O poder enlouquece?

Por Marion Minerbo*

Aqui vai uma pequena ficção sobre a origem do pacto social. Assim que começamos a entender alguma coisa da vida, lá pelos 3 ou 4 anos, assinamos um contrato com aqueles que cuidam de nós: nos comprometemos a renunciar à satisfação absoluta de nossos impulsos sexuais e agressivos; em troca desse sacrifício, as instituições (a começar pela família) garantem o amparo físico e emocional necessário à nossa sobrevivência.

Assinamos não tanto por achar que a relação custo-benefício compensa, mas porque não temos escolha: é isso ou ficar no limbo social. Quem está no limbo não existe para os outros seres humanos. Especialmente para as pessoas que são significativas para nós. Esse é nosso maior pavor.

Chamamos de louco aquele que dá vazão a seus impulsos sem medo do limbo. E se ele não tem medo do limbo é porque, para ele, o contrato social deixou de valer. Ele está fora do jogo. Isso acontece em duas situações.

A primeira é quando o horror de não existir para a comunidade humana já se realizou. Falo dos miseráveis. As instituições, ou seja, nós, não fizemos a nossa parte no trato; abandonamos a pessoa à própria sorte. Nessas condições, ela pode sentir que já não tem nada a perder. E dar vazão aos impulsos sexuais e agressivos sem medo das consequências. São os que enlouqueceram de dor.

Mas há outra situação em que o pacto social deixou de valer. É quando alguém foi excluído do mundo humano por excesso de poder. Assim como o miserável, que está num limbo situado “abaixo” do pacto social, o poderoso também está num limbo, porém “acima” dele, numa espécie de Olimpo. Ele está numa condição que tem mais a ver com a dos deuses do que com a de seus pares – que, querendo ou não, pautam sua vida pelo contrato.

Não nos enganemos: estar no Olimpo é estar fora do jogo humano. É como jogar pôquer com alguém que dispõe de um cacife infinito. A possibilidade de perder, que é a base do jogo, não existe para ele. E como não está no mesmo plano, mesmo que se sente à mesa, seu jogo não conta para nós. Está excluído.

Da mesma forma que a exclusão do miserável, a do poderoso também pode enlouquecê-lo. Se o miserável nada tem a perder porque já perdeu tudo, o poderoso não tem nada a perder porque supõe que nada vai lhe acontecer. Mas se engana. A mitologia nos conta que mesmo os deuses do Olimpo são punidos quando extrapolam.

O que não é tão fácil de perceber é que o poderoso não enlouquece sozinho. A psicanálise mostra que, assim como no caso do miserável, nós contribuímos para que o poderoso enlouqueça. Se ele julga que pode tudo, é porque é levado a sentir que a sociedade jamais o abandonará. E talvez tenha nisso alguma razão. Explico.

Quando estamos diante de alguém que tem poder – qualquer tipo de poder – tendemos a viver esta nova relação com os padrões de uma relação antiga: a da criança com seus pais. É um dos sentidos do conceito de “transferência”. Lembro que a criança depende de forma absoluta dos pais, que para ela são muito poderosos. Quais seriam estes padrões?

Desejamos o amor dos poderosos como desejávamos o amor dos pais: cair nas suas boas graças, ter intimidade, dar e receber favores, gozar de sua proteção.

E também tememos sua ira, que certamente viria caso contrariados. Por exemplo, se tentarmos mostrar a eles, com ações concretas, que a lei vale para todos. Tememos seu ódio e sua vingança como temíamos a nossos pais.

Considerando essa mistura de amor, dependência e medo, quem ousaria levantar a mão contra os próprios pais? E de fato, o poderoso está cercado de pessoas que o veneram como se fosse um deus. Olham para ele com reverência: “você está acima do bem e do mal, as sanções não valem para você”. Prometemos a ele a impunidade. Mas, se ele acreditar nisso, mais cedo ou mais tarde estará perdido.

É assim que, com nossa ajuda, o poderoso pode enlouquecer, isto é, desqualificar o pacto social que funda nossas instituições. Para que isso não aconteça temos de lhe sinalizar constantemente que seu poder tem limites. A psicanálise chama isso de castração: ninguém pode tudo, o tempo todo, impunemente. Acenar com a castração é uma forma de incluir o poderoso no pacto social. De certa forma, ele nos agradecerá. Ou pelo menos, deveria.

 

*Marion Minerbo es psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016).

6 comentários

  1. Obrigada Marion !Excelente matéria! Eu Achei muito “eficaz” para “para bons ou maus ” entendedores ! Que compreensão ,profunda e perfeita, a sua!

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  2. Será que os poderosos conseguem reconhecer e aceitar a incompletude(castração)? Penso que não, pois os poderosos não são simplesmente neuróticos,mas talvez perversos(psicopatas) ,onde há ausência da angustia, do medo e da culpa. Os poderosos tem a necessidade de causar dano ao outro, para poder sentir através do outro o que não consegue sentir nele(medo e culpa). Os poderosos vampirizam os outros(miseráveis), pois eles precisam ver o medo,ver raiva e a culpa nos olhos dos outros(miseráveis).Nunca os poderosos vão enlouquecer, pois são psicopatas e seu poderes não podem ser sinalizado, pois eles não tem limites. Para finalizar, sera que a psicanálise pode incluir o poderoso no pacto social, já que ele diz sim a psicopatia e não a cultura? Abraços!

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  3. O texto em poucas linhas descreve duas situações e os estados de mente pertinentes a eles. ao lê-lo, viajei um pouco e me lembrei do Bauman que fala da sociedade do espetáculo. Então pensei, pra sair de um estado psíquico de míséria ou de uma forte onipotência, o eu presisará visualizar seus limites e limitações pra abrir caminhos pra algum desenvolvimento que desvie o sujeito da loucura. Concorda? Abrir mão do narcisismo, se ver, e ter a “Glória” de ver o outro, me parece o melhor espetáculo que um humano pode experimentar!!

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  4. Excelente texto! Nos leva a ressaltar que a questão do pacto social é sempre uma via de mão dupla, o comprometimento devendo ser recíproco. Tanto os ônus quanto os bônus, também, para os dois lados: ou ambos “ganham”, ou ambos perdem. Parabéns pelo texto, Marion. Evelin Pestana

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