Mês: abril 2018

Desamparo e Dor

*Anna Veronica Mautner

Não ser autor da sua própria vida nem do seu próximo momento é angustiante. A dor de depender da visão de mundo do outro para resolver desde miudezas até grandes decisões eu diria que é insuportável.

Além de fome, além de frio o campo de concentração ou holocausto anexava esta angustia. Comerei o que me derem, descansarei no espaço que me for dado e eu não tenho com que cuidar de mim.

Num campo de concentração as pessoas estão à mercê de outros que no caso são inimigos: não gostam da gente.

Estes inimigos não querem nem se dar ao trabalho de matar ou aleijar. É uma relação muito estranha.

No holocausto o inimigo foi dono da minha vida e não apenas da minha morte.

Se todos morrêssemos, os guardas e policiais ficariam todos desempregados. O carrasco depende da existência da vítima para exercício de sua função. É uma estranha construção esta de ódio e dependência.

Sobre o Dia da Catástrofe:

No dia 11 de abril, judeus do mundo inteiro renderam tributo a memória das vítimas e dos mártires do Holocausto durante o Yom Hashoá (Dia da Catástrofe).  Seis milhões de judeus, incluindo familiares de Freud, e muitas outras vítimas foram exterminadas pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, no episódio mais sombrio da história contemporânea. Anna Veronica Mautner, sobrevivente do Holocausto, chegou ao Brasil no dia 23 de agosto de 1939, uma semana antes do início da guerra em 1º de setembro de 1939. Seu texto para o blog da SBPSP fala da dor e da angustia dessa terrível experiência de vida.

 

*Anna Verônica Mautner é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (Editora Ágora).

Como escolher uma profissão?

Maria Stella Sampaio Leite*

Ao longo da experiência de 30 anos com orientação profissional ou orientação vocacional, como é mais conhecida essa prática, escuto  inquietações de jovens e seus familiares sobre a escolha de uma profissão. Como fazer uma escolha profissional aos 17 anos para o resto da vida é uma questão muito frequente. O problema é que não se trata de uma escolha para o resto da vida. Trata-se da primeira escolha.

Nessa idade, o jovem realiza somente sua primeira escolha profissional, aquela que deve ser interessante a ponto de motivá-lo a conduzir os estudos com dedicação até sua conclusão. Isso porque, ao término dessa formação, em posse do seu diploma de graduação,  ele terá um leque de possibilidades de trabalho diante de si e aí, novas escolhas irão se impor.

As profissões hoje em dia têm fronteiras muito tênues e tangenciam várias outras áreas. Por exemplo, todas as áreas do conhecimento rapidamente farão uso dos avanços tecnológicos.

A escolha por uma profissão é temporária, a realidade muda e nós mudamos. Apesar disso, temos um fio condutor, ninguém acorda de um dia para o outro uma pessoa diferente. Há sempre uma continuidade, mesmo que às vezes esse intercurso dê muitas voltas.

Mas como fazer essa primeira escolha? Todos temos muitos interesses e aspectos. O importante é enumerá-los, estabelecendo prioridades. Na primeira escolha, ao término do Ensino Médio, escolhe-se aquela profissão que reúne o maior número de interesses, habilidades e oportunidades. Uma parte das opções ficará de lado, no aguardo de um segundo momento, quando entrará na composição da carreira profissional da pessoa. Ao longo da vida, parte dessas profissões que ficaram na gaveta, ou aspectos delas, entram na formação da identidade profissional da pessoa. Identidade profissional é aquele exercício profissional que nos cai sob medida,  algo que faz todo sentido. Dificilmente isso ocorre no início de uma faculdade ou no começo de um percurso profissional. A gente se dá conta de ter construído uma carreira quando olha para trás, após um tempo, como em uma visada no espelho retrovisor, e constata que juntou vários aspectos que tinham sido deixados de lado na época da primeira escolha.

O futuro é muito angustiante para todos nós, sobretudo para um jovem ainda com pouca experiência de vida. Todos queremos soluções que deem conta da angústia com relação ao futuro. Um dia desses um pai perguntou-me se diante de tantas reformulações das profissões “Como prever quais profissões estarão em alta daqui 20 anos?” “Não seria o caso de buscar formações muito mais funcionais ou aplicáveis, uma faculdade que fornecesse ferramentas para o jovem equipar-se para o futuro em constante mudança?” Não é bem assim que se forma um equipamento sólido e resistente a intempéries. Uma formação universitária tem que ajudar o jovem a pensar, analisar e ser crítico e, para isso, precisa ser desafiado em diferentes campos das humanidades, das ciências além das atualidades.

Um moço cursando engenharia, insatisfeito com a graduação escolhida, me fez a seguinte pergunta: “Você tem um truque, uma chave que, aplicada, resolva meu dilema sobre o que cursar em substituição à engenharia? Eu aprendo rápido o funcionamento das coisas é somente saber o truque”, diz ele. Ora, não há uma chave, nem mesmo testes que se consigam medir atributos das pessoas relacionando-os a diferentes profissões. A reflexão e análise são indispensáveis, porém, não dão respostas certeiras sem risco, preto no branco.

O fato de haver muitas alternativas de profissão na atualidade não é impedimento para escolher. Se observarmos com cuidado, parte dessas alternativas são desdobramento de profissões mais antigas, das profissões com maior história. Outras, têm currículos muito semelhantes umas das outras. Algumas delas são apelos mercadológicos. Contudo, principalmente em se tratando de áreas ligadas aos avanços tecnológicos, foram criados cursos novos com esse foco especifico. Há profissões mais práticas cuja formação se dá por cursos tecnológicos (aqueles cujos cursos têm de 2 a 3 anos de duração), indicadas aos jovens avessos ao estudo formal. Todavia, não há profissões blindadas contra crises. Um profissional muito identificado com sua escolha terá maiores chances de se manter atualizado. Com isso, encontrará frestas nas quais poderá atuar superando as dificuldades que a realidade da sua profissão for impondo.

 

Uma pessoa que goste do que faz tem maiores chances de ser bom no que faz, não digo ser o melhor no que faz porque isso é uma ilusão. Não há como ser o melhor no que faz, mas, sim, talvez ser sempre melhor na comparação consigo mesmo. Quando a ideia é ser o melhor, devemos nos perguntar sobre os critérios dessa classificação. Uma preocupação tão grande com resultados costuma desprezar o processo, o desenvolvimento.

O que esperar de uma profissão? Satisfação, felicidade, prazer, dinheiro, fazer a diferença na sociedade, o respeito dos familiares e amigos e conhecimento. Esses e outros retornos e outros, nos movem no exercício de uma profissão. Esses atributos podem ser conquistados independentemente da profissão escolhida porque cada um deles se relaciona às características da pessoa. Vejam por exemplo o dinheiro. Não há profissão que dê dinheiro, mas profissional que sabe ganhar dinheiro. São frequentes as idealizações e os preconceitos com respeito a profissões: as mais ou menos rentáveis, as mais ou menos respeitadas pela sociedade, mais ou menos criativas, mais ou menos práticas. Mas toda profissão tem sua importância para a sociedade.

Por tudo isso, escolher uma profissão não é uma tarefa simples e pode envolver sofrimento. Quando há incerteza quanto à melhor carreira a seguir, convém buscar ajuda de um profissional especializado em orientação vocacional/profissional.

Maria Stella Sampaio Leite é psicanalista pela SBPSP, orientadora profissional e autora do livro “Orientação Profissional”, Ed.Pearson, 2015.

Oficinas de Escrita: A passagem ao ato de escrever

“Nós, psicanalistas, conhecemos muito bem a dúvida certamente angustiante de tornar possível uma narrativa psicanalítica”. ( Buschinelli, C. 2017)

 

Tomar em consideração a angústia diante do papel em branco, tocada de forma sensível por Cintia Buschinelli na Circular II do I Encontro de Escrita, foi a pedra fundamental na construção deste projeto da Diretoria Científica.

Imediatamente após a fundação, a passagem ao ato de escrever surgiu como algo incontornável.

Dedicadas ao estudo de tal tema, a Comissão tem um encontro decisivo com o livro “A Voz do Escritor”, do poeta e crítico literário A. Alvarez, uma obra considerada “ …a fonte ideal para entendermos como escrever, ler, escutar, viver contribui para a arte do escritor.”

Selecionamos, para compartilhar com vocês, nossos leitores, o trecho do capítulo 1, que legitima a realização das Oficinas de Escrita:

“O escritor descobre essa relação estranhamente revigorante e libertadora entre a realidade física e o prazer estético quando encontra sua própria voz: é o que destranca cadeados, abre portas, e lhe permite começar a dizer o que ele quer dizer. Mas para encontrar essa voz, ele precisa antes dominar o estilo; e o estilo, nesse sentido, é uma disciplina que se pode obter por meio de um trabalho árduo, como a gramática e a pontuação”.

Referência Bibliográfica

– Alvarez, A. (Alfred), 1929-

A voz do escritor/ A. Alvarez; traduc,ào Luiz Antonio Aguiar.- Rio de       Janeiro: Civilizac,ão Brasileira, 2006.

– Buschineli, C. Circular 2 do projeto I Encontro de escrita- 27/11/2017

https://psicanaliseblog.com.br/category/.i-encontro-sobre-escrita

 

Expressões da intimidade na vida e no divã

Ruth Blay Levisky *

A palavra íntimo é derivada do latim, “intimus”, cujo prefixo “in” refere-se ao interior, ao profundo, ao intrínseco. Thymos para os gregos na antiguidade tinha o significado de alma, lugar em que habitam os desejos e as emoções.

Esse tema despertou meu interesse e inquietude ao perceber a complexidade que envolve a esfera da intimidade. Tenho me surpreendido, como alguns jovens são capazes de ter uma amizade profunda e duradoura e, ao mesmo tempo, beijar alguém que nem mesmo o nome sabem, pela satisfação de um desejo momentâneo. Novos tipos de relacionamentos amorosos surgem na contemporaneidade, como o “netloving”, em analogia ao “networking”. Ele é representado por relacionamentos com vários sujeitos ao mesmo tempo, providos ou não de sexualidade, criando poliamores, polifamílias e polifidelidades sejam nos espaços reais ou nos virtuais. As legislações sobre os direitos de famílias têm sido revisadas diante das demandas oriundas dessas novas formas de configurações vinculares. A qualidade e a natureza de como são formados os vínculos, a história da vida pessoal de cada uma das partes, os modelos identificatórios transmitidos pelas famílias, os modos de mostrar e lidar com os afetos são fatores que podem  facilitar ou impedir o desenvolvimento da intimidade entre  sujeitos. Os limites entre os espaços reais e virtuais podem ser confundidos, fenômeno que também ocorre com a troca de intimidades; por vezes, ela chega a ser compartilhada até com estranhos. Além dos aspectos positivos provenientes do uso da internet, ela também  representa uma busca ilusória de fuga da realidade, do sofrimento e da solidão.

Diante dos paradigmas contemporâneos, penso ser fundamental refletir nosso papel e prática como psicanalistas. A “escuta psicanalítica” atual requer do profissional o desenvolvimento de competências como flexibilidade, criatividade, espontaneidade e diálogo, para ampliar a capacidade de observação sem perder o sentido do “setting” analítico. É um desafio para os profissionais colaborarem para que os pacientes desenvolvam novas maneiras “de ser e de estar em família e na sociedade”, além de abrir espaço para dar sentido às fantasias e aos conteúdos reprimidos. Por meio da relação construída entre analista e pacientes pode-se atingir partes do íntimo e trazer à tona conteúdos encobertos. Mas, pessoas com estruturas mentais narcísicas e persecutórias podem sentir maior dificuldade para um compartilhamento íntimo. Outros mecanismos defensivos também colaboram para mascarar e trancafiar a esfera do íntimo.

Diante dessa vasta gama de variabilidade, sugiro o conceito de Complexo Íntimo, que se refere ao conjunto das múltiplas expressões da intimidade que sofrem transformações, dependendo das características de personalidade do sujeito, das vivências internalizadas, do contexto e do momento histórico, social e cultural (Blay Levisky, 2017).

BIBLIOGRAFIA:

Blay Levisky, R. (2017) Expressões da intimidade nos vínculos: inteferências da cultura. Rev. Ide (63), pág. 41

* Ruth Blay Levisky  é psicóloga, grupoanalista e psicanalista de casais e famílias. Membro efetivo da Associação Internacional de Psicanálise de Casal e Família. Presidente da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família. Tem Mestrado e Doutorado em Genética Humana (USP).

** Artigo originalmente publicado na revista IDE:

Levisky, Ruth Blay. Expressões da intimidade nos vínculos: interferências da cultura.  IDE: Psicanálise e Cultura, v.39, n.63, p. 41-58, 2017

Uma fábula de amor e medo

Adriana Rotelli Resende Rapeli*

” For You are everywhere…”

 

Triste essa a condição humana, em que prazer e tragédia andam juntas, diz Giles, no início do filme “A Forma da Água”, do diretor mexicano Guillermo del Toro.  Seres em mal-estar, porque convive em nós dimensões diversas, porque espécie ainda despreparada para a evolução que nos atropela. Incompletos, guardando resquícios primitivos, somos anfíbios: compostos de medo e de amor.

O medo é ancestral pré-verbal, pré-simbólico, regressivo à condição não humana de nossa herança, redutor de mentes a corpos pelo excludente foco para a sobrevivência, condenados a  inglórias e eternas guerras. O clima da Guerra Fria e da corrida espacial retrata no filme tal situação persecutória: o inimigo está em algum lugar, o território disputado.  Em ameaça constante à vida, como animais na savana fugindo de predadores, em lutas titânicas ou em meio à sofisticada civilização, o outro é o inferno.

O outro que ameaça minha existência, o outro cuja existência eu usufruo ou até me aproprio.  O outro que trato com desprezo, superioridade. Afinal, o outro que desconsidero, que escravizo, é o outro que, ainda que valentemente, temo. O estranho repelido por sua familiaridade incômoda, perturbadora, nos apontaria Freud. A singularidade que, no comportamento de grupo, é rejeitada como diferença, Bion nos lembraria.

Já o amor, ao contrário, é a superação do medo, sua transformação em sentimento, é nascedouro da condição para pensar, preconcepção de mentes, criador de humanidade.  O amor é sonho e a única vida humana de fato, porque a compreensão do outro, de seu medo, pode ser vivida como solidão da existência que, força vital, liga e cria almas. São duas em uma alma. O outro existe então, a seu modo, não à imagem e semelhança de deuses, mas na sua diferença e formas, em um universo diverso de possibilidades de encontros e de criatividade.

Se, como a personagem Elisa, me demoro na frente no estrito aquário-casulo que o medo me confina e faço contato com o olhar suplicante do outro, eu vejo, além das aparências e envoltórios, a alma. E é a minha alma que então sobreviveu ao medo de existir. Eu convido o outro a nascer, quebrar delicadamente a casca do ovo e respirar o ar que do mundo emana.  O mundo pode ser um lugar habitável. E a minha casa-mente pode ser o habitat de sonhos. Como na cena inicial, mergulhamos no ambiente onírico-cinematográfico de azuis esverdeados, intensos e inusitados. Um ar-mar fluido, diferente da realidade fática, feito da matéria dos sonhos que compõe a nossa alma, da rica fantasia que pode habitar a intimidade de uma pessoa. De qualquer uma pessoa.

A visão redentora de pequenos grandes personagens neste filme faz dele uma ode aos outsiders, aos incompreendidos, aos desajustados de um sistema que padroniza a felicidade a um retrato de família ideal. A protagonista do filme, uma tímida fair lady, evoca-nos com sua mudez a sereia que perde a voz ao viver na terra. Talvez como nós todos, que, depois de nascidos, ainda procuramos o lugar perdido de nossa infância pré-natal, aquática, thalássica. Erótica, Elisa busca o amor, o elo vital, preservado dentro dela como linguagem apesar de incompreensível, inaudível aos outros. Além do medo, o reencontro com as origens em uma nova dimensão. Assim é a simbolização, a linguagem que integra todos os níveis de nossa estrutura. Uma linguagem que, sendo também imagem, música, movimento, é como o cinema em sua plena realização.

O cinema guarda essa polivalência, talvez por isto seja a arte que ganhou rapidamente a universalidade, que rompe fronteiras e culturas. E são filmes como “A Forma da Água” que revitalizam o cinema. Valeria só pela cena em que do amor da mulher com o homem-peixe, o casal é a fantástica criatura que se forma na água que destila, dissolve barreiras e, como chuva fértil e respinga na plateia vazia do Cine Orpheu. O Oscar de melhor filme deste ano é ótimo cinema.

 

Adriana Rotelli Resende Rapeli é Membro Associado da SBPSP e SBPRJ.

Autismo e seus transtornos

Vera Regina J.R.M.Fonseca*

O termo Transtornos do Espectro Autista, bastante usado pelos especialistas na atualidade, significa que não apenas há graus variados de manifestação e gravidade do transtorno, mas também que se trata de uma designação muito ampla, que contém possivelmente diferentes condições, de causas diversas e diversas evoluções.

Poucos são os estudiosos do assunto que ainda acreditam que haja uma causa única para o autismo; o consenso é que vários fatores se combinam para que o transtorno se manifeste. Mesmo os fatores genéticos, que parecem ter um papel importante, não podem ser responsabilizados de forma idêntica por todos os quadros. Vários genes parecem estar envolvidos nos vários casos; além disso, sabemos agora que os genes não se manifestam incondicionalmente: há fatores no ambiente externo e interno que favorecem ou dificultam sua manifestação.

Assim sendo, temos uma condição que interfere no desenvolvimento da criança, particularmente na sua interação social e na comunicação, com efeitos importantes na capacidade de aceitar mudanças e novidades, de simbolizar e brincar. Este último, o brincar, é substituído por rituais ou “manias” e, por vezes, por um apego excessivo a certos objetos concretos. Como nossa espécie é eminentemente social, é possível imaginar a profundidade e abrangência dos prejuízos que a dificuldade precoce de interação acarreta no desenvolvimento.

Nas últimas décadas tem se notado um aumento importante na prevalência dos transtornos autísticos nas culturas ocidentalizadas. Muito se discute se tal aumento se deve à maior conscientização dos serviços médicos em particular e das famílias em geral e à maior sensibilidade dos questionários diagnósticos; entretanto, mesmo quando se desconta tal fato, não se pode explicar o aumento em sua totalidade. O que estará acontecendo em nosso mundo atual? Esta é uma pergunta que tem instigado inúmeros pesquisadores e profissionais, demandando atenção, estudos imparciais e dedicação constante.

O diagnóstico dos transtornos autísticos é eminentemente clínico. Não há exames para se chegar a ele, sendo necessárias a observação atenciosa e longa da criança, uma entrevista cuidadosa com os pais sobre o comportamento da mesma e seus antecedentes e, quando houver, uma análise dos vídeos domésticos e do histórico médico.

Há um outro consenso entre os profissionais que lidam com o transtorno autístico: quanto mais cedo for iniciada a reabilitação e o tratamento, maiores as chances de melhora. Como os primeiros anos são um período crítico do desenvolvimento psíquico e cerebral, é fundamental facilitar as interações para que a criança não viva no vácuo de experiências com as outras pessoas. Quanto mais tempo ela ficar isolada das transações com os outros, mais profundos serão os prejuízos em seu cérebro/mente.

E qual é o prognóstico? A evolução dependerá de vários fatores: em boa parte, da intervenção precoce, que implica tanto ajuda de profissionais como mudanças importantes na vida e na rotina da criança em casa, mas também de elementos da própria criança, como a rigidez dos comportamentos autísticos, a permeabilidade à presença e influência das outras pessoas e o grau de isolamento.

Qual tratamento é indicado? Há várias abordagens terapêuticas frente aos TAs; algumas focalizam as mudanças no comportamento da criança e outras, como a psicanálise, buscam mudanças na estrutura do funcionamento mental. A meu ver, as duas formas não são incompatíveis, desde que haja uma equipe disposta a um trabalho de colaboração mútua. Mas qualquer destas duas vertentes, de modo geral, vai demandar acompanhamento dos pais para auxiliá-los na compreensão da mente daquela criança em particular e no encontro de estratégias eficazes para estimulá-la para o contato, na contramão dos comportamentos autísticos rígidos e restritivos, marcados por rituais e preferências que impedem a relação da criança com as outras pessoas.

Vera Regina Jardim Ribeiro Marcondes Fonseca é médica graduada pela Faculdade de Medicina da USP- Residência em Psiquiatria no HCFMUSP, analista didata e atual diretora do Instituto de Psicanálise da SBPSP, doutora e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP- Depto de Psicologia Experimental