Sonhar: um curioso mecanismo digestivo

Talya Saadia Candi

 

“Não é verdade que as pessoas param de perseguir os sonhos porque estão a ficar velhas, elas estão a ficar velhas porque pararam de perseguir os sonhos” – Gabriel García Márquez

 

Muito antes da escrita e da publicação da “Interpretação do sonho” por Freud, já existiam pessoas interessadas em escutar os sonhos. No Antigo Testamento, o prisioneiro Joseph interpreta os seus próprios sonhos como uma comunicação profética divina. Convidado pelo Faraó a interpretar o estranho sonho das vacas magras que devoram as sete vacas gordas, Joseph diz: “Deus está revelando ao Faraó o que ele irá fazer”. Em Hamlet, Sheakspeare sugere que sonhos têm o poder de perturbar a nossa tranquilidade. O jovem príncipe diz a Guildenstern, seu amigo de infância: “Poderia viver recluso numa casca de noz e me achar rei do espaço infinito se não tivesse mal sonhos”. (Hamlet 2.2.234).   Para o cineasta sueco  Ingmar Bergmam, “filmes são sonhos (…) o filme vai diretamente para os nossos sentimentos, no fundo escuro das salas de nossas almas”.

Na visão da neurociência, os sonhos representam simplesmente uma descarga elétrica dos neurônios, usando o material do passado recente para construir histórias bizarras e sem nexo, mas que desempenham múltiplas funções: consolidação da memória para a aprendizagem, limpeza neuronal e desenvolvimento cerebral. Por outro lado, os pesquisadores perceberam que uma pessoa submetida a um acontecimento traumático – um estresse como um assalto ou a perda repentina de um ente querido – transforma o impacto da dor em sonho. Os sonhos acabam reverberando a situação, às vezes durante meses ou anos, e ajudam a processar as emoções dolorosas.

Essas novas pesquisas fortalecem a hipótese da psicanálise de  que  os sonhos exercem  um papel fundamental tanto no nosso comportamento diário quanto na elaboração dos traumas.

No primeiro período da terapia analítica, a análise do sonho impulsionou em grande medida a prática analítica e veio a ser o paradigma da manifestação do inconsciente e do seu poder expressivo. Com o passar do tempo e com os desenvolvimentos pós-freudianos, a presença da interpretação de sonhos nos relatos clínicos foi diminuindo e dando lugar a outras modalidades de fazer psicanalítico, tal como a interpretação da transferência na tradição kleinian e a atenção ao significante no sistema lacaniano.  Assistiu-se a uma verdadeira ultrapassagem do interesse da psicanálise pela interpretação dos sonhos e um crescente interesse pelo processo pelo qual o sonho é gerado: o sonhar.

Na perspectiva contemporânea (particularmente a partir dos anos 60 com as contribuições do analista inglês Wilfred Bion), o sonho noturno é somente uma das várias manifestações da misteriosa atividade mental e emocional que acontece tanto de dia quanto à noite e que  chamamos de  “sonhar”.

Os produtos do sonhar são numerosos.  Entre eles, alguns são bem conhecidos, como  o sonho noturno, o pesadelo, o devaneio e as “revêries” do analista.  Eles são usados para a alucinação de desejos, expressão emocional, crescimento psíquico, regulação homeostática e fuga nos momentos de stress. A unidade básica do sonho é a experiência vivida, real ou imaginada, consciente ou inconsciente.

Resta perguntar por que para a psicanálise contemporânea o sonhar é tão essencial para a saúde mental e o crescimento da personalidade?

No começo da vida, o bebê vive experiências emocionais brutas, sem significado, frutos do impacto das urgências vitais biológicas (fome, dor, percepções sensoriais diversas, etc). Estas experiências sem sentido são aterrorizadoras.  Elas precisam ser digeridas para adquirir sentido. O sonho cria símbolos que permitem reviver e reexperimentar enquanto estamos dormindo ou desatentos (no devaneio, por exemplo) fatos e acontecimentos perturbadores que não conseguiram entrar na nossa mente e adquirir sentido.

O trabalho do sonho cria uma espécie de teatro interno em forma de espelho pelo qual somos capazes de organizar os estímulos mais diversos, produzir questões, criar personagens, ensaiar problemas, levantar hipóteses e fazer avançar a pesquisa sobre as questões que dizem respeito a nossa humanidade: nossos desejos, conflitos, anseios, dúvidas, medos e angústias. Os sonhos nos permitem digerir a complexidade da vida emocional de forma mais eficaz do que quando estamos acordados e sem eles estaríamos sempre submergidos em estímulos excessivos, sem pensamento.

Neste novo contexto, o sonhar é visto como uma forma de pensar inconsciente, ele realiza um trabalho psíquico que atribui significado e incorpora as vivências com outras pessoas na própria estrutura da nossa mente, consolida lembranças, ensaia planos.

Finalmente, pelo sonhar construímos nossa historia, criamos projetos e pensamos no futuro.

Do ponto de vista dessa concepção revisada, o objetivo da psicanálise contemporânea  não é mais somente tornar consciente o inconsciente, mas também tornar o consciente inconsciente, isto é: tornar a experiência emocional bruta acessível ao tipo de riqueza do pensamento caracterizado pela capacidade de sonhar.

O tratamento analítico nos permite, dia após dia, cuidarmos das nossas emoções e nos apropriarmos das mesmas, reconhecendo-as, nomeando-as e finalmente sonhando-as. Sonhar nossa vida emocional nos dá instrumentos para que não fiquemos submersos e anestesiados pela intensidade dos estímulos, da dor, do medo ou da excitação e da alegria. Quando um sonho pode ser trabalhado no âmbito de um processo analítico, ele pode desencadear verdadeiras transformações na personalidade.

“Continuar perseguindo os sonhos”, como diz na epígrafe deste post o grande escritor colombiano Gabriel García Márquez, significa não ficar anestesiado frente ao impacto do fluxo contínuo de estímulos, conflitos e desafios com o qual a realidade nos confronta incessantemente e encontrar dentro de nós, no nosso mundo interno, soluções criativas que possam preservar e ampliar nossa capacidade de nos sentirmos seres pensantes e vivos.

 

Talya S. Candi é Membro associado da Sociedade Brasileiro de Psicanalise de Sao Paulo. Autora do livro: “o Duplo Limite; O  aparelho  Psiquico de André Green” , publicado pela Editora Escuta  e organizadora do livro : “Dialogos psicanalíticos contemporâneos”, publicado também pela editora Escuta . 

*Fotomontagem de Grete Stern

 

 

 

1 comentário

  1. Ótimo texto! Apenas acrescentaria a importância do sonhar como elemento da construção da área intermediária, área de ilusão, na clínica de Winnicott – espaço potencial onde reside nossa verdadeira possibilidade de crescimento e contribuição para com a cultura. Abraço! Evelin Pestana.

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