Dia da Família: alternativa democrática?

*Por Eliana Riberti Nazareth

Algumas escolas já implantaram o Dia da Família (15 de maio) em substituição ao Dia das Mães e ao Dia dos Pais. Outras parecem estar em via de. Alguns justificam tal iniciativa dizendo que, desse modo, mais crianças podem ser incluídas nas comemorações, pois nem todas têm mãe, pai ou ambos, ou provêm de famílias ditas tradicionais. Ligado a isso, outros afirmam ser esta uma maneira mais “democrática”, implicando uma visão menos preconceituosa e menos intolerante, sobretudo em se tratando de crianças e adolescentes pertencentes a famílias que não se compõem por pai-mãe-filhos. Bons argumentos à primeira vista.

A fim de ampliar a reflexão, proponho examinar brevemente tais premissas envolvidas na criação do Dia da Família, isto é, a maior possibilidade de inclusão e o abrandamento do preconceito. Reflexão que, talvez, nos leve a pensar além de consequências mais superficiais para as famílias, tenham elas a estrutura que tiverem. Refiro-me aos pressupostos de tais iniciativas e suas possíveis ressonâncias no imaginário de crianças, adolescentes e suas famílias.

No caso do argumento de que a extinção da comemoração em separado do Dia das Mães e dos Pais (e criação de um único dia, o da Família) permitiria uma maior inclusão, penso que, na sua origem, estaria a tentativa de minorar o sofrimento daquelas crianças que não têm um ou ambos os pais, ou porque nunca os tiveram como figuras presentes emocionalmente em suas vidas, ou porque os perderam por abandono, separação conjugal conflituosa ou morte. Objetivo louvável num primeiro momento. Mas será mesmo que a diminuição do sofrimento da perda se dá dessa maneira?  Será que eliminar essas comemorações levará ao desfazimento dos conflitos, dos traumas, das dores das perdas?

Parece que por trás dessa substituição de comemorações está embutida a crença de que “longe dos olhos, longe do coração”, algo com o qual nós, psicanalistas, lidamos todos os dias. Construção difícil de desmontar, pois diz respeito à ilusão de que, quanto menos contato se tem com a realidade dolorosa, menor o sofrimento. E a cultura, sobretudo a atual, não tem favorecido muito o enfrentamento da realidade. Ao contrário, cada vez mais proliferam os meios de seu tangenciamento e negação, com a criação de simulacros.

A justificativa de que a criação do Dia da Família, em substituição ao Dia das Mães e Dia dos Pais, seria uma alternativa mais democrática e menos preconceituosa implica a intenção de que, desse modo, possa haver uma maior receptividade das diferenças, sobretudo em se tratando de crianças filhas de casais do mesmo sexo.

Aqui também caberiam algumas ponderações. Qual seria a maneira mais adequada de se lidar com o preconceito e a intolerância? Seria extinguindo ou anulando as diferenças? Ou seria mantê-las e ajudar crianças, adolescentes e suas famílias a compreendê-las e elaborá-las descobrindo novas possibilidades do ser, tão complexo, humano?

Ao não se comemorar mais Dia das Mães e Dia dos Pais, pode-se ter a impressão de que as faltas e as diferenças não serão registradas com sua devida importância e singularidade. Tentar tratar o diferente como se não o fosse, tentar tratar as especificidades das mais diversas configurações familiares como não se não fossem peculiares e distintas pode, ao contrário do pretendido, fortalecer preconceitos que ficam invisíveis e aparentemente inertes, mas que podem tomar voz nos nada triviais comportamentos de bulliyng. As diferenças não desaparecem pela simples troca de comemorações.

Levar em consideração as singularidades é o que pode favorecer a compreensão e aceitação da pluralidade das famílias.

Como nos ensina Bion “o desenvolvimento mental saudável parece depender da verdade como o ser vivo depende da comida”.

Que se comemore o Dia da Família, o Dia das Mães e o Dia dos Pais!

*Eliana Riberti Nazareth é membro efetivo da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, coordenadora do Grupo de Estudos das Relações CorpoMente e docente do Instituto de Psicanálise da SBPSP. Eliana possui especialização em psicoterapia de família e de casal pelo ILEF – México.

 

1 comentário

  1. Olá, sou pai, edito uma página sobre paternidade participativa facebook.com/paiehpai e este mês coloquei a postagem de um amigo meu sobre isso. Ele perdeu a mãe ainda criança e estava agradecendo as professoras da escola e a sua madrinha por ajudá-lo a superar e a encoraja-lo a seguir adiante.

    Também não acho que “Varrer as diferenças para debaixo do tapete” seja a melhor opção.

    Gostaria da autorização de vocês para reproduzir o texto em minha página, linkando com o depoimento deste meu amigo.

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