Erotização precoce, infância roubada

Karin Szapiro     

– Vovó, eu tenho um namorado. Ele se chama João.

Gabriela de 6 anos se aproxima do ouvido da avó e, com a mãozinha na frente, conta baixinho a novidade. A avó acha graça e abre um largo sorriso para a netinha.

Há algo de errado nisso? Não, não há. Para o entendimento da pequena Gabriela, “namorar” é simplesmente brincar e se divertir com o amigo predileto. Como nos contos de fada ou nas histórias infantis, João é o príncipe encantado e ela, a princesa. Suas referências dizem respeito ao universo infantil e nem de longe têm a conotação dos adultos. A malícia, muitas vezes, está nos olhos de quem vê.

Gabriela e João passam a tarde juntos e brincam sem parar. As brincadeiras são inúmeras e transcorrem livremente. Crianças saudáveis são assim: gostam de imitar os adultos, têm amigos imaginários e revestem-se de vários personagens. Brincam de faz de conta, fazem-se de bichos, de super-heróis, príncipe e princesa, mamãe e papai. Quando uma menina pequena brinca com sua boneca, ela imita a mãe com seu bebê. Quando ela experimenta os seus saltos altos e o seu batom, ela simplesmente brinca de ser a figura que lhe é tão admirada. Com a sua imaginação, a criança se transporta para o mundo adulto e depois retorna ao seu estado original, o da curiosidade.

Por que as crianças brincam? Brincam porque gostam e sentem prazer em todo tipo de brincadeira física e emocional. Com o brincar, elas aprendem a lidar com suas angústias, ansiedades e medos. Elas elaboram de maneira lúdica questões subjetivas que lhes surgem ao longo da vida e tornam-se capazes de descobrir a si mesmas e aprender a viver criativamente.

O ser humano é um ser criativo, em um sentido próprio em que a subjetividade se constitui pela possibilidade de criar o mundo em que habita. O brincar é, ao mesmo tempo, o elo entre o indivíduo e a realidade interior, e o indivíduo e a realidade exterior compartilhada. A brincadeira é própria da saúde, ajuda o crescimento e facilita a comunicação consigo mesmo e com o grupo.

À medida que crescem, as crianças preparam-se para desafios cada vez maiores e lidam com a sexualidade que surge. Quando tudo corre bem, os conhecimentos sobre si e sobre seu corpo se ampliam aos poucos, dentro de um tempo próprio. Seja sozinha ou em grupo, crianças precisam se sentir livres para brincar tranquilamente, sob a supervisão dos adultos.

Diferente de Gabriela, desde cedo Roberta vivia uma outra realidade. Enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica numa região nobre da cidade, ela era cuidada por seus irmãos mais velhos, filhos de outro pai, em um bairro mais carente. Desde pequena, ela acompanhava os irmãos no baile funk da vizinhança aos finais de semana e seu pai, quando a buscava para passear, a levava a um bar onde bebia noite adentro, acompanhado por todo tipo de gente.

O excesso do mundo adulto erotizado atravessou Roberta desde cedo. A menina “novinha” perdia a inocência da infância enquanto seus pais se distraíam. Roberta foi exposta a cenas, imagens, músicas, histórias e acontecimentos de cunho sexual e erótico inapropriados. A erotização vivida tão precocemente feriu-lhe a alma e a deixou em carne viva e a excitação experimentada foi demasiada. Hoje, aos 12 anos, a menina esconde que está grávida. Uma maternidade que chega fora de hora e compromete sua vida e a chance de um bom futuro.

Apesar de morarem na mesma cidade, as duas vivem em mundos diferentes. Gabriela tem sua infância protegida e cuidada enquanto Roberta vive uma vida solta e exposta a um excesso de estímulos inadequados para a tão pouca idade. O certo é que nenhuma criança está pronta para estas experiências precoces. Roberta viu-se compelida a queimar etapas do seu processo de desenvolvimento. Com a infância roubada, acaba por repetir o destino de sua mãe e engravida prematuramente. Nem mesmo seu corpo está pronto para lidar com esse turbilhão de acontecimentos.

Para Freud, trauma é o acontecimento na vida de uma pessoa que se define por sua intensidade e por sua incapacidade de reagir de forma adequada. É um transtorno, um atropelamento, um “excesso” de efeitos prejudiciais duradouros na organização psíquica do sujeito. Sendo assim, a erotização precoce é um fenômeno de natureza traumática, gerado por situações de acionamento dos impulsos sexuais de maneira inapropriada. Conduz a criança a entrar no mundo sexual adulto muito precocemente, atropelando fases do amadurecimento e desenvolvimento e prejudicando o processo de aprendizagem afetiva dos pequenos.

A sexualidade, entendida como elemento presente em todos os estágios de desenvolvimento da vida do indivíduo, acaba sendo desviada prematuramente para o erótico, o excitante, o sensual, quando na realidade deveria ser canalizada para a construção das emoções, das relações sociais, da experimentação de papéis e do desenvolvimento da afetividade.

A erotização precoce de uma criança rouba a sua infância. Cabe aos pais ou os adultos responsáveis protegerem os seus pequenos.

Karin Szapiro é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, coordenadora do blog da SBPSP e atende em consultório particular. E-mail: karinszapiro@hotmail.com

 

 

 

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