados que dois mil acidentes namorados faça sentir ao peito que não sente.  

No soneto de Camões, o eu lírico exalta a visão  do objeto do amor apontando ao mesmo tempo para seu gesto inefável : Para cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa aqui falta saber, engenho e arte.  No amor platônico e no cortês, o gesto – corpo – é intraduzível.

Também aos protagonistas da cena originária da psicanálise teria faltado saber, engenho e arte.  Entre um homem e uma mulher –  Joseph Breuer e Bertha Pappenhein,  que ficou conhecida como Anna O a partir dos Estudos sobre Histeria –  aconteceu o inaugural  desconcerto. No caminho de levar a paciente a recordar experiências traumatizantes sofridas na infância, o médico austríaco deparou-se com o principal obstáculo do método que ela batizou de talking cure.

Diante do movimento erótico, Breuer retrocede,  Freud segue adiante com seu desejo de investigar a natureza do envolvimento entre os protagonistas da aventura psicanalítica.

“O psicanalista sabe que trabalha com as forças mais explosivas e que são necessárias cautela e meticulosidade, assim como no caso dos químicos. Mas quando é que a um químico foi interditado se ocupar com materiais explosivos, indispensáveis, por sua periculosidade, apesar de seu efeito?” (Freud, 1914)

Escrito sob o impacto da eclosão da guerra, “Observações sobre o amor transferencial” cria o neologismo  Übertragungsliebe que associa  transferência  (Übertragung) – fenômeno de deslocamento do afeto e da passagem de uma representação a outra –  e amor (Liebe).

Freud dá estatuto de resistência a essa moção amorosa, no entanto, acentua a necessidade de não afugentá-la. Mas, como responder a essa injunção técnica paradoxal de acolhimento da demanda amorosa sem satisfazê-la?

“Acatar as demandas de amor por parte da paciente é tão fatal para análise quanto a repressão [Unterdrückung] delas. O caminho do analista é outro para o qual a vida real não oferece modelo. Evitamos desviar da transferência amorosa, afugentá-la ou estragá-la na paciente; também nos abstemos ferrenhamente de toda correspondência desse amor. Mantemos a transferência amorosa, a tratamos como algo irreal, como uma situação que deva ser enfrentada no tratamento e reconduzida às suas origens inconscientes (…)” (Freud, 1914)[1]

Freud  admitiu assim o  desconcerto na raiz do  método da nova disciplina.  O caráter escandaloso do procedimento não está,  entretanto, em  aceitar o inevitável  transtorno experimentado pelo analista (contratransferência), mas em  admitir a desordem temporal entre as cenas (transferência) que o diálogo comporta. Em reconhecer nessa exigência crucial da análise seu método de investigação.

Em termos freudianos, a irrealidade do amor de transferência reside em sua condição inatual. Esse amor,  escreve Freud :

“Não traz um único traço novo, oriundo da situação presente, mas é composto integralmente de repetições e retomadas de reações antigas até mesmo infantis.” (Freud, 1914)[2]

O caminho do analista é outro para o qual a vida real não oferece modelo.

Desde o tempo de Freud, a tendência a abandonar essa concepção  reitera-se.   O caráter  desconcertante da descoberta  afirma-se desde a época de Freud. Ernest Jones escreve no editorial do primeiro  International Journal of Psychoanalysis, em 1920,  que  a mais insidiosa forma de resistência à Psicanálise advém de uma parte de  seus  sectários que,  « fingindo desenvolver uma atitude mais positiva em relação à Psicanálise,   faz uso de seus termos técnicos, libido, “repressão”, etc., mas de tal maneira a tirar-lhes o seu significado intrínseco.” 

Nossos tempos assaltados pela urgência e pela pressa demandam uma psicanálise cada vez mais terna, mais rápida. A tendência voltada para uma psicanálise mais leve, próxima da clínica, derivada do abandono do solo da sexualidade infantil e da teoria das pulsões,  difunde-se hoje.  Uma clínica do atual, dos afetos e da reciprocidade, que subestima o caráter explosivo da demanda erótica infantil (inatual).

O termo pulsão é introduzido por Freud em 1905 nos Três ensaios sobre a teoria sexual[3]. Freud reconheceu um caráter do sexual irreprimível que se separa dos fins do instinto. O caráter distintivo da sexualidade humana opõe-se à vida sexual de outros animais, não é regulada como um instinto. Uma crise de bulimia é um exemplo de uma insaciabilidade que busca  preencher um vazio do corpo numa dimensão que não é a da fisiologia. A  teoria sexual, como Freud a apresentou supõe uma não-separação do saber inconsciente do sintoma e da teorização infantil na gênese do psiquismo.

Analista desconcertado seria aquele que sabe que não há tradução possível do gesto sexual senão pelo sonho que trabalha a partir da inatualidade da memória do sexual.  Pois a sexualidade infantil não corresponde à memória intencional da infância: o sexual infantil não tem idade, sua natureza pulsional  ignora o tempo, resiste ao primado da genitalidade. Seu material é explosivo e exige cautela e meticulosidade do analista que dele não pode prescindir para colocar-se o mais próximo do impronunciável do infante.

Saber, engenho e arte é preciso.  Saber da sexualidade, construindo-se na renúncia a compreender para que o  ideal arcaico de que sofre o amor tome corpo.  Engenho e arte, engendrando-se  no rompimento de ligações representacionais, no desarranjo dos  concertos que  se fazem e desfazem por efeito da violência do pulsional, sob o regime das transferências.

 

Referências bibliográficas:

[1] Obras Incompletas de Sigmund Freud, OISF, p.173-4

[2] OISF, p.175

[3] Da pulsão ao desejo, a mitologia pulsional constitui o próprio fundamento da metapsicologia freudiana. Freud a ela se refere inicialmente no  “Projeto de uma psicologia” (Freud, 1895)  até  “Análise sem fim, a análise finita” (Freud, 1937).

 

Imagem:

Kneeling Girl, Resting on Both Elbows, de Egon Schiele.

Sandra Lorenzon Schaffa é psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SPPSP). Foi editora do Jornal de Psicanálise. Publica em diversas revistas de Psicanálise de São Paulo.

 

 

Fantasia inconsciente: o desconcerto inaugural

*Izelinda Barros

Em uma conferência, apresentada em 1917, Freud afirma que “…a humanidade teve que tolerar, “por parte da ciência” dois grandes insultos ao “seu ingênuo amor–próprio”: aceitar que a Terra não é o centro do universo e conviver com teoria da evolução das espécies que “aniquilou a suposta prerrogativa humana na criação” [1]

A seguir, ele pondera que a psicanálise é o terceiro e mais grave insulto à “mania de grandeza humana” pois ela, em detrimento da racionalidade… “busca provar ao “Eu” que ele não é nem mesmo senhor de sua própria casa, mas tem de satisfazer-se com parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[2]

Vinte anos antes, ele mesmo tinha sido vítima desse argumento e abandonou, com grande dasapontamento, uma brilhante teoria que construíra a respeito da etiologia das diferentes formas de histeria e mesmo das neuroses obsessivas.

Voltemos ao episódio desse desconcerto inaugural da história da psicanálise:

Em torno de 1896, Freud estava entusiasmado com os resultados obtidos na terapia analítica que substituía, com vantagens, a técnica da hipnose para tratar os sintomas incapacitantes da histeria que interferiam na vida diária de muitas mulheres jovens.

Independente da idade, classe social ou grau de cultura se repetiam nas narrativas de suas pacientes, lembranças ligadas a abusos sexuais sofridos infância e perpetrados  por adultos do círculo íntimo dessas meninas.

Havia uma relação constante entre o relato de tais acontecimentos nas sessões de análise e o subsequente desaparecimento dos sintomas, indicando uma relação etiológica entre eles.

Confiante na racionalidade (e também movido pela “mania de grandeza humana”), Freud escreveu um artigo em que sustentava essa hipótese, ilustrando-a como o relato de treze casos

Entretanto, uma série de evidências contrárias a essa possibilidade- do abuso efetivo envolvendo pessoas da família – fez com que lentamente Freud pusesse em dúvida e finalmente renunciasse à sua “ teoria da sedução”.  Foi o primeiro desconcerto e “quase fatal para a jovem ciência”[3]

Mas o desânimo durou pouco.  “A reação de Freud ao abandono da teoria da sedução foi a de levar as mensagens, tanto as suas como de seus pacientes, mais a sério do que antes, mas de maneira muito menos literal. Passou a lê-las como mensagens vindas de uma realidade psíquica, muito mais poderosa do que a realidade objetiva cifradas- distorcidas, censuradas , significativamente disfarçadas”[4], pois é  assim que o homem recebe  as “parcas notícias do que se passa inconscientemente em sua psíque”[5]  e chamou essas manifestações da realidade psíquica de fantasias inconscientes.

Com essa nova hipótese, formulou seu entendimento sobre a origem dos sintomas da histeria da seguinte maneira: fantasias românticas, criticadas como sinal de ociosidade, prejudicando as atividades de trabalho e estudo, eram repudiadas e afastadas do espírito.

Mas, uma vez que negadas e reprimidas, essas fantasias eram adicionadas aos processos primários do inconsciente e, como tal, tornavam-se conteúdos de desejo em potencial. Como todo desejo busca sua efetivação, as fantasias, agora inconscientes, se apresentavam “significativamente disfarçadas” sob a forma de sintomas.

A análise de crianças pequenas, em particular, ampliou a potencialidade do conceito de fantasia inconsciente ao evidenciar que o brincar e o comportamento da criança na sala de análise podem ser lidas como expressões não verbais de fantasias inconscientes.

Assim, desde os seus primórdios, o conceito de fantasia inconsciente é um dos pilares da teoria psicanalítica e instrumento indispensável para o psicanalista clínico como uma das vias de acesso privilegiado para o acesso ao conteúdo latente das comunicações verbais e não verbais inconscientes.

Pois bem: no presente, notamos um esgarçamento da vida de fantasia em boa parcela das patologias que afligem as pessoas que buscam nossa ajuda, o que, com relação ao uso clínico das fantasias inconscientes não deixa de ser um novo desconcerto a ser respeitado, valorizado e enfrentado.

Voltamos, então, ao ponto de partida de cem anos atrás?  Certamente que não.

Pelo contrário, eu diria que o desconcerto atual sugere que estamos nos aproximando de algo ainda mais complexo e desconhecido, algo que ainda não podemos intuir e que   nos desafia na sala de análise e convoca nossa curiosidade.

Essa breve resenha do conceito de fantasia inconsciente particulariza o modelo evolutivo da teoria e da técnica em Psicanálise, o qual em uma espiral ascendente de desconcertos e ampliações subsequentes sustenta sua continua vitalidade.

Referências Bibliográficas:

[1] Freud, S (1917) Conferências introdutórias à Psicanálise. Teoria geral da neuroses. P. 380-1 Companhia das letras, 2017

[2] idem

[3] Gay, P. (1998) Freud Uma vida para nosso tempo. p,102. Companhia da Letras

[4]Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

[5] Gay, P.idem. p,103. Companhia da Letras

 

Izelinda Garcia de Barros, nascida na cidade de São Paulo, Brasil, é psiquiatra, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro efetivo da Associação Psicanalítica Internacional. Sua prática clínica, em consultório particular e as atividades didáticas como coordenadora de seminários na mesma instituição, somam-se à escrita de trabalhos científicos sobre análise de crianças, em particular sobre a clínica dos transtornos do espectro autista e, na mesma faixa de interesse, à investigação sobre os estados limítrofes que se apresentam com variadas configurações sintomáticas no atendimento de pacientes adultos.

O analista desconcertado e o pensamento

“Não vos imagine diante de alguém amedrontador,
por ele possuir uma língua que gagueja e
de onde emana uma linguagem emaranhada,
fora de vosso alcance”
(Isaias, 33:19)

Sou frequentemente indagado, e por isso frequentemente me indago, o que é o pensamento para o psicanalista. A “resposta”, que aparece recorrentemente, é que “pensar é continuar a funcionar psiquicamente durante a tempestade”.

A metáfora meteorológica nos ajuda bastante a entender as oscilações do espírito humano e, por extensão, a caracterizar a dinâmica do encontro psicanalítico: o analista, no fundo, não passa de uma estação experimental que possa acolher as tempestades e as bonanças do analisando, devolvendo-lhe uma “previsão” de como isto poderá afetar a sua vida.

Tempestade, por supuesto, é sinônimo de turbulência, e, portanto, de fonte de desconcerto, ou melhor ainda, de desorientação. Nos meus anos de psiquiatra fui orientado a investigar na anamnese a orientação têmporo-espacial como um importante parâmetro a definir a sanidade mental do paciente. Doce ilusão! Será que Édipo, sabedor da exata localização geográfica do fatídico encontro na encruzilhada que alterou seu destino, bem como do exato momento histórico em que aquilo acontecera, teria dado um passo à frente no esclarecimento do drama da sua identidade?

Eis-nos, aqui, diante de mais um exemplo em que a psicanálise “recicla” os “descartes” da psiquiatria, elevando-os à categoria de matéria prima para seu processo investigativo da vida mental. Quantas vezes, ao acolher a massa de fragmentações psicóticas dos analisandos, não me senti perdido, desorientado e desamparado? E quantas vezes, ficando em contato com este universo caótico, por falta de alternativa, não percebi, para minha surpresa e alívio que, aos poucos, aqui e ali começavam a vagalumear focos de luz que prenunciavam a luz que buscamos no fim do túnel?

Isto me ensinou uma verdade de grande utilidade clínica: se entendermos a imersão num estado caótico como a única bússola possível a nos orientar no universo psicótico, teremos chance de nos movimentar neste labirinto com alguma desenvoltura.

Mas, retornemos à questão do que seria, em essência, “funcionar psiquicamente”. Freud descreveu o pensar como aquele “arranjo mental” (expressão minha) através do qual o psiquismo se sustenta entre o momento em que recebe um estímulo e o instante em que ele consegue satisfazê-lo. No entanto, malgrado a dimensão ciclópica de sua obra, ele não conseguiu nos fornecer um esclarecimento sobre a “fisiologia” deste processo.

Alguns desdobramentos posteriores de sua obra, como os de Melanie Klein e de Bion, nos permitem hoje começar a entender a microscopia deste processo. Muito resumidamente, sua essência consiste no fato de que o psiquismo só consegue se desenvolver através de um tropismo que o induz a preencher suas lacunas se assenhoreando de recursos existentes num outro psiquismo, sem abdicar daqueles recursos já consolidados em seu self. Esta busca, no entanto, não acontece de forma egoísta ou possessiva, mas sim de forma curiosamente desinteressada que sedimente uma troca procriativa: trata-se de um processo que Freud denominou de metapsicológico onde a forma é tão ou mais importante que o conteúdo, porque, através de artimanhas estéticas, produz um registro emocional sempre elegante e econômico.

Aos nos defrontarmos com a personalidade psicótica, no entanto, precisamos abrir mão destes parâmetros estruturais e nos lançarmos no espaço da infinitude indiferenciada, povoado por escombros não-sensoriais: se pudermos conter este cenário desconhecido, até que as primeiras cintilações de significado apareçam, poderemos começar a ajudar nossos analisandos a sair deste estado com algum ganho de integração.

*Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, médico (Faculdade de Medicina da USP), membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, da qual foi Presidente. Organizador dos Encontros Bienais da SBPSP e Editor das publicações correspondentes. Autor de Sismos e Acomodações: A Clínica Psicanalítica como Usina de Idéias (Ed. Rosari, 2003) e Dante e Virgílio: o resgate na selva escura (Ed. Blucher, 2017).  Tradutor e co-autor de livros sobre a obra de Wilfred Bion, no Brasil e no exterior.

Imagem: reprodução da obra “La réproduction interdite”, de René Magritte

A Psicanálise e suas clínicas

Fabrício Neves*

Quando se fala em psicanálise, surge no imaginário de cada um ideias, geralmente associadas a uma prática, um certo cenário e algumas concepções difundidas por nossa cultura. Não é propósito destas notas, considerando as limitações deste tipo de escrita, discorrer sobre os mitos disseminados, inclusive por muitos que a praticam, sobre o que é ou não psicanálise.

De todo modo, quando circulamos em nossos meios sociais, escutamos com frequência pré-concepções sobre nosso fazer. A maioria destas construções revela que muita gente não chega aos consultórios por uma noção muito equivocada sobre o trabalho analítico, às vezes, até baseadas na experiência de um conhecido que empreendeu uma experiência analítica.

A confusão se dá porque se tira de um relato particular, de uma experiência única e individual, uma regra geral. Aliás, encontramos no discurso de muitos colegas método semelhante. E aí começam os problemas!

Parece muito difícil em um tempo onde tudo se generaliza, apreender que a prática psicanalítica está baseada no caso clínico em questão. Que trabalhamos com modelos para pensar e não para aplicar.

Desde sua origem com Freud e seus contemporâneos, até os dias atuais a psicanálise revê sua prática a partir dos problemas que a clínica lhe propõe. Assim os pacientes e suas configurações, fazem o analista trabalhar no sentido de criar as condições necessárias e técnicas: frequência, manejos, valores e quantos outros arranjos se fizerem pertinentes para que o método psicanalítico possa se dar.

As mudanças na prática dos psicanalistas não devem ser creditadas exclusivamente pela demanda de quem nos procura. Green, em seu artigo sobre ‘o analista, a simbolização e a ausência no enquadre analítico’ trabalhou com a hipótese de que essas mudanças estão subordinadas às mudanças de sensibilidade e percepção do analista. Fazendo um paralelo onde, assim como a visão do mundo exterior do paciente depende de sua realidade psíquica, também nossa visão da realidade psíquica do paciente depende de nossa própria realidade psíquica.

Essa complexidade não deveria ser ignorada por aqueles que se detém em pensar sobre o nosso ofício nos dias de hoje. Estamos nos aproximando de nosso I Simpósio Bienal onde nos convidam para o pensar em dois eixos – do analista desconcertado e o da psicanálise e suas clínicas. A relação entre esses eixos me parece indissolúvel. Não parece possível revendo tudo que escreveram e nos contaram nossos colegas de ontem e de hoje, que possa haver clínica psicanalítica onde não esteja presente o mal-estar do analista, sempre desconcertado pelo que está por vir…

* Fabricio Neves é psicanalista membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Imagem: reprodução da obra Relativity de M.C. Escher

 

 

 

 

O mesmo, o outro – psicanálise em movimento

*Bernardo Tanis

A psicanálise desmitifica a ideia de que somos sujeitos indivisos e unificados, com uma identidade coerente e sintônica com o nosso grupo. A ideia de inconsciente, assim como a complexidade e riqueza dos processos de  identificação, coloca em evidência que regiões de nossa mente contradizem nossa consciência, somos movidos por desejos dos quais não queremos tomar conhecimento e evitamos ter notícias, vivemos conflitos entre amor e ódio e sentimentos ambivalentes, evitamos entrar em contato com a dor psíquica, no entanto, pagamos um alto preço por lançar mão de mecanismos defensivos que empobrecem as nossas vida e criatividade.

A tensão entre “eu e o outro” é constitutiva do humano. Vale a pena assinalar várias dimensões do outro e o lugar que este ocupa nas nossas vidas como descrita pela conhecida passagem em Psicologia das Massas e Análise do Ego, em que afirma Freud: “na vida psíquica individual, está sempre integrado o outro, efetivamente, como modelo, objeto, auxiliar ou adversário e, sempre a Psicologia Individual é, ao mesmo tempo e desde o princípio, Psicologia Social.” Como pensar a ética do analista se não sairmos da esfera do eu, do mesmo, para nos lançarmos ao encontro do outro nas relações interpessoais e no vasto campo da cultura? Que novos desafios nos convocam se nos deixamos atingir pela diferença e a alteridade?

A quebra da ilusão que se inicia já com o próprio objeto materno e ganha poder estruturante na tramitação do complexo de Édipo, na renúncia ao incesto e na elaboração da angústia de castração, representa abertura para o desejo, para a vida. Assim, graças a esse lugar paradoxal do outro, como objeto da paixão, mas ao mesmo tempo que interroga constantemente nosso narcisismo, e nossas ilusões nos humanizamos.

Xenos, em grego, alude ao hóspede, ao visitante, ao estrangeiro e ao estranho. Daí xenofobia, que carrega um conjunto de significados que passam pelo horror, pelo desprezo, ao sentimento de ameaça pelo estrangeiro, pelo diferente.

Freud, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, já assinalava o fenômeno expresso na ideia de “narcisismo das pequenas diferenças”, que alude à forma como os integrantes de uma comunidade podem se unir, mascarando ou disfarçando inconscientemente seus conflitos e projetando no outro, no vizinho, no estrangeiro, no imigrante, a sua agressividade. “Amamos nossos irmãos” e repudiamos os outros a quem tratamos com intolerância. “A diferença encontra os mais variados discursos para ser transformada em ameaça”. A atualidade desse fenômeno é assustadora no nosso País e no mundo.

Homi Bahbah, destacado professor de teoria literária de Harvard e um dos grandes estudiosos das sociedades pós-coloniais, assinala a ancoragem ideológica do poder colonial em uma lógica binária, dividido os indivíduos  entre uma dimensão presa à ideia de identidade (eu/nós), segundo a qual me reconheço nesta imagem de mim e do meu grupo/nação (o colonizador), tanto no campo individual como cultural, em contraposição a algo que alude à exterioridade, a ele/ao outro (o colonizado) ou ao estrangeiro. Esta lógica binária foi extrapolada para o campo social, político ou da sexualidade, e não admite a multiplicidade nem reversão de perspectivas.

A psicanálise nos conduz a um questionamento dessa postura colonial na qual o outro é objeto de desprezo e desqualificação na medida em que nos sugere que devemos conhecer o estrangeiro em nós. Reconhecer o estrangeiro que nos habita, a outra face de nossa identidade, produz uma fenda na ideia de identidade, que faz com que nos consideremos um e outro ao mesmo tempo. A ideia de completude ideal e de superioridade é colocada em questão e desconstruída.

Talvez isso nos ajude a acolher o outro como radicalmente diferente, como alguém ou algo que na sua natureza nos é estranho, incompreensível, indizível.

Isso, no contexto em que eu também me constituo neste outro para meu semelhante, como sustentado também pela perspectiva ética proposta pelo filósofo Levinas.

Acredito que o tema do I Simpósio Bienal da SBPSP será um fórum privilegiado para abordar esses assuntos que demandam uma urgente reflexão por parte da sociedade em geral e os analista em particular, em um mundo no qual posturas autoritárias e excludentes ressurgem com assustadora intensidade.

*Bernardo Tanis é psicanalista, membro efetivo da SBPSP e doutor em Psicologia Clínica.