Tempo de férias, tempo de brincar, um tempo próprio

Mirian Malzyner

Férias são momento de pausa, como um parêntesis no cotidiano. Tanto para os adultos, como para as crianças pode ser uma oportunidade de resgatar um tempo próprio, em sintonia com os ritmos e necessidades mais básicas de cada um.

Muitas vezes, adaptar-se ao ritmo da agenda de compromissos e atividades, aceleradas pelas urgências do dia a dia, leva a um afastamento do contato mais íntimo com aspectos fundamentais do existir humano. As férias são o momento de marcar essa pausa, esse respiro que proporciona o encontro com o tempo subjetivo.

Proporcionar às crianças o tempo do brincar espontâneo e não dirigido é básico para a renovação contínua do potencial criativo, da curiosidade nas coisas do mundo e na confiança em si mesmo. O excesso de estímulos e as atividades propostas a partir “de fora” restringem as possibilidades da criança inventar e jogar com a imaginação. É importante o tempo de “não fazer nada”. Adam Phillips (1993) disse que o tédio é uma oportunidade de contemplar a vida em vez de fugir dela. E Bertrand Russel (1930), já falava em “monotonia produtiva” alertando para o fato de que uma geração que não suporta a monotonia será uma geração de homens divorciados dos lentos processos da natureza, de homens cujo impulso vital seca lentamente como flores podadas num vaso.

Os ritmos naturais dos processos humanos envolvem alternância de estados de atividades intensas e estados de tranquilidade, desde o início da vida. Ao entregar-se numa condição de total relaxamento após uma mamada feliz, o bebê vive um estado de quietude. Esse descanso dos estímulos do mundo é a base para a capacidade da criança e do adulto sadio experimentar o gesto espontâneo que torna o mundo real e as experiências verdadeiramente pessoais.

É no encontro com o ritmo próprio de cada um que podemos exercer a criatividade, condição essencial para sentir-se vivo. Winnicott, psicanalista inglês que partiu de uma longa experiência em pediatria, pôs em destaque a questão da criatividade primária como intrínseca ao ‘viver’. Ser humano é ser criativo, em um sentido próprio, em que a subjetividade se constitui pela possibilidade de criar o mundo em que se vive.

Se tudo correr bem, o encontro do bebê com o mundo dá-se de tal forma que não se coloca a necessidade de decifrar o mistério se ele criou o mundo ou se este já estava lá para ser encontrado. Este é o paradoxo. O encontro dá-se numa atmosfera que inclui uma ‘mágica’ – a ilusão onipotente – a partir da qual a vida subjetiva torna-se possível. Esse veio ‘mágico’ terá desdobramentos ao longo de toda a vida.

A brincadeira infantil vai se transformar encontrando outras formas, mas sempre existindo na possibilidade de “fazer à sua própria maneira”.  Qualquer pessoa em qualquer atividade do cotidiano pode ser criativa. Até mesmo o simples ato de respirar pode ser vivido como único e pessoal, expressão da subjetividade. Uma pausa para respirar pode ser o momento de integrar aspectos do si mesmo e renovar a condição criativa.

Brincar é inventar, exercitar a intuição, descobrir os sentidos do mundo sem pressa e sem hora marcada. A brincadeira amplia o tempo presente, incluindo o ontem e o amanhã; amplia os espaços, expandindo os horizontes.

Importante ressaltar que o tempo de pausa possa ser incluído criativamente para além das férias, no desenrolar das atividades comuns cotidianas.

 

Referências Bibliográficas

Philips, Adam (1993) – “Beijo, Cócegas e Tédio”, Ed Companhia das Letras,1996, SP

Russel, Bertrand (1930) – “A Conquista da Felicidade”, Editora Nova Fronteira, 2017, RJ

 

Mirian Malzyner é psicanalista, didata e membro efetivo da SBPSP, onde coordena seminários sobre Arte e Psicanálise, tendo artigos publicados sobre esse tema. Também desenvolve atividades no campo das artes plásticas, principalmente em ilustração. Nesse ano, escreveu e ilustrou o livro infantil “A Grande Vitória”, publicado pela Editora Aspas.

*A ilustração é de Mirian Malzyner

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