Mês: maio 2017

Reflexões sobre identidade sexual

**Por Maria Thereza de Barros França

Desde inícios do século XX Freud nos apresentou suas teorias acerca da sexualidade infantil. Certamente organizou observações que já vinham sendo feitas por outros autores da época, entretanto inovou e propôs pensarmos a sexualidade em termos de libido – algo que transcende em muito a experiência do ato sexual. Nossa identidade sexual se firma na adolescência, mas desde muito cedo o processo de seu desenvolvimento está em andamento.

Freud nos colocou em contato com a bissexualidade presente em todos os seres humanos e ressaltou sua força na tenra infância. É um longo processo de amadurecimento emocional a ser percorrido, para que possamos transformar aspectos onipotentes da nossa mente infantil e nos tornarmos adultos, encontrando formas de compor dentro de nós nossos aspectos femininos e masculinos, os quais nunca deixarão de existir: o que se passa é que o desenvolvimento promove o predomínio e a identificação com uma dessas vertentes.

Neste sentido as relações afetivas, especialmente com mãe, pai e familiares, modelos que são para nossa constituição, são de extrema importância. Os bebês humanos não nascem prontos: nossos corpos continuam se constituindo após o nascimento; o mesmo se dá com nossa mente e também com nossos cérebros: as experiências emocionais esculpem nosso Sistema Nervoso, como demonstra Iole Cunha em seus interessantes trabalhos.

Certamente há muita distância entre nosso sexo biológico e a sexualidade psíquica. A desarmonia mente/corpo leva a sofrimentos intensos. Muitas vezes para lidarmos com dor, mobilizamos mecanismos de defesa em que idealizamos situações nas quais estaríamos livres de sofrimento. O que se passa, entretanto, é que apenas iremos gerar outros tipos de angústia.

Para lidar com nossas crianças e jovens às voltas com desarmonias em sua relação mente/corpo, não basta nomeá-los transgêneros, conforme fez o programa Fantástico. Sabemos que rótulos muitas vezes trazem algum alívio. Mas e o que isso quer dizer? Aceitar e respeitar é importante, mas NÃO BASTA! É fundamental que possamos buscar o entendimento amplo sobre os profundos processos inconscientes que se dão em nossas mentes, muitas vezes desconsiderados pelos desenvolvimentos científicos.

Winnicott há muito já dizia que a humanidade paga um preço muito caro por desconsiderar as pesquisas psicanalíticas.

 

** Maria Thereza de Barros França é psiquiatra e psicanalista. Membro efetivo da SBPSP, especialista em psicanálise de crianças e adolescentes pela IPA, docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, coordenadora do CINAPSIA, integrante da Secretaria de Psicanálise de Crianças e Adolescentes da SBPSP.

FEELING BLUE – A TRISTEZA DE NOSSOS ADOLESCENTES

*Por Sylvia Pupo

A febre dos jogos e séries ligados à temática da morte parece ter dado voz ao apagamento gradual e silencioso do adolescente na nossa sociedade.

O jogo da Baleia Azul e a série 13 Reasons Why, exaustivamente abordados na mídia nas últimas semanas, geraram perplexidade e pânico a respeito de uma possível epidemia de futuros suicídios e uma controvérsia a respeito de ser ou não recomendada sua exibição ao seu público alvo. Havia o receio da indução a mais suicídios, já que a forma romantizada e detalhada com que o tema é abordado são fatores largamente desaconselhados pela Organização Mundial de Saúde. Tentativas prévias são consideradas um fator de risco importante na indução de mais suicídios.

Tanto o jogo quanto a série expõem a angústia e a desesperança dos adolescentes e os destinos possíveis, embora nem sempre desejáveis, para a sua dor. O suicídio é um deles. Retratam com crueza a violência da via-crucis percorrida pelos jovens – como as etapas do jogo – na sua transicionalidade e na busca de lugar no grupo social. Esta é uma violência que às vezes não notamos ou então subestimamos.

Já fomos adolescentes e sobrevivemos – alguns melhor do que outros, é bem verdade – às angústias e maldades, ao desprezo dos amores e à incompreensão dos pais, às incertezas e dúvidas. Até ocorreu a alguns tirar a própria vida em momentos de desespero, mas não o fizeram. O pensamento parece ter dado conta das angústias.

Dados alarmantes da OMS apontam o suicídio como a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O que será que mudou?

Os motivos pelos quais pessoas tiram suas vidas são variados e individuais, mas supomos que a desesperança e a dor sejam denominadores comuns. Esses suicídios nos dizem que algo vai mal, que está difícil viver. Que não se tem mais esperança e se está muito só. São sintomas do social?

O que não estaríamos podendo escutar? O que as palavras não estão alcançando no uso do corpo nessa falta de nomeação? Nos perguntamos: onde é que falhamos?

Seja um ato impulsivo ou planejado, de vingança ou desespero, no suicídio há uma mensagem – ainda que enigmática – para quem fica. O que nos comunica essa onda de suicídios, sobre a relação dos jovens com a sociedade? Seria a cultura contemporânea que está destruindo os jovens ou seria o modo que interagimos com ela?

É fato que o psiquismo se apoia em traços da realidade, mas não será, necessariamente, uma reprodução dela. A cultura oferece veículos para a expressão da violência interna de cada um e o jogo é mais um deles.

Podemos ter mais de 13 razões e, mesmo assim, conseguirmos encontrar outras vias para processar nossa dor e dar a ela um destino. Aperta-se o botão delete para que o desconforto desapareça? Novas drogas nos deixam em êxtase permanente. Perdemos a capacidade de tolerar o mal-estar – necessário e estruturante do sujeito – inerente ao processo civilizatório, observado por Freud?

Ninguém pode mais esperar, tudo é para já. Há uma pressão contínua para que se “evolua” (o que será isso?) em uma escalada ascendente, mas não há tempo para aprofundar. Não se tem mais tempo a “perder”. Vemos um grande incômodo quando é necessário desacelerar,  “voltar duas casas no jogo da vida” que se torna, ela mesma, uma série de tarefas a serem cumpridas, em vez de uma experiência a ser vivida.

Não é o caso de procurarmos culpados, mas de pensarmos se estamos conseguindo ajudar os jovens a criarem recursos para lidar com as dificuldades da vida, mas, principalmente, com os próprios afetos.

Estaríamos reproduzindo certos valores e ideais que nos dificultam “re-conhecer” nossos filhos?  Seria bom se pudéssemos acreditar que ser feliz é muito mais do que atingirmos os padrões valorizados socialmente. Que é importante construirmos algo que exceda a nossa sobrevivência – algo para além dela, que nos dê prazer e possa ser um veículo para os nossos sonhos. Questionar o sentido de passarmos a mensagem a um adolescente que ele tem que trabalhar muito agora para ter mais trabalho no futuro e que isso é o que vai fazê-lo feliz.  Considerar que é bom buscarmos satisfação nas nossas escolhas e não apenas reconhecimento. Ensinar que podemos ter felicidade apesar de tantas faltas e limitações. Talvez isso soe mais possível.

O submetimento, também suicida, à tirania de ideais, mostra que essa necessidade de reconhecimento encobre, na verdade, uma carência de auto-reconhecimento.  As patologias contemporâneas têm aí suas raízes. Depressão, baixa auto-estima, as chamadas “patologias do vazio”, que se expressam na forma de distúrbios alimentares, compulsões, adicções, intervenções estéticas em excesso, refletem a insatisfação crônica do sujeito consigo mesmo. Ser feliz tornou-se um valor quase masoquista: ser o que não se é, ter o que não se tem… Não se tolera a falta, a incompletude, a imperfeição. Não se tolera mais o humano.

Esse assassinato das individualidades atinge, sobretudo, os adolescentes, que estão em pleno processo de consolidação pessoal. Qual é o preço de pertencer?

Como conseguir tolerar os vazios sem preenchê-los com drogas, comida, consumo, sexo? Essa parece ser uma das tarefas da atualidade – darmos conta das incertezas e dos vazios de maneira não destrutiva.

Infelizmente não podemos prever com certeza quais jovens vão aderir aos jogos mortais ou cometer suicídio. O que sabemos é que pessoas com uma auto- estima mais satisfatória e uma identidade estável e estruturada terão maior capacidade de julgamento, de tolerar a frustração, de acomodar conflitos e pensar. Esse vai ser um recurso importante  nos funcionamentos impulsivos, por exemplo, a capacidade de adiar a ação.

Nossa tarefa então, não será poupar os adolescentes das problemáticas e frustrações. Ao contrário, temos que ajudá-los a desenvolver recursos para que sustentem as idiossincrasias e possam pensar sobre elas.

Neste sentido, a Psicánalise tem muito a contribuir, já que a violência e a maldade vão continuar a existir em toda parte.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Morte e vida: tensões

Silvana Rea

 

Há quase cem anos terminava a Primeira Grande Guerra moderna. Mas alguns pensadores afirmam que ela ainda não acabou, já que permanecemos marcados por um espírito belicoso até os dias de hoje. De fato, podemos observar na história que  seguem-se à primeira, a Segunda Guerra, Coreia, Vietnam, Líbano, Bálcãs e terrorismo, entre outros eventos violentos.

As guerras são fruto das paixões destrutivas do homem. Em sua reflexão de 1932, “Porque a guerra?” – tecida em interlocução com Einstein – Freud afirma que são infrutíferas as tentativas de eliminar essas inclinações humanas, como o ódio contra qualquer pessoa além de suas fronteiras. O que se pode fazer é tentar investir em vínculos emocionais amorosos que utilizem a identificação, introduzindo assim as modificações psíquicas que acompanham o processo civilizatório, com o desvio e o deslocamento dos fins instintuais, para a sua limitação.

Mas qual seria o limite possível para as forças destruidoras? Novamente recorremos a Freud (1920) quando nos apresenta a noção de compulsão à repetição, ou seja, a presença da pulsão de morte no psiquismo humano?

Esses são alguns dos desafios que qualquer psicanalista enfrenta em sua compreensão dos fenômenos mundiais e em sua atividade clínica. Em nossos consultórios, também vivemos cotidianamente o embate entre os impulsos destrutivos e a pulsão de vida. Como podemos pensar a tensão entre estas duas forças a partir dos fenômenos psíquicos configurados na contemporaneidade?

Estas são algumas questões que gostaríamos de discutir no evento “Morte e Vida: Tensões”, no sábado, dia 10 de junho, às 9:30, na sede da SBPSP.

Este evento é preparatório para o XXVI Congresso Brasileiro de Psicanálise a ser realizado em Fortaleza, em Novembro de 2017.

 

La muerte es una vida vivida. La vida es una muerte que viene.

Jorge Luis Borges

 

“Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.”

Mario Quintana

 

 

Silvana Rea é psicanalista e Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Dia da Família: alternativa democrática?

*Por Eliana Riberti Nazareth

Algumas escolas já implantaram o Dia da Família (15 de maio) em substituição ao Dia das Mães e ao Dia dos Pais. Outras parecem estar em via de. Alguns justificam tal iniciativa dizendo que, desse modo, mais crianças podem ser incluídas nas comemorações, pois nem todas têm mãe, pai ou ambos, ou provêm de famílias ditas tradicionais. Ligado a isso, outros afirmam ser esta uma maneira mais “democrática”, implicando uma visão menos preconceituosa e menos intolerante, sobretudo em se tratando de crianças e adolescentes pertencentes a famílias que não se compõem por pai-mãe-filhos. Bons argumentos à primeira vista.

A fim de ampliar a reflexão, proponho examinar brevemente tais premissas envolvidas na criação do Dia da Família, isto é, a maior possibilidade de inclusão e o abrandamento do preconceito. Reflexão que, talvez, nos leve a pensar além de consequências mais superficiais para as famílias, tenham elas a estrutura que tiverem. Refiro-me aos pressupostos de tais iniciativas e suas possíveis ressonâncias no imaginário de crianças, adolescentes e suas famílias.

No caso do argumento de que a extinção da comemoração em separado do Dia das Mães e dos Pais (e criação de um único dia, o da Família) permitiria uma maior inclusão, penso que, na sua origem, estaria a tentativa de minorar o sofrimento daquelas crianças que não têm um ou ambos os pais, ou porque nunca os tiveram como figuras presentes emocionalmente em suas vidas, ou porque os perderam por abandono, separação conjugal conflituosa ou morte. Objetivo louvável num primeiro momento. Mas será mesmo que a diminuição do sofrimento da perda se dá dessa maneira?  Será que eliminar essas comemorações levará ao desfazimento dos conflitos, dos traumas, das dores das perdas?

Parece que por trás dessa substituição de comemorações está embutida a crença de que “longe dos olhos, longe do coração”, algo com o qual nós, psicanalistas, lidamos todos os dias. Construção difícil de desmontar, pois diz respeito à ilusão de que, quanto menos contato se tem com a realidade dolorosa, menor o sofrimento. E a cultura, sobretudo a atual, não tem favorecido muito o enfrentamento da realidade. Ao contrário, cada vez mais proliferam os meios de seu tangenciamento e negação, com a criação de simulacros.

A justificativa de que a criação do Dia da Família, em substituição ao Dia das Mães e Dia dos Pais, seria uma alternativa mais democrática e menos preconceituosa implica a intenção de que, desse modo, possa haver uma maior receptividade das diferenças, sobretudo em se tratando de crianças filhas de casais do mesmo sexo.

Aqui também caberiam algumas ponderações. Qual seria a maneira mais adequada de se lidar com o preconceito e a intolerância? Seria extinguindo ou anulando as diferenças? Ou seria mantê-las e ajudar crianças, adolescentes e suas famílias a compreendê-las e elaborá-las descobrindo novas possibilidades do ser, tão complexo, humano?

Ao não se comemorar mais Dia das Mães e Dia dos Pais, pode-se ter a impressão de que as faltas e as diferenças não serão registradas com sua devida importância e singularidade. Tentar tratar o diferente como se não o fosse, tentar tratar as especificidades das mais diversas configurações familiares como não se não fossem peculiares e distintas pode, ao contrário do pretendido, fortalecer preconceitos que ficam invisíveis e aparentemente inertes, mas que podem tomar voz nos nada triviais comportamentos de bulliyng. As diferenças não desaparecem pela simples troca de comemorações.

Levar em consideração as singularidades é o que pode favorecer a compreensão e aceitação da pluralidade das famílias.

Como nos ensina Bion “o desenvolvimento mental saudável parece depender da verdade como o ser vivo depende da comida”.

Que se comemore o Dia da Família, o Dia das Mães e o Dia dos Pais!

*Eliana Riberti Nazareth é membro efetivo da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, coordenadora do Grupo de Estudos das Relações CorpoMente e docente do Instituto de Psicanálise da SBPSP. Eliana possui especialização em psicoterapia de família e de casal pelo ILEF – México.

 

Ser mãe é uma realização para a mulher, mas não é a única

Será que a maternidade significa o auge da realização na vida de uma mulher? Em entrevista à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a psicanalista Leda Maria Codeco Barone fala desse momento bastante particular no universo feminino, do empoderamento e luta que os métodos de controle da gravidez e a liberação sexual trouxeram às mulheres, além da legítima decisão de não ter filhos.

 

Ser mãe ainda é, do ponto de vista da sociedade, a maior realização na vida de uma mulher?

Creio que essa ideia vem mudando ao longo do tempo. O advento da pílula anticoncepcional na década de 60 do século passado incrementou o movimento feminista no sentido de levar a mulher a se apropriar melhor de seu corpo e de sua sexualidade, bem como a encontrar lugar social diferente daquele vivido por suas mães e avós. Hoje, a mulher reivindica de forma mais contundente lugar nos bancos universitários e acesso a carreiras profissionais antes destinados apenas aos homens. Se antes a vida sexual das mulheres se atrelava de forma mais estreita à maternidade, pela dificuldade de controlar ou postergar a gravidez, na atualidade, a mulher pode mais facilmente escolher se quer ser mãe e quando.

Outro fator decisivo no assunto está relacionado às novas formas de procriação assistida: inseminação artificial, congelamento de óvulos e esperma, fertilização in vitro, banco de embriões, etc. Essas formas atestam que a mulher coloca outras maneiras de realização pessoal antes da maternidade, inclusive a de não ter filhos.

Embora esse movimento de liberação da mulher seja um fato, ele é diverso nas diferentes camadas sociais e religiosas e, como movimento, ainda enfrenta resistência e luta.

Os motivos exposto acima – liberação da sexualidade da mulher, maior preparo e conquista de novos espaços no mundo do trabalho,  aliados aos novos modos de concepção – mostram que a maternidade é uma importante realização da mulher, mas não a única.

 

As pessoas costumam exaltar o lado bom da maternidade, mas alguns aspectos como o momento de tensão no relacionamento do casal, a dificuldade de conciliar vida profissional e pessoal e o extremo cansaço são subestimados na fase de espera e a mulher só se depara com a intensidade dessas emoções quando já está com o bebê. Como as mulheres têm lidado com isso? E os homens? Que papel eles têm desempenhado para ajudar as mulheres com a maternidade?

Apesar de a decisão de ser mãe ou não, ser uma prerrogativa da mulher, uma vez que na atualidade há a possibilidade de maternidade sem paternidade, ou seja, do recurso à inseminação artificial valendo-se de bancos de esperma, o projeto de ter um filho inclui, mesmo que imaginariamente, a participação do pai.

Acho importante aqui lembrar a contribuição de Winnicott que, embora seja considerado pioneiro na discussão da importância da maternidade para o desenvolvimento emocional primitivo do bebê, reconhece um papel fundamental exercido pelo pai. Para o autor, o pai é necessário em casa para ajudar a mãe a “sentir-se bem em seu corpo e feliz em sua mente” além de fornecer à mãe um suporte moral que a ajuda em sua função com os filhos. Nesse sentido, a acolhida e apoio do pai é essencial à mãe no cumprimento da maternidade. Mulheres que não contam com esse apoio sentem-se desprotegida além de exauridas em meio às exigências e sobrecarga desse momento.

 

Há uma contradição também no discurso moderno em relação aos papeis da mulher e à maternidade. Por um lado, a sociedade pede uma mulher forte e batalhadora, capaz de prover a prole ou contribuir com o parceiro nessa tarefa, mas também valoriza a mulher que acompanha de perto o crescimento dos filhos. Isso traz alguma consequência para a mulher nessa fase?

Realmente a jornada da mulher que assume ao mesmo tempo a maternidade e a carreira profissional é dura, cansativa e de extrema exigência. A mulher fica dividida entre a maternidade e a vida profissional, assumindo tripla jornada de trabalho: cuidar da carreira, dos filhos e da casa. Tal exigência requer um equilíbrio muitas vezes impossível de se alcançar e pode ter como consequência a negligência de uma ou de outra dessas atribuições. O abandono das aspirações profissionais poderá ser fonte de muitas frustrações no futuro assim como a negligência dos cuidados maternos enchem a mulher de culpa e pode trazer consequências na educação e cuidado com os filhos.

O trabalho para a mulher na atualidade não é somente uma questão de realização pessoal, mas uma necessidade para o sustento da família, visto que em muitas delas, a mulher assume o lugar de mantenedora única ou contribui de forma decisiva em sua organização econômica.

No entanto, ainda que de forma tímida, assistimos a uma transformação na divisão do trabalho doméstico e do cuidado dos filhos. No tempo de nossos pais e avós era inconcebível o pai dar banho, trocar fraldar ou alimentar seus filhos. Tais tarefas eram exclusivas das mães, muitas vezes ajudadas por outras mulheres da família, avós, tias ou mesmo babás. As novas configurações familiares e o incremento da participação da mulher no mercado de trabalho têm levado casais mais jovens a dividirem melhor o cuidado dos filhos, o que, sem dúvida, é saudável para todos.

 

E a decisão de não ser mãe? É cada vez mais comum, mas parece também um ato de coragem. Que desafios a mulher que toma essa decisão deve enfrentar?

Creio ser legítima a decisão de não ser mãe, da mesma forma que legítima é a de ser. A mulher de hoje, pela facilidade no controle da gravidez e por sustentar outros ideais diferentes da maternidade, pode tranquilamente optar por não gerar um filho. Lembremos que Freud, discorrendo sobre a sexualidade infantil coloca no centro da resolução edípica, a castração.  Assim, enquanto o medo da castração serve ao menino como motivo para desistência de seus intentos incestuosos em direção à mãe, para a menina a castração a introduz na vivência edípica. Por se sentir em falta, pela ausência do pênis, a menina vai em busca do pai, do pênis do pai, de um filho do pai e, finalmente de um filho que possa completá-la. Nesse deslizamento entre o desejo do pênis para um filho, outros deslizamentos são possíveis como o trabalho, a ciência ou a arte.

 

Leda Maria Codeco Barone é psicanalista e doutora em psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP.

Ser mãe de filhos adultos ou tornar-se mãe de filhos adultos?

Nilde Franch

Ser mãe – ou pai – não se improvisa. Ninguém nasce pronto para isso, nem recebe por herança. Como disse Simone de Beauvoir “On ne nait pas femme: on deviant”. Assim, tornar-se pai ou mãe é produto de uma tessitura cotidiana e prolongada de um vínculo que pode vir a nos tornar pais. É um processo de construção que acontece lentamente: ao mesmo tempo que se vai construindo, vai-se exercendo. E tudo parece começar com o desejo de dar e transmitir vida.

E quando os filhos tornam-se adultos? Não utilizarei o conceito de maioridade, mas focarei no período depois daqueles tempos agitados em que pais e filhos atravessaram juntos as turbulências da adolescência.

Como disse Meltzer, seria possível comparar a adolescência com o dilúvio a ser enfrentado pelas criaturas que entraram na Arca de Noé. Trata-se de uma travessia turbulenta em que os pais vão sofrendo pelas mudanças e pelo afastamento dos filhos e em que a necessidade deles de buscarem uma identidade própria os levam a desfazerem-se de certas identificações alienantes, mesmo que isso implique atitudes arrogantes e de desprezo em relação aos pais. No final do processo, a tendência é que aconteça um reposicionamento interno e externo das funções parentais. Luto feito pelos lugares antes ocupados, ou seja, de “pais da infância”, eles poderão buscar novos lugares, como por exemplo o da disponibilidade.

Assim penso que é ser mãe de filhos adultos: poder ficar nesse lugar de disponibilidade para se, e quando, os filhos precisarem de interlocução verdadeira, amparo, proteção.

É necessário autocontinência para não invadir o espaço que construíram para serem eles próprios e respeito pelas escolhas que fizerem, ainda que possam ser diferentes das que faríamos. Além disso, é preciso suportar a dor e paradoxalmente a alegria de não mais estar na linha de frente, compartilhar as alegrias do crescimento e da autonomia dos filhos, sofrer com eles os impactos da vida, preservando o espaço entre as gerações , para não se confundirem e não os confundirem.

O mais importante: continuar amando-os, mesmo nas diferenças. Se tudo der certo, uma nova construção emergirá: a de uma relação amorosa e respeitosa. Nada fácil, não é? Porém, possível.

 

Nilde Franch é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e analista didata.

Como é ser mãe de um adolescente?

Karin Szapiro

Um antigo ditado judaico diz: “Filhos pequenos, problemas pequenos. Filhos grandes, problemas grandes”. Talvez o principal motivo seja porque quando os filhos crescem, novas questões surgem e a complexidade da vida aumenta. A chegada da adolescência e da puberdade põem um fim na criança que nossos filhos sabiam ser. Abre-se um novo ciclo de vida quando os jovens tornam-se estrangeiros para si mesmos e faz-se necessário a busca de uma nova identidade.  O caminho em direção ao mundo adulto que se percorre, com freqüência, é cheio de medos, conflitos e turbulências.

Afinal, como é ser mãe de um adolescente? Como lidar com esse momento desafiador quando os filhos entram em um novo ciclo de transformações? Muitas mães vivem a adolescência dos filhos como se elas próprias fossem expulsas de algum paraíso pois esse período vem com estranhamentos, sofrimento e angústias. Quando os filhos são pequenos, sua presença é fundamental. Elas conhecem tudo sobre suas crianças, participam ativamente de suas vidas, das conversas e festinhas. Quando eles crescem, a relação se transforma e as mães passam a ser bem menos requisitadas e necessárias. Por esse motivo, algumas mulheres chegam a ficar bastante ressentidas pois, de certo modo, se sentem sem lugar.

Pois bem, o tempo passou e chegou a hora dos filhos abandonarem o lugar da infância e, para tanto, é preciso se desgarrar e sair de baixo das asas dos pais que passam a ser vistos como ultrapassados e incapazes de compreendê-los.  É comum que os jovens desvalorizem seus conselhos e ajam com resistência e oposição. Esse é um momento de difícil enfrentamento onde a autoridade é testada ao limite. Simbolicamente, é o modo dos filhos viverem o tortuoso caminho da separação. E convenhamos, deixar a infância para trás e abrir mão da proteção dos pais em direção ao mundo adulto é um processo doloroso para todos os envolvidos. Doloroso, porém necessário.

Á medida que se aproxima a idade adulta, a sexualidade entra em ebulição, os jovens entram em contato com seus novos desejos, suas fantasias e conflitos. É natural que prefiram os seus pares para compartilhar a intimidade e dividir suas primeiras experiências sexuais e amorosas já que todos estão passando pelas mesmas fases. Ser acompanhado pelo grupo de amigos é reconfortante e fundamental pois dá uma sentimento de pertencimento que ajuda bastante e tem um valor inestimável.

Diante das mudanças irremediáveis que a passagem do tempo traz, os pais se perguntam como podem saber mais dos seus filhos e como é possível protegê-los. Para tanto, é preciso lembrar que uma relação é construída desde os primórdios e a cumplicidade entre pais e filhos acontece em um longo caminho. O respeito e a confiança são uma conquista delicada, resultados de uma convivência harmoniosa que se inicia desde o nascimento e se leva para toda a vida. A forma de se relacionar entre pais e filhos se transforma, por vezes se distancia, mas alguns pilares permanecem intactos. Pilares que foram construídos desde que os filhos vieram ao mundo, que incluem os valores transmitidos e tudo aquilo que foi aprendido no convívio até então.

Afinal, como lidar com os filhos que estão caminhando para a vida adulta? Sugiro responder com outra pergunta: Como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles? A presença dos pais na adolescência dos filhos é muito importante, mas não deve ser sufocante. É preciso traquejo, bom senso e um bom manejo para ir soltando as rédeas aos poucos. Como numa dança, é preciso ajustá-las, apertá-las, soltá-las mais um pouco, apertá-las novamente, abrir os olhos, deixá-los semicerrados, deixar passar algumas coisas, outras não, pente fino, pente grosso, errar, acertar, reparar os erros, aparar as arestas. Uma das vantagens é que esse percurso vai se dando numa transformação paulatina. Assim, dá tempo de todos aprenderem juntos. Para saber mais sobre os filhos, nada melhor do que se aproximar deles, chamá-los para uma conversa, observá-los, olhar nos seus olhos e usar a intuição. O contato, a comunicação, a empatia e o respeito são imbatíveis e sempre serão os melhores caminhos.

Quando os filhos crescem, as mães naturalmente são convidadas a ocupar um novo lugar: não mais serão as mães da infância, mas sim mães de jovens. Elas estarão sempre presentes nas suas vidas, mesmo que à distância. Adolescência, cuja etimologia vem do latim, onde ad = “para” e olescere = “crescer”, significa literalmente “crescer para”. Sendo assim, este novo ciclo torna-se uma boa oportunidade para mães e filhos crescerem juntos e abrirem novas possibilidades para si e para suas vidas.

 

Karin Szapiro é psicanalista, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, atende jovens e adultos em consultório particular.

Como é ser mãe de uma criança pequena

Falar em criança pequena é falar de um ser humano em continuo processo de desenvolvimento e transformação. Sabemos o quão fundamental é o princípio da vida e a relação de dependência do bebê com a mãe e com o ambiente. A criança passa por vários estágios que levam ao seu crescimento e integração, e necessita que os pais acompanhem e ofereçam segurança, confiança e que possam atender suas necessidades para que ela possa caminhar e alcançar sua autonomia. Viver a vida de forma que suas capacidades e potencialidades se realizem é o que faz sentido a ela. Só assim se realizarão como pessoa.

Ser mãe, na maioria das vezes, é sentir-se encantada com o ser que gestou. Esse encantamento faz com que o bebê sinta que tem um valor e importância para alguém. Mas não é só isto.

Ser mãe é se dispor a vivenciar, junto com seu filho, emoções, sentimentos, angústias, medos, sonhos, desejos e vivências corporais intensas.  Sua vida, a partir da gestação, se modifica radicalmente. A mãe grávida tem um relacionamento com seu bebê, sente seus movimentos, sente amor (ou não) embora tenha seus desconfortos e ansiedades. Seus sonhos em relação a este ser que está sendo gestado, a impulsiona e seu desejo (ou não) de ter este bebê o marcará de forma significativa.

A mãe vive um processo de profundas emoções que acordam vivências primordiais de sua própria história de vida. Suas fantasias, suas dificuldades e realizações estão continuamente presentes. Ter um filho pequeno, adolescente ou adulto requer que a mãe (incluindo o pai) se reveja a todo instante em sua vida emocional. As crianças vão denunciando, não propositadamente, as falhas, fragilidades, limites e capacidades, o que pode enriquecer o conhecimento de si mesmo e do outro. Pode ser tranquilizador e surpreendente para uma mãe ver que sua criança é capaz de enfrentar situações que para ela foram difíceis. Assim, vai se diferenciando dela e conhecendo esta nova personalidade se formando.

Ser mãe não é ser técnica de cuidados, é estar viva, envolvida, presente e se dispor como pessoa que enxerga, ouve e se interessa por seu filho em suas particularidades.

Ter um filho é se dispor a uma carga de trabalho intensa já que o bebê depende completamente dos cuidados dela. Assim que nasce a relação entre os dois é de tal intensidade que a m           ãe se oferece devotadamente ao seu bebê. Inicialmente é como se fossem um só, a mãe oferece seu corpo, sustenta  e apresenta o mundo a ele. Sua intuição e capacidade de identificação com a criança favorecerá sua compreensão e conhecimento deste pequeno ser. A mãe sente que sua presença é fundamental e que é ela quem vai dando significados ao que este experimenta. O bebê, inicialmente, não sabe que depende dela. Para ele, a mãe é criação dele e aos poucos vai percebendo que ela é uma pessoa separada dele. Ocupar este lugar de não ser reconhecida como pessoa separada requer uma capacidade amorosa, o que não quer dizer que não possa sentir ambivalência de sentimentos pela exaustão que experimenta.

Sim, amor e ódio fazem parte desta relação e esses conflitos fazem parte da vida de relação. A criança também precisa desenvolver sua capacidade de odiar e isso é importante para sua vida, é esse sentimento que cria a alteridade, a capacidade de perceber o outro como outro. O sentimento de ódio poderá ser negado e atuado de forma impulsiva, o que não será saudável para a criança. Esses conflitos são inerentes à vida e cabe a mãe elaborá-los. Se há confiança nos sentimentos de amor, se a mãe não tiver dificuldades narcísicas ou alguma perturbação psíquica, não se assustará com o fato destes sentimentos existirem. Assim como receber os ataques da criança, também é importante para que sua agressividade não seja inibida, perdendo assim a vitalidade.

Ser mãe de um bebê é diferente de ser mãe de uma criança que começa a andar, que vai ganhando autonomia e que vai se separando dela. No início, a dependência é quase total, mas a criança anseia por crescer, e a mãe também vai aprendendo a viver separada do seu filho. As separações vão fazendo parte da vida, mas a criança precisa de segurança e confiança para ser ela mesma. A mãe percebe e sente essas mudanças e oferece objetos, brinquedos já que a criança precisa de objetos intermediários para elaborar suas vivências, através do brincar e de sua criatividade. A atividade do brincar dá à criança uma condição de elaborar seus conflitos e, com isso, evoluir e ter suas vivências, expandindo sua imaginação.

A cada estágio surgem novas surpresas. Sabemos que a criança está desenvolvendo sua identidade e que poderá ser muito diferente do que seus pais sonharam para ela. Estes precisarão se conhecer e lidar com suas frustrações. Ser mãe é oferecer um ambiente razoavelmente estável, considerar o tempo de seu filho, que é algo fundamental para que ele possa se desenvolver e fazer uso de fantasias, sonhos e tolerar a realidade externa.

Quando falamos de mãe, não estamos excluindo o pai ou substituto, que é quem está presente, junto com a mãe nessa caminhada. Inicialmente não reconhecido como um terceiro, aos poucos vai sendo requisitado pela criança para que possa lidar com a triangularidade edipiana que é um momento de muitas elaborações identitárias e que lhe darão lugar para ser quem é. As questões sexuais se manifestam, a saúde e maturação requerem que mãe e pai estejam disponíveis para auxiliar seu filho nesta caminhada. Para isso, serão mobilizados nas próprias questões sexuais pessoais.

No consultório temos oportunidade de observar algumas dificuldades e patologias graves de crianças onde detecta-se falhas no atendimento dos pais ou da família às necessidades da criança. Vemos paradas no desenvolvimento da criança que vem buscar auxílio terapêutico onde a família apresenta desestruturações que muitas vezes não são sequer percebidas.

*Marlene Rozenberg é membro efetivo e analista didata da SBPSP