A instabilidade e o fracasso das negociações

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a Revista Psique.  

Abaixo, trechos do artigo de Ricardo Trapé Trinca* para a revista Psique nº 140, de outubro de 2017

(…) a vida, inevitavelmente, impõe duas tendências conflitivas e antagônicas, com as quais todos têm de lidar: os desejos – e necessidades – de toda espécie, que são sentidos às vezes com grande intensidade, e uma realidade que constantemente frustra esses desejos e imputa condições nem sempre fáceis para suas realizações. E isso faz com que se tenha que negociar, a todo o tempo, entre o dentro e o fora (…)

Viver em nosso tempo é, inevitavelmente, negociar com uma pluralidade de situações e acontecimentos internos e externos. Vivemos em uma época histórica marcada pelo predomínio da negociação, como parte do espírito do capitalismo, e isso é também um modelo mental. Mas, dependendo das circunstâncias, torna-se muito difícil ou até mesmo impossível negociar. Os fracassos nas negociações são tema recorrente dos psicanalistas, nas formas de traumas psíquicos, splittings, neuroses de toda espécie e psicoses. O trabalho do psicanalista consiste em grande parte de cuidar das formas do mal-estar baseadas nos fracassos das negociações possíveis do sujeito consigo mesmo e com o mundo, não para torná-lo adaptado, mas para ajudá-lo a dar-se conta de sua diversidade interior e poder sê-la no mundo da cultura. No splitting, partes autônomas não se relacionam mais com o restante do psiquismo, procurando resolver suas necessidades de satisfação, independentemente de outras negociações.

A indústria da informação, na sociedade contemporânea, tende a se comportar como uma indústria do entretenimento (…) tendo a função de oferecer passatempo e prazer, ao invés de criar condições para que o homem contemporâneo conviva com a diversidade da cultura e de si mesmo (…) É improvável que uma pessoa que não consiga conviver com a alteridade cultural, possa ter um contato consigo mesmo que não seja derivado de formas de autoritarismo, um autoritarismo do eu, que procura afirmar sua hegemonia e força imaginando que, assim, se tornaria independente e autônomo. No entanto, aquilo que parece uma autonomia é, na verdade, uma alienação em relação a vida mental, que foi calada ou silenciada a ponto de não mais saber quais seriam suas reivindicações.

*Ricardo T Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado ao instituto “Durval Marcondes” da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp). E-mail: ricardotrinca@hotmail.com

1 comentário

Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s