O inconsciente nos pés e a Copa do Mundo no divã

*Denise Salomão Goldfajn

Estamos de novo em época de Copa do Mundo, onde o Brasil  é exemplo seja nas fúlgidas vitórias ou nas retumbantes derrotas (1970 e 2014). Para Chris Oakley (2007), psicanalista inglês, autor do livro Football Delirium, o Brasil representa para o futebol mundial o que Freud representa para a psicanálise, o lugar da criação e da inventividade.

Cada edição da Copa, congrega chuteiras, países e o ambiente político e social de seu tempo. Um Brasil retratado no passado, como “país do futuro,”  pelo autor Stefan Zweig,  aproxima-se em 2018, e com as eleições na esquina, do destino sombrio do qual o mesmo escritor pensara ter escapado. O Brasil do presente, exemplar no futebol, é também exemplar nos rankings da desigualdade social, de violência interpessoal e da corrupção.

Mas em tempos de Copa do Mundo, vivemos clivados, dissociados, saímos da rotina e entramos por janelas e telas em um outro Brasil, potência soberana, tratado como referência e com reverência. Com a chegada da Copa, para brasileiros e brasileiras, não há rotina que se mantenha no país.

Remarcar, cancelar ou manter as sessões no consultório durante a copa? Quem quer ver o jogo, o paciente, o psicanalista, os dois, ou nenhum dos dois? Onde está, no manual da técnica psicanalítica, o capítulo que fale sobre o manejo da clínica em época de Copa do mundo?

Estamos nós, pacientes e analistas de braços dados na corrente pra frente, ligados a mesma emoção, ou não? Essa fantasia de que podemos deixar a análise em suspensão e ser junto com nossos pacientes, pares iguais, inaugura uma série de possibilidades clínicas. Pois gostemos ou não de futebol, em época de Copa, o tema está presente em nossos consultórios.

Para o psicanalista as representações se multiplicam, famílias, como times, treinadores como pais, jogadores como ideais, oponentes que trazem todos os tipos de conflitos relacionais. Os jogadores encenam ao vivo as manifestações inconscientes nas múltiplas telas de LCD. Como explicar o jogador de frente para o gol, que se via enorme pela transmissão na TV,  e sem ninguém para defender, chutar a bola para fora dos travessões, perdendo a oportunidade da glória e do gol. Como entender o gesto, aquela mão do jogador que salvou seu time, a lei vale ou não? Como lidamos com a transgressão? E o VAR, tecnologia auxiliar conseguirá super-arbitrar? E aquele jogador que tentando defender seu time, erra contra a sua vontade, ao mesmo tempo que presenteia, com a vitória, o adversário.  Segurou a camisa? Fez manha e artimanhas? Passou pelo juiz que não viu? Erros ‘infantis’ que profissionais do jogo jamais cometeriam. Quantos comentaristas, tentando compreender o incompreensível, evocaram a fórmula “Freud explica”. E, Freud, de fato explica. Lições de psicanálise se multiplicam ao vivo e ao mesmo tempo para milhões de pessoas: atos falhos, medo do sucesso, egos ideais e ideais do ego, projeções e atuações. É na rapidez dos pés que o inconsciente se mostra na tela.

Dentro e fora da pequena área de nossos consultórios a interseção cultural e subjetiva emerge, mostrando as cores da transferência social. É só deixar a bola rolar sem impedimentos para perceber que a transmissão da psicanálise está, mais uma vez, ‘no ar’.

 

Denise Salomão Goldfajn é membro associado da SBPSP e da SBPRJ. Pós-doutoranda do IPUSP e Coordenadora-centro do projeto Pensamento Psicanalítico Latino Americano (PPL) da Fepal. 

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