Mês: junho 2018

Psicanálise e Migração – a possibilidade de uma Clínica Transcultural

 * Paula F. Ramalho da Silva, Stephania A. R. Batista Geraldini e Maria Cecília Pereira da Silva

De acordo com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas (ONU), o número de migrantes internacionais chegou a 244 milhões em 2015, dos quais 20 milhões são refugiados. Para a Organização, um migrante internacional é alguém que mudou o seu país de residência; um refugiado internacional fez essa mudança forçadamente, geralmente por causa de conflitos armados ou perseguições.

No Brasil, segundo pesquisa do Núcleo de Estudos da População da Universidade Estadual de Campinas, entre os anos 2000 e 2015 foram registrados cerca de 870.000 imigrantes, quase 370.000 no estado de São Paulo, sendo o maior fluxo proveniente da Bolívia.

O evento migratório está em geral associado a questões socioeconômicas e políticas que se impõem ao migrante, mas ele não se resume a um ato social, é também um ato psíquico, e este conceito é fundamental para a clínica psicanalítica transcultural, que se torna cada vez mais relevante na atualidade.

O deslocamento do migrante pode ocorrer após ou por causa de rupturas traumáticas com o seu contexto externo e, mesmo quando não, traz ruptura e desorganização externa e interna; com frequência, ele é experimentado de maneira ambivalente – desejo e medo de partir, desejo e impossibilidade de permanecer, desejo de manter traços culturais que compõem a história do migrante e de sua família e necessidade de se adaptar a uma nova cultura num novo país.

Considerando essa especificidade, a psicanalista francesa Marie Rose Moro propõe um modelo clínico baseado na etnopsicanálise, que vem sendo utilizado na Clínica Transcultural ligada ao Centro de Atendimento Psicanalítico da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Os atendimentos na Clínica Transcultural da SBPSP são oferecidos a famílias de imigrantes. Em cada sessão, o grupo familiar se encontra com o grupo de profissionais, composto por um psicanalista/terapeuta principal, um psicanalista/coterapeuta, um tradutor, um psicanalista/terapeuta responsável por estar com as crianças, e por outros psicanalistas que trabalham no sentido de criar uma espécie de caixa de ressonância, construindo assim um continente para as demandas apresentadas, que podem então ser acessadas e (res)significadas.

Dessa maneira, podem surgir questões que dizem respeito ao desenraizamento, ao abandono das tradições, dos traços culturais, do local de origem, de membros da família; questões que dizem respeito às dificuldades de adaptação e integração; diferenças entre gerações e entre os membros da família frente ao processo migratório, especialmente quando as crianças já nascem no país para o qual os pais migraram e não conhecem o local de onde eles partiram. Não raro, apresentam-se questões associadas à parentalidade, acrescidas de complexidade à medida que pais e mães precisam dar conta de necessidades básicas para a sobrevivência da família, como alimentação, moradia e trabalho, enquanto não podem contar com uma rede de apoio composta por familiares e amigos que permaneceram no país de origem, não sabem até que ponto devem contar com sua herança cultural e ainda precisam justificar constantemente, para os filhos e para eles mesmos, a decisão de migrar.

Baseando-se na utilização complementar das matrizes psicanalítica e antropológica, no reconhecimento e respeito pelas características culturais de cada grupo familiar e, ao mesmo tempo, na compreensão de que, mesmo imerso numa determinada cultura, cada indivíduo mantém a sua singularidade, pressupostos da etnopsicanálise, a Clínica Transcultural procura dessa maneira acompanhar aqueles que atende na construção de significados em seu processo migratório.

Conheça a equipe da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP

Maria Cecília Pereira da Silva

Ana Balkanyi Hoffman

Diva Aparecida Cirluzo Neto

Fushae Yagi

Maria Augusta Gomes

Maria Cristina B. Boarati

Maria José DellAcqua Mazzonetto

Paula F. Ramalho da Silva

Stephania A. R. Batista Geraldini

Tania Mara Zalcberg

Maria Cecília Pereira da Silva épsicanalista, Membro Efetivo, Analista Didata, Analista de Criança e Adolescente e Docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Doutora em Psicologia Clínica e Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo -PUCSP.  Pós-doutora em Psicologia Clínica pela PUCSP.  Especialista em Psicopatologia do Bebê pela Universidade de Paris XIII. Coordenadora da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP.  Membro e professora do Departamento de Psicanálise de Criança do Instituto Sedes Sapientiae no curso Relação Pais-Bebê da Observação à Intervenção.

 

Stephania Aparecida Ribeiro Batista Geraldini é psicóloga, Membro Filiado ao Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, membro da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP, doutoranda do IPUSP, mestre em Early Years Intervention pela Tavistock and Portman NHS Foundation Trust, Especialista em Psicanálise com Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae.

 

Paula Freitas Ramalho da Silva é psiquiatra, Membro Filiado ao Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, membro da Clínica 0 a 3 – Intervenção nas relações iniciais pais-bebê e da Clínica Transcultural do Centro de Atendimento Psicanalítico da SBPSP. Mestre em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo.

 

*Imagem: Agência Brasil

A SBPSP manifesta seu apoio às cartas das organizações psicanalíticas federadas FEBRAPSI e FEPAL, nas quais é denunciada a recente manifestação de violência contra crianças migrantes e suas famílias por parte do governo dos Estados Unidos

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo manifesta seu apoio às cartas das organizações psicanalíticas federadas FEBRAPSI e FEPAL, nas quais é denunciada a recente manifestação de violência contra   crianças migrantes e suas famílias por parte do governo dos Estados Unidos. Transcrevemos a seguir o Pronunciamento da Presidente da Associação Psicanalítica Internacional, Dra. Virginia Ungar, ao qual declaramos nossa total adesão.

Bernardo Tanis

Presidente da SBPSP

 

Pronunciamiento del Presidente de la API con respecto a la Violencia hacia Niños Migrantes

Las noticias que han circulado por los medios sobre la terrible decisión de separar a los hijos de inmigrantes de sus familias en Estados Unidos han puesto el foco en una desoladora situación de maltrato hacia los niños que ocurre también en otras latitudes, como el Mediterráneo, Medio Oriente y África, entre otras.

Hace varios años que la situación de los inmigrantes y sus familias es desesperante, pero lo ocurrido en Estados Unidos ha levantado la indignación mundial contra los que no respetan los derechos básicos de las personas.

La Asociación Psicoanalítica Internacional (API) ha creado espacios para estudiar a fondo el problema y también para ofrecer intervenciones basadas en la teoría y en la práctica psicoanalíticas. Hemos inaugurado recientemente una nueva estructura llamada API en la Comunidad, compuesta por varios comités entre ellos Migraciones y Refugiados, Organizaciones Humanitarias, Educación, Salud, y Violencia. Trabajan junto con el Comité de Análisis de Niños y Adolescentes y el Inter-Committee on Child Abuse y llevan adelante investigaciones y proyectos de acción comunitaria que buscan mitigar el dolor y la vivencia de desarraigo traumático producido por políticas que llevan a niveles no humanos a millones de personas.

Los pioneros del psicoanálisis como Sigmund Freud, Anna Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott, Serge Lebovici y muchos otros que siguiendo el camino de los maestros, han buscado comprender el delicado balance del desarrollo psico emocional de los niños y la manera en que las situaciones traumáticas interfieren en el mismo.

Desde esta base, repudiamos cualquier forma de violencia contra niños y adolescentes que altere los parámetros cruciales de crianza en todo el planeta. Incluimos en ello las separaciones forzadas o precoces de la familia, la falta de cuidados básicos y de respeto por los derechos de niños y adolescentes. Como profesionales de la Salud Mental es nuestra obligación proteger a los niños y jóvenes y defenderlos de cualquier tipo de violencia y amenaza a su desarrollo.

Virginia Ungar, Presidente de API

Sergio Nick, Vicepresidente de API

 

 

 

O inconsciente nos pés e a Copa do Mundo no divã

*Denise Salomão Goldfajn

Estamos de novo em época de Copa do Mundo, onde o Brasil  é exemplo seja nas fúlgidas vitórias ou nas retumbantes derrotas (1970 e 2014). Para Chris Oakley (2007), psicanalista inglês, autor do livro Football Delirium, o Brasil representa para o futebol mundial o que Freud representa para a psicanálise, o lugar da criação e da inventividade.

Cada edição da Copa, congrega chuteiras, países e o ambiente político e social de seu tempo. Um Brasil retratado no passado, como “país do futuro,”  pelo autor Stefan Zweig,  aproxima-se em 2018, e com as eleições na esquina, do destino sombrio do qual o mesmo escritor pensara ter escapado. O Brasil do presente, exemplar no futebol, é também exemplar nos rankings da desigualdade social, de violência interpessoal e da corrupção.

Mas em tempos de Copa do Mundo, vivemos clivados, dissociados, saímos da rotina e entramos por janelas e telas em um outro Brasil, potência soberana, tratado como referência e com reverência. Com a chegada da Copa, para brasileiros e brasileiras, não há rotina que se mantenha no país.

Remarcar, cancelar ou manter as sessões no consultório durante a copa? Quem quer ver o jogo, o paciente, o psicanalista, os dois, ou nenhum dos dois? Onde está, no manual da técnica psicanalítica, o capítulo que fale sobre o manejo da clínica em época de Copa do mundo?

Estamos nós, pacientes e analistas de braços dados na corrente pra frente, ligados a mesma emoção, ou não? Essa fantasia de que podemos deixar a análise em suspensão e ser junto com nossos pacientes, pares iguais, inaugura uma série de possibilidades clínicas. Pois gostemos ou não de futebol, em época de Copa, o tema está presente em nossos consultórios.

Para o psicanalista as representações se multiplicam, famílias, como times, treinadores como pais, jogadores como ideais, oponentes que trazem todos os tipos de conflitos relacionais. Os jogadores encenam ao vivo as manifestações inconscientes nas múltiplas telas de LCD. Como explicar o jogador de frente para o gol, que se via enorme pela transmissão na TV,  e sem ninguém para defender, chutar a bola para fora dos travessões, perdendo a oportunidade da glória e do gol. Como entender o gesto, aquela mão do jogador que salvou seu time, a lei vale ou não? Como lidamos com a transgressão? E o VAR, tecnologia auxiliar conseguirá super-arbitrar? E aquele jogador que tentando defender seu time, erra contra a sua vontade, ao mesmo tempo que presenteia, com a vitória, o adversário.  Segurou a camisa? Fez manha e artimanhas? Passou pelo juiz que não viu? Erros ‘infantis’ que profissionais do jogo jamais cometeriam. Quantos comentaristas, tentando compreender o incompreensível, evocaram a fórmula “Freud explica”. E, Freud, de fato explica. Lições de psicanálise se multiplicam ao vivo e ao mesmo tempo para milhões de pessoas: atos falhos, medo do sucesso, egos ideais e ideais do ego, projeções e atuações. É na rapidez dos pés que o inconsciente se mostra na tela.

Dentro e fora da pequena área de nossos consultórios a interseção cultural e subjetiva emerge, mostrando as cores da transferência social. É só deixar a bola rolar sem impedimentos para perceber que a transmissão da psicanálise está, mais uma vez, ‘no ar’.

 

Denise Salomão Goldfajn é membro associado da SBPSP e da SBPRJ. Pós-doutoranda do IPUSP e Coordenadora-centro do projeto Pensamento Psicanalítico Latino Americano (PPL) da Fepal. 

Winnicott: tradição e inovação

*Inês Sucar

Donald D. Winnicott afirmava que “Em nenhum campo cultural é possível ser original exceto em uma base de tradição”. Sua importância como autor inovador respeitando a tradição tem sido cada vez mais acentuada na clínica atual. Sua escrita, aparentemente simples e fácil, seu estilo coloquial de comunicação, surpreende e causa impacto, pois a compreensão do que é proposto exige uma mudança na maneira de pensar alguns fenômenos da vida humana. A inserção e ampliação de suas proposições na obra de valorizados autores contemporâneos, valida sua difusão em diferentes regiões do mundo.

Encontros anuais acontecem no Brasil e na América Latina. Neles, autores apresentam suas produções em artigos originais, debatendo o vértice teórico- clínico proposto por Winnicott. Após o XVII Encontro Latino-Americano Winnicott Ressonâncias, presidido por Plinio Montagna, realizado na SBPSP em 2008 com grande êxito, ficou evidente a necessidade de oferecer a possibilidade de maior aproximação com suas propostas.  O grupo de estudos A obra de Donald Winnicott formou-se na SBPSP a partir disso e se propõe ampliar, atualizar e aprofundar o conhecimento dos conceitos winnicottianos por meio de sua obra e também com contribuições de autores mais atuais que utilizam seus referenciais.

Em 2015, o Rio de Janeiro sediou o XXVII Encontro Latino-Americano. O evento contou com a presença de considerável número de membros da SBPSP, como autores ou participantes, que estiveram em contato com as produções de colegas de várias instituições, de outras regiões brasileiras e de outros países, em rica troca de ideias.  A coletânea Winnicott Integração e Diversidade reúne uma parte dos trabalhos científicos apresentados nessa ocasião, publicados nas línguas originais dos autores.  O conteúdo foi dividido em cinco seções, agrupando diferentes produções sobre: Winnicott e seus interlocutores, Clínica analítica contemporânea, Psicanálise e cultura, Integração psicossomática e Parentalidade e conjugalidade.

Inovando a tradição dos Encontros Latino Americanos, o Grupo de Estudos sobre a obra de Winnicott da SBPSP, coordenado por Inês Sucar, propôs revisitar o XXVII Encontro Latino Americano. Convidou os autores a retomarem suas produções e apresentá-las em São Paulo, na manhã do dia 23 de junho na SBPSP para um diálogo entre autores, coordenadores e público participante. Estarão presentes: Anna Melgaço, Maria Cecilia Schiller Sampaio Fonseca, Luís Claudio Figueiredo, Marlene Rozenberg, Rahel Boraks, Rosa Maria Tosta, Rosa Raposo Albé, Yoshiaki Ohki, Simone Wenkert Rothstein, Hang-ly Homem de Ikegami Rochel e Neyza Maria Sarmento Prochet, com a coordenação de Milton Della Nina e Roberto Kehdy.

Inês Sucar é membro associado da SBPSP. Organizadora do XVII Encontro Latino-Americano Winnicott (2008). Organizadora do livro Winnicott Ressonâncias, Ed. Primavera (2012).

 

Escrita psicanalítica. O que seria?

*Cintia Buschinelli

Antes de nos aventurarmos em uma resposta a essa pergunta, não podemos deixar de pensar se uma definição da escrita psicanalítica não poderia mais afastar do que nos aproximar dela.

Não é segredo que a psicanálise não é dada a definições rígidas, muito menos a conceitos normativos. Os alicerces psicanalíticos construídos, desde Freud, têm uma estrutura sólida, mas não rígida.

E a escrita, como meio de expressão do pensamento psicanalítico, não poderia ser constituída de matéria-prima diferente do conteúdo que ela expressa. Ela, portanto, é fluida, maleável e forte.

Podemos imaginar nossa teoria constituída de material semelhante à dos edifícios erguidos para enfrentar as intempéries da natureza e dos desmandos humanos. Aqueles que não desabam com facilidade, pois acompanham os movimentos geológicos dos terrenos, suportam os tremores, ou os terrores que a diversidade ideológica humana pode ser capaz de provocar.

Assim, não custa reafirmar que rigidez não é qualidade da psicanálise, solidez, sim. E sua escrita segue esse mesmo “protocolo”.

Portanto, para mergulharmos nas águas psicanalíticas da escrita, ao procurar no fundo de seus mares seus corais, cavernas, algas, relevos e correntes marítimas,  precisamos estar com nossa roupa apropriada, ou seja, nossas teorias e técnicas escolhidas , modeladas ao nosso corpo, aquela que foi feita  para nadarmos com liberdade por essas águas tão apreciadas por nós.

Confira a entrevista com Marcia Vinci, que fez a conferência de encerramento do I Encontro de Escrita, promovido pela Sociedade Brasileira nos dias 8 e 9 de junho.

 

 

 

 

Cintia Buschinelli é membro associado da SBPSP, editora da revista Ide (2010/2012). Recebeu o prêmio Fepal 2002 com o artigo “Interpretação Psicanalítica: uma Composição Dodecafônica”.

 

Meu irmão é adotado

* Cynthia Peiter

“Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado”. Assim começa o imperdível livro de Julián Fuks, “A Resistência”.

Gostaria de me deter sobre estes embaraços do autor na designação ao irmão. Sua inquietação, muito verdadeira e absolutamente apropriada, indaga sobre a inconveniência do termo e parece apontar para um certo mal-estar que permeia o tipo de filiação adotiva.

Seria este, um mal-estar ligado a especificidades deste modo de ter filhos? O que estaria em jogo nestas hesitações tão genuínas e tão comuns?

Ser “adotado”, de fato, limita-se a uma única face de uma história muito mais complexa. Acredito que a hesitação presente na formulação do autor alude a algo da ordem do “não dito” que subjaz ao termo adotado. O que o termo não diz, mas que traz implícito, é também o que leva os interlocutores a “assentir com solenidade, disfarçando qualquer pesar, baixando os olhos como se não sentissem nenhuma ânsia de perguntar mais nada”. Que pergunta seria essa que não se cala mas ressurge nestes silêncios enigmáticos?

A insuficiência do termo “adotado” e seus mal estares difusos aponta silenciosamente para a existência de uma outra história. Há um tipo de pré-história da adoção, que em nosso país está permeada de mistérios e de pesares. A estes pesares inquietantes, o autor alude em longo e tocante parágrafo no qual todas as sentenças começam dizendo “não quero imaginar…”.

A adoção per se, como um processo de apropriação de uma criança como filho, pode ser uma história comum – um tipo de vinculação não sustentada pelo vínculo biológico, e que é essencialmente simbólica e afetiva. Assim como deveriam ser também todas as modalidades de filiação. A condição humana nos coloca frente à necessidade de um encontro com um outro que nos ofereça amparo e que realize um tipo de “adoção”, inserindo-nos em uma rede afetiva e simbólica na qual nos construímos e reconhecemos como sujeitos. Esta é uma inscrição necessária a qualquer criança, e aponta para a primazia do laço simbólico sobre o laço sanguíneo. Ouvimos com frequência a assertiva de que “todas as crianças são adotadas”, tendo laços sanguíneos ou não com sua família.

Entretanto, no processo de inclusão de uma criança em uma família adotiva, é comum  esquecer que a criança traz consigo uma outra história que foi interrompida – uma descontinuidade histórica. A pré-história que vem no bojo das adoções, em nosso país, implica em significativas rupturas, separações, experiências de lutos e de sofrimentos a serem processados psiquicamente. Na verdade, a adoção surge como uma forma de contornar e muitas vezes de suturar feridas e dores vividas pelas crianças, pelos pais adotantes e também das famílias que entregam ou perdem estas crianças. As histórias de adoção entrelaçam percursos de pais que, por razões diversas, não puderam ou não quiseram ter seus filhos biologicamente e de outros pais que não puderam seguir cuidando dos filhos que geraram. Assim, o processo de adotar crianças fala de esforços para contornar complicadas desordens.

Tais desordens conduzem as crianças adotadas à experimentação de descontinuidades e de rompimentos de vínculos de difícil compreensão e elaboração psíquica. Histórias fragmentadas e possivelmente dramáticas requerem a abertura de espaços de memória e de pensamento que possam permitir a criação de sentidos para aquilo que não foi significado psiquicamente. Um desafio a mais na delicada tarefa de cuidar de filhos que impõe aos pais adotivos uma função de reconstruir narrativas para histórias tão complexas.

Sobre este desafio de encontrar palavras apropriadas que deem conta da complexidade das histórias de adoção e de seus não ditos, Julián Fuks nos ensina em seu livro, com dor e delícia.

Fuks, J. a Resistencia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

**A imagem é a capa do livro “A Resistência”, da Julián Fuks.

Cynthia Peiter é psicanalista da SBPSP e autora de livros e diversos artigos sobre adoção e psicanálise, entre eles: Adoção – Vínculos e Rupturas; e Atendimento Psicanalítico na Adoção.