Ser mãe de filhos adultos ou tornar-se mãe de filhos adultos?

Nilde Franch

Ser mãe – ou pai – não se improvisa. Ninguém nasce pronto para isso, nem recebe por herança. Como disse Simone de Beauvoir “On ne nait pas femme: on deviant”. Assim, tornar-se pai ou mãe é produto de uma tessitura cotidiana e prolongada de um vínculo que pode vir a nos tornar pais. É um processo de construção que acontece lentamente: ao mesmo tempo que se vai construindo, vai-se exercendo. E tudo parece começar com o desejo de dar e transmitir vida.

E quando os filhos tornam-se adultos? Não utilizarei o conceito de maioridade, mas focarei no período depois daqueles tempos agitados em que pais e filhos atravessaram juntos as turbulências da adolescência.

Como disse Meltzer, seria possível comparar a adolescência com o dilúvio a ser enfrentado pelas criaturas que entraram na Arca de Noé. Trata-se de uma travessia turbulenta em que os pais vão sofrendo pelas mudanças e pelo afastamento dos filhos e em que a necessidade deles de buscarem uma identidade própria os levam a desfazerem-se de certas identificações alienantes, mesmo que isso implique atitudes arrogantes e de desprezo em relação aos pais. No final do processo, a tendência é que aconteça um reposicionamento interno e externo das funções parentais. Luto feito pelos lugares antes ocupados, ou seja, de “pais da infância”, eles poderão buscar novos lugares, como por exemplo o da disponibilidade.

Assim penso que é ser mãe de filhos adultos: poder ficar nesse lugar de disponibilidade para se, e quando, os filhos precisarem de interlocução verdadeira, amparo, proteção.

É necessário autocontinência para não invadir o espaço que construíram para serem eles próprios e respeito pelas escolhas que fizerem, ainda que possam ser diferentes das que faríamos. Além disso, é preciso suportar a dor e paradoxalmente a alegria de não mais estar na linha de frente, compartilhar as alegrias do crescimento e da autonomia dos filhos, sofrer com eles os impactos da vida, preservando o espaço entre as gerações , para não se confundirem e não os confundirem.

O mais importante: continuar amando-os, mesmo nas diferenças. Se tudo der certo, uma nova construção emergirá: a de uma relação amorosa e respeitosa. Nada fácil, não é? Porém, possível.

 

Nilde Franch é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e analista didata.

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