Mês: agosto 2017

Amamentação: você tem fome de quê?

Elisabeth Antonelli

Alimento e amor. Disso dependemos para nosso desenvolvimento físico e emocional. “O estômago é, pois, como uma miniatura interna de boa mãe” (Winnicott, 1979, p39). Agosto ficou conhecido como “Agosto Dourado”, simbolizando a luta pelo incentivo à amamentação. O dourado está relacionado ao padrão ouro de qualidade do leite materno. É uma cor toda especial, associada no mundo inteiro ao laço simbólico. São trinta e um dias em que são celebrados a promoção, a proteção e o apoio ao aleitamento, chamando nossa atenção para refletir acerca de um ciclo universal que acompanha gerações.

Quando falamos em amamentação, falamos dos primórdios da constituição do sujeito, momento privilegiado, quando ainda não existe uma separação entre o bebê e a sua mãe. Nascemos indiferenciados e imaturos se comparados, por exemplo, a um filhote de cachorro que, em pouco tempo, adquire sua independência a partir dos reflexos prévios. Por sermos dotados de um sistema de linguagem, não existimos sem o outro. Os cuidados nesse começo da vida são decisivos para o nosso desenvolvimento mental.

O cuidado materno é fundamental para o desenvolvimento do psiquismo do lactente. Junto com o leite, o bebê recebe o amor da sua mãe e, neste mesmo ato, o bebê pode participar do desenvolvimento na mãe da capacidade de decifrar os estados penosos vivenciados por ele.

A alimentação do filhote humano depende de todo o aparato psíquico da mãe, que servirá de suporte para o desenvolvimento do aparato psíquico do bebê. Embora o aleitamento no peito seja o mais desejável, as mesmas condições precisarão ser mantidas no aleitamento na mamadeira. É certo que as mesmas dificuldades brotarão.

Ainda na gravidez, a mãe percebe que uma nova realidade se aproxima: para gerar um filho precisará aprender a lidar com a dependência que a maternidade impõe. Não há preparação anterior quando se trata de gerar uma vida. Do mesmo modo que muito se espera de uma futura mãe, são negadas as condições necessárias para que ela possa sustentar tal papel. Nesse momento, o pai, que pode ou não ser seu marido, precisaria ter asas grandes o suficiente para proteger este ninho que vai ser inaugurado.

Somos seres desamparados que temos crias desamparadas que precisam de nós. Esse fato pode fundar uma tragédia ou pode construir a preciosidade do humano. Winnicott (2000. p401) chama de “Preocupação Materna Primária” o estado que a mãe vivencia perto do parto e nas primeiras semanas a partir do nascimento do bebê. Nesta fase de adaptação ao bebê, a mãe entra num estado muito especial, de uma espécie de retraimento ou dissociação, ou fuga, semelhante a um estado esquizoide. O autor descreve tal estado:gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez. Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebê. Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassaram. Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse respeito tende a ser reprimida”.

Os primeiros momentos da vida de um bebê carecem de toda atenção da mãe que precisaria também contar com a atenção redobrada do marido e demais membros da família. A sociedade deveria ser convocada a acolher as parturientes amamentadoras para que esse processo pudesse ocorrer da melhor forma possível. Estamos falando de dificuldades simples e situações normais. Eventualmente, poderá haver outras questões mais complexas trazidas pelo bebê.

Falar em amamentação necessariamente é uma convocação às condições necessárias para que a mãe possa produzir leite, o que é um ato de amor por excelência!

 

 

Elisabeth Antonelli é psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro associada da Sociedade Brasileira de Psicanálise, professora do COGEAE, da PUC-SP e do Instituto Sedes Sapientiae, autora do livro: “Os Sentimentos do Analista: A Contratransferência em Casos de Difícil Acesso”, ed. Zagodoni, além de artigos em revistas científicas.

 

 

 

Referências bibliográficas

https://www.marinha.mil.br/saudenaval/aleitamento-materno

Winnicott, D.W:  Da Pediatria à Psicanálise. RJ,Imago Ed.,2000

_____________: Tudo Começa em casa, SP. Martins Fontes, 1989

_____________: A criança e o seu mundo, RJ, Zahar, Ed. 1977

Racismo

Any Trajber Waisbich

“Devo fazer uma confissão – começou Ivan – nunca consegui entender como se pode amar o outro. A meu ver, é justamente o próximo que não se pode amar, só os distantes é possível amar…Para amar uma pessoa é preciso que ela esteja escondida, porque mal ela mostra o rosto o amor acaba”. Dostoiévski, F. (2012) Os Irmãos Karamázov; Vol. I Traduzido por Paulo Bezerra. São Paulo, Editora 34. Pg. 326.

Por que falar de assassinato, racismo, agressões, ódio, intolerância, terror, fanatismo, aversão ao outro e protestos em Charlottesville (USA) se estamos em São Paulo? Uma mulher de 32 anos foi recentemente atropelada e morta quando participava de um comício contra uma manifestação organizada por um grupo composto por brancos racistas, neonazistas e membros da Ku Klux Klan numa cidade do estado da Virgínia no sul dos Estados Unidos.

Temos aqui ingredientes suficientes para desencadear sentimentos díspares em cada um de nós.  De um lado, acompanhados pelo artista russo sentimos o alerta para o perigo ao descrever o que vai na alma humana sem subterfúgios. De outro, a ação violenta confirma a digressão sem poesia e distanciamento. Amamos aquilo que nos é familiar.

Freud escreve em 1921 um artigo intitulado “Psicologia das Massas e Análise do Eu” em que, como em textos anteriores e posteriores, raramente deixa de incluir a relação do indivíduo com o grupo ao qual pertence e as implicações decorrentes deste acordo tácito de convivência entre os humanos. Dialoga com este sujeito influenciado pelo grupo que altera sua forma de pensar e agir quando em bando. Este homem, ele mesmo sem face, fica sujeito a condições que lhe permitem livrar-se das amarras e manifestar, de forma aberta, suas predisposições para tudo o que é mau e que se esconde na alma humana.

Este homem, que por vezes renuncia à violência e à destruição pelo bem comum para poder ter momentos de satisfação na convivência com outros, também deflagra atos irreconciliáveis com o viver num mundo civilizado. Aliás, civilidade implica conviver com o diferente.

O homem é um ser em conflito, que ao mesmo tempo em que é capaz de conquistas em diversas frentes – tecnológicas,  sobrevivência diante de catástrofes e a luta contra a própria morte – também é capaz de lidar com esta dificuldade em aceitar regras sociais que restringem sua autonomia e condiciona o sujeito a viver em comunidade, porém em companhia de outros. Não subestimemos o sacrifício necessário, o de abrir mão da felicidade pessoal em favor do grupo.

Voltemos à cena em Charlottesville, como se não bastasse, o chefe do Estado Americano, Donald Trump, aponta uma equivalência moral entre estes dois grupos que colidiram na cidade, os perpetuadores da violência e os ativistas de diretos humanos. Pronto, reforço necessário para podermos discutir o papel da massa e seu líder nestas ações violentas em que o sujeito não se implica. E mais grave ainda, desculpa-se.

O comunicado sugere serem as brigas de caráter semelhante e, portanto, não haveria perdedores. Teríamos um conflito como tantos outros, de ideias, por assim dizer, que acabou mal para uma pessoa e resultou em alguns feridos.

Passemos a averiguar o papel do líder neste contexto.  O líder tem por atribuições ser o depositário de um saber inquestionável, ser o depositário desse sentimento tão caro ao homem que é a necessidade de ser protegido. O líder ocupa este lugar de facilitador de ligações afetivas entre seus membros e, portanto, é responsável pela fraternidade de iguais. Além disso, o indivíduo delega ao líder sua capacidade de discernimento, sua autonomia e sua moral – sempre individual – enfraquece-se.

Este mesmo líder, imbuído de tal poderes, naturaliza atos violentos contra outros grupos diversos do seu. Era o que faltava: pessoas autorizadas a odiar seus semelhantes por pequenas diferenças, como cor, raça, gênero, religião, e tudo aquilo que os faz singulares. Aquilo que agrega, segrega.

Então, qual o sentido de se falar destes atos violentos sem cairmos em respostas simplistas para problemas complexos?  Temos aqui, bem próximos de nós, questões similares àquelas desnudadas em Charlottesville.  Candidatos a líderes que constroem suas plataformas valendo-se da segregação entre nós e eles. Temos assassinatos em massa de índios e de quilombolas. Temos prisões repletas de jovens negros sem possibilidade de justiça.  Temos, ainda, lutas por terras e por dominação.  Temos a tendência a nos distanciarmos dos fatos banalizando-os, transformando-os em corriqueiros e vistos, muitas vezes, como lutas econômicas puramente.

Freud diria a partir do estudo da alma humana que não existe otimismo nesta relação entre o homem e seu meio. O que há, sim, é um descontentamento pelas frustrações impostas pelo coletivo à liberdade pessoal que a sociedade exige destes indivíduos. Como contrapartida à barbárie surge a Civilização quando os homens abrem mão de fazer “justiça com as próprias mãos”.

Foto: The Huffington Post

Any Trajber Waisbich é psicanalista e membro efetivo da SBPSP, professora junto ao Instituto de Psicanálise e membro da diretoria da SBPSP. Participou da equipe editorial do Jornal de Psicanálise nos anos 2012- 2016, contribuiu com resenhas de livros para a Revista Brasileira de Psicanálise, entre outras atividades.

A curiosidade na adoção

Gina Khafif Levinzon

A curiosidade é compreendida, segundo o vértice psicanalítico, como uma função de saúde psíquica. Está associada ao impulso natural para o crescimento, mas depende de condições ambientais para que possa manifestar-se na sua plenitude. Klein (1921) associa a curiosidade ao instinto epistemofílico. Bion (1962) denomina Vínculo K a relação que existe entre um sujeito que busca conhecer um objeto e um objeto que busca ser conhecido. Identificamos já no bebê pequeno a exploração contínua de um mundo a descobrir e consideramos que nas crianças de todas as idades é natural haver perguntas sobre os assuntos mais diversos.

Quando falamos em crianças adotivas encontramos esse mesmo movimento no sentido de desbravar o desconhecido, acrescido de indagações sobre a história de sua família de origem genética. À pergunta: “De onde vim?”, somam-se várias outras: “Por que minha mãe não ficou comigo?”; “Fui amado?”; “Sou o causador da separação?”; “Matei minha mãe com meu nascimento?”; “Quem são meus pais?”; ”O que aconteceu?”…  Explorar esse universo da origem expõe a criança a situações de dor, por vezes de mágoa, e de contato com um campo cheio de lacunas incompreensíveis. Por outro lado, essa investigação permite que o adotado construa de forma sólida um sentimento de identidade, baseado na realidade. De modo geral, quando tudo corre bem, a dor é contrabalançada pela estabilidade e harmonia do lar adotivo. Ao explorar sua história e seus sentimentos, a criança fica livre para explorar o mundo.

Uma das dúvidas e angústias mais frequentes dos pais adotivos é quando e como contar à criança que ela é adotada. Há hoje um consenso geral de que a criança precisa saber de sua condição de adoção. Em geral, isso ocorre a partir das próprias indagações da criança sobre sexualidade, por volta dos três ou quatro anos de idade, quando ela quer saber de onde vêm os bebês. Essa pergunta a remete, assim como aos pais, diretamente à questão de sua origem. Costumamos dizer que o melhor para a criança é ter a ideia de que “sempre soube que era adotada”, que não houve o “dia da revelação”.

A experiência clínica mostra que as perguntas do filho sobre adoção são feitas quando há espaço psíquico para essa investigação.  Pais muito angustiados com relação à sua parentalidade podem reprimir, de forma consciente ou inconsciente, a busca de uma história anterior ou de um sentido para a separação da criança ou do adolescente em relação à sua herança biológica. Quando a esterilidade do casal adotivo não está bem elaborada, conversar com a criança sobre sua origem biológica significa assumir sua impossibilidade de gerar filhos. Nestes casos, há uma ferida narcísica difícil de ser superada, acompanhada pelo sentimento de castração da fantasia de continuidade biológica e da imortalidade dos pais (Levinzon, 2004).

Pesquisas realizadas mostram os prejuízos causados na aprendizagem pela dificuldade em lidar com a investigação sobre a adoção. Como estar aberto para aprender se há portas e janelas importantes fechadas no caminho do conhecimento?

Segundo Winnicott (1955), mais do que informações, as crianças precisam de pais confiáveis, que estejam ao seu lado na busca da verdade e que compreendam sua necessidade de viver as emoções apropriadas às situações reais. Elas têm uma capacidade incrível de descobrir os fatos, que são simplesmente aceitos como fatos. O mistério pode gerar um problema muito maior, e permite a criação de fantasias perturbadoras.

O medo de perder o filho inclui muitas vezes a ideia de que, sabendo de sua história, ele irá procurar os genitores. Afinal, quem são os pais verdadeiros? A insegurança dos pais adotivos não se sustenta na realidade. Os pais verdadeiros são aqueles que criam a criança por toda uma vida, que lhe dão seu nome, suas horas de sono, seus valores, seu amor, seus limites e seus cuidados. Em condições normais, o filho não irá questionar sua importância. Sua investigação servirá para que tenha uma noção mais inteira de si mesmo.

No campo da adoção, a curiosidade pode ser perturbadora para todas as partes da família, mas é essencial na constituição de bases verdadeiras. Nosso trabalho, como analistas, é auxiliar todos neste trajeto precioso que é a apropriação de si mesmo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Bion, W. – (1962) O aprender com a experiência. In: Os Elementos da Psicanálise. Trad. Jayme Salomão e Paulo Dias Corrêa.  Rio de Janeiro, Zahar ed., 1966. p.11-117.

Klein, M. – (1921) O desenvolvimento de uma criança. In: _______ Contribuições à Psicanálise.   Trad. Miguel Maillet.  São Paulo, Mestre Jou Ed., 1981. p.15-85.

Levinzon, G. K. –  Adoção. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2004.

Winnicott, D. W. – (1955) A adolescência das crianças adotadas. In: In: Sheferd, R. – D.W.Winnicott- Pensando sobre crianças. Trad. Maria Adriana V. Veronese. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997, p. 131- 140.

 

 

Gina Khafif Levinzon é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, doutora em Psicologia Clínica pela USP, professora do Curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica da CEPSI-UNIP e autora dos livros: “A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica”, “Adoção” e “Tornando-se pais: a adoção em todos os seus passos”. E-mail: ginalevinzon@gmail.com

Paternidade e função paterna

Ricardo T Trinca*

Toda criança ao nascer é órfã. Ter um pai e uma mãe são conquistas e aquisições posteriores, mas que podem não ocorrer. É necessário que o bebê se torne filho de alguém, ou seja, que uma mente possa se dedicar à tarefa de recebê-lo no mundo. Mas, se por um lado o bebê é um órfão, por outro ele nasce com preconcepções do encontro com um seio (Bion, 1962/1991) para o qual se dirigirá, e sobre sua recepção, ou melhor, sobre a presença de alguém a partir do qual poderá haver alguma ancoragem e encontro. Mas a preconcepção pode ser frustrada, dependendo das circunstâncias deste momento inicial, criando dificuldades significativas para os próximos passos do bebê.

Os pais recebem esse bebê, um ilustre desconhecido, que vai – aos poucos – se tornando familiar. A familiaridade é um processo complexo associado com a possibilidade tanto do bebê ser sonhado, quanto do estabelecimento de ritmos orgânicos da sua vida, com improvisações e melodias análogas às de uma banda de jazz. A amamentação, a troca de fraldas, o sono e o mimo são estabelecidos em um ritmo peculiar, relacionado tanto com as características inatas daquele bebê, quanto ao modo como ele é sonhado pelos pais. Ser sonhado significa participar da vida mental do outro; em última instância, existir.

Nesse momento inicial da vida, a função materna é a mais importante: ela é a função psíquica relacionada com a recepção da orfandade de um bebê que é pressentido como absolutamente dependente e que necessita de acolhimento, cuidados e continência. Mas, desde esse momento inicial da vida, a função paterna e a função materna estão interligadas e se tornam complementares. São funções mentais e não estão relacionadas diretamente com um ou outro gênero sexual, que desempenhe uma ou outra função necessariamente. Uma mãe tem função paterna, assim como um pai tem sua função materna e vice versa. Ser pai, portanto, é poder flutuar em um espectro de possibilidades formado entre essas duas funções. Não é mais novidade um homem ser predominantemente materno, ou um casal homoparental desempenhar, cada um, funções distintas ou ambas as funções. Também uma avó ou um avô pode desempenhar relativamente bem a função paterna ou a função materna. Culturalmente elas tendem a ser associadas ao pai e à mãe.

A função paterna nesse início da vida do bebê relaciona-se com dar condições de segurança, apoio e estabilidade para que aquele que desempenha a função materna possa fazê-lo integralmente. O bebê, neste momento, é o reflexo do desejo dos seus pais, desejo desconhecido, mas que aparentemente se tornou encarnado e vivo; é um ser-para-si (ser para a mãe), carecendo ainda de um mundo pessoal. Ele é o investimento narcísico daqueles que cuidam do bebê, e o reflexo deste investimento libidinal e imaginário. Bebês lindos e mães extenuadas e descuidadas são, muitas vezes, a cara e a coroa de uma mesma moeda. O bebê e a mãe, nesse sentido, são indistinguíveis. Não existe alguma coisa como um bebê independente, destituído de uma função materna que o acompanhe.

Mas, ao longo do crescimento do bebê, a função paterna passa a ser não mais periférica, assumindo um posto de maior centralidade na vida da mãe (ou daquele que representa a função materna) e, também, da criança. O cuidador do bebê precisa se haver com os desenvolvimentos motores e, portanto, com uma maior preocupação com o mundo, já que o bebê passa a adquirir paulatinamente maior autonomia. Mas ainda não é, de fato, uma verdadeira autonomia; assim o “não” surge como a primeira expressão nítida e fundamental da função paterna dirigida diretamente para o bebê. Ela tem a função de limitar os seus avanços no mundo que são feitos naturalmente, mas de modo pouco cuidadoso. Portanto, a função paterna tem como objetivo apresentar o mundo para a criança pequena, mas um mundo que se torne seguro para ela.

O “não” inicial limita certos avanços perigosos da criança (Winnicott, 1993/1999), mas é preciso levar em conta que um “sim” da relação desta criança com o mundo já foi, portanto, formado na mente desses pais. O “não” verdadeiro denota a formulação de um “sim” anterior. Esse “sim” é o desejo de que essa criança possa ter um mundo. O “não” passa a ser expressão do desejo de que a criança constitua um mundo, que vá além da relação com a função materna; um mundo relativamente seguro. Essa separação para com a “mãe” ou ampliação do universo da criança pequena é realizado pela função paterna, um verdadeiro ser-para-o-mundo. A função paterna é a função que separa mãe e bebê para poder dar as bases da simbolização, pelo início das relações triangulares, ou a base do pensamento simbólico. A função paterna, desse modo, separa a mãe da criança para incluí-la num mundo mais amplo, o mundo do universo simbólico e da castração. A função paterna, portanto, separa para incluir. E a função paterna melhor consegue fazer isso, quanto mais valorizada é a cultura e a alteridade na mente da mãe; ou o quanto a função paterna está interligada à função materna na sua vida mental.

A presença da função paterna e materna se mantém ao longo da vida dos pais, mudando de intensidade e de importância de acordo com as circunstâncias da vida do filho. Mas também são funções que se transmitem, de modo que um jovem adulto pode ter o seu próprio filho e valer-se das funções materna e paterna prontas para serem desempenhadas com uma nova criança, quando elas puderam ser incorporadas como parte da sua personalidade. Quando isso acontece, o filho pode prescindir dos seus pais.

A autonomia, portanto, é a finalidade da realização satisfatória da função paterna e materna na vida mental do filho. Os filhos, desse ponto de vista, podem ir adiante, fazendo com que os pais se tornem menos importantes. Deixar ser suplantado, tornado desimportante e poder orgulhar-se da autonomia do filho e da possibilidade de ser desimportante é o último bastião da função paterna. Trata-se de confiar que aquilo que foi transmitido poderá ser retransmitido nas futuras gerações; decididamente a função paterna é uma função associada com o mundo da cultura.

Um filho é tanto algo profundamente pessoal quanto um ser que se transforma em algo da cultura e do mundo. É um modo de presentear a cultura com nosso amor, deixando o filho ser no mundo aquilo que ele está, por alguma razão, destinado a ser além de nós.

 

Referências

Bion, W. R. (1991). O Aprender com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago (Trabalho Original publicado em 1962).

Winnicott, D. W. (1999) Dizer “não”. In D. W. Winnicott, conversando com os pais (2 ed) São Paulo (SP): Martins Fontes (Trabalho Original publicado em 1993).

*Ricardo T Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado ao instituto “Durval Marcondes” da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp). E-mail: ricardotrinca@hotmail.com

 

As novas etapas do envelhecimento: o desafio de viver muito

Por Telma Weiss*

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. 

Guimarães Rosa – Grandes Sertões Veredas

 

Até a metade do século passado, fome, guerras e pestes eram questões reais que ameaçavam a vida dos homens. Morria-se de fome, pestes matavam e devastavam quase que populações inteiras e, durante vários séculos, guerras eram um fato tão “corriqueiro” que os momentos de paz eram intervalos entre um conflito e o próximo. (Harari)

Atualmente temos uma outra realidade, um cenário bem diferente do que tinham os nossos antepassados. Com o avanço das ciências, em especial da medicina, da tecnologia, da nutrição, da valorização da prática esportiva e de uma vida ativa, os desafios da longevidade tornaram-se realidade. Vivemos mais e com mais qualidade de vida.

Hoje em dia, pessoas entre 45 e 65 anos são ativas, trabalham e circulam no mundo com curiosidade, muito longe da imagem do sujeito aposentado, daquele que “foi para os aposentos”. Daquele que está à margem da sociedade.

Como nos situarmos nessa “nova” etapa, entre a vida adulta e a velhice? O escritor Mario Prata escreveu uma crônica provocativa no Estadão: “Você é um envelhescente? ”. O autor, com seu humor afiado, nos faz pensar no novo homem maduro, que ainda não é idoso, mas que também não é jovem. Ele compara a envelhescência com a adolescência. Uma fase de trânsito.

Sylvia Salles Godoy Soares escreveu o interessante livro “Envelhescência” em que discute o fenômeno do envelhecimento contemporâneo focando na identidade feminina. A autora descreve o desafio que a mente tem que fazer, como na adolescência, para entender o novo corpo e assim tentar criar um entendimento entre o físico e o psíquico.

Uma boa imagem para compreendermos e refletirmos sobre esse novo desafio da modernidade, a longevidade, é pensarmos em uma obra, em uma reforma. Precisamos nos reinventar, precisamos trabalhar para nos reconhecermos nesse novo lugar de vida. Como toda construção, primeiro temos que pensar no que queremos e no que não queremos mais, fazemos então um anteprojeto, um projeto e, se possível, chamarmos um bom profissional para nos acompanharmos nessa empreitada. E quais seriam os planos, os projetos para essa obra?

Freud nos disse que o ego é corporal (1923) – corpo e mente não são indissociáveis –   importante pensarmos em como entender as novas necessidades e os novos limites do corpo maduro: o cuidado com o bem-estar físico, o desafio de administrar as oscilações hormonais, em especial as mulheres. A dedicação com os exercícios físicos, a atenção a uma alimentação saudável e exames médicos preventivos serão decisões que terão como objetivo focar num corpo funcional que acompanhe a mente no reinventar da própria vida.

Do ponto de vista emocional, nosso desafio será refletir sobre nossa história, nosso percurso. É um momento de resgatarmos a própria identidade e pensarmos em como queremos envelhecer. O que podemos e o que não podemos mais fazer? Ou não devemos ou não queremos mais fazer. É tempo também de construir novos limites.

Vamos ter que dialogar com nosso narcisismo: refletir sobre o novo lugar que vamos ocupar na família com a chegada de uma nova geração: como ser pais e também agora ocupar o lugar de avós? Como fica o narcisismo quando a geração mais nova começa a ocupar a cena, eventualmente, ultrapassando os próprios pais?

Homens e mulheres começam a perder encantos físicos. Será que vão reagir diferentemente? Para as mulheres, a menopausa, sem dúvida, é um fato que coloca a feminilidade em crise. E o homem, ao perceber que sua potência sexual não é a mesma do jovem, sente-se em conflito em relação a sua masculinidade.

O envelhecimento é uma etapa da vida, não uma escolha. Se pensarmos bem, é um privilégio estarmos “bastante tempo na estrada”. Não é fácil notarmos que não somos mais jovens. Teremos que nos esforçar para elaborar o luto pela mudança de nosso corpo, de nosso lugar do mundo e aceitarmos esse novo horizonte que se apresenta. Pensar em novos trajetos. Novas trilhas. Uma tarefa árdua, porém, necessária. É, sem dúvida, uma fase angustiante.

E para que esse caminho seja interessante, precisamos esforçar-nos para renovar nosso repertório, ampliar nosso ponto de vista, nossa perspectiva e desapegar do modus operandi que já não estão mais em sintonia com o novo momento. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, poderá ser uma ótima oportunidade de nos sentirmos mais interessantes, mais vivos e, assim, administrarmos a nova fase de vida com disposição, criatividade e vivacidade.

A pessoa que consegue reorganizar-se, que consegue dar conta da “obra” e elaborar o luto da perda da juventude, terá mais possibilidades de sentir-se livre para usufruir esse momento da melhor maneira possível. Por outro lado, o sujeito que não consegue enfrentar a perda pela fase que passou, que não consegue compreender o seu novo lugar no mundo, pode tornar-se melancólico, ressentido, não enxergando as novas oportunidades que a vida apresenta.

“É preciso saber viver”… – como cantam Roberto Carlos e os Titãs. Isso é muito verdadeiro, principalmente agora que temos a possibilidade – não a garantia – de termos uma vida longa e de qualidade. A psicanálise, mais do que nunca, apresenta-se como um instrumento útil para ajudar no desafio de reinventarmos nosso projeto de vida.

 

Referências Bibliográficas

Freud, Sigmund (1923). O ego e o id. Ed. Imago, 1969 Rio de Janeiro.

Harari, Yuval Noah (2016) – Homo Deus: uma breve história do amanhã, Ed Companhia das Letras, 2016, São Paulo.

Prata, Mario (1993) Você é um envelhescente?  Jornal OEstado de São Paulo

Soares, Sylvia Salles de Godoy de Souza (2012) – Envelhescência: um fenômeno da modernidade,  Ed. Escuta 2012 São Paulo.

 

* Telma Kutnikas Weiss é psicanalista, membro associado e diretora da SBPSP. Publicou vários artigos entre eles “Guarda Compartilhada: uma breve visão psicanalítica”.