Mês: março 2018

Melanie Klein e sua contribuição para a Psicanálise

Liana Pinto Chaves*

Há 136 anos, nascia em Viena, em 30 de março de 1882, Melanie Reizes, que viria a se tornar uma das mulheres mais influentes da história da Psicanálise e, por que não dizer, da história do pensamento. A tripeira genial, no dizer de Lacan, por conta da crueza dos termos que empregava em seus relatos clínicos; o gênio feminino, no dizer de Julia Kristeva, que dedicou a essa mulher, que marcou a história do século XX, um livro cheio de admiração.

Foi a caçula de uma prole de quatro filhos. Seu pai, médico, provinha de uma família judia ortodoxa, da qual se afastou em razão da rigidez dela. A mãe, uma mulher bonita, culta, espirituosa e interessante. Segundo a própria MK havia na casa uma necessidade ardente de conhecimento. Essa ânsia por conhecimento ocupou um papel central no seu pensamento.

A morte de pessoas queridas pontuou sua vida desde muito cedo e teve grande importância na sua teorização. Perdeu a irmã Sidonie quando ela própria tinha 4 anos; o pai quando tinha 18 anos; o irmão querido, Emanuel, quando ela tinha 20 anos e o filho, Hans, quando MK tinha 52 anos. Seu artigo fundamental ‘O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos’, de 1940, por exemplo, é uma contribuição definitiva sobre a perda e o luto, um decantado de muitos anos de reflexão.

Não cursou a universidade, como era seu desejo, por se casar muito cedo, aos 21 anos, e já com 22 ter a primeira filha. Viveu em Budapest, onde leu Freud pela primeira vez. Sentindo-se aprisionada em sua condição de mãe e mulher e num casamento insatisfatório, buscava algo que a satisfizesse intelectualmente e emocionalmente. Entrou em análise com Sandor Ferenczi, que viu nela alguém muito promissor para desbravar o território desconhecido da análise de crianças. Começou analisando os próprios filhos, algo que não era incomum naqueles tempos.

A condição feminina e seu papel de mãe, aliados a uma intuição aguda, um faro, um olhar, ouvidos, e uma particular sensibilidade à angústia e ao sofrimento das crianças, conferem à mãe um lugar central como objeto primário na constituição do psiquismo segundo o seu pensar. Logo em seguida, muito cedo, entra o pai, formando o casal parental e toda a sua concepção do Édipo arcaico. Desenvolveu a técnica da psicanálise de crianças, considerando o brincar como equivalente ao papel dos sonhos e das associações dos adultos. Ao olhar uma criança tolhida, inexpressiva ou cheia de medos e incapaz de brincar, indagava-se: por que esta criança não está brincando como poderia? O que a impede? E foi assim, enveredando para noções de fantasias muito agressivas em operação, levando ao estancamento do desejo de conhecer e à impossibilidade de se expressar.

No pensamento kleiniano, a emoção está no centro da cena e o fio que perpassa toda a teorização é o da angústia e da fantasia inconsciente. Por exemplo, a teoria das duas posições baseia-se na identificação de dois tipos fundamentais de angústia. A angústia persecutória própria da posição esquizoparanóide, e que é fundamentalmente a angústia de morte do eu, e a angústia depressiva da posição depressiva, que é o temor da morte do outro de quem o bebê depende. Este é um salto gigantesco do desenvolvimento, uma guinada, é a passagem de um tipo de lógica das relações para outro tipo de lógica, do eu para o outro.

Presta reconhecimento ao longo de toda a sua obra ao que a análise de crianças pequenas lhe ensinou. Sua observações clínicas a levaram a descobertas que não estavam contempladas pela teorização de Freud. Teve a coragem de se contrapor a ele, defendendo suas descobertas com vigor. Ela adiantou todo o calendário do desenvolvimento infantil. Postulou uma situação edipiana e a construção do superego como se dando muito antes do que previa a teoria clássica.

Considerava-se uma estrita seguidora de Freud e sua obra como uma expansão da obra dele e ressentia-se quando se via acusada de desviante. Adotou de imediato o conceito de pulsão de morte, ao contrário de tantos outros autores. A agressividade e a destrutividade, a pulsão de morte, presentes no seu trabalho sobre a inveja mais o conceito de cisão abriram caminho para a perspectiva de tratar os casos graves até então considerados intratáveis. E futuramente levaram a importantes contribuições de outros analistas para a compreensão da compulsão à repetição, das reações terapêuticas negativas, do narcisismo destrutivo, das organizações patológicas, dos refúgios psíquicos, etc.

Ao se mudar para Londres, em 1926, criou-se uma discussão ferrenha entre sua visão sobre a análise de crianças e a dos seguidores de Anna Freud. Durante os anos da segunda guerra mundial (1939-1945), tiveram lugar as grandes controvérsias (1942-1944) entre os seguidores de MK e os do grupo em torno de Anna Freud.  Os kleinianos se viram instados a responder a desafios teóricos para justificar seus achados e desse processo saíram os trabalhos fundamentais que levaram à consolidação da teoria.

Seu pensamento constitui junto com a obra de Freud os alicerces de todo o pensamento psicanalítico posterior. Seus conceitos foram absorvidos ao corpus da Psicanálise: a importância do mundo interno e da fantasia inconsciente, a teoria das posições, a destrutividade, mas também a generosidade, o amor, a reparação e a esperança, numa dialética permanente.

MK foi uma mulher controvertida, mas de grande convicção quanto ao valor de suas descobertas e de sua obra. Partindo de uma forte ambição pessoal, foi se movendo em direção à dedicação a algo muito maior do que seu próprio prestígio.

Encerro com uma breve passagem do final da biografia de MK escrita por Phyllis Grosskurth, em que ela menciona a relação especial que MK tinha com seu neto Michael:

‘Michael estava perturbado com a perspectiva da morte da avó querida. Ela lhe disse que não tinha medo de morrer. A única coisa que era imortal era aquilo que uma pessoa havia conquistado; e sua força e coragem estavam em sua crença de que suas ideias seriam levadas adiante por outros.’

E sabemos que foram. Essa era MK e aqui estamos nós prestando-lhe homenagem.

Liana Pinto Chaves é membro efetivo, analista didata e docente da SBPSP.

O íntimo, o estranho e o duplo no mundo digital

Vera Lamanno Adamo*

Be right back (Volte já), é o título do primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror, um seriado em exibição, criado pelo inglês Charlie Brooker.

Este episódio começa mostrando os personagens Ash (Domhnall Gleeson) e Martha (Hayley Atwell) mudando-se para uma remota casa de campo. Nos primeiros minutos nos deparamos com cenas corriqueiras de um jovem casal criando uma intimidade. Ele às voltas com o celular, ela tentando ser vista e ouvida. A intimidade sendo construída na constatação do estranho em si mesmo e no outro. O estranho remetendo àquilo que é o mais intimamente familiar. O estranho garantindo o íntimo e vice-versa.

Este cotidiano é abruptamente interrompido pela morte de Ash em um acidente de carro. A integridade de Martha fica ameaçada. Inconformada com limitações e com a mortalidade, Martha constrói um duplo (Ash/digital/androide) que, a princípio, é benevolente, pois protege o seu eu de fragmentação e aniquilamento. Eles formam um casal unitário, são praticamente um. Ash/androide é o reflexo e o complemento de Martha.

Entregando-se à onipotência do pensamento e valendo-se do artifício do mundo digital, Martha tenta manter Ash imortal para satisfazer o desejo narcísico de preencher a expectativa nostálgica do ideal. Mas o duplo benevolente, que antes bastava para protegê-la contra a solidão e o desamparo não é totalmente eficaz. Ash/androide acaba tornando-se o representante da morte. Um estranho anunciador da limitação e da alienação.

O androide de Ash não sangra, age de forma programada no sexo e só se revolta quando solicitado por Martha. Ela não consegue lidar com o papel de administradora de um Ash/androide feito apenas para satisfazer seus desejos. Isto leva Martha a querer destruí-lo. “Você é sinistro”, ela diz.

A cena final de Be right back acontece vários anos mais tarde e mostra Martha levando sua filha (Indira Ainger), agora com sete anos de idade, até a casa de campo, onde ela está mantendo o Ash/androide trancado no sótão. Ela permite que sua filha o encontre nos fins de semana. Enquanto sua filha está no sótão com o androide, Martha espera com lágrimas no rosto, antes de se juntar a eles.

Apesar de eficiente e tão próximo da realidade, o duplo não eliminou a angústia. A cópia não substituiu o original e não foi totalmente satisfatória. Criar um duplo é apenas um dispositivo psíquico utilizado para neutralizar o eu fragmentado, em vias de aniquilamento, até que se siga adiante.

O duplo, ao mesmo tempo exterior e íntimo, está logo ali: no quarto ao lado, no sótão, na mesma estrada, no black mirror, apto a representar tudo que nega a limitação do eu, apto a encenar o roteiro fantástico do desejo.

 

Texto publicado na íntegra na IDE, n.63, 2017

 

Vera Lamanno Adamo é membro efetivo e analista didata do GEPCampinas e da SBPSP.

 

 

 

 

A mulher-gincana

Raquel Plut Ajzenberg*

Ao interrogarmos sobre o lugar das mulheres nos últimos cinquenta anos, observamos mudanças importantes em sua condição. Freud não imaginava que o contexto das mulheres no ocidente viesse a sofrer profundas modificações, abalando os fundamentos do que se conhecia como natureza feminina

A construção dos ideais se dá na cultura. As religiões e as tradições, por meio de seus códigos morais, preceitos e rituais delineiam e explicitam o que é esperado do indivíduo. Tais referências, muitas vezes, se apresentam como normas de conduta e em diferentes épocas retratam o que se espera de uma mulher. Contudo, o que nos importa é o quanto alguns destes traços de identificação, por vezes contraditórios, adquirem força no universo psíquico criando sintomas.  Cada vez que a mulher sai destas posições e do dever de cumprir a cartilha há produção de angústia, que se intensifica diante de escolhas quase dilacerantes e perdas inevitáveis. Muitas vezes, com a atuação de um superego severo que pune um ego que se exaure: uma menina deve; uma mãe tem; mulher não pode.

Trata-se de uma espécie de compartimentalização de diferentes “eus”, como se fossem uma série de canais (mãe, esposa, profissional etc). Critérios e valores ficam sem eixos de ligação e, numa espécie de gincana, a mulher vai acumulando tarefas, acelerando exigências e cobranças num ciclo sem fim, o que me fez denominá-la mulher- gincana. São mulheres ativas, produtivas, trazem o vigor da energia em movimento e mutação mas, paradoxalmente, sofrem, queixam-se e lastimam-se.  O mito da mulher, mãe, profissional impecável, sempre disponível não pode se manter.

O que está em jogo é o grau de exigência a que a mulher se submete numa cultura que valoriza o sucesso, imagem e glamour. A impossibilidade de corresponder a esses ideais, que alimentam a fantasia de ser completa, confirmada por status, poder e beleza provoca inquietação e angústia.

A mulher da Belle Époque encontrava a saída/sem saída no adoecer.  A mulher de nossa cultura ocidental, e de nosso meio sócio econômico realiza essa formação de compromisso ao ficar saudável “admiravelmente saudável”.

Apesar da amplitude de investimento da mulher gincana, ela se encontra em uma paradoxal situação: quanto mais se ocupa e realiza, mais corre o risco de se dispersar e se consumir. Esta gincana é uma característica própria do sintoma neurótico, a compulsão a repetir.  Seu destino é estar presa e agitada ao mesmo tempo.

A mulher-gincana estará em permanente conflito se permanecer subjugada tanto a idealizações e mandamentos que são exaltados pela contemporaneidade quanto ao superego que herdou de suas avós. Fixada no cumprimento desta cartilha da mulher “total”, estará lançada, frequentemente, na experiência radical do desamparo.

Uma questão que se coloca, portanto, é a possibilidade dela se encontrar com sua singularidade, legitimando-a para não ser cúmplice do ideal do qual se tornou refém.

Imagem: Lilly’s Trends

Raquel Plut Ajzenberg é Membro Efetivo e Docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Ser Mulher na Maturidade

*Miriam Altman

Viver a maturidade como mulher hoje significa ter vivenciado na própria pele e testemunhado mudanças internas importantíssimas, além das transformações que aconteceram nestas últimas décadas ao redor do mundo.

Tanto no nível pessoal quanto no social, a mulher sofreu e ativamente buscou e participou destas mudanças culturais e econômicas, trazendo para sua vida e da comunidade em geral uma verdadeira e gradativa revolução nos costumes. Participou de movimentos feministas, lutando por mais justiça e direitos. Introduziu-se aos poucos no mercado de trabalho, conquistando cada vez mais e melhores cargos e salários.

Claro que todas estas transformações tiveram um preço, e vamos falar um pouco a respeito disso mais adiante!

De todo modo, já deu para perceber que envelhecer significa muito mais do que simplesmente entrar na menopausa, não é? Os calores, a pele ressecada, a baixa da libido, as mudanças bruscas de humor, depressão, são apenas uma pequena parte de um todo muito mais complexo.

Além disso, a descoberta da pílula anticoncepcional revolucionou os hábitos sexuais que já vinham sendo questionados. A mulher deixou de viver sua sexualidade só para fins de procriação e passou a buscar seu prazer sexual.

Essa, a meu ver, foi outra grande revolução e conquista da mulher, que contribuiu para que as mulheres mais velhas de hoje possam se ver de uma maneira mais integrada e encontrar sua autoestima, considerando seu corpo de maneira diferente das nossas avós que, de maneira geral, tinham que manter a sexualidade ainda muito reprimida.

Sendo assim, esse período da vida se parece muito com os humores da adolescência, em que se revive um desconforto corporal próximo àquele já vivido nos anos da juventude. Por isso Guillermo Julio Monteiro (2015) o nomeia “maturescência”, para designar a meia-idade ou o meio da vida, palavra que transmite a ideia de um processo de transformação. Análoga à palavra “adolescência”, que designa um processo de transformação em direção à vida adulta, enquanto a “maturescência” em direção à maturidade.

Neste momento, a mulher se dá conta que não pode mais realizar tudo, portanto é necessário priorizar. Há certas coisas que deve deixar para trás, alguns sonhos impossíveis. Talvez seja o momento de perdoar, de relativizar e de perceber que não somos eternos.

Para muitas pessoas é difícil se dar conta da finitude e dos limites do corpo e da alma. A maioria das mulheres neste momento já tem os filhos saindo de casa, outras já são avós, algumas passaram por separações…

As perdas, e é delas principalmente que estamos falando, são acompanhadas de ganhos também, mas viver os momentos de luto pela perda da juventude, do corpo sem rugas, é para muitas mulheres algo extremamente doloroso. Muitas ficam escravas de uma ditadura dos modismos e do culto a beleza que ultrapassa a vaidade e o cuidado consigo mesmas.

Quando isso deixa a pessoa sem opções e escravizada, ou então muito triste e deprimida, é hora de buscar ajuda para poder encontrar alternativas e opções para a vida, ampliar o universo mental e as escolhas. Pois é preciso chorar, entristecer-se e elaborar os lutos para seguir adiante.

Temos assistido nas últimas décadas a um envelhecer da mulher muito diferente de outros tempos. Ela tem se reinventado. Lourdes F. Alves (2001), desenvolveu uma pesquisa com mulheres entre 65 e 85 anos pertencentes à classe média paulista e chegou a conclusões interessantes. Ela afirma:

“Essas idosas, que afirmam não se sentirem velhas, geram uma categoria etária, de certa forma, nova e subvertida (…) vivenciam esta fase buscando a inserção no meio social, através do retorno ao estudo, da dedicação ao voluntariado e de uma redefinição do valor do trabalho de dona de casa. Tudo isso pode mudar radicalmente o antigo lugar comum da velhice ligada à improdutividade e inatividade”. (p.20)

O que vemos hoje são mulheres que, tendo passado por muitas lutas e experiências, acumularam recursos importantes que agora podem ser usados, de maneira criativa, na ressignificação deste momento de vida. Cada uma tem a liberdade de escolha para fazer o que quiser, seja se engajando em novos projetos, ou se dedicando aos netos e à família. O imprescindível é desenvolver este potencial, abrir-se para o mundo e encorajar-se para se arriscar.

 

Miriam Altman é membro associado à SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela USP e tem especialização em psicoterapia psicanalítica pelo Sedes Sapientiae.

A moda está fora de moda

Luciana Saddi, Miriam Tawil e Sylvia Pupo*

Acontece até 5 de maio em Nova York no museu do Fashion Institute of Technology  a exposição ”The Body: Fashion and Physique” , algo como “O corpo: a moda e o físico”, aludindo a suas dimensões – coberta e descoberta. O FIT é uma renomada escola de design, moda, artes, comunicação e negócios e teve como alunos Calvin Klein e Carolina Herrera, entre outros fashionistas famosos.

A indústria da moda tratou historicamente o corpo feminino como se fosse maleável, moldável e modificável, como matéria de escultura. Isso se dá até os dias de hoje, por meio da modelagem das vestimentas, as dietas, cirurgias, procedimentos de beleza e incentivos exagerados a exercícios físicos que deixam, muitas vezes, de levar em conta as possibilidades individuais.

A exposição percorre a história das “torturas” impostas às mulheres ao longo dos séculos, apoiadas em padrões de beleza que oscilaram de acordo com os ditames da moda e, consequentemente, da Cultura.

Antes do século 20 a figura feminina ideal era madura e curvilínea, muito diferente do ideal estético de hoje. Espartilhos, ombreiras, cinturas altas e baixas, convidaram mulheres ao longo dos tempos a mutilarem-se, espremerem-se, para corresponder aos padrões estéticos esperados, no anseio de sentirem-se atraentes e aceitas.

Por que valorizamos tanto a beleza? De onde surgem os critérios que demandam a necessidade de submetimento tirânico por parte dos indivíduos aos ideais estéticos de cada época?

Desde que o homem começou a cobrir suas partes íntimas, a roupa passou a funcionar como uma segunda pele, protegendo-o das condições climáticas adversas. A vestimenta também nos possibilita conviver socialmente. O vestir, entretanto, se tornou algo muito além da necessidade de cobrir-se; os trapos deixaram de bastar e a roupa adquiriu um estatuto de desejo, marca de identidade, caracterização de grupo de pertencimento ou de classe social.

A moda é o principal meio para pensarmos e apresentarmos o nosso corpo. A moda engessa, uniformiza ou liberta?

Alguns usam a moda – e fazem moda – para comunicar algo particular e único. Outros, por meio  da moda, apagam qualquer traço de singularidade;  perguntam : – “o que está na moda?”, revelando sujeitos que olham para fora de si, que buscam a impressão que causam refletida no olhar de outro. A aparência tem impacto. Quem não deseja ser atraente e irresistível? A moda serve também para fazer-se notar, age como uma extensão do Eu daquele que se veste. Um recurso para atrair o outro, para ser objeto de seu desejo.

Muitas pessoas são levadas a acreditar que estão de fora ou por fora, que não cabem em nenhum lugar, que são indesejáveis, pois seus corpos e sua aparência não seguem os padrões ideais que, na atualidade, envolvem ser magro, branco e jovem.

A intolerância à diversidade dos corpos é fomentada diariamente pelos meios de comunicação, mensageiros da cultura. Isso vale tanto para a aparência na sua estrutura (o físico) quanto na sua cobertura (a moda).

Outro dia a filha adolescente de uma amiga foi brutalmente humilhada ao pedir um vestido numa loja. O vendedor disse que não tinha o seu tamanho pois não trabalhavam com vestidos para mulheres gordas. Um momento gostoso, de comprar uma roupa, tornou-se fonte de angústia e dor. Mulheres e meninas são maltratadas constantemente em ocasiões como essas; são constrangidas pela enorme indústria do preconceito que fomenta a vergonha e o repúdio ao próprio corpo.

Em vez de a moda nos servir, adequar-se aos nossos corpos, os corpos são obrigados a adequar-se à moda. Talvez fosse o caso de responder: – “uma pena que sua marca não tenha criatividade o suficiente para vestir as mulheres como elas são!”

O sofrimento que a moda causa está ficando fora de moda. Mas ao contrário, o que nunca vai sair de moda, é cada um poder ser e se expressar como é.

Nós, Luciana Saddi, Miriam Tawil e Sylvia Pupo, autoras desse texto, somos psicanalistas da SBPSP, integrantes do Grupo Corpo e Cultura e representantes do Movimento Endangered Bodies em São Paulo.

O Grupo Corpo e Cultura promove campanhas de conscientização e prevenção em relação a quaisquer formas de autoagressão, incluindo corpos e mentes. Entre as iniciativas estão as campanhas “Cirurgia não é brinquedo” (http: //change.org/cirurgianaoebrincadeira), que retirou da Apple aplicativos infantis para realizar cirurgias plásticas foi um sucesso, com mais de cem mil assinaturas;  Love your Body – be you inside & out (www.endangeredbodies.org), contra a cultura do ódio ao corpo e The Real You is Sexy (https://www.theodysseyonline.com/the-real-you-is-sexy), que elimina o uso de Photoshop nas fotos dos modelos, também combatem o mito da perfeição dos corpos e oferecem diversidade. Todas elas alertam quanto à violência silenciosa da ditadura da imagem e seu impacto na autoestima e no prazer.

Luciana Saddi, Miriam Tawil e Sylvia Pupo são psicanalistas, membros da SBPSP, integrantes do Grupo Corpo e Cultura e representantes do Movimento Endangered Bodies em São Paulo (http://www.saopaulo.endangeredbodies.org/).

O primeiro sutiã…a gente nunca esquece!

Karin Szapiro*

Quem viu, lembra. A famosa campanha publicitária de Washington Olivetto para a marca Valisere em 1987. Trata-se de uma menina de uns 12 anos que ganha seu primeiro sutiã. Ela chega no quarto e surpreende-se com uma caixa de presentes deixada sobre a cama. Ao abrir a caixa, fica maravilhada com seu primeiro sutiã. Veste-se delicadamente, olha-se com encanto e poesia e suspira: “Como é lindo! Como esse sutiã me deixa feminina!”

Já vestida com seu sutiã, a menina então desfila na rua pela primeira vez, um tanto deslumbrada e ao mesmo tempo acanhada com sua entrada no mundo adulto. O filme é inesquecível, e passados 30 anos dessa campanha premiadíssima, o encanto de tornar-se mulher continua o mesmo. Afinal, não se nasce mulher, torna-se.

É um devir delicado e cheio de contradições. A menina que brincou todo o tempo de ser a mocinha, que sonhou com esse momento mágico, é tomada de emoção ao perceber que seus mamilos crescem, os seios despontam, seu bumbum esta cada vez mais arredondado e seu quadril mais volumoso.

Chega a menarca, a primeira menstruação, ela experimenta então o primeiro absorvente. É um turbilhão de sensações que acompanham tantas transformações e novidades do seu corpo. Era uma vez uma menina. Agora, abre-se o lugar para uma mulher que vai surgindo.

A menina da propaganda se encanta com o novo, mas também se assusta na rua ao se perceber admirada por um rapaz. Logo esconde seus seios por detrás de um caderno. O mundo é algo a ser descoberto, encanta, excita e amedronta ao mesmo tempo.

Nem sempre crescer é prazeroso, por vezes, é sofrido. Quando aparecem as espinhas que cobrem o delicado rosto, quando vêm as infindáveis angústias e indagações dessa fase e assim por diante.

E o primeiro beijo? Quando virá?

Será que vou ser admirada e desejada?”

Como vou lidar com tantas sensações novas que surgem dentro de mim?

Como vou conter tantas excitações que me tiram do prumo?

Como serão os primeiros passos para fora do universo que eu conheço?

Eu quero e temo, tudo ao mesmo tempo.”

Nem tudo é encanto como no filme da Valisere, nem sempre é fácil. São anos de transformações, dramas, distanciamentos, estranhamentos, aproximações e reaproximações. Inevitavelmente, uma revolução doméstica se dá e todos precisam se haver com tantas mudanças.

A adolescência tem um caráter transitório. É uma fase caótica, de comportamentos estranhos que estariam fadados a desaparecer logo ao despertar do adulto, é como uma vivência onírica que se desmancha ao longo do tempo. A menina fica para trás e surge a mulher.

Esta passagem da infância à idade adulta envolve as perdas das identificações infantis, é a entrada para um mundo social mais amplo, a novos agrupamentos sociais, à iniciação sexual e a novos vínculos afetivos. É a construção de um novo “eu”, uma nova identidade, dessa vez afastada do mundo mágico e protegido da infância.

 

Referências:

Favilli, Myrna Pia. O agir criativo: o adolescente que se faz adulto.  Boletim do Núcleo de Psicanálise de Campinas e Região, v.8, n.13, Edição comemorativa, p. 41-50, 2005.  ( Apresentado em: Jornada de Psicanálise da Criança e do Adolescente, 1; Campinas, 24 Set. 2005).

 

Karin Szapiro é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenadora do blog da SBPSP e atende em consultório particular. E-mail: karinszapiro@hotmail.com

 

Tudo sobre a Formação Psicanalítica da SBPSP

Tornar-se analista é um processo que envolve aproximar-se do próprio mundo interno para poder se aproximar do mundo interno do outro. A formação psicanalítica de SBPSP busca desenvolver no postulante as condições para que este processo ocorra, a partir do tripé da análise pessoal, seminários teóricos e supervisões.

As inscrições estarão abertas de 1º a 30 de março de 2018 (confira aqui). Nesse post, buscamos apresentar as propostas da formação psicanalítica e esclarecer as principais dúvidas sobre os processos.

Histórico

A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo começou a ser organizada em 1927 e, em 1951, foi reconhecida pela Associação Psicanalítica Internacional. Pouco tempo depois, em setembro/outubro de 1958, foi criado o Instituto de Psicanálise da SBPSP, que recebeu posteriormente o nome de “Durval Marcondes”, como homenagem a seu fundador. O Instituto é o órgão da SBPSP que coordena as atividades do corpo docente e discente na finalidade de formar psicanalistas.

Composta atualmente por 470 membros efetivos e associados da SBPSP e 349 membros filiados ao Instituto Durval Marcondes, a Sociedade de São Paulo busca manter o pluralismo teórico-clínico, a interação entre psicanalistas com orientações diversas e também estimular férteis diálogos com outras áreas do conhecimento e da cultura. Para tanto, mantém um notável fluxo permanente de atividades científicas e publicações, como o Jornal de Psicanálise e a Revista Ide.

Seleção

A maior parte dos pretendentes à formação no Instituto Durval Marcondes tende a ser de graduados em medicina ou em psicologia, desde que devidamente habilitados para o exercício profissional perante seus conselhos profissionais. No entanto, candidatos vindos de outras áreas de formação também podem se apresentar para a seleção. A única diferença é que estes últimos terão seus currículos e memoriais discutidos na Comissão de Ensino para uma avaliação preliminar de sua trajetória e da compatibilidade com o que consideramos ser essencial no perfil de um futuro psicanalista. Passando nessa primeira etapa, eles prosseguem no processo comum a todos. Portadores de diplomas de universidades estrangeiras devem apresentar prova de revalidação dos mesmos. Entre os candidatos de outras áreas, já foram aprovados profissionais de economia, direito, farmácia, hotelaria e serviço social.

A seleção propriamente dita consiste no exame do currículo e dos memoriais dos candidatos, com vistas a conhecer a pessoa e sua motivação para se tornar psicanalista. Em seguida, o pretendente passa por três entrevistas com psicanalistas da SBPSP. Cada trio de entrevistadores terá a oportunidade de conhecer a pessoa ao vivo e complementar, esclarecer ou aprofundar as informações enviadas por escrito. Tais impressões serão discutidas em seguida para se decidir pela aprovação ou não do candidato.

Currículo

Nosso currículo propõe uma base de autores considerados essenciais para a clínica psicanalítica contemporânea, e ao mesmo tempo, abre um espaço para contemplar os interesses singulares de cada membro filiado. Nesse sentido, 72% dos seminários são obrigatórios e 28% são eletivos, ou seja, fazem parte da grade curricular, mas são de escolha do membro filiado. Entre os créditos obrigatórios há 10 seminários clínicos, espaços em que a clínica e a teoria se reinventam reciprocamente e no qual os membros apresentam um caso para discussão com o grupo.

Além dos seminários obrigatórios, os docentes têm a possibilidade de propor eletivos sobre temas ou autores de seu interesse, assim como os membros filiados também podem sugerir um tema e convidar um coordenador para tal seminário. Desta maneira, acreditamos contemplar tanto a pluralidade teórico-clínica praticada na instituição, como a diversidade do pensamento psicanalítico atual.

O tempo da formação depende do cumprimento do tripé: análise didática, seminários clínicos e teóricos e duas supervisões individuais. Após a aprovação no processo seletivo, o pretendente tem no máximo um ano para iniciar sua análise didática, que terá duração mínima de cinco anos. A partir de seis meses do início da análise didática, é possível a matrícula nos seminários oferecidos pelo Instituto. O tempo mínimo para conclusão da formação é de cinco anos, que coincide com a exigência de análise didática. O tempo total da formação é flexível para cada membro filiado. Se os seminários clínicos e teóricos forem concluídos, mas os relatórios não tiverem ainda sido apresentados, o Instituto tem como requisito que seja cursado no mínimo um seminário por semestre. Tal processo tem o nome de formação continuada, que significa uma elasticidade no tempo de formação, até que o segundo relatório seja apresentado no Instituto e a qualificação seja solicitada pelo membro filiado.

Supervisão e análise didática

Como dito acima, para alcançar sua qualificação como analista da SBPSP, é necessário que o membro filiado, além dos seminários, supervisione dois casos de pacientes adultos, cada qual durante 80 horas. Ele terá, assim, contato mais regular e próximo com dois analistas didatas da sociedade, discutindo a fundo seu próprio trabalho clínico e o processo analítico. É uma oportunidade única de unir técnica e teoria, o que culminará com o exercício da escrita do relatório.

A análise didática é, em sua essência, idêntica a qualquer análise. Entretanto, sendo uma parte fundamental da formação do analista, tem algumas características formais que a distinguem: a duração mínima de cinco anos, a frequência de quatro sessões semanais e o fato de ser realizada por um analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. O didata é um membro efetivo da sociedade, que, tendo passado por um longo processo de qualificação, é avalizado pela instituição para exercer a função de analisar os futuros analistas.

E por que é exigido que o membro filiado passe pela análise didática? Porque acreditamos – e Freud nos iniciou nesta premissa – que apenas sendo analisado e vivenciando o processo de se aproximar do próprio mundo interno alguém estará apto a se aproximar do mundo interno do outro e fazer com que o processo analítico se coloque em marcha. Os vieses não são assim eliminados, mas podem ser escrutinizados pelo analista. Esta é a perna mais básica do que se convencionou chamar “tripé” do modelo de formação analítica que seguimos; os dois outros pés seriam a supervisão e os seminários.  Atualmente tende-se a considerar, informalmente, uma “quarta perna”: a vida institucional, que permite ao membro filiado estar em permanente processo de ser apresentado a novas ideias, para discussão e reflexão crítica.

Dicas

A psicanalista Vera Regina Jardim Ribeiro Marcondes Fonseca, diretora do Instituto Durval Marcondes, dá uma dica para os candidatos refletirem antes da inscrição. “É importante ter curiosidade pelo mundo mental, pela própria vida mental e pela vida mental dos outros. Também é desejável o interesse pela cultura, história, arte e ciência, ou seja, é fundamental a tendência a valorizar o que é humano”, destaca.

Outra dica de Vera é o cuidado com o memorial, pois, junto com as entrevistas, esse documento tem um peso importante para a seleção. “É importante que o candidato se dedique à escrita desse currículo comentado, sendo uma oportunidade para refletir sobre sua trajetória e apresentá-la à comissão de seleção”.