Mês: outubro 2017

Bissexualidade, narcisismo, identidade e a escuta psicanalítica do nosso tempo

Patrícia Cabianca Gazire

Sobre a bissexualidade

A incerteza de ser homem ou mulher, nenhum dos dois, ou ambos, é própria das neuroses estudadas por Freud, histeria ou neurose obsessiva. A incerteza expande-se, porém, e ultrapassa a questão das neuroses se tomamos o ser humano no sentido ontológico e nos propomos a pensar questões atuais que se impõem aos psicanalistas, como a identidade de gênero, por exemplo.

O tema da diferença sexual colocou-se como o enigma fundamental e constitutivo do sujeito freudiano. Enigma esse que impulsiona o sujeito a uma ou mais “escolhas” sexuais que, em seguida, marcam sua identidade (sexual ou de gênero). Escolha, aqui, não deve ser entendida no sentido intelectual, mas, antes, envolvendo uma série de processos inconscientes que conduzem o sujeito a uma ou outra direção na vida emocional.

Tudo começa com a bissexualidade psíquica. Ao passar pelo processo de castração ou complexo de Édipo a pessoa vive uma série de experiências traumatizantes em que intervém um elemento de perda, de separação em relação a um objeto amado. Essa “falta” impele o sujeito a assumir seu desejo. Mas, nesse momento, ele é lançado diante de um impasse que nunca se conclui: a elaboração da bissexualidade originária.

Há duas maneiras de compreender o complexo de Édipo. Uma delas é a forma simples, baseada na experiência do menino, que nutre sentimentos ambivalentes (de amor e ódio) pelo pai, já que tem desejos incestuosos pela mãe. Nesse processo, as semelhanças e diferenças entre masculino e feminino deixam de ser atribuídas à presença ou ausência do pênis. Ao pênis é conferido o valor de símbolo e, tanto para o menino, como para a menina, a questão passa a ser a ausência ou presença não do órgão sexual anatômico, mas do falo, que simboliza poder, fertilidade, autoridade, etc. Da mesma forma, a ameaça de castração não é o medo concreto de ter o pênis amputado, mas ocorre no plano da fantasia, relacionando-se à função de interdição da realização do desejo.

A segunda maneira de entender o complexo de Édipo é pensá-lo como completo, não partindo do menino, nem da menina, mas da bissexualidade. A ideia é que o complexo de Édipo é bissexual, na medida em que, seja o sujeito biologicamente menino ou menina, todas as relações são perfeitamente possíveis com as figuras parentais no plano da fantasia. Portanto, anatomia não é destino, todo ser humano tem a possibilidade de passear livremente pelo masculino e feminino quando nos afastamos do sexo – ligado à atividade e à satisfação das necessidades fisiológicas – e entramos no registro do sexual – entendido aqui como o pulsional, uma série de excitações que envolvem todo o corpo, desde a infância.

A possibilidade elaborar o complexo de Édipo e de atravessar a “crise” da castração – ou seja, de abdicar de desejos incestuosos, de ter esses desejos interditados e de, com isso, incarnar a função da lei e da ordem necessárias para a vida em civilização –, essa possibilidade só é viável na confrontação com a bissexualidade. E essa confrontação, e a concomitante elaboração da castração produzem um impacto direto no narcisismo, pois perder o pênis – ou falo – põe em perigo a imagem do eu de que a criança dispõe. Muitas vezes, é por meio de um narcisismo exacerbado (posturas onipotentes, arrogância e intransigência em relação ao diferente) que o sujeito se defende da angústia de castração deflagrada diante da necessidade de transformação da bissexualidade originária.

Ou seja: a bissexualidade originária expressa-se por meio do sentimento de ambivalência afetiva (amor e ódio por todos os objetos), sentimento este que tem de ser transformado para que se institua a criação de laços sociais entre as pessoas. Isso implica renúncia ao narcisismo, à onipotência, e aceitação do outro como separado do eu.

Bissexualidade não é polimorfismo. A ideia de bissexualidade parte do pressuposto de que a vida psicossexual ignora a contradição. A bissexualidade não nega que existam dois sexos, ela os acumula. A bissexualidade não reconhece a diferença entre os sexos, ela desempenha as mesmas. O indivíduo que fantasia a noite sexual na cena primária se identifica com os dois protagonistas, ele é um E o outro.

Alguém pode viver a bissexualidade com toda liberdade: ser homem e mulher, em todas as posições identificatórias que os investimentos pulsionais, edípicos ou não, permitem. Essa aparente plasticidade psíquica não impede, no entanto, que a pessoa se sinta oprimida por essa mesma “escolha” que é, na verdade, expressão do determinismo inconsciente. No inconsciente, não há certo, nem errado, nem masculino e feminino; as leis que o regem não são movidas pelas regras da moral e da ética. Quando o inconsciente se faz notar, em um tempo que não pode ser compreendido senão à posteriori, como um segundo tempo, o conflito já está fixado, o caminho do desejo já está traçado e o sintoma já está constituído. Portanto, não há, na verdade, possibilidade de “escolha”. Em sua “escolha”, o sujeito se vê preso, “levado a…”. E precisa poder vir à análise tratar do seu impasse essencial: não há prazer sem desprazer, não há realização de desejo sem sintoma, não há criação sem destrutividade, não há vida psíquica sem conflito, não há conflito sem inconsciente. É isso que nos propomos a escutar como psicanalistas.

 

Um pouco mais sobre o narcisismo

A saída narcísica exacerbada acima referida é resultante do enfraquecimento do eu e não de seu amadurecimento e equilíbrio. O indivíduo “muito” narcísico é aquele que, diante de situações que ameaçam suas certezas e crenças, ou quando perde algo ou alguém, sente-se ameaçado, não tolerando outra saída que não a onipotência: o conhecimento absoluto de si e do outro, o conhecimento absoluto de modo geral, de tudo e todos, o enrijecimento em uma determinada posição social, com posturas arrogantes e intransigentes. A onipotência pode se manifestar ao se querer SER os dois sexos. Minha identidade sexual pode resultar da imagem concretizada do desejo de quem me “olha”: se meu namorado é homossexual, sou homem; mas se meu namorado gostar de mulheres, sou mulher.

Há, aqui, uma relação direta com a instância psíquica que costumamos chamar de supereu – as censura ou consciência moral, o “juiz”. O supereu, herdeiro do complexo de Édipo, forma-se a partir das identificações do eu com a figura paterna de autoridade que são projetadas no exterior – nas leis, na cultura, nos líderes religiosos ou políticos. Se o eu é mal formado ou apresenta problemas em suas fronteiras, o supereu não adquire função recalcante dos conteúdos psíquicos. O funcionamento por meio do recalque seria a saída “amorosa”, construtiva, não narcísica do complexo de Édipo, em que o sujeito se relaciona com líderes que ao mesmo tempo protegem e sancionam, garantindo a convivência em grupo e laços sociais saudáveis. Ao contrário, quando as identificações do supereu fixam-se em imagos fracas, porosas, há um declínio das funções da lei, dos limites e das possibilidades sublimatórias. Os indivíduos ficam presos em uma posição de submissão e obediência cegas a figuras autoritárias – um exemplo disso são os líderes dos regimes totalitários que levam seus discípulos a práticas cruéis sem a possibilidade de discriminação e questionamento. Em termos teóricos, o regime econômico das pulsões entra em uma espécie de colapso e, sem a proteção do recalque, passa a funcionar por meio de intensas descargas, observadas em comportamentos como uso de drogas, automutilação, tentativas de suicídio, atitudes extremadas de amor e ódio etc.

Estamos longe de pensar que “os narcisistas não sabem amar”, afirmação muitas vezes encontrada em discussões envolvendo a ambivalência sexual ou uma indefinição na escolha de gênero. Lembramos que entre um “narcisismo positivo”, ligado à vida e ao desenvolvimento das potencialidades individuais, e um “narcisismo negativo” próprio de comportamentos autodestrutivos, há uma série de possibilidades de amor. Encontramos muitas pessoas cuja bissexualidade não impede de manterem relações afetivas conjugais ao longo de muito tempo.

 

Sobre a questão da identidade

Nós, psicanalistas, com frequência discutimos a questão da identidade imersos numa cultura em que impera o eu. Não podemos esquecer que tanto as “múltiplas identificações”, como a “bissexualidade psíquica”, quanto às divisões da tópica psíquica (eu, id e supereu) recusam toda concepção de cunho identitário. Lembremos ainda que, em Freud, a palavra “identidade” é encontrada nos processos de formação dos sonhos. “Identidade” está a serviço de algo que ainda vai se realizar, algo que se encontra “em processo”. Portanto, a identidade é mais o objeto de uma busca do que a definição de um estado. Talvez seja essa uma proposta de como posicionar nossa escuta na sala de análise, quando nos propomos a tratar pacientes imersos na dissolução/desconstrução da “identidade psíquica”.

 

Referências bibliográficas

André GREEN (1983) Narcisismo de vida, narcisismo de morte, trad. Cláudia Berliner, São Paulo:Escuta, 1988.

Jacques LACAN (1938) “Os complexos familiares na formação do indivíduo” trad. Vera Ribeiro et al, in Outros escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 29-90.

Sigmund FREUD (1908)“As fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade”, Obras Completas, trad. Paulo César de Souza, São Paulo: Cia das Letras, volume 9, 2013.

__________ (1923) ),“A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade”. Edição Standard Brasileira das Obras Completas,volume XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1969.

_________________(1923) “O Eu e o id”, Obras Completas, trad. Paulo César de Souza, São Paulo: Cia das Letras, vol. 16,2011.

________________ (1924), “A dissolução do Complexo de Édipo”, Obras Completas, trad. Paulo César deSouza, São Paulo: Cia das Letras, vol. 16,2011

________________(1925-1931) “Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos”, Obras Completas, trad. Paulo César de Souza, São Paulo: Cia das Letras, vol. 16,2011.

 

Patrícia Cabianca Gazire é psicanalista e escritora, professora e supervisora de psicanálise do Departamento de Psiquiatria da Unifesp/Epm. Membro Associado da SBPSP, Doutora em Psicanálise pela Université Paris Diderot (Paris 7) e pela USP, doutoranda em Escrita Criativa pela PUC-RS. Autora do livro “Objeto: modo de usar” pela Editora Blucher (no prelo). Possui vários artigos publicados em psicanálise e seus textos literários podem ser lidos no blog Saperlipopettehttps://patriciacabiancagazire.wordpress.com/

Uma reflexão sobre o lixo eletrônico tóxico e seus efeitos no psiquismo

*Helena Cunha Di Ciero Mourão

Diferentemente das pacientes da cena de Viena de Dr. Freud, as meninas de hoje protestam em CAPS LOCK ao invés de mergulharem na repressão e na resignação. Nossas jovens millennials lutam pelo feminismo desde cedo, questionando o papel da mulher. Brigam para serem ouvidas na escola, enfrentando, a seu modo, uma sociedade que emoldura e enfraquece o sexo feminino.

Esse questionamento me parece ter aparecido antes de se sentirem acuadas no papel feminino. Essa reflexão é, hoje, construída junto com a feminilidade, não posteriormente. Ponto para a nova geração!

As meninas de hoje relatam também abusos sofridos em grupos fechados de mulheres nas redes sociais: “Share your pepeka” é um deles, no qual trocam experiências referentes à sexualidade. Há também o #agoraéquesãoelas, um movimento para que revelem em seus perfis virtuais os abusos sofridos.

Em contrapartida, essas mesmas meninas que brigam para serem respeitadas por suas escolhas sexuais entoam canções de funkeiros que são absolutamente desrespeitosos com a figura feminina, por vezes violentos. Os tais “proibidões” são a antítese desse discurso feminista. Colocam a mulher num contexto que banaliza não apenas a sexualidade, como as drogas. Me pergunto se essas jovens que cantam essas canções compreendem, de fato, o que propagam. Se questionam a si mesmas se querem ser tratadas pelos parceiros como as personagens das canções de suas playlists.

Recentemente assisti ao documentário Hot Girls Wanted, que investiga a entrada de jovens meninas no mercado pornográfico. Todas por volta de 18 anos, em busca de dias de glória e glamour. “Já que vou transar, por que não filmar? Já que o nude pode vazar, melhor eu mesma me expor por vontade própria” , relata uma das jovens. São meninas que entram nesse mercado em busca de fama e sucesso às custas de uma exposição violenta e precoce. Uma decisão impulsiva, um acting out em busca de independência.

O espectador acompanha com tristeza a falta de intimidade dessas meninas consigo mesmas, com seus sentimentos, com seu próprio corpo. O olhar assustado e, por vezes, opaco que elas trocam com os parceiros-atores, a violência à qual se submetem, a falta de amor pelo próprio corpo. O filme é uma denuncia triste. Vale assistir para refletir.

Refletir que toda uma geração formará sua sexualidade assistindo a vídeos na internet e esbarrarão nos mais diversos conteúdos. Ouvindo canções repletas de violência e promiscuidade que podem vir a ser a canção-tema de uma noite marcante. O desabrochar dessa fase marca toda uma relação “eu-corpo” que durará por toda a vida. Intimidade não pode ser excluída desse período, como se fosse algo sem valor.

Trata-se de um espaço importante da construção do psiquismo. O fantasiar foi, em alguns aspectos, substituído pelo Google, e muitas vezes o conteúdo digital é assustador. A internet oferece possibilidades diversas, sem que o jovem tenha um aparelho digestivo psíquico suficientemente forte.

Devemos pensar cuidadosamente sobre como as mídias podem ser invasivas, sobre o que é informação e o que é lixo eletrônico tóxico, cujos resíduos ficam marcados permanentemente numa mente em formação.

 

*Helena Cunha Di Ciero Mourão é  membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e especialista em psicologia psicanalítica pela Universidade de São Paulo | hcdiciero@gmail.com

 

Big Little Lies – a grande mentira sobre as mulheres

*Marielle Kellermann

Big Little Lies é uma série de uma temporada com 7 episódios produzida pela HBO. Baseada em um romance de mesmo nome da escritora australiana Liane Moriarty, estreou em fevereiro de 2017 e já recebeu ótimas críticas e apreciação do público.

Resumindo de forma rápida, a série começa com um assassinato e se desenvolve com uma trama bem desenhada até o desfecho, quando o espectador descobre quem morreu e quem é o assassino.

Esse é o fio que alinhava cenas repetidas de mães levando seus filhos à escola passando por pontes suspensas em uma pequena e rica cidade da Califórnia. As personagens principais são mulheres que se conhecem por terem seus filhos estudando no mesmo colégio. Reese Witherspoon e Nicole Kidman estão entre as estrelas da série.

As cenas de início de cada episódio são repetidas, mas nem por isso são monótonas. Aliás, talvez por essa razão, carregam cada vez mais em certa tensão que se desfaz apenas no final. Mães em seus carros, levando seus filhos à escola pela manhã, por vezes absortas em pensamentos. Em outros momentos, tentando, em vão, fazer contato com filhos que prestam mais atenção em seus celulares, fones de ouvido e Ipads, as personagens vêm e vão por sobre pontes elevadas na costa do Pacífico. Um vento constante sopra, dando a impressão de que estão todo o tempo à beira de um precipício.

De início o espectador se vê diante de mulheres com as quais é difícil empatizar, pois elas rivalizam entre si, boicotam a festa de aniversário de uma criança só porque não gostam da mãe dela, tomam seus maridos por confidentes de sua competição, invejam e odeiam umas às outras.

Uma personagem sofre por ser uma profissional de sucesso e exagera na decoração e lembrancinhas da festa da filha por temer que as outras mães a considerem relapsa por trabalhar. Outra abandonou uma carreira exitosa e tenta, sem sucesso, convencer-se de que ser exclusivamente mãe e esposa é suficiente. Uma outra tem um caso em segredo com um colega de trabalho e vive uma batalha permanente com o ex-marido e a atual esposa dele, com quem a filha adolescente parece ter mais proximidade e mais afeto. Outra personagem central na trama é uma mãe vítima de estupro que vive o conflito de ver em seu filho a violência do pai/ agressor.

Nicole Kidman ganhou o Emmy e o ator que faz seu marido também levou o prêmio como coadjuvante, não sem mérito. Ambos fazem um casal cuja relação violenta e abusiva se mescla à quase perfeição de suas belezas, das roupas, dos filhos gêmeos e da casa à beira-mar. A personagem de Nicole Kidman maquia os hematomas no corpo e esconde as dores da relação violenta mantendo uma visão idealizada que todos têm de sua família.

A personagem que foi estuprada costuma correr pelos penhascos à beira-mar, flertando com um possível suicídio – a ideia de que todas podem cair a qualquer momento está sempre presente -,  mas uma cena simples parece fundamental para mostrar sobre o que fala Big Little Lies. Essa personagem, mãe, jovem, solteira, vítima de um estupro, corre sempre sozinha. Mas, a partir do momento em que faz amizade com outras duas personagens (Nicole Kidman e Reese Witherspoon) e passa a correr acompanhada, com uma amiga de cada lado, ela não parece mais que pode cair.

Sem spoilers para o final da trama, a descoberta sobre quem morre e quem mata parece nos contar de que grande mentira a série trata. As pequenas mentiras fazem parte das histórias pessoais de cada mulher, a violência, a insegurança, um amante, mas a real big lie talvez seja a ideia – criada, vendida, anunciada – de que elas são rivais, de que estão umas contra as outras, de que se ameaçam.

A última cena se dá na praia, as personagens estão juntas, os filhos brincam. Talvez a maior mentira seja a de que mulheres não podem se apoiar, se admirar, se ajudar. Big Little Lies é, afinal, uma série delicada, bem feita, bem produzida e que, longe de estereótipos feministas ou ideias militantes, conta uma nova versão sobre possíveis relações entre mulheres, que talvez não seja uma versão contada por homens.

Pois como diz Rosa Montero em “A Louca da Casa” (2003): “(…) à medida que nós, mulheres romancistas, formos completando essa descrição de um mundo que antes só existia em nosso interior, tornamos esse mundo um patrimônio de todos.”.

 

*Marielle Kellermann Barbosa é membro filiado ao Instituto da SBPSP, editora da International Psychoanalytical Studies Organization e fã de carteirinha de séries boas.

 

O pulso ainda pulsa: “Our souls at night”

Maria Cristina Labate Mantovanini*

Acabou de estrear na Netflix “Our souls at night”, dirigido por Ritesh Batra e estrelado por Jane Fonda e Robert Redford. O filme poderia passar despercebido, como mais uma história de amor “água com açúcar”, para se assistir num domingo à noite, se não fosse por um pequeno, porém relevante, detalhe: a idade de seus protagonistas, ambos beirando os 80 anos.

Outra boa surpresa: os personagens, apesar da idade, não estão morrendo, vítimas de uma doença terminal, e tampouco estão sofrendo de alguma grave demência senil. Em “Our souls at night” o amor na velhice não foi confinado no porão escuro e úmido das memórias fugidias de um passado longínquo, reafirmando a ideia que não há lugar para o amor quando não se é mais jovem. Tampouco, no filme, o amor foi relegado à descrição vil e deprimente do seu fim, causado pela morte, sempre demorada e cruel, de um dos parceiros.

Nessa singela história de amor, Addie  e Louis (Jane Fonda e Robert Redford) são vizinhos, viúvos, sozinhos e com filhos adultos que moram em outras cidades. Os dois se aproximam, se conhecem, tornam-se amigos e namoram.

A ousadia do filme é revelar que amor e erotismo não são exclusividade das pessoas jovens. Addie e Louis vão, aos poucos, tornando-se amigos. Ao narrarem um para o outro seus passados, vão recuperando partes doloridas e sombrias de suas vidas, revisitando tristezas e mágoas, compreendendo melhor suas escolhas, se perdoando.

Não há premência no amor desse novo casal de velhos. Não há pressa em se consumar nada. Há apenas uma vontade de se estar junto, lado a lado, em se perceber não mais tão sozinho. Amor, esse, tão diferente do amor juvenil, sempre vivido velozmente, com urgência, a sugar todo o seu sumo até a última gota.

Addie e Louis passam as noites conversando, rememorando e dormindo. Vão pouco a pouco encantando-se um com outro, acordando, lentamente, algo dentro deles que havia sido esquecido e deixado para trás, provavelmente, ao findar da juventude.

Juntos vão ao cinema, ao restaurante, cuidam do neto de Addie, acampam, viajam, dançam. Assim, ambos são tocados por um pulsar que diz haver vida, vida essa que havia sido esquecida, mas que delicadamente foi reinvestida e renascida.

Para finalizar, acho importante destacar que é muito surpreendente e corajoso, em tempos de culto à eterna juventude do corpo e da alma – em que  ser velho é quase uma falha moral – , um filme mostrar, de forma extremamente elegante, a cena de dois atores velhos, com seus corpos envelhecidos, na cama, se beijando, prestes a ter uma noite de sexo.

 

*Maria Cristina Labate Mantovanini é psicanalista, membro associado da SBPSP e Doutora em Psicologia da Educação pela FEUSP.

Arte e interrogação

*Silvana Rea

Ao surpreender-se com aquilo que escapa ao estabelecido como os lapsos de memória, a troca de palavras, os sonhos, Freud construiu a Psicanálise e assim ultrapassou os limites do conhecimento. Por sua vez, a Psicanálise sofreu forte reação na comunidade científica do início do século XX, ao abalar a convicção na supremacia da racionalidade. O desejo, a sexualidade infantil e a noção de inconsciente provocaram escândalo e, para surpresa nossa, mesmo hoje desconcerta certos setores da sociedade.

Ainda que as gravuras eróticas de Hokusai tenham sido apreciadas desde o século XVIII e que o conjunto dosTemplos do Kama Sutra, em Khajuraho, na Índia, reverenciados nos anos 950, foram declarados patrimônio mundial pela Unesco. E ainda que as fotografias do contemporâneo Robert Mapplethorpe, merecessem concorrida retrospectiva no Jeu de Pomme, muitos foram os artistas injustiçados pela postura de intolerância ao novo. O trabalho de Egon Schiele, um dos grandes do Expressionismo, levou-o à prisão em 1912 por ser considerado pornográfico. No Brasil de 1931o painel de Cicero Dias Eu vi o mundo… ele começava no Recife,  referência na história da arte brasileira, teve cortados fora os três metros que representavam nus. A dimensão da obra e sua mutilação deixaram Mário de Andrade boquiaberto, como escreve a Tarsila do Amaral. Do mesmo modo que ele se chocara em 1915 diante de Homem Amarelo de Anita Malfatti – trabalho que adquiriu durante a exposição antes que a maior parte dos quadros fosse destruída a bengaladas, apesar de não terem conteúdo sexual. Esta atitudes de reação ao ineditismo da   arte lembram que em 1937 Adolf Hitler expôs obras expressionistas na célebre mostra “Arte Degenerada”, como parte de seu bárbaro projeto de eugenia.

A noção de inconsciente e do desejo como motor do psiquismo concebem um homem em direção a algo que o transcende e a algo que sempre ultrapassa o instituído. E que quando segue seu caminho em direção do simbólico, afasta-se dos riscos de ser realizado em ato. É esta uma das funções do trabalho artístico: romper com o estabelecido, transgredir para construir um universo representacional que passa a ser repertório cultural da humanidade. Porque como na Psicanálise, é vocação da Arte manter-se em permanente postura de interrogação daquilo que é dado. Impossível reduzi-las à normatização e regular as suas possibilidades de experimentação.

Silvana Rea é Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pela Universidade de São Paulo.

 

 

 

 

 

 

A fronteira entre a internação compulsória e a involuntária

A Sociedade Brasileira de Psicanálise colabora com a revista Psique.

 

Abaixo, trechos do artigo de Gustavo Gil Alarcão* para revista Psique nº 139, de setembro de 2017

 

“A internação voluntária, involuntária ou compulsória é sempre insuficiente no laborioso trabalho de integração psíquica que precisa, necessariamente, ocorrer em cada um, o que não retira completamente o valor dessa prática”.

 

“Pode ser chocante imaginar alguém enraizado em um mundo muito diferente do meu e daquele que idealizo como bom. Pode ser impactante imaginar que alguém encontre seu lugar no mundo que parece degradado, violento, insensível. A questão que se coloca é: como compreender esse processo para cada pessoa?”

 

“Com prática da internação, o mal, que antes era exorcizado, hoje foi deslocado para a noção de gravidade, de agravo à vida. Em Medicina qualquer noção de gravidade significa o risco de perder a vida, logo se cria um estado de emergência. Nesse contexto praticamente qualquer ato está naturalmente autorizado, já que ele se coloca como um ato de proteção da vida, um ato de legítima defesa da vida. A Medicina contemporânea usa e abusa dessa noção para se consolidar como o campo de discursos sobre a vida. (…) No campo da construção da subjetividade e, portanto, das autonomias, os estados de emergência dificultam muito o desenvolvimento do pensamento e da reflexão”.

 

Gustavo Gil Alarcão, membro filiado ao Instituto de Psicanálise SBPSP, psiquiatra Colaborador do Serviço de Psiquiatria IPQ HC FMUSP e Doutorando Departamento de Medicina Preventiva FMUSP.

 

 

Uma abordagem psicanalítica do filme ‘O Minimo para Viver’

Cássia A.N.Barreto Bruno

O fato é que vivemos num mundo onde os fenômenos surgem tão rapidamente que não temos tempo de assimilá-los e ficamos sem saber o que fazer diante do novo. Esse é o caso das novas doenças da alma, como diz Piera Aulagnier.

O filme ‘To the Bone’, do diretor Marti Noxon, realizado em 2017,  trata o tema  anorexia do ponto de vista da pessoa anoréxica, isso é, com a  indiferença afetiva que a caracteriza. Nesse sentido, não faz apologia  do mau relacionamento com a mãe e nem das dificuldades com a sexualidade, jargões que caminham juntos nesta questão.

Devemos entender que não estamos  preparados psicologicamente para os sofrimentos da alma, tais como sofrer o medo, a autoexigência, a inveja, a alegria, o amor. Temos medo desses sentimentos e recusamo-nos a vê-los e aceitá-los. É difícil  perceber que estamos apaixonados ou que estamos competindo com a mãe. Ficamos constrangidos, no mínimo.

É nesse contexto que o filme mostra uma jovem que, ao não poder elaborar situações complexas da vida, desenvolve recursos de sobrevivência psíquica utilizando o próprio corpo. Encarna no corpo e torna palpável aquele  afeto que na vida real não consegue enfrentar: controla o sistema digestivo, tomado na sua maior concretude, de tubo de entrada e saída de alimento, ali, onde o afeto não é digerido, é expelido para o corpo sem deixar marca psíquica.

Não tendo aparato mental que consiga fazer frente aos desafios do seu nível de exigência de ser a melhor profissional, de ser o ideal grego de beleza, já que ideal é por definição algo não atingível, a decepção consigo é repetidamente vivida no corpo, entre comer e vomitar, controlando severamente  e castigando seu corpo nos exercícios doloridos, para conseguir um pouco de paz mental.

Implícita está a fantasia inconsciente de que, ao exigir de seu corpo o impossível com os exercicios (quase um castigo), e privar-se dos alimentos (fonte da vida), seu ideal imaginário de perfeição será alcançado. Que perfeição é essa a ser alcançada? Em última instância, esta perfeição seria o encontro consigo mesma.

É poder ser verdadeira ao experimentar os afetos que são humanos: amor, ódio, conhecimento. Parece simples, mas afetos humanos são aterrorizantes, e exigem aprendizado de negociação com o real e também desenvolvimento de  vocabulário afetivo, o que implica em ambiente externo facilitador e amoroso, condição necessária para aprendizagem.

Nem sempre a  familia  é um ambiente facilitador de aprendizagens afetivas. Como é muito claro no filme, as angústias do grupo familiar  são projetadas na mocinha: ela é a doente, e as questões desse grupo sólido e assustado diante do mundo ficam  aglutinadas na jovem. Ela é a  expressão das angústias  culturais do grupo familiar.

Nesse caso, os pais ao não saberem  o que fazer porque também não têm vocabulário afetivo, não voltam sua atenção para dentro do grupo familiar e passam a  encarar o grito afetivo-corporal da adolescente como um problema só da filha e daí o passo seguinte e mais asséptico é a medicalização.

Ora, não existe uma parte separada do todo. No filme, isso é bem retratado. Quando a família interna a adolescente, o problema fica bem longe, bem circunscrito, na filha, e não na dinâmica familiar, “que alívio, não precisamos nos questionar”.

Lá, ela  encontra seus pares e, por meio da figura de um rapaz afetivo, verdadeiro nas suas idiossincrasias, verdadeiro consigo próprio antes de tudo,  ela encontra o  ambiente facilitador que é respeitar o ser humano como ele é, na sua verdade particular, no lugar de ficar exigindo que ele seja outra pessoa que não si proprio, ou pior, que seja um ideal de ego. Porque esse, nem com todo exercício do mundo será atingido. É um ideal. Só isso.

O humano é imperfeito, é real e não ideal. Se não amamos nossas imperfeições, estamos condenados a esse castigo de Tântalo.

O chefe da clínica, personagem de Keanu Reeves, trata a jovem como ser humano a ser preparado para o confronto entre afeto e real, entre processo primário e secundário, dirá Freud. O trabalho terapêutico por ele realizado é o de continência afetiva, de introdução ao processo civilizatório do vocabulário afetivo. Na clínica há um ambiente facilitador.

Uma última palavra: a anorexia atinge todas as idades e gêneros, casos muito graves devem ser tratados com equipes multiprofissionais, casos mais leves são bem tratados pela psicanálise. Há uma gradação de gravidade e o que vamos privilegiar na psicanálise é que a pessoa possa ter acesso a si própria com confiança. Que possa respeitar a sua verdade particular e amá-la.

 

Cássia Barreto Bruno é analista didata e docente da SBPSP, IPA. Organizadora do livro “Distúrbios Alimentares, uma contribuição da Psicanálise”. ed Imago.2011.