Mês: dezembro 2017

I Encontro sobre escrita – DC

8 e 9 de junho de 2018

Nos dias 8 e 9 de junho de 2018, a Diretoria de Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo promove o I Encontro sobre Escrita. Para inaugurar as comunicações que serão publicadas neste espaço até a data do evento, selecionamos um belo texto de Sonia Azambuja, publicado na revista Ide em 2010. Nele reconhecemos a parceria que a Psicanálise faz com a Literatura para expressar seu próprio pensamento.

 

Sobre cartas: uma garrafa lançada ao mar

Sonia Curvo de Azambuja

 

Em A interpretação dos sonhos (190011972), Freud, citando a Eneida de Virgílio, coloca: “Se não posso dobrar os poderes supremos, moverei o Aqueronte das regiões infernais”

Vemos aí como, na sua base, a psicanálise faz emergir aquilo que sempre foi considerado para a história da consciência uma categoria negativa.

Nesta comoção dos deuses demoníacos, com seu sonho da “Injeção de Irma”, sonho tido por ele como paradigmático, o que seria a excelência do sonhar, dos pensamentos oníricos, que nos levariam ao insondável, ao umbigo, por assim dizer, que é o seu ponto de contato com o desconhecido. Aí pulsa o que move o sonhar: o desejo inconsciente.

Nesse sonho há algo que paira, que é o escrito em negrito: a fórmula química da trimetilamina, que é uma referência à sexualidade como básica nas pulsões que nos habitam. Contudo, esta fórmula química é também uma inscrição simbólica e ela se dirige a nós: seus leitores. É como se Freud lançasse uma garrafa ao mar. Quem pegar, pegou. Quem puder lê-lo, verá que seu maior desejo inconsciente nesse sonho é que possamos aceitar a lógica do inconsciente. O destinatário desse sonho inaugural de Freud é a posteridade. O que move o sujeito para o inconsciente é a sexualidade, e o que se encontra nele é o simbólico que se dirige sempre ao outro. Como diz Ferenczi: “Eu durmo para mim e sonho para você”.

Esta necessidade profunda de formação de parceria, de encontrar um receptor, é o que nos faz sonhar e também é o que nos faz criar pensamentos e produzir tudo o que produzimos. A carta talvez seja o gênero literário que mais se aproxime desse desejo.

Em uma carta que escrevi para os jovens analistas, tomei como mote Rilke (1966) em suas Cartas a um jovem poeta, livro amado por mim na juventude e que, como em um sonho, fisgou-me na minha vocação de analista: porque o analista, como o poeta, percebe que o homem é um ser passional. Como um barquinho, ele é tocado por paixões: amor, ódio, medo, ciúme, inveja, ternura, sedução. E foi na companhia do poeta que eu pude me dirigir em uma carta aos meus colegas em 2007.

Protect me from what I want

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Somos feitos de som e fúria, já dizia Sheakespeare. O velho Freud adicionaria que, entre fezes e sangue, nascemos. A verdade é que não somos assim tão puros e limpos como postamos por aí. Embora os filtros virtuais tentem a todo custo disfarçar nossas impurezas, existem desejos inconfessáveis inclusive para nós mesmos: provocam vergonha, são menos civilizados, trazem afetos menos aceitos, mais brutos,  geram culpa, medo e inveja. Embora o desejo nos mova, nem sempre pode ser comunicado às claras.

Muitas vezes é preciso reprimir certos sentimentos para manter determinadas escolhas. Por outro lado, quanto maior essa repressão, maior a força na tentativa de realizá-los. É que nossos instintos costumam ser  persistentes e teimosos. E, nessa tentativa de domínio, o indivíduo sofre. Conclusão: essa luta constante gera uma tensão muito forte – de um lado, uma exigência de satisfação, de outro, as leis, a moral, minhas escolhas.

O desejo nasce num lugar poderoso, uma  instância psíquica inconsciente que recebe o  nome de Id. Este vive em pé de guerra com um outro lado responsável pela censura – que recebe o nome de Superego – , que é igualmente forte e é responsável por representar internamente a moral, as leis vigentes e os valores familiares.

A civilização funciona como uma tentativa de dominar nossos desejos, de freá-los. Sejam os sexuais ou os agressivos, a  sociedade de alguma forma tenta manter uma certa ordem a fim de que a humanidade se preserve de seus próprios instintos. Sabemos que a violência do homem é inerente, tornando-o facilmente presa. Convenhamos, por mais falha que seja a sociedade, o ser humano precisa dela para relativamente se organizar .

Mas existe um lugar onde meu desejo encontra uma possibilidade de existir: os sonhos. Quando sonhamos, estamos com a censura baixa, certas coisas podem aparecer. Mesmo assim algumas são censuradas por nós mesmos – juntando uma série de elementos que criam uma espécie de quebra-cabeça simbólico, somando vivências e experiências singulares e individuais, que para cada um tem um significado. Ou seja, certas coisas aparecem de forma disfarçada quando dormimos.

Por isso, dicionário de sonhos  não deve ser levado muito a sério. Para cada pessoa, um símbolo que aparece num sonho tem um significado específico, que só pode ser  decifrado pelo próprio sujeito sonhador. O sonho é o território da realização do desejo. Mesmo que apareça de maneira torta, ele conta sobre um sentimento que, acordado, pode ser muito ameaçador.

É  como se, dormindo, nosso desejo acordasse no sonho e se apresentasse de uma forma mascarada.  Isto é, a fantasia é um dos veículos onde o desejo pode se apresentar, sem ter que brigar com nosso lado responsável pela censura. Tudo pode acontecer. E o ato de sonhar, fantasiar, nos possibilita uma tolerância maior à realidade.

Qualquer veículo onde o sonho possa emergir dá voz ao desejo. Arte, literatura, música… Não é raro sabermos de pessoas que suportaram uma condição muito difícil  utilizando-se da imaginação. Anne Frank é um exemplo.  O filme “A vida é bela”, outro.

Precisamos do sonho para dar voz ao nosso desejo e, assim, resgatar a força de lutar para viver.  É como se nos alimentássemos do território do sonho,  o desejo que ali pode aparecer  fica com sua força atenuada e nos ajuda a suportar a realidade com suas chatices.

Por isso sempre me incomodei quando escutei a frase “Isso é apenas uma ilusão”. A palavra apenas desqualifica o lugar onde o sujeito é livre, puro e existe em seu estado bruto.

Em algum lugar é preciso soltar todo nosso som e toda nossa fúria, do contrário a vida vira uma canção  monotemática e empobrecida.

 *Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

Dor psíquica e dor corporal : uma abordagem psicanalítica

*Denise Aizemberg Steinwurz

 

Ao longo da vida , com frequência enfrentamos situações inesperadas, geradoras de intensas angústias. Se, por um excesso, essas angústias não podem ser digeridas, elas transbordam para o corpo, que adoece.

Na vida adulta, uma doença física pode ser desencadeada por situações de perda, como a morte de um ser amado, a perda do emprego, condição financeira precária, separações ou momentos de impasse. Essas situações remetem à profunda dor mental, e a dificuldade de tolerar a dor leva o indivíduo, muitas vezes, a utilizar seu corpo para se defender dela. Contudo, essas situações só são consideradas traumáticas porque se ligaram, a posteriori, a um trauma anterior, relacionado a perdas significativas na infância.

Uma das importantes aquisições do desenvolvimento psíquico é a capacidade de simbolização. A capacidade de elaborar conflitos por meio de processos psíquicos depende do grau de complexidade que alcançou um indivíduo em sua estruturação emocional. A abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos compreende as doenças físicas e as afecções corporais como medidas defensivas para manter o equilíbrio dessa organização emocional. Quando há falhas nesse processo, porém, isso pode resultar na somatização dos sofrimentos psíquicos. Na ausência do símbolo e da palavra, é no corpo que eles se manifestarão.

Os fenômenos somáticos podem ser considerados uma modalidade de descarga de angústias que não podem ser pensadas e que são provenientes de experiências traumáticas sofridas em estágios precoces do desenvolvimento da pessoa. Essas vivências precisarão ser nomeadas para, então, serem pensadas e elaboradas, em vez de seguirem sendo derramadas sobre o soma.

Quadros de hipertensão arterial grave, diabetes, dermatites, fibromialgia, doenças autoimunes – como lúpus e vitiligo -, doenças gastrointestinais – como gastrite, retocolite ulcerativa ou doença de Crohn -, entre outras doenças, podem se manifestar em épocas de conflito e depois desaparecer. No entanto, elas podem se instalar como doenças crônicas que geram graus diversos de incapacidade na vida pessoal e profissional do indivíduo, colocando sua vida em risco.

Nessas circunstâncias, o objetivo de um atendimento psicanalítico será, por meio do encontro entre analista e analisando, criar condições favoráveis e necessárias para ampliarmos o repertório psíquico do paciente, de modo que ele possa pensar em seus conflitos em vez de depositá-los em seu corpo. Esse é o campo da psicossomática psicanalítica; ela promove uma abordagem voltada para as patologias decorrentes de falhas do processo de simbolização e da construção de um sólido narcisismo primário.

Pela análise, a capacidade simbólica quase inexistente poderá ser construída, por meio da colocação em palavras de cada afeto não sentido e, portanto, não assimilado mentalmente. Na medida em que o analista constrói com esse indivíduo – cuja dor no corpo grita – novas ligações psíquicas, aquilo que estava inicialmente precário poderá ganhar um novo status: onde houve a falta de uma sustentação da mãe como primeiro objeto o analista apresenta-se como um novo objeto com quem o paciente poderá – talvez pela primeira vez – ser escutado naquilo que, de fato, o corpo denuncia.

Bibliografia :

Steinwurz, D.A. ( 2017). Doença de Crohn e retocolite: abordagem psicanalítica dos fenômenos somáticos. In V.R.Béjar ( Org.). Dor psíquica, dor corporal- Uma abordagem multidisciplinar. São Paulo: Editora Blucher.

*Denise Aizemberg Steinwurz é membro filiado do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Diretora de psicologia da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD), Prêmio “Avelino Luis Rodrigues”(2012) no concurso ” Psicossomática e Interdisciplinaridade”( IV Congresso Paulista de Psicossomática), membro associado do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae.

Pedro Malasartes e o duelo com a morte: subjetividade contemporânea e mal-estar na civilização

*Cássia Barreto Bruno

O filme Pedro Malasartes e o Duelo com a Morte, dirigido por Paulo Morelli e estrelado por Jesuíta Barbosa (Pedro Malasartes), Isis Valverde, Julio Andrade e Leandro Hassum, é o primeiro longa-metragem brasileiro com tantos efeitos especiais,  realizados na sede da O2 após quase 30 anos de elaboração por parte de Paulo Morelli. É a realização de um sonho e uma jóia na cinematografia brasileira.

Sua característica é utilizar  os efeitos especiais de um modo totalmente diferente daquele que estamos acostumados a ver em filmes de ação. Traz uma nova linguagem para tais recursos, com os quais  representa o mágico, o belo, o misterioso, o profundo, o reflexivo. O diretor conseguiu juntar reflexão com ação. Criatividade brasileira!

Para comentar o filme escolhi um recorte que leva em conta  duas questões fundantes do ser humano: o embate com a factualidade da morte e a astúcia como forma de driblá-la.

No Ocidente, conhecemos esse recurso desde a mitologia grega e é nessa ambientação que o filme se situa.

As três irmãs Moiras, Cloto, Láquesis e Átropos, são as personagens da mitologia grega**  responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida dos mortais. Cloto é a que tece  o fio da vida, Láquesis é a que distribui entre os homens seus respectivos destinos e Átropos, a que tem o poder de romper o fio da vida com sua tesoura encantada.

Essas três personagens estão representadas no filme em belíssimas imagens, realizadas com efeitos especiais. Os fios da vida, entrelaçados poeticamente, nos enlevam e nos transportam para outro mundo, o mundo dos sonhos. Esse  momento misterioso do tecer a vida e o destino das pessoas é vivo, iluminado, intenso.

O rei do Mundo Inferior, Hades, é apresentado com humor fino: um trapalhão que parece até mesmo cansado e tedioso de seu oficio. Seu desejo é se aposentar e trazer da Terra seu afilhado Pedro Malasartes para substituí-lo. Para realizar essa tarefa, Hades recorre a Átropos, a fim de que esta interfira no fio da vida de Pedro. A situação começa a se complicar no momento em que as Moiras não aprovam essa ideia.

Ora, como Pedro  Malasartes é mortal e, como registrou Homero***, Hades é o deus mais odiado pelos mortais, claro que ele não gostou nada desse presente de grego. Daí resulta a segunda colocação importante do filme: como driblar a morte, isto é, como se defender de Hades, para além da ajuda das Moiras.

Como Pedro é Malasartes, Mal-as artes, das artes más que aprendeu na vida terrena da roça e colocadas de modo gentil  no filme, está posta a questão: Como Pedro vencerá esse duelo? Com  astúcia, claro, com as Mal-artes que é o outro lado do ser humano, o lado não politicamente correto.

Essa questão de driblar a morte  reverbera em muitas situações no filme, repetindo-se em vários níveis de significação, o que dá mais força ao tema. Vamos falar de dois: de um lado, o inexorável da morte certa está representado no patrão explorador que, como o Todo-Poderoso Hades, persegue Pedro Malasartes.         

O filme, nesse momento, se apoia  na antropologia  de nosso homem rural brasileiro, ou seja, que a esperteza ingênua, aprendida na escola da vida, é seu trunfo. É preciso ser esperto nessa vida.

A saída encontrada pelos humanos foi criar narrativas. Fica claro  que a inteligência humana nos provê do mundo da fantasia, essa mágica que remove montanhas, que mata os opressores e que nos devolve o Ser Desejante.           

Nos tempos primordiais, por meio da criação de deuses e da ideia de que a vida continua após a morte, foi possível  driblar  a finitude. Sabemos que a  construção das pirâmides para garantir a eternidade resultou em enorme desenvolvimento da matemática, astrologia, arquitetura,  calendário, agricultura, escrita.

Na Grécia, o mesmo ocorreu com a narrativa dos mitos. Houve um grande desenvolvimento das artes e da filosofia. O homem começou a interrogar sobre a natureza das coisas, do mundo onde estava  inserido.

Isto para dizer que, ao driblar o problema da finitude, o homem criou desenvolvimento e descobriu que, por meio de sua obra, se mantém infinito. É o que Malasartes fará.

A outra questão colocada pelo filme, que envolve a subjetividade do Sujeito, é a relação entre o bem e o mal. Qual a distância entre a astúcia e a maldade?

Vamos encontrar em Homero**** um momento muito especial, em que Ulisses usa de artimanha e  esperteza: diante de Polifemo, rei dos Ciclopes, que lhe pergunta seu nome, Ulisses ardilosamente responde: “Meu nome é Ninguém”. Após algumas peripécias, quando fura o olho do Ciclope para defender a si e a seus marinheiros, e após a chegada dos outros ciclopes, estes perguntam a Polifemo “Quem furou seu olho?” “Foi NINGUÉM.” E com isso Ulisses safou-se de ser morto pelos ciclopes.

No duelo com a morte,  a artimanha. Foi necessária uma boa dose de criatividade e esperteza para que a humanidade se desenvolvesse, a partir desse problema insolúvel por definição. Já que vou morrer, então crio alternativas e, nesse mesmo ato, crio desenvolvimento e imortalidade.

A estranheza do Reino da Morte é mostrada no filme  em  infinitas luzes que se movimentam e representam as almas, belíssima alegoria, num balé encantador. O assustador e desconhecido é transformado em Estética, outra artimanha da mente humana.

Será que Pedro Malasartes, ingênuo e astuto ao mesmo tempo, conseguirá enganar a morte? E como a Moiras poderão ajudá-lo? A conferir.

No filme, conteúdo e forma estão imbricados por essa novidade: os efeitos especiais aqui têm a função de exaltar a vida, a ética e os problemas universais que caracterizam o humano. A ideia de situar a trama no imaginário brasileiro caipira, na roça, cria um clima contemporâneo de valorizar a natureza e as raízes do homem brasileiro, e escapa do cientificismo asséptico.

O filme é um elogio à Natureza, à Ética, à Estética. Em última instância, ao Humano.

 

*Cássia A. Nuevo Barreto Bruno é analista didata e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, International Psycloanalitical Society. Coordenadora do livro Distúrbios Alimentares, Uma colaboração da Psicanálise, ed. Imago, 2011.

** Hesíodo, sec. VIII AC, no livro Teogonia, 217
*** Ilíada IX.158
****Odisséia, livro IX,365

Homens mais novos, mulheres mais velhas: uma feliz combinação

Mirian Goldenberg, antropóloga e professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concedeu uma entrevista por e-mail ao blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) sobre um tema que tem despertado curiosidade e causado agitação social: homens mais novos casados com mulheres bem mais velhas. Autora do livro “Por que os Homens Preferem as Mulheres mais Velhas?”, lançado esse ano pela editora Record, Mirian, que estuda arranjos conjugais no Brasil desde 1988, chegou à conclusão de que essa é uma das combinações mais equilibradas, satisfatórias e felizes.

 

É preciso muita coragem para enfrentar os próprios preconceitos, medos e insegurança. Qual foi o caminho dos casais que você entrevistou para isso? O que os fez chegar a esse grau de superação dos próprios preconceitos?

No início, elas (mais do que eles) tinham muito medo e preconceitos. Afinal, são elas que são mais rotuladas e acusadas quando iniciam a relação. Apesar das resistências internas e externas, as mulheres decidem aproveitar o momento e “curtir” a relação, o que torna tudo sem expectativas, mais leve e divertido. Elas têm a certeza de que não vai durar, mesmo quando já estão casadas há 10, 20, 30 anos. Esta “insegurança” faz com que o casamento seja uma batalha diária, uma conquista de todos os dias. Paradoxalmente, a insegurança leva a uma segurança do amor, da parceria, da superioridade da relação que construíram.

 

Em algumas entrevistas você afirmou que a mulher é a que sofre mais com a aceitação da própria relação e com o olhar acusador do outro. Por quê?

As mulheres são mais críticas e inseguras com a inversão da lógica da dominação masculina. O “normal” é casar com um homem superior: mais alto, mais velho, mais poderoso, com mais sucesso e dinheiro, etc. Inverter esta lógica é questionar a própria lógica reproduzida pela maior parte das mulheres. O que incomoda muito!Assim, acusam as mulheres que invertem a lógica de serem ridículas, sem noção, periguetes, de não aceitarem a própria idade, de quererem se fazer de garotinhas etc.Interessante perceber que os homens pesquisados não enxergam suas esposas como mais velhas, mas como “superiores” às demais mulheres, principalmente às mais jovens. No início, elas têm muita dificuldade, muita insegurança e muito medo. Elas sofrem muito, principalmente no início. Acham que é algo provisório, que serão trocadas por mulheres mais jovens. Elas têm pânico de envelhecer. Só com o tempo, e com a certeza de que o amor deles é realmente especial e único, elas conseguem ter um pouco mais de segurança. No entanto, elas, muito mais do que eles, demonstram ter medo de perder o amor do parceiro, com o envelhecimento. A ideia de que elas são ou parecem mais jovens do que eles é compartilhada pelos dois. Tanto pela energia delas, a capacidade de fazer muitas coisas, de desejar se aventurar e fazer coisas diferentes, enquanto eles preferem ficar em casa vendo televisão e namorando, quanto pela aparência. Eles, em vários casos, parecem mais velhos fisicamente ou da mesma idade. As mulheres têm muito mais recursos para parecer mais jovens (tintura do cabelo, roupas, corpo etc). Mas, o mais importante, é que eles não enxergam a idade delas, isso não é importante para eles. Mas, para elas é muito importante. Daí a necessidade de reforçar que eles é que são mais velhos. Elas são superiores, mas não mais velhas.

 

Por falar em outro, por que essa situação causa tanto incômodo ainda que o casal pareça feliz, realizado e bem resolvido em relação à diferença de idade?

Porque questiona todos os outros modelos de casamento mais aceitos e legítimos socialmente. Porque questiona a lógica da dominação masculina. Porque demonstra que as mulheres têm poder de escolha. Porque mostra que as mulheres podem ser superiores. Porque revela que a juventude e o corpo-capital não são os principais atributos femininos. Porque mostra que estes casais são mais satisfeitos, equilibrados e felizes. E muitos outros motivos que estão no meu livro “Por que os homens preferem as mulheres mais velhas?”

 

Quais são os principais fatores de atração da mulher mais velha em relação ao homem mais novo? E deles em relação a elas? Depois da atração, quais são os atributos de um de outro que são fundamentais para a sustentação do relacionamento?

Eles dizem que elas são mais atraentes, mais interessantes, mais maduras, mais seguras, mais divertidas, mais carinhosas, mais compreensivas, mais companheiras, mais atenciosas, mais inteligentes, mais, mais, mais… superiores às demais mulheres, especialmente às mais jovens. Elas dizem que eles as fazem sentir mais atraentes, mais jovens, mais interessantes, mais, mais, mais….superiores às demais mulheres, especialmente às mais jovens. Quando a diferença de idade é maior, os preconceitos e estigmas são maiores. Eles precisam enfrentar as acusações e preconceitos dentro da própria família. Nos casos que pesquisei, estas dificuldades acabam fortalecendo o amor, o respeito e a admiração. A segurança se torna cada vez maior, porque eles precisam estar muito unidos e certos do que realmente querem. Eles lutam, cotidianamente, para manter a relação. São mais cuidadosos, mais atenciosos, mais compreensivos do que os casais que pesquisei anteriormente, que vivem relações consideradas “normais” ou “comuns”. Eles valorizam muito mais o outro, e não se perdem em briguinhas bobas, joguinhos de dominação e disputas tão frequentes nos casamentos.

Vejo que a maturidade dos dois, não apenas dela, faz com que o casamento seja mais satisfatório e feliz. Muito frequentemente, as mesmas pessoas que têm preconceitos são as que têm mais inveja da felicidade e da coragem do casal, pois é preciso ter muita coragem para enfrentar os próprios preconceitos, medos e inseguranças. Os pesquisados comparam suas esposas a mulheres pegajosas, ciumentas, infantis. Admiram a leveza, a maturidade, a segurança delas. Como elas achavam que não iria dar em nada, viveram plenamente cada minuto da relação, sem expectativas e cobranças. Puderam ser “a melhor versão de si mesmas”, mais divertidas, alegres, leves. E, exatamente por isso, eles se apaixonaram. Elas tentam continuar sendo assim todos os dias, já que sabem que a relação pode acabar a qualquer momento. Vivem intensamente o amor e o carinho, valorizam o parceiro, são mais compreensivas, carinhosas, cuidam mais do parceiro e da relação.

O fato de já terem sido casadas (todas com homens bem mais velhos) também é uma referência para elas. Elas sabem que o fim de um casamento e de um amor não tem a ver com a idade, e sim com o que fazemos no nosso dia a dia. Acho que o segredo dos casais que pesquisei é exatamente este: eles cuidam, são atenciosos e carinhosos todos os dias, valorizam o parceiro e sentem que são únicos e especiais.

 

Você que estuda diversos arranjos conjugais avalia, com base nas suas pesquisas, essa como uma das combinações mais felizes. Quais são as evidências disso?

O fato de terem que enfrentar tantos obstáculos e preconceitos faz com que eles briguem menos e brinquem mais. Aprendem a valorizar o que possuem e não o que falta (como os casais mais tradicionais). Somente nestes casamentos encontrei um maior equilíbrio e uma maior reciprocidade. O fato de enfrentarem tantos preconceitos, medos e inseguranças acaba fortalecendo o amor e a parceria. Eles enxergam nelas o que é invisível para os outros homens, elas valorizam neles o que é desvalorizado por outras mulheres. Não faço uma apologia desse tipo de arranjo conjugal, mas é inegável que, para os casais pesquisados, as esposas são superiores às demais mulheres. E os homens dão a suas esposas o que elas mais desejam: a certeza de que elas são únicas e especiais, em um mercado matrimonial claramente desvantajoso para as mulheres mais velhas.

 

Na sua pesquisa, você se concentrou em casais com mais de dez anos de relacionamento, mas você acha que de um modo geral as pessoas estão mais dispostas a experimentar combinações amorosas com parceiros de perfis diferentes? No caso de homens mais novos e mulheres mais velhas, histórias de figuras públicas e respeitadas como o Emmanuel Macron ou a Fátima Bernardes exploradas pela mídia podem encorajar?

O caso do Macron e Brigitte é maravilhoso justamente porque mostra que não é considerado “natural” nem comum um homem amar e casar com uma mulher muito mais velha. Como mostro no livro, se a diferença fosse menor, seria mais aceitável. Mas como ele tem a idade dos filhos dela, como poderia ser filho dela (e ela mãe dele), o caso se torna inaceitável para grande parte das pessoas, especialmente para as mulheres. Discuto no livro o tabu da idade associado ao tabu do incesto. As pesquisadas falam, com vergonha e culpa: “ele tem idade para ser meu filho”, “ele poderia ser meu filho”. Muitas têm filhos da idade do marido (ou mais velhos). Algumas chamam o marido de filho. Elas contam situações em que os maridos foram confundidos com os filhos, e sentem muita vergonha e sofrimento com o olhar acusador dos outros, principalmente das outras mulheres. Eles nunca falam o mesmo, e reagem quando são chamados de filhos. Dão beijo na boca delas quando percebem o olhar preconceituoso. Como Macron, eles têm muito orgulho, respeito e admiração pelas esposas. Estão casados há muitos anos e continuam com o mesmo amor, tesão e admiração. Para eles, elas são superiores às demais mulheres, por serem mais companheiras, mais interessantes, mais compreensivas, mais carinhosas e muitos outros MAIS. Não é a diferença de idade o mais importante para eles, mas a superioridade delas com relação às demais mulheres, inclusive (e talvez principalmente) às mais jovens.

O fato de mulheres famosas assumirem, cada vez mais, suas escolhas por homens mais jovens reforça a ideia de que é possível amar e casar fora dos padrões. No entanto, o fato de POUCOS homens famosos escolherem mulheres mais velhas, mostra que essa escolha não é tão legítima assim. Parece que só mulheres muito poderosas podem ser livres para escolher homens mais jovens. Precisamos de mais MACRONS!!!! Só é preciso lembrar que ele não era famoso nem poderoso quando escolheu Brigitte. O mais bacana neste caso, como acontece em alguns casos que pesquisei, é que ele continua amando, admirando e respeitando a mesma mulher por quem se apaixonou aos 15 anos.