“Embrace”: o peso silencioso do ódio ao corpo

*Luciana Saddi

Desde sempre, a fotógrafa australiana Taryn Brumfitt sentiu pressão para ter um corpo perfeito. Ela tem três filhos e chorava de ódio e desespero ao olhar-se no espelho após cada gravidez. Depois de muito lutar contra seu corpo, decidiu se aceitar e abriu mão das dietas. Assim começa o documentário “Embrace”, disponível na Netflix.

Brumfitt postou no Facebook uma foto do antes, quando ainda se sacrificava para obter um corpo perfeito e magro, e do depois, quando fez as pazes consigo mesma e com suas formas arredondadas. A imagem viralizou. Compartilhada por celebridades, virou manchete em revistas e jornais do mundo afora. Era a força que faltava para expor seu sofrimento e com isso investigar a relação de inúmeras mulheres com a imagem corporal. A principal motivação foi a filha. Ela queria que a menina se amasse.

O documentário revela que 91% das mulheres odeiam o próprio corpo. Diante de padrões idealizados de beleza toda mulher sente-se gorda e feia. Esse ódio é explorado pela indústria cosmética, da moda, das dietas, das cirurgias estéticas, das revistas femininas. O filme não investiga a exploração desse ódio pela sociedade patriarcal, pois mulheres oprimidas tendem a aceitar qualquer coisa, principalmente, homens que as maltratem. Tampouco questiona a não transformação da hostilidade em revolta ou libertação.

“Embrace” prefere mostrar mulheres que aprenderam a se amar, recusaram padrões de beleza e superaram preconceitos internos e externos. Magras demais, obesas demais, peludas demais, com queimaduras demais, com defeitos físicos demais ou apenas mulheres que lutaram para sair da perversa equação beleza/magreza/felicidade/juventude. E que fizeram do próprio sofrimento bandeira de luta e afirmação, dando novo sentido às suas vidas.

O documentário ainda expõe a loucura obsessiva e obcecada gerada por sucessivas dietas – prática quase sempre fracassada (é impossível se manter em privação alimentar por muito tempo) – que roubam a capacidade de pensar, de trabalhar, de se divertir e empobrece a vida de milhares de mulheres ao redor do mundo. O filme mostra que mulheres sentem medo o tempo todo, pois seus corpos podem ser expostos, suas imperfeições reveladas…mulheres se escondem, se envergonham e se humilham por causa do corpo imperfeito, inclusive as belas e jovens.

Nos anos 70, a psicanalista Susie Orbach escreveu um livro de grande sucesso internacional que está na 50ª edição: “Gordura é uma questão feminista”. No Brasil, o título não teve boa aceitação, embora a autora seja best-seller na Inglaterra e nos Estados Unidos. Há poucos anos, ela lançou “Bodies” (2009), livro que trata do crescente ódio ao corpo.

Orbach explora o conceito de mentalidade de dieta que aliena o sujeito dos sinais vitais da alimentação (fome, saciedade, prazer em comer). Considera a epidemia de obesidade e o aumento dos problemas alimentares (anorexia, bulimia e distúrbio compulsivo de alimentação) consequência do crescente controle alimentar, por meio das dietas, para alcançar um corpo idealizado. Autonomia alimentar versus opressão dietética. A autora afirma que a mentalidade de dieta é transmitida na família. Diz que os tratamentos dos problemas alimentares baseados em dieta são iatrogênicos, visam aumentar ainda mais o controle e o ódio ao corpo, e agravam os sintomas. Propõe, baseada na psicanálise, trocar a dieta pela autonomia alimentar e os ideais por simples aceitação. Indica mudanças técnicas para conectar (ou reconectar) o sujeito aos sinais vitais do comer para alcançar seus sofrimentos. A forma de pensar a ligação entre o social e o individual ao entrelaçar os níveis sociocultural, intrapsíquico e psicopatológico é a marca deste trabalho.

Em 1930, em “O Mal-Estar na Civilização”, Freud apontara que o progresso civilizatório não traria felicidade ao homem, pelo contrário, por meio da repressão à agressividade – condição civilizada por excelência – haveria um superego cada vez mais severo e violento. Talvez, por isso, o ódio ao próprio corpo não se transforme em rebeldia ou libertação, por estar preso a um círculo vicioso superegóico e masoquista que apenas o agrava.

“Embrace” expõe o opressor peso silencioso do ódio ao corpo, também apresenta mulheres que se libertaram e conseguiram se amar. Toda a opressão se assemelha enquanto a libertação percorre caminho singular.

Aprendi com Fabio Herrmann que a psicanálise apresenta ao homem o absurdo que o constitui e, se possível, ajuda a reconciliar-se com o absurdo e consigo mesmo. O documentário “Embrace” segue nessa trilha.

 

Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP, publicou artigos em revistas e livros especializados.

Autora dos livros: O amor leva a um liquidificador (ed. Casa do Psicólogo), Perpétuo Socorro (ed. Jaboticaba) e Alcoolismo – coleção o que fazer? (ed. Blucher). Recentemente publicou Educação para Morte (ed. Patuá).

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