Mês: janeiro 2018

Internet: pais e filhos confusos entre verdades e mentiras

David Leo Levisky

O Homo Sapiens está vivendo um período complexo na História das Civilizações com mudanças tecnológicas e de valores muito rápidas entre guerras de informação e de contrainformação. Verdades e mentiras confundem-se entre ilusões e fatos produzidos pelos mundos real, subjetivo e virtual. As mídias sociais produzem notícias que adquirem caráter de verdade enquanto verdades são destruídas por grupos interessados em alterar a história, nutrientes da imaginação humana rica em fantasias.

O virtual ao ser tomado como real no imaginário humano pode substituir o factual, afetar e desvirtuar a capacidade crítico-analítica e interferir nos processos de percepção e de elaboração mental. Algumas pessoas investem o imaginário com tal intensidade, transformando-o em uma crença à qual se submetem compulsivamente. É o vício. Condição equivalente às demais formas de adição que podem levar à morte ou ao desespero como foi noticiado à respeito do game “a baleia azul”.

Em nossos consultórios, torna-se cada vez mais frequente a queixa de pais desesperados, pois não conseguem fazer seus filhos, crianças e adolescentes, abrirem mão da excitação causada pela luminosidade da telinha e seus atrativos. A evolução tecnológica, a globalização, uma sociedade liberal, democrática e fluida com o fim das utopias (Bauman, 2001) trouxeram uma nova possibilidade de dependência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu, recentemente, que o uso abusivo, inadequado, da TV, videogames e computadores pode levar a um quadro patológico de compulsão. Este distúrbio mental será incluído na 11a. edição do Código Internacional de Doenças (CID) a sair ainda este ano (Saúde, 2018).

Equivalente ao workaholic e outras dependências, o uso abusivo da telinha passa a compor o quadro das “paixões tóxicas” descritas por Freud antes do livro dos sonhos (1900). A partir da dipsomania, ele chegou à paixão pelos jogos e formulou a ideia de uma base aditiva da sexualidade humana. A masturbação era o seu protótipo até chegar à teoria do narcisismo autoerótico, base das paixões tóxicas e das sexualidades aditivas. A toxicomania seria uma forma de defesa contra a depressão e a melancholia (Silva Bento, 2007).

As mídias sociais vêm adquirindo um papel ambíguo de formadoras e de deformadoras da opinião pública por suas mensagens e pela forma de uso que delas se fazem. Elas interferem na estruturação e funcionalidade do sistema nervoso central, em sua relação neuroquímica e psicológica, no aparelho de pensar e na mentalidade social individual e coletiva (Carr, 2011).

A telinha, entre os fanáticos, pode tornar-se uma espécie de devoção religiosa.  Com o mundo em suas mãos, luminosidade, movimentos e aplicativos projetam games e programas que promovem excitação, prazer, gozo e dependência tóxica, pois alteram a homeostasia psíquica, geram estados mentais primitivos que, se cristalizados como defesas irreversíveis, tornam-se traços de carácter, com alto custo para a saúde física e mental dos envolvidos e da sociedade. Estados nos quais emergem fantasias de poder, dominação, destruição, morte, hedonismo que interferem no equilíbrio do ego e das funções narcísicas. A excitação continuada tende a gerar um estado circular de mais excitação e de liberação de substâncias psicoativas até chegar à exaustão de múltiplos sistemas. Seu uso excessivo depende da personalidade, das relações familiares, das pressões do mercado entre outros elementos da cultura.

O seu uso inescrupuloso tende a mecanizar o público. Seduz, impõe, ilude, persuade, condiciona, influi no poder de decisão e no poder de compra do consumidor. Pode conduzir as fantasias e doutrinar o imaginário. Faz com que a pessoa perca a noção e a seletividade de seus próprios desejos. Essa indução inconsciente, se usada de modo contínuo e descontrolado, pode trazer graves consequências à formação do sujeito, ainda mais uma criança ou adolescente em processo de desenvolvimento. Afeta a capacidade de escolha; o espaço interno torna-se controlado pelos estímulos externos e não pelas manifestações autênticas e espontâneas da pessoa. A compulsão ao uso da telinha pode ter origem em falhas ocorridas no desenvolvimento do objeto transicional, no conjunto das atividades simbólicas e na relação self/objeto primitivo, durante o processo de formação da pele psíquica. Esta, em vez de produzir continência, leva à aderência a objetos idealizados na ilusão de encontrar continência, prazer, coragem e energia frente a um mundo fragmentado (Olievenstein, 1982).

Como psicanalistas, temos vivências clínicas e construímos teorias que, juntamente com as neurociências, nos ajudam a compreender a estruturação, a dinâmica e a economia do aparelho psíquico bem como as características das relações vinculares intrafamiliares e suas relações com os contextos socioculturais. Daí nossa responsabilidade em participar e colaborar no encontro de novos equilíbrios psíquicos, individuais, familiares e sociais.

Defendo a ideia de que tudo que se torna público e repetitivo tem grande probabilidade de se transformar em valor da cultura ao ampliar a massa de consumo, principalmente, entre adolescentes. Estes são mais vulneráveis pela maior fragilidade do ego inerente ao desenvolvimento. Motivados pela busca de experimentos, desafios, desejos de transgressão, revoltas, contestações, influenciados por grupos sociais, não se preocupam com os desdobramentos físicos e mentais. Não pensam ou não querem pensar no futuro. Prazeres imediatos, fantasias onipotentes, negação da realidade, do tempo, formas de transgressão aos pais prevalecem enquanto se escondem de fantasias de rejeição a si mesmos ou de aspectos de sua identidade ou no preenchimento de vazios internos. O gozo presente e eternizado na aparente ausência de medo prevalece com a consequente negação dos limites e da morte, da percepção do irreversível e do pouco valor que se pode dar à vida. Sentimentos de dissabor, de tristeza, de insatisfação para com a própria vida são comuns em meio a vivências de uma relação familiar conturbada. É frequente a presença de um superego punitivo carregado de elementos narcísicos nele projetados. Conluios intrafamiliares inconscientes podem estar presentes no uso indiscriminado das telinhas, não raro em meio a explicações racionais de uso apenas social, para se divertir, falar com amigos ou estudar. Dentro de uma cultura binária e eletrônica do sim e do não, do “enter” e do “delete”, processo sem maiores elaborações e criatividade, o “del” pode ser uma forma de se livrar da situação incômoda para não cair na depressão reflexiva, trabalhosa e que requer energia para se recuperar e dar a volta por cima ao lidar com frustrações.

Soifer (1975) alertou-nos para os riscos do uso inadequado da TV sobre o desenvolvimento das crianças. Levisky (1999) publicou: “The Media: Interference with the Psyche”, usadas pelos pais até como babás eletrônicas ou chupetas. Hoje, a comunidade internacional adquire consciência da necessidade de se tomar providências para atenuar as consequências do uso inadequado dos eletrônicos. Mas, ainda há muito por se fazer.

Bibliografia

BAUMAN, Z., Modernidade líquida, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.

CARR, N., O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A Geração Superficial, Rio de Janeiro, Agir, 2011.

LEVISKY, D.L., Reflexões psicanalíticas, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2009.

LEVISKY,D.L., “The Media: Interference with the Psyche”, Inter. J. Medicine and Health, vol. 11,1999, Freund Publishing House, England, pp. 327-333.

LOURENÇO MARTINS, A.G., 2007, “História Internacional da droga”, publicado em 17 de Dezembro de 2007 21:55, por encod . modificado em 18 de Dezembro de 2007 11:03

OLIEVENSTEIN, C., “A infância do toxicômano” In Olievenstein, C., La vie du toxicomane, Paris, PUF, 1982.

Saúde – iG @ http://saude.ig.com.br/2018-01-03/games-vicio-disturbio-mental.html

SILBA BENTO, V.E., “Para uma semiologia psicanalítica das toxicomanias: adicções e paixões tóxicas no Freud pré-psicanalítico” Revista  Mal-estar e  Subjetividade  – Fortaleza  – Vol . VII – Nº 1 – mar /2007 – p . 89-121.

SOIFER, R.:”A Criança e a TV – uma Visão Psicoanalítica”. Porto Alegre. ArtesMédicas. 1975.

 

David Leo Levisky  é psiquiatra, didata da SBPSP e PhD em História Social pela USP. É autor dos livros: “Adolescência- reflexões psicanálíticas”; “Adolescência e violência  – I, II e III”; “Um monge no diva”; “Entre elos perdidos; A vida? … é logo ali”.

Vamos conversar

*Any Trajber Waisbich

“Ver a representação da mulher de forma tão exposta e sensual pode parecer inadequada na atualidade, se considerarmos os movimentos feministas… Entretanto é necessário considerar a produção artística a partir de seu contexto, tomando cuidado quando fazemos análises do passado a partir de critérios do presente.”

José Augusto Ribeiro,  curador da exposição “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”. Pinacoteca do Estado de São Paulo, Set/2017-Jan/2018

 

Esta exposição poderia ser interditada a menores, ou nem ocorrer. Vivemos numa época perigosa para as liberdades.

Como psicanalista e mulher não me calo frente a este conflito, esta polêmica a respeito de assédio, estupro e violência contra a mulher nos mais diversos ambientes perpetuados por homens poderosos e nem tanto. Deixo claro que o poder exercido por um indivíduo sobre outro é prejudicial e possui consequências inimagináveis naquele que sofre maus tratos. Muitas vezes, o poder manifesta-se de formas violentas ou criminosas.

Falo sim de um lugar de privilégio. Sou branca, nasci numa metrópole, estudei em colégio público quando entrar neles era uma façanha para poucos. Estudei em uma Universidade de renome e me tornei psicanalista. Não vivi na pele encoxamentos diários e nem fui insultada por vestir o que achava bonito e o outro poderia ver como provocativo. Por não ser negra, pobre e não morar na periferia sempre andei no contrafluxo, este entendido não só literalmente. Locomovia-me desde muito cedo por meio de transportes públicos e fui encoxada, várias vezes.

Lembro-me ainda de um episódio ocorrido quando tinha uns 10 anos. Estava eu andando na rua onde nasci ao encontro de uma amiga quando um Fusca parou e pensei que queria alguma informação. O motorista abriu a porta do passageiro e vi a braguilha de sua calça aberta e um enorme pinto do lado de fora da cueca. Bom, acredito que vi, acho que era grande e o que me ficou disso foi uma enorme curiosidade e susto. Lembro-me de sair correndo. Como bem sabemos, a memória é fugidia e se atualiza constantemente.

Ao ler o artigo de Lilia Schwarcz no Jornal NEXO no final do ano passado, a respeito de sua experiência ao ser abordada por um homem no ônibus, lhe escrevi contando minha história. Respondeu-me dizendo que muitas mulheres estavam se pronunciando sobre as suas histórias secretas de violência quando adolescentes. Ao contrário de culpa, tema abordado pela autora, o que senti foi algo mais mundano e erótico. Espanto sim, interesse nascido do meu corpo que dizia algo que desconhecia com tanta intensidade. Não falei disto antes, vejo agora, por conta das emoções que aquele momento me proporcionou. Culpa não estava no cardápio.

Lembremos que, como dizia Freud, já em janeiro de 1905 em seu artigo “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, (In Sigmund Freud, Edição Standart Brasieleira das obras completas de Sigmund Freud. Vol. XII. Pg. 149-159. Rio de Janeiro. Editora Imago. : Editora Imago. Trabalho original de 1912) que o desejo é perverso, infantil e polimorfo. E vai adiante, teoriza a partir da prática que a única forma de termos acesso a ele é por intermédio de fantasias, sonhos e atos falhos além é claro, dos chistes e jogos de palavras. Fantasias não são controladas por decretos, elas simplesmente ocorrem e são poderosas, disruptivas e causam desconforto no indivíduo. Invadir o território do outro tende a ser visto como invasivo.

Agora, a Psicanálise é transgressora, ela questiona o sujeito e o coloca frente a frente com seus desejos, pulsões e tudo aquilo que ignora. A Psicanálise não explica nada, ela intermedeia, por meio de seu Método, o contato do indivíduo consigo mesmo.

Como profissional, trabalhei na periferia com homens e mulheres excluídos que me viam com desconfiança e descrédito. Várias vezes fui questionada a respeito de minha função e da transformação que poderia surgir daqueles encontros em grupos, discutindo questões que não me eram familiares por serem eventuais. Pela primeira vez, deparei-me com questões sociais importantes de difícil solução e sem respostas fáceis. Aliás, respostas simples não existem.

Kaes, psicanalista francês preocupado com o lugar do subjetivo no sujeito e das relações intersubjetivas que formam o indivíduo, auxilia-me a trabalhar o que é singular a cada um, daquilo que é dado a partir da relação, do contexto social e principalmente das Ideologias por trás destas construções. (Kaes, R.; Um singular Plural, 2011, tradução Rouanet, L.P. Edições Loyola).

Longe de defender abusos, compartilho com intelectuais francesas o desconforto de se discutir algo tão radical com esta frugalidade de slogans assistidos por milhões de pessoas na entrega do Globo de Ouro. Manifestações referendadas por feministas mundo afora. Como apontou Pedro Diniz na Folha de S. Paulo, o preto nada básico deu lugar aos troféus que artistas empunharam e mostraram com glamour; acontece que eram pessoas, ativistas negras, representantes de minorias e que serão esquecidas na próxima onda.

No livro “A Violência Familiar” (Editora Edgar Blucher, 2016), Susana e Malvina Muszkat trabalharam o lugar da violência contra o masculino nas comunidades carentes e o desmembramento desta função e seus desdobramentos. Não posso deixar de pensar no sentido de fatos como estes virem à tona neste momento e desta forma.  O que o debate feminista tem a dizer sobre a violência de gênero contra homens?

O mundo do cinema é conhecido pelos seus abusos, contaram-me de Oprah ter saído numa ou em muitas fotos com o produtor Weinstein e ao lado de garotinhas ditas indefesas. Aí estava tudo bem, pode-se alegar sempre que não sabia da coerção e da força daquele poder. Estes atos de macho predador sempre foram utilizados como forma de submissão. E com isso não menosprezo a elucidação tardia, ela veio para ficar.

Estamos aqui numa área controversa: por um lado a sociedade civil exige um comportamento adequado e civilizatório de seus membros, como nos lembram  sociólogos e antropólogos em suas pesquisas; por outro o que dizer de todas estas regras que estão em voga hoje em dia? Homens execrados e considerados inimigos.

Regras estas que, do meu ponto de vista, servem para apartar, cercear e controlar de maneira perniciosa o encontro de seres humanos. Não devemos nos eximir de conversar sobre as leis que, por exemplo, vigoram na França onde a burca, vestimenta feminina em sinal de recato, é proibida nos locais públicos e com isso inviabiliza a liberdade de ir e vir às mulheres mulçumanas.

Não nos esqueçamos de que a Suécia é um dos países onde o suicídio é um dos mais altos do mundo e neste mesmo país pode passar uma lei onde tudo que for considerado sexual tem que ser consentido e falado entre as partes. Onde vai parar o imaginário? Sedução não deveria ser confundida com agressão.

Onde ficará o erotismo? Onde se alocará a sensualidade? E o véu que encobre e desvela os sentimentos e os relacionamentos? Toda vez que um homem se colocar na posição de demandante será interpretado com assombro e desconfiança? E quando mulheres quiserem se manifestar corporalmente e presencialmente seus desejos mais recônditos, terão espaço para se expressarem? É possível conciliar as demandas por relações menos desiguais com este erotismo e sensualidade?

Finalizando, seria possível avançarmos no debate e na prática, para uma conciliação entre estes mundos? Poderia a Psicanálise aportar este tipo de insumo? Acredito que sim, esta é a função da Psicanálise fora das fronteiras seguras para ela.

 

Any Trajber Waisbich é psicanalista da SBPSP, analista de adolescentes e adultos, membro efetivo, coordenadora de seminário temático sobre Psicanálise de Grupo no Instituto de Psicanálise. Secretária da diretoria, cargo eletivo.

*Foto: VejaSP/ “Bordel”, de Di Cavalcanti, integra a mostra “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcante 120 anos”.

 

 

Sobre “Roda Gigante”, de Woody Allen

Algumas das minhas impressões sobre o filme “Roda Gigante”, de Woody Allen, em cartaz nos cinemas: pesado, muito bom, belo, fotografia, cores e roteiro inspirados nos grandes melodramas de Douglas Sirk da década de 50 (“Written in The Wind” e, sobretudo, “Imitação da Vida”, com Lana Turner). Kate Winslet dá um show de interpretação. Certamente, com a personagem e atuação de Winslet, Allen refere-se à de Blanche Dubois de Vivien Leigh, à Martha, de “Quem tem medo de Virgínia Woolf”, interpretada por Liz Taylor e, no final, à Norma Desmond, de “Sunset Boulevard”, papel de Glória Swanson (que também era uma espécie de Medéia). O filme tem impacto e fica na cabeça.

O roteiro é bastante previsível. O desenlace já se vislumbra desde o começo, como nas tragédias gregas em que já se sabe o fim. Justin Timberlake faz um dos personagens da história e também o papel do coro da tragédia aos modos da antiguidade. A grande diferença é que as personagens que sofrem ou protagonizam grandes atos de violência vivem depois como se nada tivesse ocorrido. O diretor já propôs tramas semelhantes em outros filmes anteriores como “Crimes and Misdemeanors” e “Match Point”. Essa é uma tecla em que ele tem batido com recorrência. Não que o desastre fique incólume – as gerações seguintes arcam pelos feitos das anteriores. À exemplo do que acontece nas tragédias gregas “Oresteia” e “Tebana” com o destino dos personagens Laio, Édipo e Antígona, o filme de Allen tem o garoto piromaníaco. Uma visão trágica da condição humana na dimensão particular e, analogamente, na social.

Claudio Castelo Filho é analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP.