Manuscrito inédito de 1931

Elsa Vera Kunze Post Susemihl*

Em 2004, o historiador americano Paul Roazen encontrou um manuscrito de Freud em meio a uma série de outros documentos depositados na universidade americana de Yale pela filha do ex-embaixador americano William Bullit. Esse é o manuscrito que foi recém-traduzido por mim para o português, diretamente do alemão, e que foi publicado pela Editora Blucher (2017) com o nome de Manuscrito inédito de 1931, em edição bilíngue.

A história desse manuscrito nos leva para o início do século passado, quando Freud clinicava em Viena e quando Bullit, ao final da Primeira Guerra Mundial, acompanhou o então presidente americano Thomas Woodrow Wilson nas conversações de paz e na formulação do tratado de Versalhes. Freud e Bullit se conheceram nesses anos e compartilharam ideias e críticas semelhantes em relação ao presidente Wilson e sua atuação durante o estabelecimento desse tratado, o qual depois realmente se mostrou desastroso e levou a situações que culminaram com uma Segunda Guerra Mundial. Freud via em Wilson uma pessoa identificada com ideias messiânicas e que tomava suas ilusões religiosas literalmente, o que, a seu ver, o fazia uma pessoa inadequada para se relacionar com os `filhos comuns dos homens´ (2017/1931, p. 18).

Surgiu, então, um projeto entre ambos, Freud e Bullit, de escrever uma biografia do presidente americano Wilson, na qual Bullit, o ex-embaixador, contaria sua experiência política e Freud, o psicanalista, contribuiria com uma análise psicológica do caráter do presidente Wilson. O trabalhou iniciou-se em ritmo acelerado, mas em algum momento houve uma parada. Provavelmente em função de algumas divergências que surgiram e que não foram superadas. Anos mais tarde, com o avanço do nazismo na Áustria, Freud e sua família tiveram que fugir. Bullit, agora embaixador americano em Paris, tem um papel decisivo nesse momento, quando ajuda Freud e sua família por meio de seus contatos de embaixador na chegada em Paris e em seu caminho a Londres, o destino de seu exílio. Bullit aproveita a ocasião para retomar o projeto da biografia, e Freud concorda então com sua publicação após a morte da segunda esposa de Wilson. O livro é publicado finalmente em 1966, quando ambos os coautores, Bullit e Freud, já não estavam mais vivos. Estabelece-se nesse momento uma longa controvérsia, pois a comunidade psicanalítica, incluindo a filha de Freud, Anna Freud, não reconhece a autoria do pai. Ainda que algumas ideias descritas ali eram psicanalíticas, sua apresentação e seu estilo estavam longe daquele conhecido como sendo de Freud. Essa situação permaneceu não esclarecida por muitos anos. Finalmente, ao serem encontrados, em 2004, os referidos documentos, foi jogada alguma luz sobre essa situação.

Agora, com esse Manuscrito em mãos foi possível fazer um cotejamento com o livro publicado, e se notou que, de fato, esse Manuscrito não havia sido publicado na sua íntegra em nenhuma parte ao longo do livro. Porém, algumas passagens foram editadas e aproveitadas no livro. Ainda que as razões que levaram a tal edição, provavelmente por Bullit, só podem ser supostas, e ainda que não sabemos se o Manuscrito havia sido escrito para ser publicado como um capítulo do livro ou somente para ser aproveitado por Bullit como ele o desejasse, podemos agora usufruir do texto que, sem sombra de dúvida, vem da pena de Freud, e no qual prontamente o reconhecemos.

Nesse Manuscrito, Freud apresenta de forma resumida alguns conceitos fundamentais da Psicanálise, tais como a libido, a bissexualidade, a teoria dos instintos de vida e de morte, e descreve como estes elementos configuram por meio de identificações e relações de objeto as diferentes composições do complexo de Édipo. Talvez em nenhum outro lugar de toda a sua obra encontramos um texto que apresenta de uma forma tão clara, concisa e detalhada todas essas ideias psicanalíticas, sem que seja perdida, nessa breve exposição, a extensão e a profundida destas ideias. E ainda, deixa explícita a consciência da provisoriedade e da limitação de todas essas teorias ou modelos. Com seu estilo de escrita elegante e seu encadeamento brilhante de ideias, Freud nos guia com desenvoltura e tranquilidade ao longo do texto através de vários temas bastante complexos da teoria psicanalítica. Salvo no final, não encontramos ali nada de necessariamente novo, ainda assim somos surpreendidos por novas conexões e formulações. Nesse sentido, é um texto que, a meu ver, se presta para leigos como uma introdução a algumas ideias psicanalíticas, mas que, ao mesmo tempo, é muito rico e esclarecedor também para o psicanalista familiarizado com a sua obra, podendo este usufruir da capacidade de Freud apresentar suas ideias.

Logo no início, Freud estabelece a diferença entre um estudo psicológico do caráter de uma pessoa a partir de dados obtidos pela sua biografia, ou poderíamos dizer também de sua obra, com aquilo que considera uma psicanálise de fato, o que a seu ver somente é possível na presença real de duas pessoas, o analista e o analisando.

Ao longo do texto, Freud traz então uma pormenorizada descrição de como os fatores constitucionais de feminilidade e masculinidade, decorrentes da bissexualidade constituinte do ser humano e relacionadas, mas não determinadas, pelas diferenças anatômicas dos sexos, se relacionam com as experiências de vida na infância, resultando na maneira individual de cada um em se haver com os conflitos do complexo de Édipo e se tornar um indivíduo único e singular. A feminilidade e a masculinidade estão, desta maneira, na base dos conflitos do complexo de Édipo e, ao final, do complexo de Castração, quando estas diferentes tendências no indivíduo vão estabelecer relações conflitantes entre si diante das diferentes posições relacionais com o pai e a mãe. Conclui assim: `Podemos dizer para finalizar que cada eu de um ser humano é o resultado final do esforço por um equilíbrio de todos estes conflitos entre as diferentes correntes da libido com as exigências do supereu e com os fatos do mundo externo real. O tipo de equilíbrio que ao final será possível depende, por um lado, da extensão da masculinidade e da feminilidade inatas, e, por outro, das impressões que o ser humano recebeu durante a sua infância. O resultado final dessa tentativa de equilíbrio determina o que chamamos de caráter do eu´. (1931/2017, pp. 67-69)

A grande novidade do texto está ao final, quando Freud nos apresenta uma ideia a respeito de como compreender do ponto de vista psicanalítico a importância da figura de Cristo, mostrando que está contida na narrativa do Cristo uma possibilidade de harmonizar as diferentes tendências em conflito presentes no complexo de Édipo.

O Manuscrito de 1931 foi inicialmente publicado em alemão por Ilse Gubrich-Simites e em inglês por Mark Solms, que também o traduziu em 2006. Ambas as edições vieram acompanhadas de artigos comentando o texto e sua história. Em 2015, é publicada uma tradução para o italiano de S. Franchini em edição crítica com comentários de M. Hinz e R. Righi. Também, em início de 2017, surge uma tradução em francês com apresentação de Elisabeth Roudinesco.

Em 2017, Alexandre Socha e eu nos propusemos o projeto de organizar a publicação desse texto agora traduzido para o português, e assim o livro O Manuscrito inédito de 1931 foi publicado em edição bilíngue pela Editora Blucher no final de 2017. Além do texto de Freud com a minha tradução direto do alemão, o livro ainda conta com um prefácio de Alexandre Socha e um posfácio de Luís Carlos Menezes.

Sem dúvida, um texto que vale a leitura!

Freud, S (2017) O manuscrito inédito de 1931. São Paulo: Editora Blucher. (Tradução de Elsa Vera Kunze Post Susemihl). Texto original de 1931.

Elsa Vera Kunze Post Susemihl é psicóloga formada pela USP, membro efetivo e docente da SBPSP, IPA International Psychoanalytical Association, membro e professora no Departamento de Psicanálise da Criança Instituto Sedes Sapientiae.

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