Mês: julho 2017

O poder enlouquece?

Por Marion Minerbo*

Aqui vai uma pequena ficção sobre a origem do pacto social. Assim que começamos a entender alguma coisa da vida, lá pelos 3 ou 4 anos, assinamos um contrato com aqueles que cuidam de nós: nos comprometemos a renunciar à satisfação absoluta de nossos impulsos sexuais e agressivos; em troca desse sacrifício, as instituições (a começar pela família) garantem o amparo físico e emocional necessário à nossa sobrevivência.

Assinamos não tanto por achar que a relação custo-benefício compensa, mas porque não temos escolha: é isso ou ficar no limbo social. Quem está no limbo não existe para os outros seres humanos. Especialmente para as pessoas que são significativas para nós. Esse é nosso maior pavor.

Chamamos de louco aquele que dá vazão a seus impulsos sem medo do limbo. E se ele não tem medo do limbo é porque, para ele, o contrato social deixou de valer. Ele está fora do jogo. Isso acontece em duas situações.

A primeira é quando o horror de não existir para a comunidade humana já se realizou. Falo dos miseráveis. As instituições, ou seja, nós, não fizemos a nossa parte no trato; abandonamos a pessoa à própria sorte. Nessas condições, ela pode sentir que já não tem nada a perder. E dar vazão aos impulsos sexuais e agressivos sem medo das consequências. São os que enlouqueceram de dor.

Mas há outra situação em que o pacto social deixou de valer. É quando alguém foi excluído do mundo humano por excesso de poder. Assim como o miserável, que está num limbo situado “abaixo” do pacto social, o poderoso também está num limbo, porém “acima” dele, numa espécie de Olimpo. Ele está numa condição que tem mais a ver com a dos deuses do que com a de seus pares – que, querendo ou não, pautam sua vida pelo contrato.

Não nos enganemos: estar no Olimpo é estar fora do jogo humano. É como jogar pôquer com alguém que dispõe de um cacife infinito. A possibilidade de perder, que é a base do jogo, não existe para ele. E como não está no mesmo plano, mesmo que se sente à mesa, seu jogo não conta para nós. Está excluído.

Da mesma forma que a exclusão do miserável, a do poderoso também pode enlouquecê-lo. Se o miserável nada tem a perder porque já perdeu tudo, o poderoso não tem nada a perder porque supõe que nada vai lhe acontecer. Mas se engana. A mitologia nos conta que mesmo os deuses do Olimpo são punidos quando extrapolam.

O que não é tão fácil de perceber é que o poderoso não enlouquece sozinho. A psicanálise mostra que, assim como no caso do miserável, nós contribuímos para que o poderoso enlouqueça. Se ele julga que pode tudo, é porque é levado a sentir que a sociedade jamais o abandonará. E talvez tenha nisso alguma razão. Explico.

Quando estamos diante de alguém que tem poder – qualquer tipo de poder – tendemos a viver esta nova relação com os padrões de uma relação antiga: a da criança com seus pais. É um dos sentidos do conceito de “transferência”. Lembro que a criança depende de forma absoluta dos pais, que para ela são muito poderosos. Quais seriam estes padrões?

Desejamos o amor dos poderosos como desejávamos o amor dos pais: cair nas suas boas graças, ter intimidade, dar e receber favores, gozar de sua proteção.

E também tememos sua ira, que certamente viria caso contrariados. Por exemplo, se tentarmos mostrar a eles, com ações concretas, que a lei vale para todos. Tememos seu ódio e sua vingança como temíamos a nossos pais.

Considerando essa mistura de amor, dependência e medo, quem ousaria levantar a mão contra os próprios pais? E de fato, o poderoso está cercado de pessoas que o veneram como se fosse um deus. Olham para ele com reverência: “você está acima do bem e do mal, as sanções não valem para você”. Prometemos a ele a impunidade. Mas, se ele acreditar nisso, mais cedo ou mais tarde estará perdido.

É assim que, com nossa ajuda, o poderoso pode enlouquecer, isto é, desqualificar o pacto social que funda nossas instituições. Para que isso não aconteça temos de lhe sinalizar constantemente que seu poder tem limites. A psicanálise chama isso de castração: ninguém pode tudo, o tempo todo, impunemente. Acenar com a castração é uma forma de incluir o poderoso no pacto social. De certa forma, ele nos agradecerá. Ou pelo menos, deveria.

 

*Marion Minerbo es psicanalista da SBPSP, doutora pela UNIFESP e autora de vários livros e artigos, entre eles “Diálogos sobre a clínica psicanalítica” (Blucher, 2016).

Sonhar: um curioso mecanismo digestivo

Talya Saadia Candi

 

“Não é verdade que as pessoas param de perseguir os sonhos porque estão a ficar velhas, elas estão a ficar velhas porque pararam de perseguir os sonhos” – Gabriel García Márquez

 

Muito antes da escrita e da publicação da “Interpretação do sonho” por Freud, já existiam pessoas interessadas em escutar os sonhos. No Antigo Testamento, o prisioneiro Joseph interpreta os seus próprios sonhos como uma comunicação profética divina. Convidado pelo Faraó a interpretar o estranho sonho das vacas magras que devoram as sete vacas gordas, Joseph diz: “Deus está revelando ao Faraó o que ele irá fazer”. Em Hamlet, Sheakspeare sugere que sonhos têm o poder de perturbar a nossa tranquilidade. O jovem príncipe diz a Guildenstern, seu amigo de infância: “Poderia viver recluso numa casca de noz e me achar rei do espaço infinito se não tivesse mal sonhos”. (Hamlet 2.2.234).   Para o cineasta sueco  Ingmar Bergmam, “filmes são sonhos (…) o filme vai diretamente para os nossos sentimentos, no fundo escuro das salas de nossas almas”.

Na visão da neurociência, os sonhos representam simplesmente uma descarga elétrica dos neurônios, usando o material do passado recente para construir histórias bizarras e sem nexo, mas que desempenham múltiplas funções: consolidação da memória para a aprendizagem, limpeza neuronal e desenvolvimento cerebral. Por outro lado, os pesquisadores perceberam que uma pessoa submetida a um acontecimento traumático – um estresse como um assalto ou a perda repentina de um ente querido – transforma o impacto da dor em sonho. Os sonhos acabam reverberando a situação, às vezes durante meses ou anos, e ajudam a processar as emoções dolorosas.

Essas novas pesquisas fortalecem a hipótese da psicanálise de  que  os sonhos exercem  um papel fundamental tanto no nosso comportamento diário quanto na elaboração dos traumas.

No primeiro período da terapia analítica, a análise do sonho impulsionou em grande medida a prática analítica e veio a ser o paradigma da manifestação do inconsciente e do seu poder expressivo. Com o passar do tempo e com os desenvolvimentos pós-freudianos, a presença da interpretação de sonhos nos relatos clínicos foi diminuindo e dando lugar a outras modalidades de fazer psicanalítico, tal como a interpretação da transferência na tradição kleinian e a atenção ao significante no sistema lacaniano.  Assistiu-se a uma verdadeira ultrapassagem do interesse da psicanálise pela interpretação dos sonhos e um crescente interesse pelo processo pelo qual o sonho é gerado: o sonhar.

Na perspectiva contemporânea (particularmente a partir dos anos 60 com as contribuições do analista inglês Wilfred Bion), o sonho noturno é somente uma das várias manifestações da misteriosa atividade mental e emocional que acontece tanto de dia quanto à noite e que  chamamos de  “sonhar”.

Os produtos do sonhar são numerosos.  Entre eles, alguns são bem conhecidos, como  o sonho noturno, o pesadelo, o devaneio e as “revêries” do analista.  Eles são usados para a alucinação de desejos, expressão emocional, crescimento psíquico, regulação homeostática e fuga nos momentos de stress. A unidade básica do sonho é a experiência vivida, real ou imaginada, consciente ou inconsciente.

Resta perguntar por que para a psicanálise contemporânea o sonhar é tão essencial para a saúde mental e o crescimento da personalidade?

No começo da vida, o bebê vive experiências emocionais brutas, sem significado, frutos do impacto das urgências vitais biológicas (fome, dor, percepções sensoriais diversas, etc). Estas experiências sem sentido são aterrorizadoras.  Elas precisam ser digeridas para adquirir sentido. O sonho cria símbolos que permitem reviver e reexperimentar enquanto estamos dormindo ou desatentos (no devaneio, por exemplo) fatos e acontecimentos perturbadores que não conseguiram entrar na nossa mente e adquirir sentido.

O trabalho do sonho cria uma espécie de teatro interno em forma de espelho pelo qual somos capazes de organizar os estímulos mais diversos, produzir questões, criar personagens, ensaiar problemas, levantar hipóteses e fazer avançar a pesquisa sobre as questões que dizem respeito a nossa humanidade: nossos desejos, conflitos, anseios, dúvidas, medos e angústias. Os sonhos nos permitem digerir a complexidade da vida emocional de forma mais eficaz do que quando estamos acordados e sem eles estaríamos sempre submergidos em estímulos excessivos, sem pensamento.

Neste novo contexto, o sonhar é visto como uma forma de pensar inconsciente, ele realiza um trabalho psíquico que atribui significado e incorpora as vivências com outras pessoas na própria estrutura da nossa mente, consolida lembranças, ensaia planos.

Finalmente, pelo sonhar construímos nossa historia, criamos projetos e pensamos no futuro.

Do ponto de vista dessa concepção revisada, o objetivo da psicanálise contemporânea  não é mais somente tornar consciente o inconsciente, mas também tornar o consciente inconsciente, isto é: tornar a experiência emocional bruta acessível ao tipo de riqueza do pensamento caracterizado pela capacidade de sonhar.

O tratamento analítico nos permite, dia após dia, cuidarmos das nossas emoções e nos apropriarmos das mesmas, reconhecendo-as, nomeando-as e finalmente sonhando-as. Sonhar nossa vida emocional nos dá instrumentos para que não fiquemos submersos e anestesiados pela intensidade dos estímulos, da dor, do medo ou da excitação e da alegria. Quando um sonho pode ser trabalhado no âmbito de um processo analítico, ele pode desencadear verdadeiras transformações na personalidade.

“Continuar perseguindo os sonhos”, como diz na epígrafe deste post o grande escritor colombiano Gabriel García Márquez, significa não ficar anestesiado frente ao impacto do fluxo contínuo de estímulos, conflitos e desafios com o qual a realidade nos confronta incessantemente e encontrar dentro de nós, no nosso mundo interno, soluções criativas que possam preservar e ampliar nossa capacidade de nos sentirmos seres pensantes e vivos.

 

Talya S. Candi é Membro associado da Sociedade Brasileiro de Psicanalise de Sao Paulo. Autora do livro: “o Duplo Limite; O  aparelho  Psiquico de André Green” , publicado pela Editora Escuta  e organizadora do livro : “Dialogos psicanalíticos contemporâneos”, publicado também pela editora Escuta . 

*Fotomontagem de Grete Stern

 

 

 

Entre a Psicanálise e a Medicina

Suzana Grunspun

Como a Psicanálise e a Medicina podem contribuir para a compreensão e aprofundamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade na infância?  Este Transtorno, tão habitual nos tempos atuais, é um diagnóstico formulado por médicos que estabelecem que os acometidos apresentam alterações de atenção e/ou do impulso. Segundo Saul Cypel (p.23-30; 73-74), neurologista infantil, o TDAH   ocorre em consequência de múltiplos fatores que precisam de um esclarecimento para se ter uma opção de tratamento. Sua incidência é muito alta: o transtorno atinge de 8% a 10% das crianças e é mais frequente em meninos. É muito intricado se falar de causas do TDAH. Aspectos genéticos e hereditários são correlacionados às disfunções neurobiológicas. Questões emocionais, ambientais e culturais também estão vinculadas ao TDAH.

 

O psicanalista procura entender o grau de sofrimento de cada paciente individualmente, e investiga o seu funcionamento mental. A falta de atenção compromete a capacidade da criança de manter-se concentrada em uma atividade; a impulsividade e/ou hiperatividade expressa-se por reações impensadas, bruscas e imotivadas. Estes sintomas são correlacionados com a baixa tolerância à frustração e a dificuldade em saber esperar – aspectos importantes para o olhar do psicanalista, pois a criança ainda não desenvolveu a capacidade de se conter.

 

É importante conhecer como o paciente em análise experimenta sua desadaptação ao ambiente escolar ou com seus familiares. Estas crianças, muitas vezes, sentem-se confusas entre o que é seu problema e a sobrecarga proveniente do seu mundo exterior. Dentro desta perspectiva, citamos Winnicott (1962,p.51-54), um pediatra inglês que também era psicanalista. Ele propôs uma teoria para se compreender o desenvolvimento da criança a partir da unidade mãe/bebê, salientando que esta dupla interage com uma dinâmica particular desde o nascimento. No TDAH, a questão do ambiente pode ser estudada a partir deste ponto de vista. Assim, se terá uma visão ampliada dos sintomas – que podem ser exclusivos, associados ou decorrentes das relações precoces que se estabeleceram no começo da vida. Tanto a impulsividade como as dificuldades de atenção e foco poderão se instalar nesta fase, sem necessariamente ter um fator neurobiológico que justifique o TDAH. Os sintomas entendidos pela psicanálise refletem conflitos internos ligados às dificuldades vivenciadas pelos acometido pelo TDAH.

 

Nesses casos, é importante que o analista conheça os correlatos biológicos do transtorno para entender o uso de medicamentos. Existem critérios precisos de indicação para crianças com alteração de comportamento intensa e persistente, mesmo depois da abordagem analítica, da orientação dos pais e do contato com a escola. Não se pode esquecer dos riscos que a criança muito agitada corre com seu comportamento – como as graves questões de ameaça de integridade física. É importante lembrar que cada criança deve ser avaliada individualmente.

 

O efeito da medicação tem como mecanismo de ação favorecer uma concentração de neurotransmissores catecolaminérgicos, seja por aumento de sua liberação local ou redução em sua metabolização.

 

Os sintomas que atualmente aparecem na clínica infantil estão correlacionados com mudanças paradigmáticas do mundo atual. Imersas em um mundo veloz, a exigência é que todas as crianças correspondam às expectativas contemporâneas. Nos vemos diante das seguintes perguntas: quando existe uma dificuldade real para alguma criança? E em que momento esta dificuldade é considerada uma não-correspondência das expectativas socioculturais a serem cumpridas? Nós, psicanalistas, temos que ponderar e refletir para mantermos nosso discernimento.

Bibliografia

Cypel, S. – Déficit de Atenção e Hiperatividade e as Funções. Executivas. São Paulo; Lemos Editorial ,2007.

Winnicott W D (1962) –Provisão para a criança na saúde e na crise.  In: O Ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre; Ed. Artes Médicas , 1990,p62-69

 

Suzana Grunspun é médica e psiquiatra, formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, com residência médica no Hospital do Servidor Público Estadual Francisco Morato. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), é analista de criança e adolescente pela International Psychoanalytical Association (IPA) e docente do Instituto Durval Marcondes da SBPSP. Foi secretária do curso de Psicanálise de Crianças e Adolescentes no biênio 2015/2016.

Tempo de férias, tempo de brincar, um tempo próprio

Mirian Malzyner

Férias são momento de pausa, como um parêntesis no cotidiano. Tanto para os adultos, como para as crianças pode ser uma oportunidade de resgatar um tempo próprio, em sintonia com os ritmos e necessidades mais básicas de cada um.

Muitas vezes, adaptar-se ao ritmo da agenda de compromissos e atividades, aceleradas pelas urgências do dia a dia, leva a um afastamento do contato mais íntimo com aspectos fundamentais do existir humano. As férias são o momento de marcar essa pausa, esse respiro que proporciona o encontro com o tempo subjetivo.

Proporcionar às crianças o tempo do brincar espontâneo e não dirigido é básico para a renovação contínua do potencial criativo, da curiosidade nas coisas do mundo e na confiança em si mesmo. O excesso de estímulos e as atividades propostas a partir “de fora” restringem as possibilidades da criança inventar e jogar com a imaginação. É importante o tempo de “não fazer nada”. Adam Phillips (1993) disse que o tédio é uma oportunidade de contemplar a vida em vez de fugir dela. E Bertrand Russel (1930), já falava em “monotonia produtiva” alertando para o fato de que uma geração que não suporta a monotonia será uma geração de homens divorciados dos lentos processos da natureza, de homens cujo impulso vital seca lentamente como flores podadas num vaso.

Os ritmos naturais dos processos humanos envolvem alternância de estados de atividades intensas e estados de tranquilidade, desde o início da vida. Ao entregar-se numa condição de total relaxamento após uma mamada feliz, o bebê vive um estado de quietude. Esse descanso dos estímulos do mundo é a base para a capacidade da criança e do adulto sadio experimentar o gesto espontâneo que torna o mundo real e as experiências verdadeiramente pessoais.

É no encontro com o ritmo próprio de cada um que podemos exercer a criatividade, condição essencial para sentir-se vivo. Winnicott, psicanalista inglês que partiu de uma longa experiência em pediatria, pôs em destaque a questão da criatividade primária como intrínseca ao ‘viver’. Ser humano é ser criativo, em um sentido próprio, em que a subjetividade se constitui pela possibilidade de criar o mundo em que se vive.

Se tudo correr bem, o encontro do bebê com o mundo dá-se de tal forma que não se coloca a necessidade de decifrar o mistério se ele criou o mundo ou se este já estava lá para ser encontrado. Este é o paradoxo. O encontro dá-se numa atmosfera que inclui uma ‘mágica’ – a ilusão onipotente – a partir da qual a vida subjetiva torna-se possível. Esse veio ‘mágico’ terá desdobramentos ao longo de toda a vida.

A brincadeira infantil vai se transformar encontrando outras formas, mas sempre existindo na possibilidade de “fazer à sua própria maneira”.  Qualquer pessoa em qualquer atividade do cotidiano pode ser criativa. Até mesmo o simples ato de respirar pode ser vivido como único e pessoal, expressão da subjetividade. Uma pausa para respirar pode ser o momento de integrar aspectos do si mesmo e renovar a condição criativa.

Brincar é inventar, exercitar a intuição, descobrir os sentidos do mundo sem pressa e sem hora marcada. A brincadeira amplia o tempo presente, incluindo o ontem e o amanhã; amplia os espaços, expandindo os horizontes.

Importante ressaltar que o tempo de pausa possa ser incluído criativamente para além das férias, no desenrolar das atividades comuns cotidianas.

 

Referências Bibliográficas

Philips, Adam (1993) – “Beijo, Cócegas e Tédio”, Ed Companhia das Letras,1996, SP

Russel, Bertrand (1930) – “A Conquista da Felicidade”, Editora Nova Fronteira, 2017, RJ

 

Mirian Malzyner é psicanalista, didata e membro efetivo da SBPSP, onde coordena seminários sobre Arte e Psicanálise, tendo artigos publicados sobre esse tema. Também desenvolve atividades no campo das artes plásticas, principalmente em ilustração. Nesse ano, escreveu e ilustrou o livro infantil “A Grande Vitória”, publicado pela Editora Aspas.

*A ilustração é de Mirian Malzyner

Sobre “Educação para a Morte”

Marielle Kellermann Barbosa

O livro fala de cachorro, chocolate, champagne, pássaros brigando por frutas no quintal. Fala de pai, de mãe, de sexo, de dores inimagináveis e de mortes sombrias. É engraçado e, ao mesmo tempo, emocionante.

Segundo Hanna Segal, o prazer estético causado por uma obra de arte se dá pela identificação do expectador com a obra como um todo e também com a constelação mental do artista representado na tal obra (Segal 1952/1982). O que ocorre da seguinte maneira: o artista tem um mundo interno destruído como eu o tenho, no entanto, tem coragem de enfrentá-lo e faço o mesmo com ele. Na obra de arte, compõe um mundo unificado e completo e, portanto, saio reintegrado e enriquecido.

É tentador sugerir que isto ocorre porque em uma grande obra de arte o nível da negação do instinto de morte é menor do que em qualquer outra atividade humana, que o instinto de morte é reconhecido, tão plenamente como pode ser suportado. É expresso e aprisionado para as necessidades do instinto de vida e da criação (Segal, 1952/1982, p. 270).

Em posição depressiva, reintegrado e enriquecido é como se sai ao emergir do lado de lá da contracapa do livro da colega Luciana Saddi, “Educação para a Morte”, editado pela Patuá e publicado neste ano, de 2017.

É um livro de contos e estes têm um ritmo de linguagem como um trote leve e macio- há um conto sobre o amor de uma menina por cavalos, um cavalo, em especial – a leitura flui pelas linhas e um conto se alinhava ao outro em histórias muito particulares, de épocas passadas e em cenários atuais, que tocam questões de todos nós.

Os contos são independentes, mas não são, vão criando uma imagem de certa personagem, que pouco a pouco se define pelas diferentes notícias que vamos recebendo dela. A voz infantil da personagem de alguns contos tem aquela força que sentimos no jeito de contar da Clarice (Lispector), quando esta escreve que um pepino parece uma coisa inventada e que a fulana saberia que sua felicidade seria sempre clandestina. É a economia das palavras, condensando seu valor. Se não me falha a memória, em um livro da Clarice, a personagem diz: “Se eu fosse eu mesma, onde eu teria escondido…”.

Poderíamos dizer, em companhia da grande dama da nossa literatura, assim: se o escritor fosse ele mesmo, e se fosse escrever algo de verdade, o que escreveria? Parafraseando Clarice: se eu fosse eu mesma, o que eu escreveria? Esse parece ter sido o ponto de partida de Luciana Saddi para escrever esses contos.

 

Marielle Kellermann Barbosa é membro filiado. Não é crítica literária, apenas leitora