Quem tem medo do Largo do Paissandu? – Reflexões sobre uma tragédia secular

*Rodrigo Lage Leite

Há pouco mais de um mês, fui sozinho à Galeria Olido, no Largo do Paissandu, para assistir ao filme “120 Batimentos por minuto”, sobre as primeiras vítimas da AIDS e sua luta, na França do início dos anos 90, frente à invisibilidade que as autoridades insistiam em oferecer à emergente epidemia, fatal epidemia que se alastrava aceleradamente na comunidade gay do país.

Sai atordoado do cinema naquele fim de domingo nublado, e, como num filme de Antonioni, vaguei pelo Largo do Paissandu, por seus bares decrépitos, seus corpos abjetos (no sentido de Judith Butler, retomado por Tiago Porto, em artigo recente na Revista IDE), seus prédios feios…

Sim. À primeira vista, me atraía a feiura e a aridez daquele cenário da tragédia anunciada para mais algumas semanas: um incêndio, um desabamento e o escancaramento da nossa imensa dissociação social, intrigante recalque em massa – ou das massas – que nos afasta fragorosamente do mundo, dos outros.

Só fui resgatado do meu soturno unheimlich, ao me deparar com a placa na entrada da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no centro do Largo. A placa contava brevemente a história da igreja (os detalhes vim a conhecer depois), fundada em 1906, após a desapropriação da antiga Igreja dos escravos, e também do seu cemitério, motivada por um projeto de modernização urbanística, parte de uma evidente ação higienista da prefeitura.

A construção da nova igreja fora assim assentada em soluções de compromisso: entre a proibição de que os negros entrassem na igreja dos brancos e a obsessão em catequizá-los, mantê-los atrelados à fé católica. Entre conciliar a necessidade de uma igreja à parte para os negros e o projeto higienista da prefeitura.

A placa da igreja me arrancara da condição de perambulante estrangeiro num território alheio, mas visceralmente meu. No coração do Largo do Paissandu, bem ali, na sinceridade que evola daqueles que não estão tão tomados por ideais enrijecidos, podia circular mais livremente a radicalidade do sexual freudiano, redescoberto no mal-estar da neurose. Cinemas de sexo explícito – “Assista agora: a trans e a garota” -, bêbados desagradáveis, mas irreverentes, mães suficientemente peculiares que seguram seus filhos com gritos brutos, odores de esgoto, de urina, uma bicicleta que passa veloz e leva o celular do incauto. Era nesta língua em que eu me encontrava imerso: “língua errada do povo, língua certa do povo”, que a despeito da confiança de Bandeira de que “é ele que fala gostoso o português do Brasil”, é secularmente relegada à mais perversa e dura invisibilidade.

Os sobrados e prédios do Paissandu exibiam suas janelas quebradas, remendos de papelão e plástico, cortinas improvisadas em tecidos aleatórios, varais expostos aos olhos do mundo. Qualquer um de nós que por ali passasse, poderia assistir a intimidade miserável – mas solidária – de pessoas tentando se amparar na privação absoluta revelada nos fios desencapados que, negligenciados pelos olhos de toda uma cidade – vejo e não vejo – explodiram em fogo, em morte, sintoma desvelado em êxito letal.

Após o convite de Carlos Frausino para escrever essa pequena reflexão sobre o desabamento no Paissandu, voltei à praça com o intuito de copiar ipsis litteris os escritos da placa que me aturdiram à saída do cinema. Encontrei um campo de guerra, com grades de interdição ao redor de centenas de pessoas, inúmeras crianças jogadas sobre as calçadas sujas, disputando marmitas oferecidas por vizinhos ou alguns brinquedos Fisher-Price doados por passantes. Cercados pela polícia, passavam o dia a esmo, à espera de uma algo não sabido, dependentes da velocidade com que as pás escavadeiras possam levar para desenterrar em escombros séculos de história.

Convencido de que não poderia chegar até a placa, conversei com um rapaz negro da organização que, aparentemente simpático à minha causa, caminhou até um colchão indicado por mim, atrás do qual imaginei estivesse a placa, e nada! Olhou-me com a solidariedade com que se olha para os ingênuos e me falou docemente: “Mas, olha, os padres sumiram. Tem comida lá dentro, mas eles trancaram e não abrem a Igreja há uma semana”! Não confirmei a veracidade da informação, sua realidade material, mas o conteúdo me pareceu absolutamente coerente com a história da Irmandade dos Homens Pretos do Largo do Paissandu.

Acima do alambrado, num novo varal improvisado, cartazes feitos em cartolina corajosamente tentavam responder às acusações sofridas nos últimos dias pelos moradores do prédio desabado e de tantos outros prédios da redondeza: “Todos temos direito à cidade e à moradia”.

Os cartazes parecem frágeis, mas não são! Integram a presença resistente e a atitude firme dos movimentos sociais que há séculos enfrentam a invisibilidade que perversamente, por via de denegação, grande parte da população e do poder público insiste em oferecer aos negros e aos pobres do país.

Seja na violência das fake news agressivas, veiculadas via internet, que achincalham os movimentos sociais, generalizando-os como grupos de bandidos ou desordeiros, seja na irritação mais comedida, mas não menos cínica, dos que em 1906 chamavam a polícia para reclamar dos batuques, danças e símbolos religiosos do povo africano na Praça Antonio Prado, ou dos que, em 2018, chamam a polícia para dar solução rápida ao imbróglio da falta de moradia do país e das invasões no centro da cidade, haverá sempre o ranço da denegação. Se bem trabalharem as pás escavadeiras do Estado de São Paulo, encontrarão bem no fundo dos escombros do Largo do Paissandu, viva, a escravidão no Brasil.

Texto originalmente publicado no Observatório Psicanalítico.

*Rodrigo Lage Leite é psicanalista, membro associado da SBPSP  e editor do blog de psicanálise

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