Por que os jovens bebem tanto?

Luciana Saddi e Maria de Lurdes Zemel

 

É tempo de carnaval!  “É tempo de encher a cara até desmaiar”.

Hoje a justificativa é essa. Amanhã pode ser o futebol, a balada ou a despedida de solteiro de um amigo.  Sempre haverá justificativas para encher a cara até desmaiar, afinal não faltam ocasiões festivas em nossas vidas. Supomos que sempre há tempo de modificar esse padrão, que sempre é possível beber menos ou parar de beber.

Quando somos jovens, temos a sensação de que nada vai nos acontecer – é a onipotência juvenil manifestando-se. Nunca vamos ficar doentes, não vamos morrer e muito menos vamos perder o controle só porque bebemos quatro latinhas de cerveja no bar, na sexta-feira.

É comum o jovem esquecer que é humano e, portanto, perecível. Afinal, na maioria das vezes, se encontra no ápice da força física e da saúde. Ele não pensa nos perigos, nem na fragilidade da vida. Acredita que pode tudo. Seu “prazo de validade” ainda não acabou. O tempo de se cuidar é o futuro.

A juventude, como sabemos, pode ser um período de vida bastante complexo e conflituoso. Período de formação e sofrimento. Marcado por conflito entre dependência e independência e pela dificuldade em se responsabilizar por si. É quando, muitas vezes, autonomia confunde-se com transgressão e limites precisam ser constantemente desafiados.

Os jovens fazem experimentações, querem saber quem são, como são, o que gostam, o que aguentam. Podem recorrer a drogas, sexo, força física e intelectual nessas experiências, chegando a correr riscos. Nessa fase da vida, a impulsividade é bastante elevada, o que os torna vulneráveis. Mas a força juvenil reside, justamente, na curiosidade e na impulsividade. As mesmas características que expressam a grande vitalidade da juventude podem causar prejuízos. Contradições como essas são diariamente vividas pelos jovens.

É na juventude que o álcool entra em nossas vida.  Parece “facilitar” o contato com o grupo. É um elemento conhecido, pois, em geral, é usado em casa. Está ligado à diversão e ao relaxamento, embora, muitas vezes, os pais abusem da bebida. Então, devido à familiaridade, os perigos não são considerados.

A interação com o álcool pode ser prazerosa e recreativa, mas, também pode tornar-se muito destrutiva. O álcool é uma droga como outra qualquer, atua no sistema nervoso central, é uma substância química, por isso, nesse texto e em nossos estudos, atribuímos importância ao sujeito que interage com a droga. A questão é procurar compreender o sujeito, o sujeito que bebe, como bebe, quanto bebe e quando bebe. De que maneira o álcool entra e permanece em sua vida.

Quem de nós encontra no álcool uma resposta, quem o usa para preencher vazios, amenizar angústias, driblar dificuldades como vergonha, medo, insegurança corre risco de desenvolver uso abusivo ou dependência. A juventude, por muitas razões, falaremos de algumas a seguir, está mais vulnerável, pois as mudanças corporais, os processos de transformação psíquica e física causam angústias constantes. A intensificação do desejo e da curiosidade sexual, bem como o medo de se relacionar apontam para inseguranças e conflitos intensos. O jovem está em processo de desenvolvimento, busca criar recursos para lidar com essa enormidade de questões, mas esses recursos nem de longe estão consolidados. Então, ele se vale de pensamentos mágicos, fantasias, racionalismos vazios, drogas e ações de fuga de problemas. Freud, ao se referir à adolescência, usava a imagem de um túnel sendo escavado por ambos os lados ao mesmo tempo, dando a entender os altos riscos de desmoronamento.

Não bastasse todas essas dificuldades, o jovem ainda precisa percorrer o caminho de se tornar adulto e se desvencilhar do âmbito protetor da família. Nesse processo de crescente socialização, o grupo ganha grande importância, substituindo a família e impondo novos parâmetros, novos gostos e modas. Muitos jovens passam a dizer não para suas famílias, acima de tudo estão revoltados com o sistema, com as instituições e com o poder consolidado, mas dizem sim e submetem-se aos seus grupos de amigos sem pestanejar, pois temem a exclusão e precisam, mais do que nunca, do reconhecimento de seus pares.

Em sociedades diferentes das nossas, nas quais as culturas permaneceram estáveis, o adolescente é submetido a rituais de iniciação e passagem; obrigado a enfrentar desafios, ao ultrapassar obstáculos, ingressa no mundo das responsabilidades, das obrigações e dos direitos reservados aos adultos.  Em nossa cultura não há rituais previamente definidos pela tradição, mesmo assim, observamos que começar a beber e fumar parece ser uma forma de introdução do jovem ao mundo adulto. Às vezes, essa introdução, quando precoce, o expõe a agressões.

Além, da falta de rituais sociais e familiares para ingressar no mundo adulto, há a dificuldade em identificar e nomear os sofrimentos; pouco falamos sobre nossas angústias, medos e incertezas. Somos muito exigidos e o adolescente se exige mais ainda devido às idealizações próprias da fase. Ele se sente obrigado a ser magro, bonito, alto, musculoso, eficiente, então, o álcool pode se tornar seu único amigo, pode lhe salvar do mundo de exigências, inseguranças e medos. Pode silenciar a dor no peito provocada pela angústia, fazer adormecer as vozes que não param de cobrar as coisas impossíveis de fazer e ser, calar os medos que nunca cessam e, lenta ou rapidamente, anestesiar o tormento até o sono ou a morte chegar.

A Organização Mundial de Saúde diz que, de cada 100 jovens que experimentam álcool, de 12 a 15 desenvolverão o alcoolismo.

Em nossa clínica é frequente escutar o jovem aos gritos dizer: “sim, vou beber no carnaval e vou beber muitas vezes até que você fale comigo de forma que eu possa entender sem me julgar…até eu encontrar meu caminho.”

Tomara que tenha tempo para esse encontro!

 

Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP. Em coautoria com Maria de Lurdes Zemel escreveu: “Alcoolismo –série o que fazer?” (ed. Blucher). Autora dos livros: “O amor leva a um liquidificador” (ed. Casa do Psicólogo), “Perpétuo Socorro” (ed. Jaboticaba) e “Educação para a morte” (ed. Patuá).

Maria de Lurdes Zemel é psicanalista da SBPSP, membro da ABRAMD, membro da ABPCF, coautora dos livros: “Liberdade é poder decidir sobre drogas” (FTD) e “Alcoolismo – série o que fazer?” (ed. Blucher).

 

1 comentário

  1. Muito bom esse artigo.
    Penso que deveria ser publicado em locais onde mais e mais jovens a ele tivessem acesso.
    Parabéns à Dra. Maria de Lurdes e Dra. Luciana!

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