Sobre a depressão

Maria Tereza Labate Mantovanini

 

Chama atenção a frequência com que chegam à clínica psicanalítica pessoas com diagnóstico de depressão, encaminhadas por médicos psiquiatras que reconhecem na intervenção terapêutica um valioso complemento da medicação ministrada.

 

Outro fenômeno que chama a atenção e surpreende é o número de pacientes que, mesmo sem a chancela médica, apresentam-se como depressivos. A reincidência desses casos faz pensar: qual seria o sentido de um leigo diagnosticar-se dessa forma?

 

São inúmeros os significados e geralmente aparecem entrelaçados. O primeiro deles parece estar relacionado ao uso do termo depressão ou depressivo pelo senso comum, para identificar estados de abatimento, desesperança e desinteresse pela vida.

 

A segunda possibilidade, que não exclui a anterior, seria usar a patologia para precisar, a priori, a razão de um sofrimento particular, expresso por um mal-estar, uma falta de vitalidade, uma desesperança, cuja origem o paciente ignora.  Nesses casos, a utilização do termo depressão mostra-se uma estratégia não só para aludir a algo que se desconhece, como também para localizá-lo em um campo e em um grau. Nomear o sofrimento resulta, portanto, em uma forma de apropriação.

 

Seja o uso do termo depressão derivado de avaliação médica ou de um autodiagnóstico, o certo é que a investigação psicanalítica não pode ater-se a ele, ainda que deva, sem dúvida, levá-lo em conta. Ao analista cabe, sobretudo, concentrar-se nas particularidades do sofrimento de cada paciente.

 

Entretanto, parece haver uma característica semelhante, que aproxima os casos de depressão. Trata-se de uma perda do sentido do viver, que se manifesta num desligamento afetivo. Este serve como defesa contra o sofrimento. Porém, ao se buscar não sofrer, todas as demais vivências  emocionais experimentam uma espécie de “desbotamento”.

Nas situações depressivas, a dor parece estar predominantemente ligada a um distanciamento do que se é e uma aproximação a modelos de perfeição idealizada. As pessoas sofrem por não estarem à altura de ideais construídos.

 

Apesar de buscarem na terapia um espaço para respirar e existir, encontram um obstáculo interno, que as devolve para o mesmo lugar de desalento. A esperança advém da possibilidade de transformação e atualização dessa crença de que não estão à altura dos ideais construídos.

 

Maria Tereza Labate Mantovanini. é psicóloga, mestre em Psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise/SBPSP.

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