Mês: junho 2017

“Embrace”: o peso silencioso do ódio ao corpo

*Luciana Saddi

Desde sempre, a fotógrafa australiana Taryn Brumfitt sentiu pressão para ter um corpo perfeito. Ela tem três filhos e chorava de ódio e desespero ao olhar-se no espelho após cada gravidez. Depois de muito lutar contra seu corpo, decidiu se aceitar e abriu mão das dietas. Assim começa o documentário “Embrace”, disponível na Netflix.

Brumfitt postou no Facebook uma foto do antes, quando ainda se sacrificava para obter um corpo perfeito e magro, e do depois, quando fez as pazes consigo mesma e com suas formas arredondadas. A imagem viralizou. Compartilhada por celebridades, virou manchete em revistas e jornais do mundo afora. Era a força que faltava para expor seu sofrimento e com isso investigar a relação de inúmeras mulheres com a imagem corporal. A principal motivação foi a filha. Ela queria que a menina se amasse.

O documentário revela que 91% das mulheres odeiam o próprio corpo. Diante de padrões idealizados de beleza toda mulher sente-se gorda e feia. Esse ódio é explorado pela indústria cosmética, da moda, das dietas, das cirurgias estéticas, das revistas femininas. O filme não investiga a exploração desse ódio pela sociedade patriarcal, pois mulheres oprimidas tendem a aceitar qualquer coisa, principalmente, homens que as maltratem. Tampouco questiona a não transformação da hostilidade em revolta ou libertação.

“Embrace” prefere mostrar mulheres que aprenderam a se amar, recusaram padrões de beleza e superaram preconceitos internos e externos. Magras demais, obesas demais, peludas demais, com queimaduras demais, com defeitos físicos demais ou apenas mulheres que lutaram para sair da perversa equação beleza/magreza/felicidade/juventude. E que fizeram do próprio sofrimento bandeira de luta e afirmação, dando novo sentido às suas vidas.

O documentário ainda expõe a loucura obsessiva e obcecada gerada por sucessivas dietas – prática quase sempre fracassada (é impossível se manter em privação alimentar por muito tempo) – que roubam a capacidade de pensar, de trabalhar, de se divertir e empobrece a vida de milhares de mulheres ao redor do mundo. O filme mostra que mulheres sentem medo o tempo todo, pois seus corpos podem ser expostos, suas imperfeições reveladas…mulheres se escondem, se envergonham e se humilham por causa do corpo imperfeito, inclusive as belas e jovens.

Nos anos 70, a psicanalista Susie Orbach escreveu um livro de grande sucesso internacional que está na 50ª edição: “Gordura é uma questão feminista”. No Brasil, o título não teve boa aceitação, embora a autora seja best-seller na Inglaterra e nos Estados Unidos. Há poucos anos, ela lançou “Bodies” (2009), livro que trata do crescente ódio ao corpo.

Orbach explora o conceito de mentalidade de dieta que aliena o sujeito dos sinais vitais da alimentação (fome, saciedade, prazer em comer). Considera a epidemia de obesidade e o aumento dos problemas alimentares (anorexia, bulimia e distúrbio compulsivo de alimentação) consequência do crescente controle alimentar, por meio das dietas, para alcançar um corpo idealizado. Autonomia alimentar versus opressão dietética. A autora afirma que a mentalidade de dieta é transmitida na família. Diz que os tratamentos dos problemas alimentares baseados em dieta são iatrogênicos, visam aumentar ainda mais o controle e o ódio ao corpo, e agravam os sintomas. Propõe, baseada na psicanálise, trocar a dieta pela autonomia alimentar e os ideais por simples aceitação. Indica mudanças técnicas para conectar (ou reconectar) o sujeito aos sinais vitais do comer para alcançar seus sofrimentos. A forma de pensar a ligação entre o social e o individual ao entrelaçar os níveis sociocultural, intrapsíquico e psicopatológico é a marca deste trabalho.

Em 1930, em “O Mal-Estar na Civilização”, Freud apontara que o progresso civilizatório não traria felicidade ao homem, pelo contrário, por meio da repressão à agressividade – condição civilizada por excelência – haveria um superego cada vez mais severo e violento. Talvez, por isso, o ódio ao próprio corpo não se transforme em rebeldia ou libertação, por estar preso a um círculo vicioso superegóico e masoquista que apenas o agrava.

“Embrace” expõe o opressor peso silencioso do ódio ao corpo, também apresenta mulheres que se libertaram e conseguiram se amar. Toda a opressão se assemelha enquanto a libertação percorre caminho singular.

Aprendi com Fabio Herrmann que a psicanálise apresenta ao homem o absurdo que o constitui e, se possível, ajuda a reconciliar-se com o absurdo e consigo mesmo. O documentário “Embrace” segue nessa trilha.

 

Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica – PUC/SP, publicou artigos em revistas e livros especializados.

Autora dos livros: O amor leva a um liquidificador (ed. Casa do Psicólogo), Perpétuo Socorro (ed. Jaboticaba) e Alcoolismo – coleção o que fazer? (ed. Blucher). Recentemente publicou Educação para Morte (ed. Patuá).

Conversa Psicanálise e Semiótica

Afinada com o espírito de nosso tempo, do risco do radicalismo e da intolerância ao diferente, a diretoria científica da SBPSP propôs  como eixo geral para as suas atividades, o tema “O mesmo, o outro”.  E seguindo este tema, trabalha com a noção de porosidade.

 

Nossa ideia é a de  pensar o corpo psicanalítico como uma pele disposta às influências internas e externas. Assim, cabe pensarmos na porosidade da Psicanálise voltada para outras áreas do conhecimento.

 

O formato “Conversas” surge da ideia de apresentarmos psicanalistas que se dedicam ao estudo da interface da Psicanálise com outros campos do conhecimento em conversa com profissionais de outras áreas, que se dedicam ao mesmo campo. Esta é uma oportunidade para conhecermos como outra disciplina comparece em seu pensamento e no seu exercício clínico.

 

No sábado, dia 12 de agosto às 9 horas, no auditório da SBPSP, teremos a primeira Conversa Psicanálise e Semiótica.

 

A Semiótica é a ciência que investiga os fenômenos como produtores de significação e sentido. Os seus nomes fundamentais são os linguistas Ferdinand de Saussure (1857-1913) e Algirdas Julien Greimas (1917-1992), e o filósofo e matemático americano Charles Sanders Peirce (1839-1914). Contemporâneo de Freud, Peirce nunca o conheceu. No entanto, podemos encontrar importantes  aproximações entre as duas disciplinas.

 

O foco de Peirce está em como percebemos os fenômenos e em como significamos as nossas experiências.  Partindo do ponto de que para conhecer algo o homem  produz um signo, ele sugere três categorias de apreensão, três modalidades nas quais os pensamentos são construídos.

 

A “primeiridade” refere à apreensão primeira e imediata dos fenômenos a partir de suas qualidades sensíveis. Ela tem como signo o ícone, que mantém a semelhança com objeto representado.

 

Mas, para que um fenômeno possa existir, ele tem que estar encarnado em uma matéria. Aí está a segunda modalidade de contato, a “segundidade”, cujos signos correspondentes são os índices, que mantêm uma relação causal de contiguidade física com o que representam.  E por fim a “terceiridade”, que aproxima os outros dois em uma síntese  intelectual e tem como signo correspondente o símbolo. Este, não mais ligado diretamente ao objeto, mas às associações multissemânticas de quem o vive.

 

Portanto, neste caminho do signo ao símbolo, podemos notar a importância da Semiótica para a clínica psicanalítica. Perceber, compreender, interpretar em um movimento ininterrupto são matéria tanto para semioticistas quanto para psicanalistas. Estas são as questões que serão abordadas em nossa Conversa Psicanálise e Semiótica. Contamos com a presença do professor Ivo Ibri, da PUC-SP, que apresentará um panorama geral da Semiótica. E com os psicanalistas Paulo Duarte Guimarães Filho  da SBPSP, que abordará a presença das ideias de Peirce na literatura psicanalítica recente  e José Antônio Pavan, da SBPSP e do Núcleo de Psicanálise de Marilia e Região, que vai estabelecer relações da semiótica com a sua clínica.

 

Aguardamos vocês,

 

Silvana Rea

Diretora Científica da SBPSP

Novos casais – antigos amores

Regina Maria Rahmi

O Dia dos Namorados faz emergir indagações sobre o amor. E como anda o amor, tão cantado em verso e prosa? E a busca pela cara metade?

Freud afirma que a busca do partner evoca, desperta ou ativa algum traço parcial no sujeito das primeiras relações amorosas. A primeira marca de prazer e satisfação. Entre o encanto do reencontro e o desencanto da ausência é o lugar onde convergem os apaixonados.

A ilusão de ter a mesma ilusão… Na parceria amorosa, implica em momentos mágicos onde os dois acreditam terem encontrado aquilo que sonharam. Esse é o território de projeções entrecruzadas, fantasias de continuidade, completude e transcendência. Não seria o “campo virtual”algo inerente à natureza das paixões? Um espaço de sonho e desejo?

“Os enamorados” –  diz William Shakespeare –  “buscam a noite”. Território das idealizações e intensas atrações. A grande questão aparece quando a luz da realidade, a existência do outro, se faz presente.

Qual é o espaço para a alteridade? Para a existência do outro enquanto outro, o diferente? Qual a tolerância para a dor de perceber que o outro não alberga somente nossas projeções? Que o partner existe por si, diferente do que se imagina?

 Na atualidade

A busca pela satisfação instantânea, o abandonar-se aos impulsos, estar em movimento, alta velocidade, uma aventura estimulante…  Nas parcerias, leva por vezes a “amores líquidos”, como se refere Zygmunt Bauman. Laços frágeis que, frente à frustração do não encontro daquilo que almeja, emerge o pesadelo.  A desilusão leva facilmente a rompimentos; sempre está a possibilidade de apertar a tecla e deletar.

Por outro lado, também existem aqueles que têm espaço e recurso interno para lidar com os desencontros e experimentar o desconhecido; a possibilidade de um novo vínculo nasce de um entre dois.  No momento em que o amor se apresenta, o prazer é inerente ao encontro, surge uma esperança.  Há uma inquietação e uma descoberta de quem se apresenta.

O amor vive da incompletude. É a falta, a busca que nos põe em movimento.  O desejo precisa de tempo para germinar, crescer e amadurecer. E no dizer do poeta Arnaldo Antunes: “O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo por conjunção estrelar. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério pela paz que o outro dá ou pelo tormento que provoca”.

 

Regina Maria Rahmi é membro associado da SBPSP, professora dos Seminários de Psicanalise dos vínculos de Família e casal da (Dac), diretoria de Atendimento a Comunidade da SBPSP e coordenadora do curso de especialização de Família e casal na atualidade – Instituto Sedes Sapientiae.

Foto: We Heart It

Sexo anatômico e identidade sexual

Não é exclusividade de nossos tempos a existência de pessoas que sofrem do sentimento de incompatibilidade entre o seu sexo anatômico e a sua identidade sexual. A crescente liberdade sexual conquistada pelas sociedades ocidentais – impulsionada sobretudo pela mudança da posição da mulher na sociedade – tem contribuído para uma maior aceitação e visibilidade de práticas sociais e sexuais que se afastam dos conceitos tradicionais e de sofrimentos que até então tinham pouco espaço para se manifestar.

A legalização do casamento gay e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo têm estimulado o questionamento das noções tradicionais de gênero e tornado possível a manifestações de diversas identidades sexuais.

Transgeneralidade é um termo que abarca as pessoas que ultrapassam as normas de gênero baseada na equivalência pênis – macho – homem – masculino e vagina – fêmea- mulher – feminina.  Entre eles podemos citar os travestis, drag queens, drag kings, crossdressings e os transexuais. Denominamos de transexuais aqueles que se identificam com o sexo oposto àquele de seu nascimento. Nessa entrevista concedida ao blog da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Marcella Monteiro de Souza e Silva* fala sobre os dilemas entre sexo anatômico e identidade sexual, questão despertada principalmente na adolescência, e o papel dos pais, da família e do processo terapêutico nessa jornada que envolve profundas mudanças psíquicas.

Como a Psicanálise vê a questão do sentimento de inadequação entre o sexo biológico e a identidade sexual?

Freud, no início do século XX, provoca uma revolução na ideia de sexualidade vigente na sua época, afirmando não só a existência da sexualidade infantil como também apontando para o fato de que possuímos uma bissexualidade originária. Com isso, ele queria dizer que apesar de nascermos com um sexo anatômico definido, temos, inicialmente, uma disposição bissexual e só nos constituímos como homens ou mulheres através de um longo processo de identificação com as pessoas significativas com as quais nos relacionamos. Com essa colocação Freud inclui a dimensão social e psicológica na formação da nossa identidade sexual que passa a ser vista como uma construção, não se reduzindo e, portanto, nem sempre coincidindo com o nosso sexo biológico. Em 1964, o psicanalista Robert Stoller contribuiu para a discussão do assunto introduzindo a noção de “gênero” ou “identidade de gênero” na psicanálise. Com isso, ele propõe pensarmos a masculinidade e a feminilidade como aspectos psicológicos, sociais e históricos diferenciando-as do sexo no sentido biológico. Assim, vemos que a teoria psicanalítica já aponta para o fato de que a identidade sexual não se encontra soldada ao sexo biológico

 Os indícios do desejo de mudança de sexo costumam manifestar-se em que idade?

É importante termos em mente que não existe “o transexual” como uma categoria única, pois cada pessoa (seja ela transexual ou não) é um ser humano singular que vive e sofre a sua própria maneira. Daí a importância de levarmos em conta a diversidade e a singularidade das histórias vividas pelos adolescentes ou adultos que desejam a “mudança de sexo”.

Muitas pessoas que sofrem com o sentimento de inadequação de seu sexo anatômico e sua identidade de gênero afirmam que desde muito cedo, ainda crianças, sentiam-se desconfortáveis com seu sexo biológico e identificavam-se com o sexo oposto ao seu de nascimento. Porém, é geralmente na adolescência, quando há uma segunda eclosão da sexualidade (sendo a primeira na infância, na época do complexo de Édipo), que esse sentimento de fato “ganha corpo”e que, geralmente, surge a vontade de “mudança de sexo”.

Vale lembrar que até mesmo o tratamento cirúrgico, chamado cirurgia de redesignação sexual, não altera efetivamente o sexo da pessoa, uma vez que ela não altera o material genético do indivíduo (XX nas mulheres e XY nos homens). Atualmente, a cirurgia, possível de ser realizada a partir dos 21 anos de idade no Brasil, só é indicada após um processo psicoterapêutico de alguns anos no qual essa decisão possa ser pensada e elaborada.

Muitos transexuais buscam apenas a terapia hormonal e não têm interesse em realizar a cirurgia para a redesignação sexual.  Esse método consiste na administração de progesterona e estrógeno para as transexuais com identidade de gênero feminina e testosterona para os transexuais com identidade de gênero masculina.

Essas duas possibilidades oferecidas pela medicina nos dias de hoje – a intervenção cirúrgica ou o tratamento hormonal – tornam possível a minimização do sofrimento de pessoas que sentem incongruência entre seu sexo anatômico e a sua identidade de gênero. Com esses recursos, o transexual pode ser ajudado na tentativa de adaptar seu corpo ao seu sentimento de identidade de gênero, ou seja, ao gênero ao qual sente que pertence.

Quais os principais dilemas de um adolescente que quer mudar de sexo?

A adolescência é uma fase de inúmeras mudanças corporais e esforços de adaptação a elas. No caso de um adolescente que não se identifica com o seu sexo anatômico os desafios são ainda maiores.

Geralmente, nessa época os adolescentes sentem muito intensamente o desejo de reconhecimento segundo o gênero que eles próprios sentem ser o seu. Ou seja, eles desejam serem designados na escola e na família, segundo o gênero que lhes corresponde psicologicamente. Assim, muitos deles lutam por mudar o nome social, na lista de chamada da escola, por exemplo, e na família.

Embora os pais e as escolas estejam cada vez mais conscientes e sensíveis ao assunto, ainda é muito grande a resistência que os adolescentes encontram nessa área. Surgem receios de como serão vistos e aceitos pela comunidade e de como será sua vida afetiva e sexual.

Como os pais podem apoiar e se preparar para esse processo?

O apoio dos pais é fundamental para o adolescente que deseja “mudar de sexo”. Quanto mais os pais podem suportar e acolher o desejo do filho, maior será a possibilidade de o adolescente entrar em contato com seu desejo e tentar elaborá-lo de maneira a tomar as decisões que mais lhe convêm. E caso opte, de fato, pela cirurgia ou tratamento hormonal, ele poderá enfrentar as dificuldades da mudança corporal e dos desdobramentos emocionais que elas trarão.

Alguns pais podem ter dificuldade em aceitar o filho que manifesta tais desejos, vendo-o muito distante daquele filho que eles gostariam de ter. É importante que os pais possam elaborar o luto pelo filho desejado para que possam acompanhar o filho real na descoberta da pessoa que ele é. Muitas vezes o acompanhamento psicoterapêutico dos pais pode ajudá-los a estar mais próximo ao filho nesse processo.

Muitos pais inicialmente sentem-se culpados, atribuindo algum erro na sua criação do filho como determinante do desejo dele pela mudança de gênero. É importante que os pais possam ter em mente que a vida mental, psíquica é de tal complexidade que não é um fator exclusivo que determina nossos desejos e necessidades e sim uma série de elementos que, conjuntamente, nos fazem ser quem somos. O sentimento de culpa dos pais pode ser um entrave para a aceitação do filho.

E a escola, amigos e sociedade? Qual o papel desses relacionamentos nesse contexto?

Qualquer mudança corporal, seja ela apenas de aparência ou fruto do tratamento hormonal, tem uma repercussão psíquica muito grande no adolescente, por isso, a importância de ambiente de parceria entre a escola, a família e o adolescente.

A escola costuma ser o ambiente público mais importante do adolescente. É fundamental que ele possa sentir que neste lugar ele é respeitado e aceito segundo a designação que ele deseja. Assim, ser chamado pelo nome social na chamada escolar, pelos professores, por exemplo, pode significar muito para o adolescente. É importante também a escola estar atenta de como a comunidade escolar aceita e respeita o aluno e dá espaço para ele existir de acordo com o gênero que deseja.

O principal desejo do adolescente neste contexto é o reconhecimento e o sentimento de pertencimento.

De que forma a análise poderia ajudar o adolescente e/ou família nesse processo nesse momento?

Uma vez que todas as nossas manifestações psicológicas têm como base elementos conscientes e inconscientes, uma análise pode beneficiar muitíssimo tanto a família quanto o próprio adolescente ou criança que se sente desconfortável com a sua identidade de gênero.

Para o adolescente, a análise pode auxiliá-lo a discriminar se o que ele sente é um real desejo de mudança de gênero ou apenas uma enorme admiração pelo sexo oposto, pois muitas vezes essas duas coisas encontram-se imbricadas e de difícil discriminação sem um trabalho analítico. Este processo de autoconhecimento é muito importante pois muitas vezes pode-se definir precocemente que se trata de uma questão identitária enquanto o que está em jogo é somente uma fase da construção de identidade de gênero que, como vimos, passa pelos caminhos identificatórios do indivíduo. Por isso, pode ser temerária uma definição e intervenção em crianças, por exemplo.

O processo analítico pode contribuir também para desvendar fantasias que muitas vezes estão em jogo. Alguns indivíduos idealizam a mudança de gênero, acreditando que com ela estarão livres de sofrimentos que muitas vezes são inerentes à condição humana. Por isso, o trabalho sobre as expectativas em relação à mudança de gênero é importante.

Por propiciar um contato maior do indivíduo com ele mesmo, a análise pode ajudá-lo a fazer escolhas e tomar decisões mais conscientes para, inclusive, poder lidar com as consequências dessas escolhas como o autorreconhecimento no gênero escolhido, o processo de inserção social e ainda a relação com o próprio corpo.

A família pode ser beneficiada pela análise uma vez que essa pode ajudá-la a rever seus próprios valores, crenças e certezas e assim poder acompanhar o adolescente de maneira mais próxima e livre de preconceitos.

 

 

 

Marcella Monteiro de Souza e Silva é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professora de psicologia no Colégio Oswald de Andrade.

CRACOLÂNDIA – DIVERSÃO OU REFÚGIO?

A discussão em torno do tema cracolândia tem ganhado visibilidade nos últimos dias por conta das ações realizadas pela Prefeitura de São Paulo no local, notoriamente conhecido por reunir usuários e traficantes que consomem e vendem drogas a céu aberto. Com o tema em voga, acabam vindo à tona histórias diversas de pessoas que vivem no local e, muitas vezes, fogem do estereótipo do craqueiro . Mas o que leva alguém a chegar ao ponto de se abrigar em um ambiente como o da cracolândia? Diversão? Prazer?

Confira abaixo o artigo da psicanalista Maria de Lurdes Zemel sobre o tema:

A CRACOLÂNDIA SERIA UM LUGAR DE DIVERSÃO OU UM REFÚGIO?

Ao fazer a divisão da palavra crack-lândia podemos associá-la à Disney-lândia – o que leva a pensar sobre o uso de droga estar associado somente ao prazer. Decorre daí a certeza que esse é um lugar que abriga pessoas que vivem só do prazer. Pessoas irresponsáveis, que não querem trabalhar, não respeitam leis, não sabem viver em grupos sociais, etc.

Sim, todos buscamos a droga para obter prazer e é isso que ela nos oferece. Sabemos isso usando adequadamente qualquer droga. A questão passa a se complicar quando a relação com a droga se inverte, isto é: quando ela dirige a relação, como se fosse um tirano a nos dominar. Isso é assim também com o crack.

O crack é a cocaína inalada. Tem um efeito rápido, vai direto à corrente sanguínea por inalação. Seu efeito também passa rápido. Rapidamente causa tolerância, síndrome de abstinência e dependência.

O usuário de crack de terno e gravata, aquele que vem ao nosso consultório, usa crack eventualmente e não frequenta a “cracolândia”. Ele é uma pessoa diferente do “craqueiro” que está lá na “cracolândia” em andrajos ou escondido por um cobertor. No entanto, ambos são seres humanos e merecem respeito e compreensão.

O frequentador da “cracolândia” está submetido à lei social do tráfico, lei rígida e que demanda obediência servil. O tráfico tem palavra: é cumprir ou morrer. É possível que ele obedeça a esse tipo de lei por não ter tido interdição paterna, por ter se perdido dentro da família e por estar num grupo social sem lei, onde nada do que é dito é cumprido.

O frequentador da “cracolândia” tem urgência – fuma uma pedra atrás da outra. Procura na latinha uma pouco de calor na boca, mesmo que a queime. Beija a boca de qualquer um ou aceita qualquer sexo somente para sentir um corpo junto ao dele, um corpo sem nojo, igual ao dele. Envolve-se num cobertor para sentir um limite na própria pele, para se sentir único no meio da multidão de semelhantes. Cada um tem seu cobertor. O cobertor é sagrado; assim como nosso corpo é sagrado para nós e nossa mente é única.

O cobertor esconde muitas histórias. Muitas misérias e muitas dores não poderiam ser suportadas sem a presença dele. Abortos, estupros, surras, mortes, abandonos, violências de toda qualidade. Estamos do lado de fora do cobertor, não sabemos dos sofrimentos daqueles que ali se escondem.

Um bebê substitui a ausência de sua mãe por um “paninho”. Um “craqueiro” precisa de um cobertor para suportar a ausência de vida que existe em sua própria vida. A morte se faz constantemente presente; a morte é fria.

O cobertor nos protege de ver tanta tristeza. Talvez fosse insuportável para nós enxergar o que o cobertor encobre. Talvez seja insuportável para o craqueiro também.

O craqueiro precisa da “cracolândia” para se refugiar e se proteger de nós, que temos medo da precariedade psíquica escancarada por ele.

*Maria de Lurdes de S. Zemel é coordenadora do Grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas do Setor de Parcerias e Convênios da Diretoria de Atendimento a Comunidade da SBPSP

*Revisão de Luciana Saddi – membro da SBPSP