‘Ficou difícil, para a sociedade de hoje, lidar com o diferente’, diz analista

A rapidez das mudanças do mundo, a fragilidade dos vínculos e a dificuldade de enxergar o outro são algumas das razões, apontadas por Bernardo Tanis, para o mal-estar geral da sociedade. O psicanalista – que acaba de assumir a presidência da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP – , quer ampliar a atuação dos profissionais na área social, aproximando-os da população “A psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje”, afirmou em entrevista à repórter Marilia Neustein, em seu consultório.

Para Tanis, os desafios dos analistas de hoje são muitos, entre eles a dificuldade do indivíduo em lidar com a alteridade: “Está muito difícil para o homem lidar com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente”, diz, Abaixo, os principais trechos da conversa.

Como você avalia o momento que o País e o mundo estão vivendo, de polarização política? A relação entre as pessoas está se tornando mais violenta?
O mundo está se transformando nas últimas décadas de um modo vertiginoso. Muito mais rápido do que conseguimos entender. Temos a sensação de que ele está mais violento, mas se pensarmos nos milhões que morreram na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra, nas atrocidades e matanças, teremos que refletir que talvez haja uma transformação no modo da violência – e precisamos entender as raízes desse cenário.

Existe mais violência?

Violência sempre existiu na história da humanidade, mas talvez o que a motiva hoje seja algo diferente. Uma coisa interessante que vem acontecendo nas últimas décadas é uma mudança do mundo que o indivíduo encontra no seu cotidiano, na sua história. Havia uma continuidade maior que a de hoje e o ritmo de mudanças na vida, nas famílias, nas amizades, no trabalho, era bem mais lento. Do ponto de vista subjetivo, esse indivíduo conseguia se projetar no futuro.

Era mais previsível.

Não que fosse ideal, porque também havia amarras, havia situações em que o indivíduo ficava preso. Nós ganhamos talvez maior margem de liberdade na vida afetiva, na sexualidade, na aceitação da diversidade. Mas em outras coisas o mundo foi nos conduzindo a um desenraizamento muito grande. Então, em relação ao trabalho, por exemplo, as pessoas não sabem se vão continuar amanhã no mesmo emprego. As mudanças são rápidas, há muitas incertezas. As pessoas estão se sentindo substituíveis, pouco relevantes, seja na vida afetiva ou na inserção no mundo do trabalho.

Acredita que há uma frivolidade nas relações e na maneira de se constituir no mundo?

Sim. Existe a dificuldade de uma certa continuidade dos vínculos. E isso vai produzindo uma forma de ilusão. Então, isso envolve questões de confiança em si mesmo, de confiança no outro, nas instituições. E isso tem uma ressonância – uma questão muito importante que a psicanálise estudou – que é uma condição de desamparo. Assim, quando o mundo externo não lhe dá muitas garantias, soma-se a estranheza com você mesmo e com esse mundo exterior.

De que forma isso aparece no consultório?

O que é que nós vemos? Maior quantidade de quadros de depressão, por exemplo. Situações de vazio que a pessoa vive ou adições fortes, compulsões. Há muito sofrimento, angústia, e isso precisa ser obturado. Então o que a gente vê são formas de obturação. E a violência aparece também aí, como forma de reagir ao sentimento de insegurança e de fragilidade social. A violência acaba aparecendo muitas vezes como um ato de afirmação.

Como os psicanalistas podem lidar com essas mudanças e fenômenos contemporâneos?

Acabamos de assumir a presidência da SBPSP e o mote científico e também de intervenção na cultura da nossa gestão vai ser a questão do “o mesmo e o outro”. Identificamos que em nosso tempo está muito difícil para o homem lidar com a alteridade, com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente. Veja o tema das migrações, dos exilados. Consideramos, desde uma perspectiva psicanalítica, que do mesmo jeito que o ser humano é auxiliado pela psicanálise a conhecer motivações inconscientes do seu modo de lidar com a vida, consigo mesmo e com o mundo, ele também tem que aprender a dialogar com esse outro dentro de si mesmo para viver de um modo mais consciente, mais integrado. E as culturas de uma determinada sociedade também têm que aprender a conviver com o diferente dentro dessa cultura.

Nesse contexto, como vê o cenário polarizado?

Há momentos na história em que determinados grupos têm interesses em polarizar a discussão política. Como se existisse algo totalmente bom e algo totalmente ruim, excluindo as complexidades. Penso que o que acontece nas redes sociais, em alguns debates, às vezes na mídia, é que justamente as pessoas que têm um pensamento mais complexo, mais rico, que aceita a diversidade e enxerga a complexidade, ganham menos espaço. Isso se dá também no contexto da psicanálise.

De que forma? Por exemplo, discute-se muito hoje, no caso da psicanálise e da saúde mental, a questão das neurociências, do avanço da psiquiatria, dos psicotrópicos, as medicações, como se fosse também uma questão ou um ou outro. Sem levar em consideração que são modos de conceber e de lidar com o aspecto do humano complementar e não são excludentes. É inegável que temos um corpo biológico e que certas substâncias influenciam na nossa subjetividade. Podem ajudar a lidar com a ansiedade ou com a depressão, mas a dimensão subjetiva do humano, que Freud chamava alma humana, que é a angústia e o sofrimento humano ligado ao existir, isto não é tratado por nenhuma medicação. Essa transformação só pode vir de uma prática clínica. Então são vínculos complementares. Por isso o que queremos, na Sociedade de Psicanálise, é convocar um diálogo cada vez maior entre os diferentes campos do conhecimento. É procurar, buscar, tentar essa interface com as experiências das outras disciplinas. Achamos que psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje.

Retomando o tema da alteridade, acredita que existe uma falta generalizada de empatia? As pessoas, de uma forma geral, não conseguem se enxergar em um lugar diferente, independente de qual situação seja?

Se a gente aceita essa diferença, a partir daí pode desenvolver a empatia. Não é a partir daquilo que a gente vê que é igual. Por que é que uma formação de analista é longa, demorada? Porque o analista precisa fazer uma análise pessoal, pois ele vai transitar consigo mesmo por esses fantasmas, por essa questão do próprio narcisismo, de aceitação do outro nele mesmo, das raivas, do desejo de dependência, das vivências de solidão. Porque pra eu poder escutar o outro e poder lidar com a diferença do outro, preciso escutar essas coisas em mim.

Quais são os maiores desafios dos analistas hoje?

Acho que desafios não faltam. Talvez um dos maiores seja a questão dos tempos e dos ritmos. Vivemos em um mundo muito acelerado e as pessoas têm uma urgência muito grande de resolver seus problemas. Além disso, há uma certa ditadura da felicidade. Nós temos que ser felizes, temos que ser todos muito bonitos, ter corpos malhados, temos que estar sempre com uma cara sorridente. Não há o direito a se exercer a subjetividade plenamente. Não há direito a ficar às vezes triste, a não querer ir pra balada. Não há direito a ter dúvidas. A psicanálise, nesse sentido, se propõe a ser o espaço da singularidade. E para isso é preciso tempo, é preciso espaço.

Vivemos uma falsa liberdade? Somos escravos dessa falta de tempo?

O ritmo do mundo de hoje aparentemente nos fala da liberdade, que cada um pode ser do jeito que quer, que pode se vestir como quer, viver sua sexualidade como preferir. Sim, há algo que caminha nesse sentido, mas também há uma tirania de tudo isto também. Uma pessoa hoje na sessão de análise tem dificuldade de desligar o celular porque tem que estar conectada permanentemente. A quantidade de informação que a gente recebe é monstruosa. A psicanálise nos ajuda a construir uma narrativa de nós mesmos, mas para ter o tempo dessa narrativa, pra poder se situar no mundo, é preciso abrir um espaço, por pequenino que ele seja.

Como vê a democratização da psicanálise? Ela deve sair do consultório e dialogar com outros setores da sociedade?

Sim, isso é um dos nossos objetivos. Queremos oferecer pequenos cursos para que as pessoas possam se aproximar de psicanálise. Grupos de escutas sobre situações que acontecem na vida de todos nós – como adoção, envelhecimento, famílias, drogas. Queremos expandir nosso setor de parcerias e convênios e mostrar o que a psicanálise tem pra dar à comunidade como um todo. Como psicanalistas precisamos nos preparar para essa escuta.

Olhando para o cenário político, acha que as delações e os escândalos de corrupção aumentam essa sensação de vazio e descrença?

Como eu vejo um pouco o fenômeno que tá acontecendo? Face a essa descrença e a essa corrupção, surgem as filosofias e os desejos autoritários. Então, do que é que precisamos? A conclusão que surge é que precisamos de um pai bravo. De um governo forte, que puna os culpados. Então aí surgem as filosofias autoritárias. Assim surgiram o fascismo e o nazismo, os governos autoritários. Em lugar de pensar, o que precisamos é criar uma sociedade cuja regulação interna seja democrática. Fortalecer não uma figura autoritária mas a democracia, as instituições, os funcionários que operem com regras claras e transparentes. Pode parecer utópico, mas é o caminho de uma sociedade forte.

 

 

Entrevista publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 24 de abril de 2017.

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