Reflexões sobre identidade sexual

**Por Maria Thereza de Barros França

Desde inícios do século XX Freud nos apresentou suas teorias acerca da sexualidade infantil. Certamente organizou observações que já vinham sendo feitas por outros autores da época, entretanto inovou e propôs pensarmos a sexualidade em termos de libido – algo que transcende em muito a experiência do ato sexual. Nossa identidade sexual se firma na adolescência, mas desde muito cedo o processo de seu desenvolvimento está em andamento.

Freud nos colocou em contato com a bissexualidade presente em todos os seres humanos e ressaltou sua força na tenra infância. É um longo processo de amadurecimento emocional a ser percorrido, para que possamos transformar aspectos onipotentes da nossa mente infantil e nos tornarmos adultos, encontrando formas de compor dentro de nós nossos aspectos femininos e masculinos, os quais nunca deixarão de existir: o que se passa é que o desenvolvimento promove o predomínio e a identificação com uma dessas vertentes.

Neste sentido as relações afetivas, especialmente com mãe, pai e familiares, modelos que são para nossa constituição, são de extrema importância. Os bebês humanos não nascem prontos: nossos corpos continuam se constituindo após o nascimento; o mesmo se dá com nossa mente e também com nossos cérebros: as experiências emocionais esculpem nosso Sistema Nervoso, como demonstra Iole Cunha em seus interessantes trabalhos.

Certamente há muita distância entre nosso sexo biológico e a sexualidade psíquica. A desarmonia mente/corpo leva a sofrimentos intensos. Muitas vezes para lidarmos com dor, mobilizamos mecanismos de defesa em que idealizamos situações nas quais estaríamos livres de sofrimento. O que se passa, entretanto, é que apenas iremos gerar outros tipos de angústia.

Para lidar com nossas crianças e jovens às voltas com desarmonias em sua relação mente/corpo, não basta nomeá-los transgêneros, conforme fez o programa Fantástico. Sabemos que rótulos muitas vezes trazem algum alívio. Mas e o que isso quer dizer? Aceitar e respeitar é importante, mas NÃO BASTA! É fundamental que possamos buscar o entendimento amplo sobre os profundos processos inconscientes que se dão em nossas mentes, muitas vezes desconsiderados pelos desenvolvimentos científicos.

Winnicott há muito já dizia que a humanidade paga um preço muito caro por desconsiderar as pesquisas psicanalíticas.

 

** Maria Thereza de Barros França é psiquiatra e psicanalista. Membro efetivo da SBPSP, especialista em psicanálise de crianças e adolescentes pela IPA, docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, coordenadora do CINAPSIA, integrante da Secretaria de Psicanálise de Crianças e Adolescentes da SBPSP.

1 comentário

  1. Muito oportuno seu artigo Maria Thereza!De uma objetividade bastante importante para a direção de um assunto extremamente voltado à subjetividade da complexidade que envolve as questões da sexualidade ,suas implicações na singularidade de cada indivíduo!Um texto bastante preciso ,rico,claro e mto didático!Parabens !

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