Mês: novembro 2017

Neoconservadorismo, um sintoma do mal-estar na civilização

*Marion Minerbo
**Luciana Botter

Alguns acontecimentos recentes no Brasil e no mundo nos levam a pensar numa crescente onda de conservadorismo. Liberdades e valores conquistados por grupos sociais nas últimas décadas estão sendo questionados e ameaçam ser engolidos pela onda.

Apenas para citar exemplos rápidos: museus e exposições de arte censurados pelo público, sob alegação de incitar pedofilia ou simplesmente por exibirem nus artísticos que, de repente, se tornaram “obscenos”; a “cura gay” como retorno de uma postura homofóbica; políticos de direita e/ou conservadores em ascensão, em resposta à demanda popular; manifestações racistas no futebol; e por aí vai.

Desde Freud, o mal-estar na civilização produz fenômenos que podem ser interpretados como sintomas do sofrimento psíquico consubstancial àquela cultura. Em cada época e lugar, para que uma determinada cultura se estabeleça e se torne hegemônica, ela impõe renúncias específicas. São verdadeiras amputações psíquicas.

A primeira, denunciada por Freud nesse texto, tinha a ver com a sexualidade. Mas o raciocínio vale para qualquer parte amputada, pois ela sempre faz falta e produz sofrimento psíquico – ou mal-estar, se preferirem. Em todas as épocas e lugares, a cultura oferece soluções sintomáticas que tentam minimizar o sofrimento que ela própria produz. São os fenômenos que podemos chamar de loucuras cotidianas***.

Certas pessoas aparecem como porta-vozes paradigmáticos de um sofrimento que, na verdade, é de todos. Por isso, mesmo que calemos uma dessas vozes, aparecerão outras, pois o sintoma não é individual, mas estrutural. O neoconservadorismo é um exemplo funesto disso. Mas há muitos outros sintomas, como a deliciosa e divertida gourmetização da vida [ver no blog “Você também gosta de cozinhar?”].

Hoje, muita gente adora cozinhar e/ou assistir aos programas de televisão sobre gastronomia; até os principais jornais passaram a ter um caderno semanal sobre o tema; as cozinhas ganharam um upgrade e há panelas de grife caríssimas. Essa onda gastronômica é ou não é uma verdadeira loucura? Certos pratos são “divinos” e merecem ser degustados “de joelhos”. A referência à elevação espiritual não poderia ser mais explícita. Por isso, esse fenômeno pode ser interpretado como sintoma do sofrimento produzido por uma cultura excessivamente materialista, que tende a amputar a dimensão não funcional da vida. Como se vê, a própria cultura se encarrega de produzir “soluções sintomáticas” para aliviar este sofrimento.

Que sofrimento psíquico poderia estar determinando essa onda conservadora? O que teria sido amputado?

A atual realidade socioeconômica e cultural é muito diferente do que foi a Modernidade, quando as instituições eram fortes e determinavam com mão de ferro o certo e o errado, o permitido e o proibido. Havia um conjunto rígido de valores tidos como universais orientando a conduta dos sujeitos. Quem não se encaixasse no modelo prescrito e dominante, via-se –  e era visto – como desviante. A família patriarcal, como único modelo legítimo e possível, é um exemplo da hegemonia de certos valores. Há 40 anos, quem imaginaria uma família homoparental?

Em oposição a essa rigidez, vivemos atualmente um contexto social em que tais valores são muito mais fluidos e flexíveis. Já não acreditamos em um modelo único, supostamente universal, e por isso as pessoas têm muito mais liberdade para inventar novas formas de vida. Por um lado, isso tem a vantagem de contemplar as várias formas de subjetividade. Por outro, é uma evidência da crise das instituições. É daí que surgem as desvantagens, relacionadas a uma das principais características dos nossos tempos: a “miséria simbólica”.

Mas o que é a miséria simbólica? Por que chamar de “miséria” uma situação que permite maior liberdade e em que mais pessoas podem viver de acordo com suas convicções? Porque, como se verá em seguida, estamos “passando fome”.

Quando o conceito de “verdade universal” começa a ser transformado, dando lugar ao reconhecimento de verdades subjetivas e legitimando diferentes visões de mundo, os ganhos são incontestáveis. No entanto, quando a própria noção de verdade passa a ser, ela mesma, entendida como ultrapassada e nociva –  quiçá autoritária –  e é então suprimida, aí, sim, emerge o lado patogênico da crise das instituições. Jogou-se fora o bebê junto com a água do banho.

É aí que começamos a “passar fome”. A passagem de um saudável e desejável relativismo, para um relativismo absoluto, deixa os sujeitos sem referências com as quais construir suas identidades. Sem chão, o Eu se fragiliza e passa a sofrer de uma “anemia psíquica crônica”. Submerge na angústia porque não há mais verdades minimamente estabelecidas nas quais pautar o Ideal do Eu.

É esse relativismo absoluto que produz o que chamamos de miséria simbólica: uma impossibilidade de afirmar qualquer valor como válido. O conceito bizarro de pós-verdade decorre disso. O sofrimento psíquico decorrente da amputação dessa dimensão da realidade é o desamparo identitário, termo cunhado por Susana Muszkat.

As instituições protegem nossa vida psíquica. Quando elas estão em crise profunda, ficamos órfãos das narrativas que elas criam e sustentam. A angústia que comentamos acima aparece justamente porque temos necessidade emocional de acreditar em algumas coisas – em alguma narrativa que possa dar sentido às nossas vidas. Sem elas, ficamos desnorteados,“sem propósito”-  para usar um termo que está na moda.

É aí que entra a onda conservadora. Podemos interpretá-la como uma resposta defensiva, isto é, como solução sintomática, frente à angústia produzida pela miséria simbólica. Após a desconstrução radical operada pelo relativismo absoluto, o conservadorismo emerge como uma tentativa de reconstruir algo mais sólido. Mas é como tentar curar a anemia com junkfood, em vez de comer um bom bife (!). Ou como tapar o sol com a peneira.

É importante lembrar que cada momento histórico produziu um tipo específico de conservadorismo. O da época de Freud tinha determinações bem diferentes do nosso. Por isso, podemos falar em “neoconservadorismo”, já que o atual tem a ver com a miséria simbólica, o que não era o caso na Modernidade de Freud.

O neoconservadorismo ligado à miséria simbólica tem como característica principal a defesa de valores muito concretos, colados na materialidade e na sensorialidade imediata. Para dar um exemplo: no atual contexto de miséria simbólica, o nu artístico não tem transcendência nenhuma, não representa nada – o nu enquanto símbolo deixa de existir. Na ausência do símbolo, o nu só pode ser interpretado como “uma pessoa pelada” e, portanto, algo moralmente condenável. A diferença entre o homem nu no espaço de um museu e o homem nu na rua se perde.

Em oposição a valores mais complexos, que exigem capacidade de abstração e de perceber nuances, tais como liberdade, igualdade e fraternidade, os valores neoconservadores são rasos e colados na concretude do mundo. Junte-se a isso a polarização atual e teremos um fla-flu entre pessoas que defendem valores, contra pessoas que, supostamente, querem corromper a juventude.

 

* Marion Minerbo é psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016) | marionminerbo@gmail.com

**Luciana Botter é formada em Direito pela USP, em Psicologia pela PUC-SP e atualmente trabalha, entre outras coisas, com edição e revisão de textos psicanalíticos. Editora do blog Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo.

***Loucuras Cotidianas, por Marion Minerbo: https://loucurascotidianas.wordpress.com/

Olhar o que não pode ser visto, escutar o inaudível? Contribuições da Escola de Psicossomática de Paris

Cândida Sé Holovko

Vemos emergir padrões de comunicação na clínica da contemporaneidade que expõem a precariedade das nossas teorias consagradas e nos lançam na perplexidade de encontrarmos respostas para caminhos que ainda necessitam ser construídos. Eis o que ocorre quando as questões do corpo – dos corpos doloridos, enfermos, violentados, modelados exaustivamente pelas novas tecnologias – emergem e predominam na situação psicanalítica.

A constituição familiar da qual o indivíduo participa organiza a experiência corporal e psíquica e está certamente inserida em um contexto cultural. A própria organização corporal tem uma dimensão que é dada pelas características da pessoa, mas é dada também pela visão de mundo, mitos e representações familiares. Há famílias em que áreas do corpo são tabus e que favorecem o surgimento de buracos a nível psíquico. Para que o corpo tenha existência psíquica é necessário encontrar registros de representações corporais que inicialmente são experimentados na relação com um outro que dá significados à pessoa.

Penso que a noção de um monismo somapsique desde Freud, é hoje a base essencial para toda aproximação psicanalítica e que essa unidade somatopsíquica  sob condições favoráveis tende a tornar-se mais complexa ao longo da vida do indivíduo.

Os fundadores da Escola Psicossomática de Paris (Pierre Marty, Michel Fain, Michel de M`Uzan, Christian David ), nos meados do século passado,fazem uma ruptura com o pensamento corrente da medicina psicossomática  e centram sua atenção e pesquisa no funcionamento mental de pacientes com forte tendência à somatização. Segundo Szwec (2017) « Qualquer que seja o sintoma somático, os psicanalistas da Escola de Paris, não se comportam mais como médicos, mas como psicanalistas »pág 13.

Nesta clínica psicossomática, a atenção privilegiada é dada ao funcionamento da organização psicossomática do indivíduo, às situações traumáticas que excedem a possibilidade do aparato psíquico de conter as excitações delas originadas e a incapacidade de representá-las simbolicamente. Por exemplo, quando a pessoa experimenta perdas graves, traumas, lutos não elaborados, etc., o sistema funcional psíquico ao não encontrar uma via de expressão nem psíquica, nem comportamental pode abrir caminho para o surgimento de doenças corporais. Nesse modelo, qualquer excitação – vinda do interior do sujeito ou de impactos do mundo externo – deveria ser contida por um aparato psíquico capaz de processá-la. Se isso não ocorre, às vezes vemos desencadear-se saídas defensivas com menor ou maior carga patológica (regressões somáticas positivas ou desorganizações progressivas com manifestações de doenças graves, etc…) ou seja, observamos, em alguns casos, meses depois da perda de um ou mais entes queridos, por exemplo, doenças mais passageiras, como infecções respiratórias, urinárias, gastrites, enxaquecas ou o aparecimento de doenças mais graves, como um acidente vascular cerebral, doenças autoimunes,  um ataque cardíaco, um câncer, como saídas possíveis para a sobrecarga dessas excitações não ligadas psiquicamente.

Chegar a possuir um corpo integrado psicossomaticamente, banhado pelas experiências intercorpóreas pulsionais e afetivas é uma conquista. Conquista que só é possível alcançar pela participação de um outro ser humano, que o tenha sustentado e investido amorosamente em sua autoestima, durante um tempo considerável de trocas afetivas/emocionais ritmadas e contínuas.

Poderíamos certamente supor que uma pessoa que tem falhas profundas na constituição do seu eu, nas trocas intersubjetivas, com dificuldades de fazer ligações amorosas, e mais exposta à sua pulsão de morte estaria muito mais sujeita a doenças do corpo.

Constatamos frequentemente que na clínica psicossomática, será no corpo a corpo da experiência analítica que o processo vai desenrolar-se e a/o analista será convocada/o a entrar na relação de corpo e alma, com os impactos em seu corpo e em seu psiquismo.  A tarefa fundamental de restabelecer no analisando um incremento de amor próprio, de construir ligações do que foi suprimido ou clivado e ficou sem sentido, parece ser a base para que algo de novo possa germinar e sair da imobilidade do congelamento psíquico. Aqui, ganha sentido na clínica a expressividade associativa não verbal do analisando no lugar da associação livre tão simplesmente.

O trabalho psicanalítico nesta clínica será mais voltado para a reconstrução do tecido psíquico danificado ou não constituído,acompanhando os momentos em que os sintomas corporais dão lugar às vivências psíquicas com maior elaboração simbólica e onírica, ou seja, momentos em que a dor física cede lugar a uma história compartilhada.

Como estamos em um universo sempre em busca de palavras para nomear as experiências vividas, os versos do grande Drummond pode iluminar um pouco mais esse “vasto mundo”.

“….

Meu corpo apaga a lembrança que eu tinha de minha mente.

Inocula-me seu patos, me ataca, fere e condena por crimes não cometidos.

 

O seu ardil mais diabólico está em fazer-se doente.

Joga-me o peso dos males que ele tece a cada instante e me passa em revulsão.

…..”

 

Bibliografia:

Drummond, C ( 1984) O corpo. Companhia das Letras, 2015. São Paulo

Freud, S. ed. Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, ed. Standard Brasileira ,Editora Imago, 1969, Rio de Janeiro.

——(1920) Mais Além do Princípio do Prazer. Edição Standard Brasileira

____ (1923) O Ego e o Id. Edição Standard Brasileira.

Marty,P (1993) A Psicossomática do Adulto. Artes MédicasSul , Porto Alegre.

Smadja,C.( 2001) La Vie Opératoire. Études Psychanalytiques. PUF, Paris.

Smadja,C. ( 2013)Deuil, Mélancolie et Somatisation In Revue Française de Psychosomatique ( L’Afect), PUF,Paris,. n.44, pag 218

Szwec, G. ( 1998) Les galériens volontaires. PUF. Paris

Szwec, G. (2017) La Psychosomatique quelques débats aprés…In La Psychosomatique, organizado por Félicie Nayrou e Gérard Szwec , PUF, Paris, pag 7

 

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Este artigo terá acréscimos conceituais e ilustração clínica na apresentação do dia 23 de Novembro, na SBPSP, no Evento “A Psicanálise e suas Clinicas, A Clínica da Psicossomática”.

 

 

Cândida Sé Holovko é Membro Efetivo da SBPSP e da IPA; Coordenadora do Grupo de Estudos Psicossomática Psicanalítica da Escola de Paris na SBPSP; Membro em final de formação do Instituto de Psicossomática de Paris: Coordenadora do Committee on Women and Psychoanalysis (COWAP- IPA) para a América-Latina ( 2014-2017). Organizou três livros sobre o tema: Sexualidades, Gênero e Funções Parentais pelas editoras: Letra Viva da Argentina (2016), Karnac de Londres ( 2017) e Blucher de São Paulo (2017).

A Disposição para o Assombro

Leopold Nosek

Penso que assombro e infinito são os pilares da ética a ser exercida na clínica psicanalítica, e são eles também que dão um caráter sublime ao estético quando, diante do infinito, o espírito se move e num instante de fulguração tem uma parcial revelação do sentido.

Assombro evoca também a reação diante da particular aventura que nos é proposta nos estertores do século XIX: a viagem pelos espaços interiores que encontrará sua radicalidade na experiência psicanalítica. No extremo oposto, o positivismo, também datado, instala-se na crise da religiosidade do século XIX e substitui o molde religioso como crença. Entra por uma janela quando, pela porta, pensava-se expulsar qualquer resquício de metafísica. Nada mais distante do projeto freudiano, que, oriundo do Esclarecimento, ao tomar o inconsciente como objeto se caracterizará paradoxalmente como um projeto iluminista noturno.

A descoberta de Freud abre no século XX uma nova fronteira para as grandes navegações – o continente da subjetividade – e representa, é certo, um progresso crucial para a capacidade do homem de explorar a si mesmo. A tentativa de colonizá-lo, porém, configura também um novo e inevitável ato de violência, o que me levará a equiparar o inconsciente ao infinito e, com isso, atribuir à psicanálise uma ética derivada da recepção do outro. Como acolher cada paciente, a cada vez? Todo rosto nos põe diante do infinito da alteridade. Ser ético implicará a disposição cotidiana para o trauma, o susto, o assombro que significa, a cada vez, abrir a porta para um estrangeiro.

Minha paixão pela aventura psicanalítica poderá talvez ser encontrada nestas páginas […] Deixo em aberto a ideia, ou o desejo, de ter sido capaz de me movimentar no “modo fértil”, como costumamos dizer em psicanálise quando nos referimos ao modo da construção do pensamento. Nesse modo da sexualidade, mais uma vez o assombro e o susto. Seja como for, espero que meu eventual leitor possa experimentar algo do prazer que acompanha inevitavelmente o espírito quando este, num átimo, tem um vislumbre da liberdade.

 

Leopold Nosek é psiquiatra, psicanalista e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Ex-presidente da SBPSP, FEBRAPSI e FEPAL. Chair do Think Tank da IPA sobre o futuro da psicanálise e da IPA.

Meu primeiro relógio… meu primeiro celular

* Regina Elisabeth Lordello Coimbra

Nos muitos anos de trabalho psicanalítico com crianças e adolescentes observei um momento bem especial, verdadeiro marco, linha divisória e ritual de passagem para a conquista de novo patamar de desenvolvimento emocional: a hora de ganhar o primeiro relógio.

Era um grande acontecimento, geralmente recebido em festas comemorativas, fazendo parte de um ritual, como presente recebido de uma pessoa com muita importância afetiva dentro da família.

Vi latentes olhares para o primeiro relógio como se estivessem diante de um troféu que os permitiriam ter acesso à passagem do tempo – uma grande conquista!

A partir de então, a percepção do tempo seria compartilhada, favorecendo maior inserção na realidade e consequente diminuição do pensamento mágico.

À semelhança do completar o álbum de figurinhas, o tempo chegava e  propunha novo paradigma, a tolerância pela espera de um suceder de etapas necessárias para o desenvolvimento emocional.

E agora, em tempos atuais, o grande momento é a conquista do primeiro celular. “Qual a melhor idade?”, perguntam os pais. Quem sabe?

Perdeu-se o significado do grande momento, banalizou-se o ritual de passagem como grande conquista do desenvolvimento, qualquer hora é hora!

Como psicanalista aprendi: o desenvolvimento não pula etapas! E agora, estamos todos surpresos, pais e psicanalistas!

Diante da desenvoltura de seus pequenos filhos com as telinhas, os pais não entendem o que se passa com eles e entre eles. Com certeza nem os filhos!

Alguns pais buscam saídas, tentam resgatar o valor do tempo como o senhor das nossas vidas:

  • “Uma hora de celular por dia e livre no final de semana!”.
  • “Na hora em que o boletim chegar, se as notas não forem todas azuis, ficará sem celular!”
  • “Se não tomar banho na hora em que eu mandei, ficará sem celular por uma semana”.

Estamos submetidos ao novo senhor dos tempos: o celular!

 

*Regina Elisabeth Lordello Coimbra é membro efetivo, docente e psicanalista de Criança e Adolescente da SBPSP |bethcoimbra07@gmail.com

A Geração Y no mundo do trabalho: dor de crescimento ou opressão sem ganho?

*Renata Zambonelli Nogueira

Com alguma frequência tenho me deparado com situações em que interlocutores de gerações anteriores à minha se queixam das características dos “jovens de hoje em dia”, apelidados de Millennials ou Geração Y. Eles se referem às pessoas nascidas depois de 1990,  que constituem a primeira geração crescida num mundo verdadeiramente globalizado, imersos na onipresença das tecnologias – especialmente da internet e das facilidades materiais -, e cuja chegada ao mundo do trabalho revelou um importante choque geracional.

Os mais velhos os descrevem como egocêntricos, preguiçosos, mimados, “cheios de mimimi”, excessivamente zelosos de sua vida pessoal e, frequentemente, os acusam de desconhecer a realidade, não saber que “é preciso dar duro para se tornar alguém na vida” e querer tudo de mão beijada.

Penso que, embora caracterizado a partir da realidade norte-americana, esse conflito geracional tenha alguma correspondência em certos recortes das cidades brasileiras. Pude observá-lo na Faculdade de Medicina onde me graduei em 2011 e na qual, atualmente, me dedico a atividades didáticas com os alunos. Ali me parece que a estrutura hierárquica que formou tantas gerações de médicos em São Paulo já não exatamente serve às atuais. Falas de professores renomados como a de que “diamantes se fazem sob pressão” são ferozmente atacadas e provocam intenso sofrimento psíquico entre os alunos, marcado por sentimentos de incompreensão e desamparo, em lugar de uma adaptação produtiva. A tradicional cultura médica de investimento total, de valorização da resiliência levada ao limite, do orgulho narcísico de enfrentar bravamente jornadas de 48horas de plantão pode estar com os dias contados sob a gerência dessa nova geração. O que aconteceu?

De imediato, penso que devemos abandonar a pretensão de “explicar” toda uma geração, e vou modestamente oferecer uma das minhas ideias à prova para pensarmos um possível fenômeno em desdobramento na cultura: as estruturas totalizante das instituições perderam o seu sentido, e o sofrimento dentro delas não está mais associado a um crescimento que vale a pena, não é mais significado como uma “dor de crescimento”. Na ausência de sentido, vive-se uma espécie de opressão sem ganho.

Tentarei, então, decupar minha hipótese da perda de sentido na forma de perguntas que nos ajudem a pensar.: Quais seriam as diferenças fundamentais no caldo de cultura em que cresceram esses jovens? Quais os reais efeitos da tecnologia na subjetivação, e como as formas virtuais de se relacionar com o outro interferem na capacidade de sustentar relações reais? O que mais, historicamente, aconteceu no mundo nos últimos anos, e quais as perspectivas desses jovens no nosso momento histórico? Quais tipos de relação de trabalho estão disponíveis para eles? Como a economia e a realidade dos processos de produção e consumo interferem nas dinâmicas subjetivas de funcionamento? Como esses jovens lidam com a espera diante de tantas facilidades materiais?

No meio psicanalítico se discute, hoje, a existência de novas formas de sofrimento na contemporaneidade. Como psicanalistas, sabemos da influência peremptória da cultura sobre os processos de constituição do sujeito, e a ideia corrente a respeito do nosso tempo é a de um momento histórico de desilusão diante de uma suposta falência do projeto moderno, um enfraquecimento das instituições e um sofrer característico da pós-modernidade, marcadamente distinto do sofrimento dos neuróticos analisados por Freud. Eu incluiria nessa análise uma dimensão categoricamente política. Há uma crise social instalada a partir do capitalismo neoliberal levado ao seu extremo: banalização do consumo, superficialidade das relações humanas e precarização das relações de trabalho.

Tentarei descrever o que entendo por sofrimento contemporâneo por meio de uma ilustração. Há poucas semanas assisti ao filme de Terrence Malick, “De canção em canção”, e saí do cinema como quem sai do consultório após uma longa sequência de sessões difíceis. Mundos mentais áridos, pouco povoados, vivências de tédio, repetição e completa ausência de sentido. “Qualquer experiência é melhor do que nenhuma”, diz uma das personagens. Os cenários são casas amplas, translúcidas, com horizontes infinitos, repletos de nada. Gavetas vazias, relações sem lastro, desejos sem densidade, descontinuidade…

Tudo isso contraposto a uma beleza estética deslumbrante das personagens, dos figurinos e dos cenários arquitetônicos. Seria o filme um retrato onírico da nossa sociedade de consumo? Poderíamos comparar aquela fotografia exuberante à cultura da imagem, dos perfis das redes sociais repletos de selfies e check-ins, da necessidade de promover a si mesmo, de ser visto numa vida de felicidade e plenitude, para que ela se torne minimamente satisfatória, para encobrir com curtidas o mal-estar?

Me remeto a imagens descritas por meus pacientes em análise, buscando uma espécie de “nutrição de verdade” no mundo de hoje: eles procuram por alfaces que não pareçam plástico, frutas que não sejam insossas como aquelas bonitas do mercado, peitos sem silicone… Para além dos seus significados nas análises individuais, me pergunto o que essas experiências sensoriais da contemporaneidade estarão representando.

Hoje nas grandes cidades vive-se um completo desconhecimento dos processos produtivos, e o consumo é fácil e indiscriminado.  Estaria essa dissociação relacionada a um esvaziamento simbólico na cultura? Existirá uma espécie de banalização do acesso a qualquer coisa, de forma a destituir de valor o objeto de desejo? Haverá um processo semelhante no trato com o outro, que, quando fora do aplicativo, de carne e osso, pode se tornar excessivamente falho, frustrante, trabalhoso, intolerável?

Penso que é situando-nos nesse difícil contexto de múltiplos esvaziamentos que podemos nos colocar a pensar as dificuldades dessa geração em realizar e sustentar investimentos libidinais, tolerando as frustrações impostas pelo princípio de realidade. Falo aqui das relações de trabalho, mas acho que o problema também se estende às ligações amorosas. O substrato real não os ajuda em nada nessa tarefa: vagas precarizadas, vínculos informais, carreiras de ensino superior desparecendo do mercado, extinção da aposentadoria, instituições corrompidas, falidas e desacreditadas – e espaços de conhecer gente cada vez mais deslocados ao espaço virtual, onde basta um clique para se desimplicar.

Há um desafio posto às novas gerações. Elas estão sujeitas a reinventar referências, reconstruir a solidez na cultura e restabelecer, à sua maneira, a capacidade de ligação.

*Renata Zambonelli é Psiquiatra e Psicanalista, membro filiada à SBPSP | renatazambonelli.psi@gmail.com

Sobre a Feminilidade

**Anne Lise diMoise S. Scappaticci

Tentarei expor algumas ideias acerca do feminino do ponto de vista mental. Estas linhas refletem o meu modo de pensar a feminilidade como psicanalista e partem da minha experiência de trabalho clínico apoiada nas análises de mulheres das mais diversas faixas etárias que tive a oportunidade de acompanhar.

Penso, tanto em meu trabalho clínico como na vida em geral, na questão de gênero como entrada na vida psíquica, algo maior e não apenas “gênero”, “sexo” ou, ainda, “sexualidade” – em sua acepção mais restrita e literal da palavra. Está ligada a identidade, a busca de si mesmo e, portanto, à “autobiografia” de cada um de nós. De algum modo, a feminilidade está sempre presente em nossos relacionamentos. O feminino não é prerrogativa de gênero – tratar-se de homem ou mulher – , mas, sim, poder pensar com a emoção em algo cuja natureza permanece envolvida no mistério. Não pode ser revelada, somente intuída. Se houver condições, pode ser vivida.

O feminino é, portanto, algo inaugural no psiquismo humano. É, e sempre será, mistério, algo original, origem de cada um, matriz, o que leva à busca de aproximação ao longo de toda a vida, nunca o bastante. Uma condição de infinitude que vai ganhando formas finitas à medida em que descobrimos nosso próprio método de apreensão do real e que podemos, gradualmente, ir descartando a fantasia onipotente de posse do mesmo.

Melanie Klein, psicanalista que investigou profundamente a vida mental infantil, focalizou o mundo primitivo feminino de maneira concreta. Curiosidade e respeito pelo interior do corpo materno constituindo interesse pela descoberta de seu próprio mundo interno, ampliando o sentido de responsabilidade. Assim, uma janela se abre para o infinito, feminilidade.

Por outro lado, descreveu o desejo de possuir e esvaziar o ventre materno, o espaço mental íntimo e sagrado sendo vorazmente profanado, despertando o receio de retaliação. Retrata a Luta para sair da Melancolia e tolerar o Luto pela dor provocada. O preponderar desta dimensão satura o mental de dor não sentida. Luta-dor…

As questões de gênero estão, portanto, relacionadas com a identidade de cada um. Assim, ao descobrir a feminilidade colocamos em evidência a tensão existente entre o feminino e o masculino em nós mesmos, um intercurso psíquico. Nestes momentos, vivenciamos a tensão do contato com o desconhecido, do nunca abordado, o que, de um lado, desperta a curiosidade e, de outro, o medo pelo tumulto que a experiência emocional engendra.

Se a pessoa tem uma noção e uma abertura para a sua vida psíquica, ela se torna um autor, conquista sua própria autoria. Cada “autor” possui profundamente uma noção pessoal da própria verdade, e esta seria a sua janela para o mundo. A feminilidade é a conversa permanente e íntima entre o sentir e o pensar, funções interligadas e nunca completamente satisfeitas. Justamente por unir ambas, cada vez que uma noção de si é atingida, apesar de ser uma sensação de acordo efêmera, ela permanece no psiquismo de maneira profunda. Assinatura da alma?!

Um caso clínico

Cavalgada…

Estou diante de uma mulher que chora um choro sentido e desesperado, que me faz remexer na cadeira sem encontrar conforto.

Suas lágrimas parecem esvaziar seus recursos, seu continente.

Embora siga seu discurso, seu tom de lamento me lança para longe de seu conteúdo. O clima é de desesperança. “A rosa está despedaçada”, ela repete e repete. Olho para ela e paro em seus cabelos. Está deixando-os crescer grisalhos; metade da cabeça é cinza e a outra, preta. É quando, de repente, digo a ela que estou ouvindo uma música. “Roberto Carlos”, eu complemento, “Cavalgada, se intitula”. Ela responde que aquilo parece brega demais e eu concordo com um “sim. Muito!”, mas a música e a situação me emocionam. Canto para ela o trecho que me vem  à  cabeça e depois ouvimos a música juntas.

Vou me agarrar aos seus cabelos/ Pra não cair do seu galope…Sem me importar se neste instante sou dominado ou se domino/ Vou me sentir como um gigante/ Ou nada mais do que um menino…
Estrelas mudam de lugar/ Chegam mais perto só pra ver/ E ainda brilham de manhã/ Depois do nosso adormecer/ E na grandeza deste instante
O amor cavalga sem saber/ E na beleza desta hora/ O sol espera pra nascer”

Despeço-me com o Tema de Alice, interpretada por Adriana Calcanhoto

 Se eu não disser nada
Como é que eu vou saber?
Onde fica a estrada
Do castelo do querer
Qual a resposta?
Me diga, então
Qual é a pergunta?
Se eu não disser nada
Como eu vou saber
Onde fica a chave
Do mistério de viver?

*The room with a view (1985).Reino Unido. Diretor: James Ivory

**Anne Lise diMoise S Scappaticci é psicanalista pelo IPA, professora da  Sociedade Brasileira de Psicanálise e doutora em Saúde Mental pelo Departamento de Psiquiatria da UNIFESP.  | annelisescappaticci@yahoo.it

 

*** O artigo será publicado integralmente pela editora Blucher num livro coordenado por Claudio Castelo e Renato Trachtenberg sobre o Feminino.