Mês: abril 2017

Sobre a depressão

Maria Tereza Labate Mantovanini

 

Chama atenção a frequência com que chegam à clínica psicanalítica pessoas com diagnóstico de depressão, encaminhadas por médicos psiquiatras que reconhecem na intervenção terapêutica um valioso complemento da medicação ministrada.

 

Outro fenômeno que chama a atenção e surpreende é o número de pacientes que, mesmo sem a chancela médica, apresentam-se como depressivos. A reincidência desses casos faz pensar: qual seria o sentido de um leigo diagnosticar-se dessa forma?

 

São inúmeros os significados e geralmente aparecem entrelaçados. O primeiro deles parece estar relacionado ao uso do termo depressão ou depressivo pelo senso comum, para identificar estados de abatimento, desesperança e desinteresse pela vida.

 

A segunda possibilidade, que não exclui a anterior, seria usar a patologia para precisar, a priori, a razão de um sofrimento particular, expresso por um mal-estar, uma falta de vitalidade, uma desesperança, cuja origem o paciente ignora.  Nesses casos, a utilização do termo depressão mostra-se uma estratégia não só para aludir a algo que se desconhece, como também para localizá-lo em um campo e em um grau. Nomear o sofrimento resulta, portanto, em uma forma de apropriação.

 

Seja o uso do termo depressão derivado de avaliação médica ou de um autodiagnóstico, o certo é que a investigação psicanalítica não pode ater-se a ele, ainda que deva, sem dúvida, levá-lo em conta. Ao analista cabe, sobretudo, concentrar-se nas particularidades do sofrimento de cada paciente.

 

Entretanto, parece haver uma característica semelhante, que aproxima os casos de depressão. Trata-se de uma perda do sentido do viver, que se manifesta num desligamento afetivo. Este serve como defesa contra o sofrimento. Porém, ao se buscar não sofrer, todas as demais vivências  emocionais experimentam uma espécie de “desbotamento”.

Nas situações depressivas, a dor parece estar predominantemente ligada a um distanciamento do que se é e uma aproximação a modelos de perfeição idealizada. As pessoas sofrem por não estarem à altura de ideais construídos.

 

Apesar de buscarem na terapia um espaço para respirar e existir, encontram um obstáculo interno, que as devolve para o mesmo lugar de desalento. A esperança advém da possibilidade de transformação e atualização dessa crença de que não estão à altura dos ideais construídos.

 

Maria Tereza Labate Mantovanini. é psicóloga, mestre em Psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise/SBPSP.

‘Ficou difícil, para a sociedade de hoje, lidar com o diferente’, diz analista

A rapidez das mudanças do mundo, a fragilidade dos vínculos e a dificuldade de enxergar o outro são algumas das razões, apontadas por Bernardo Tanis, para o mal-estar geral da sociedade. O psicanalista – que acaba de assumir a presidência da Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP – , quer ampliar a atuação dos profissionais na área social, aproximando-os da população “A psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje”, afirmou em entrevista à repórter Marilia Neustein, em seu consultório.

Para Tanis, os desafios dos analistas de hoje são muitos, entre eles a dificuldade do indivíduo em lidar com a alteridade: “Está muito difícil para o homem lidar com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente”, diz, Abaixo, os principais trechos da conversa.

Como você avalia o momento que o País e o mundo estão vivendo, de polarização política? A relação entre as pessoas está se tornando mais violenta?
O mundo está se transformando nas últimas décadas de um modo vertiginoso. Muito mais rápido do que conseguimos entender. Temos a sensação de que ele está mais violento, mas se pensarmos nos milhões que morreram na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra, nas atrocidades e matanças, teremos que refletir que talvez haja uma transformação no modo da violência – e precisamos entender as raízes desse cenário.

Existe mais violência?

Violência sempre existiu na história da humanidade, mas talvez o que a motiva hoje seja algo diferente. Uma coisa interessante que vem acontecendo nas últimas décadas é uma mudança do mundo que o indivíduo encontra no seu cotidiano, na sua história. Havia uma continuidade maior que a de hoje e o ritmo de mudanças na vida, nas famílias, nas amizades, no trabalho, era bem mais lento. Do ponto de vista subjetivo, esse indivíduo conseguia se projetar no futuro.

Era mais previsível.

Não que fosse ideal, porque também havia amarras, havia situações em que o indivíduo ficava preso. Nós ganhamos talvez maior margem de liberdade na vida afetiva, na sexualidade, na aceitação da diversidade. Mas em outras coisas o mundo foi nos conduzindo a um desenraizamento muito grande. Então, em relação ao trabalho, por exemplo, as pessoas não sabem se vão continuar amanhã no mesmo emprego. As mudanças são rápidas, há muitas incertezas. As pessoas estão se sentindo substituíveis, pouco relevantes, seja na vida afetiva ou na inserção no mundo do trabalho.

Acredita que há uma frivolidade nas relações e na maneira de se constituir no mundo?

Sim. Existe a dificuldade de uma certa continuidade dos vínculos. E isso vai produzindo uma forma de ilusão. Então, isso envolve questões de confiança em si mesmo, de confiança no outro, nas instituições. E isso tem uma ressonância – uma questão muito importante que a psicanálise estudou – que é uma condição de desamparo. Assim, quando o mundo externo não lhe dá muitas garantias, soma-se a estranheza com você mesmo e com esse mundo exterior.

De que forma isso aparece no consultório?

O que é que nós vemos? Maior quantidade de quadros de depressão, por exemplo. Situações de vazio que a pessoa vive ou adições fortes, compulsões. Há muito sofrimento, angústia, e isso precisa ser obturado. Então o que a gente vê são formas de obturação. E a violência aparece também aí, como forma de reagir ao sentimento de insegurança e de fragilidade social. A violência acaba aparecendo muitas vezes como um ato de afirmação.

Como os psicanalistas podem lidar com essas mudanças e fenômenos contemporâneos?

Acabamos de assumir a presidência da SBPSP e o mote científico e também de intervenção na cultura da nossa gestão vai ser a questão do “o mesmo e o outro”. Identificamos que em nosso tempo está muito difícil para o homem lidar com a alteridade, com o outro, com o diferente. Ou seja, nós amamos o que é idêntico a nós. E odiamos o que nos questiona, o que é diferente. Veja o tema das migrações, dos exilados. Consideramos, desde uma perspectiva psicanalítica, que do mesmo jeito que o ser humano é auxiliado pela psicanálise a conhecer motivações inconscientes do seu modo de lidar com a vida, consigo mesmo e com o mundo, ele também tem que aprender a dialogar com esse outro dentro de si mesmo para viver de um modo mais consciente, mais integrado. E as culturas de uma determinada sociedade também têm que aprender a conviver com o diferente dentro dessa cultura.

Nesse contexto, como vê o cenário polarizado?

Há momentos na história em que determinados grupos têm interesses em polarizar a discussão política. Como se existisse algo totalmente bom e algo totalmente ruim, excluindo as complexidades. Penso que o que acontece nas redes sociais, em alguns debates, às vezes na mídia, é que justamente as pessoas que têm um pensamento mais complexo, mais rico, que aceita a diversidade e enxerga a complexidade, ganham menos espaço. Isso se dá também no contexto da psicanálise.

De que forma? Por exemplo, discute-se muito hoje, no caso da psicanálise e da saúde mental, a questão das neurociências, do avanço da psiquiatria, dos psicotrópicos, as medicações, como se fosse também uma questão ou um ou outro. Sem levar em consideração que são modos de conceber e de lidar com o aspecto do humano complementar e não são excludentes. É inegável que temos um corpo biológico e que certas substâncias influenciam na nossa subjetividade. Podem ajudar a lidar com a ansiedade ou com a depressão, mas a dimensão subjetiva do humano, que Freud chamava alma humana, que é a angústia e o sofrimento humano ligado ao existir, isto não é tratado por nenhuma medicação. Essa transformação só pode vir de uma prática clínica. Então são vínculos complementares. Por isso o que queremos, na Sociedade de Psicanálise, é convocar um diálogo cada vez maior entre os diferentes campos do conhecimento. É procurar, buscar, tentar essa interface com as experiências das outras disciplinas. Achamos que psicanálise tem a contribuir, mas que as outras disciplinas também contribuem, e dessa forma – cada um desde a sua perspectiva, desde a sua metodologia – podem juntos produzir alguma coisa talvez que nos ajude a lidar com a perplexidade do homem no mundo de hoje.

Retomando o tema da alteridade, acredita que existe uma falta generalizada de empatia? As pessoas, de uma forma geral, não conseguem se enxergar em um lugar diferente, independente de qual situação seja?

Se a gente aceita essa diferença, a partir daí pode desenvolver a empatia. Não é a partir daquilo que a gente vê que é igual. Por que é que uma formação de analista é longa, demorada? Porque o analista precisa fazer uma análise pessoal, pois ele vai transitar consigo mesmo por esses fantasmas, por essa questão do próprio narcisismo, de aceitação do outro nele mesmo, das raivas, do desejo de dependência, das vivências de solidão. Porque pra eu poder escutar o outro e poder lidar com a diferença do outro, preciso escutar essas coisas em mim.

Quais são os maiores desafios dos analistas hoje?

Acho que desafios não faltam. Talvez um dos maiores seja a questão dos tempos e dos ritmos. Vivemos em um mundo muito acelerado e as pessoas têm uma urgência muito grande de resolver seus problemas. Além disso, há uma certa ditadura da felicidade. Nós temos que ser felizes, temos que ser todos muito bonitos, ter corpos malhados, temos que estar sempre com uma cara sorridente. Não há o direito a se exercer a subjetividade plenamente. Não há direito a ficar às vezes triste, a não querer ir pra balada. Não há direito a ter dúvidas. A psicanálise, nesse sentido, se propõe a ser o espaço da singularidade. E para isso é preciso tempo, é preciso espaço.

Vivemos uma falsa liberdade? Somos escravos dessa falta de tempo?

O ritmo do mundo de hoje aparentemente nos fala da liberdade, que cada um pode ser do jeito que quer, que pode se vestir como quer, viver sua sexualidade como preferir. Sim, há algo que caminha nesse sentido, mas também há uma tirania de tudo isto também. Uma pessoa hoje na sessão de análise tem dificuldade de desligar o celular porque tem que estar conectada permanentemente. A quantidade de informação que a gente recebe é monstruosa. A psicanálise nos ajuda a construir uma narrativa de nós mesmos, mas para ter o tempo dessa narrativa, pra poder se situar no mundo, é preciso abrir um espaço, por pequenino que ele seja.

Como vê a democratização da psicanálise? Ela deve sair do consultório e dialogar com outros setores da sociedade?

Sim, isso é um dos nossos objetivos. Queremos oferecer pequenos cursos para que as pessoas possam se aproximar de psicanálise. Grupos de escutas sobre situações que acontecem na vida de todos nós – como adoção, envelhecimento, famílias, drogas. Queremos expandir nosso setor de parcerias e convênios e mostrar o que a psicanálise tem pra dar à comunidade como um todo. Como psicanalistas precisamos nos preparar para essa escuta.

Olhando para o cenário político, acha que as delações e os escândalos de corrupção aumentam essa sensação de vazio e descrença?

Como eu vejo um pouco o fenômeno que tá acontecendo? Face a essa descrença e a essa corrupção, surgem as filosofias e os desejos autoritários. Então, do que é que precisamos? A conclusão que surge é que precisamos de um pai bravo. De um governo forte, que puna os culpados. Então aí surgem as filosofias autoritárias. Assim surgiram o fascismo e o nazismo, os governos autoritários. Em lugar de pensar, o que precisamos é criar uma sociedade cuja regulação interna seja democrática. Fortalecer não uma figura autoritária mas a democracia, as instituições, os funcionários que operem com regras claras e transparentes. Pode parecer utópico, mas é o caminho de uma sociedade forte.

 

 

Entrevista publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 24 de abril de 2017.

DEPRESSÃO

Com sintomas de depressão e tristeza, muitos adolescentes tem sido vítimas do “jogo” Baleia Azul, cujo fim culmina com o suicídio do participante. Depressão não é facilmente detectável, principalmente em crianças e adolescentes e, por essa razão, é preciso se informar a respeito e procurar ajuda quando necessário. A psicanalista Maria Thereza Barros França discute o tema no artigo “Depressão“, publicado originalmente no blog da SBPSP em 2014 e hoje mais atual do que nunca.

Blog de Psicanálise

Vincent van Gogh - Old Man in Sorrow Vincent van Gogh – Old Man in Sorrow

Para a Psiquiatria, a depressão é uma alteração do humor caracterizada por tristeza profunda, acompanhada de apatia, desânimo, inapetência, desinteresse sexual e pela higiene, insônia e um sentimento de falta de sentido na vida. Esses sintomas podem ou não se alternar com seus contrários: humor exaltado, denominado “mania”, ou em grau mais leve,hipomania. Se por um lado os sintomas depressivos nos fazem sentir pesados e pesando aos que convivem conosco, os de mania nos fazem sentir ótimos, não necessitando de nenhum tipo de ajuda, o que, entretanto já não se dá com os familiares, que podem perceber certas inadequações, falta de limites, gastos exagerados e assim por diante.

Esses quadros nos levam a perguntar: se eu tenho esses sintomas, sou doente? Estou doente? O que se passa comigo?

A Psicanálise traz sua contribuição no sentido de pensar estas questões.

Embora não seja…

Ver o post original 770 mais palavras

A psicanálise e o caso José Mayer

assedio

 Vírus nas redes: vacina para relações de poder?

Uma visão psicanalítica sobre o caso José Mayer

*Por Susana Muszkat

Vimos surgir nas últimas semanas, na esteira do #AgoraEQueSaoElas, mais uma manifestação de indignação e repúdio por parte de um grupo de mulheres: #MexeuComUmaMexeuComTodas.

Este hashtag visa denunciar mais uma de um sem-número de situações de desigualdade nas relações de gênero, manifesta por atos que traduzem o desejo de manutenção de uma determinada ordem nas relações de poder.   Neste caso vemos como, uma somatória de pressupostos paradigmáticos, levou um ator-celebridade a se sentir autorizado a assediar, no espaço de trabalho, uma moça bonita e jovem, sua subordinada.

O que são esses pressupostos paradigmáticos a que me refiro? São ideias que circulam entre nós, tendo o estatuto de ‘normalidade’. Sendo assim, costumam ser aceitas como fazendo parte da ordem natural das coisas, ainda que não nos agradem.

Por exemplo:

  • O predomínio em nossa cultura da ideia de que homens têm, por direito, deliberar sobre o destino das mulheres. Em outras palavras, subjaz um pressuposto de que aos homens cabe ocuparem lugares de decisão e de comando.

Vide, por exemplo, homens que matam companheiras pelo simples motivo de elas não mais os quererem como companheiros.  O inverso é muito raramente o caso.

Ou ainda, a proibição imposta às mulheres de terem liberdade de decidir sobre a própria vida e corpo no que diz respeito ao aborto.  A hierarquização entre homens e mulheres baseada no gênero visa garantir a perpetuação de Relações de Poder que são confundidas como normais ou a norma. Evidencia, ainda, como esse tipo de hierarquização é posta a serviço do preconceito e da discriminação.

  • Além da questão de gênero, vemos aqui uma outra ordem de abuso de lugares hierárquicos uma vez que se trata de um patrão famoso e poderoso e uma funcionária jovem cujo trabalho está subordinado ao dele. Confunde-se aí subordinação trabalhista com subjugação do outro.

Mas por que um homem educado, famoso, poderoso, que parece ter tudo, praticaria um tipo de violência contra alguém em posição de menor força?

Pois é, parece ter tudo…  No entanto…

Freud, nos esclarece a respeito da condição básica de desamparo em que nós, seres humanos, nascemos. Necessitamos, desde o primeiro momento de nossa existência, de um outro adulto que nos deseje e se dedique a cuidar de nós amorosamente para que possamos sobreviver.  O problema é que o temor em não sermos plenos e o desejo de nos livrarmos de nossa incompletude humana não termina na infância, mas ao contrário, continua pela vida toda!

Então, de que forma essas duas situações se interligam?

– De um lado temos a cultura que autoriza ou ensina aos homens (e às mulheres também!) que eles têm direitos sobre o desejo das mulheres, fazendo-os pensar que seu desejo é soberano.

– De outro, o temor do desamparo, de sentir-se frágil, não ter tudo.

A ilusão, portanto, de muitos homens, é a de que, por serem homens estarão autorizados a que seu desejo prevaleça sobre o das mulheres. É o desamparo disfarçado de força. É a ilusão respaldada pela cultura de machismo hegemônico, fazendo com que homens acreditem que de fato são mais poderosos. O risco é sempre a confusão da ilusão com a realidade. Pois a realidade revelada expõe a falácia da ilusão, trazendo à tona a reação violenta. A violência contra a mulher que frustra visa encontrar um culpado a fim de poder tolerar que o que parecia realidade era mera ilusão: ninguém pode tudo. Todos somos frágeis. Todos estamos sujeitos ao desamparo.

Mentalidades têm mudado, vêm mudando, e mulheres vêm se mobilizando mais e mais, inclusive, é importante que se diga, com apoio de muitos homens. Essas mudanças buscam estabelecer relações mais equitativas, respeitosas, onde o gênero não seja mais o fator determinante dos lugares que cada um de nós ocupa.

Como última nota: a cultura muda, mas sempre de forma muito lenta. No entanto, a internet e as redes sociais aceleraram construção de redes de apoio e de divulgação jamais imaginadas ou possíveis.  Essa velocidade que reúne tantas pessoas em torno de algo em tão pouco tempo, vem criando efeitos marcantes no fiel da balança, alternado as relações de poder. É a isso que assistimos quando algo é ‘viralizado’, e milhares ou milhões de pessoas passam a reproduzir e divulgar uma mesma ideia num tempo comprimido. Isso definitivamente tem repercussões nos ritmos de mudanças de mentalidades e consequentemente da cultura. A Internet e as redes sociais parecem ser o novo poder prevalente.  É, sem dúvida, um recurso novo e poderoso.

Deve, contudo, ser usado com cautela, pois vírus podem salvar-nos de doenças através de vacinas ou podem eliminar povos ou contagiá-los de forma irreversível.

*Susana Muszkat é psicanalista, membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É psicanalista em consultório particular de adolescentes, adultos, casais e famílias. É mestre em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP, e autora do livro Violência e Masculinidade(2011) ed. Casa do Psicólogo e Violência Familiar (co-autora),  (2016) ed. Blucher, que faz parte da coleção O que fazer?, da qual é uma das coordenadoras editoriais.  

O psicanalista e suas formas de presença

De tempos em tempos, a Psicanálise é convocada a posicionar-se frente a críticas vindas de outros campos do saber ligados ao sofrimento humano no que diz respeito à sua atualidade clínica. Muitas dessas críticas atestam um desconhecimento sobre o movimento psicanalítico e, principalmente, sobre os desenvolvimentos no sentido de responder aos desafios da clínica contemporânea.

Nas últimas décadas, os psicanalistas vêm se debruçando sobre o tema do enquadre (Winnicott, Bleger), convocados pela clínica a inventar novas formas de presença que favoreçam o trabalho junto a pacientes ou situações clínicas nos limites da analisabilidade.

André Green é um psicanalista que nos ajuda a construir metapsicologicamente a necessidade dessas novas possibilidades de presença. Se o trabalho do aparelho psíquico é o da representação, as condições da análise devem ser tais que favoreçam esse trabalho (e não serão as mesmas em diferentes situações).

Em Freud, a clínica e a pesquisa nunca estiveram dissociadas, tendo a primeira sempre provocado investigações que o fizeram reformular a teoria. O lugar do analista nessa linhagem freudiana não poderia ser o de mero reprodutor de teorias bem acabadas, mas, possuidor de um repertório herdado de seus mestres, participar do espírito do seu tempo buscando responder a perguntas pelas quais se deixará tocar. Isso implica uma apropriação crítica e criativa da herança recebida, retrabalho constante em uma psicanálise vitalizada, como pode ser visto mesmo nos movimentos internos à própria obra freudiana.

O trabalho com as neuroses demonstra que a atitude abstinente e mais silenciosa do analista e o uso do divã limitando o polo motor, tal qual o modelo do sonho, favorecem a associação e o processo de simbolização. Diante da angústia despertada na situação analítica, a força pulsional investe as representações que vão, através da cadeia associativa, encontrar vias secundárias de satisfação. O paciente fala, sonha, produz sintomas e o analista se dispõe a um estado de atenção flutuante que o permite acompanhar e atuar nas trilhas que as palavras do paciente puderam deixar. Essa aposta, no caso do funcionamento neurótico, é geralmente bem-sucedida, pois nesses casos podemos contar com as condições para o processo representacional que se encontram construídas e mais ou menos bem preservadas.

Mas nem sempre é assim. Há situações clínicas, ou momentos na análise, em que essas condições de enquadre estabelecidas para favorecer a representação, ao contrário, as dificulta. O excesso de excitação pulsional reavivado na situação transferencial interrompe as cadeias de ligação. Diante de angústias que oscilam entre abandono e intrusão, o silêncio do analista pode ser sentido pelo paciente como mortífero. As falhas do trabalho da representação tais como reveladas na análise denunciam as marcas das condições constitutivas de origem junto ao objeto (invasão e abandono) o que impõe ao analista um manejo diferente para restaurar em certa medida a via associativa. Nessas condições menos favoráveis, o trabalho psíquico do analista é chamado a comparecer, sua própria elaboração imaginativa ganha lugar e o analista buscará encontrar a justa distância que o permita se manter vivo sem se tornar invasivo. Como intervir respeitando essa justa distância? O que faz o trabalho de simbolização falhar em certas condições?

Foi diante destas dificuldades impostas ao trabalho analítico que Green propôs seu projeto para uma psicanálise contemporânea, um projeto coletivo de investigação das condições de representação no enquadre analítico, tomando como matriz clinica as situações nos limites da analisabilidade. O projeto é coletivo, e estamos todos convidados a dele participar.

Algumas das respostas pessoais de André Green a essas perguntas serão trabalhadas no curso “André Green e a Psicanálise Contemporânea”, oferecido pela SBPSP.

 

Berta Hoffmann Azevedo é membro filiado ao Instituto de Psicanalise Durval Marcondes da SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, docente do curso “André Green e a Psicanálise Contemporânea” pela SBPSP e autora do Livro Crise Pseudoepiléptica, coleção Clínica Psicanalítica (Ed. Casa do Psicólogo).

bertaazevedo@hotmail.com

A tecnologia não pode substituir o contato humano no tratamento do autismo

A psicanalista Alicia Beatriz Dorado de Lisondo integra o Grupo de Psicanálise e Pesquisa de Autismo (GPPA). Junto com outros profissionais, ela tem se dedicado a estudos na área que culminaram na publicação do livro “Atendimento Psicanalítico do Autismo” (2014) e no desenvolvimento do Protocolo PRISMA (Protocolo de Investigação Psicanalítica de Sinais de Mudança em Autismo), que oferece indicadores para o mapeamento do desenvolvimento emocional de crianças com transtornos autísticos e sua evolução no tratamento psicanalítico.

“Queríamos dialogar com a comunidade científica, mostrando como a psicanálise é um caminho eficiente para trabalhar com a criança com estados autísticos. Então criamos o Protocolo PRISMA, que foi apresentado em vários congressos internacionais”, conta Alicia. Em entrevista à Sociedade Brasileira de Psicanálise São Paulo, ela fala sobre o autismo em um mundo cheio de estímulos tecnológicos e deixa um alerta: a tecnologia não pode ser usada para substituir o contato humano.

Os estímulos proporcionados pela tecnologia podem ser usados a favor do tratamento de um paciente autista?

Sem dúvida estamos em mundo midiático. Isso é uma realidade. A questão é: como a tecnologia é usada? Isso não é só para a criança autista, é para qualquer criança. Quando a família está submetida à televisão ou ao tablet, não está dialogando nem interagindo. Há momentos que deveriam ser sagrados. Hoje, a conversa e até a briga e o confronto estão sendo substituídos por cada um com seu tablet ou com seu celular quando a família se reúne em torno de uma mesa. O problema é que o aparelho não é um ser humano. Pode estar a serviço desse refúgio autístico, desse isolamento para evitar o contato.  O aparelho pode fazer parte desse mundo mental da criança com estados autísticos. Não são só os psicanalistas: a Sociedade Brasileira de Pediatria também encaminhou um comunicado chamando a atenção para o uso excessivo dessas tecnologias que estão levando crianças a quadro de depressão, de anorexia, adições e até o suicidio.

Há limites e contraindicações para o uso desses estímulos tecnológicos?

Os psicanalistas, pela experiência clínica, tentamos alertar sobre as consequências do uso excessivo dos estímulos tecnológicos. Quanto menos melhor na primeira infância. Seu uso precisa ser modulado de acordo com as idades e os estados mentais. Há um tempo fiz uma avaliação diagnóstica em que o menininho com fortes traços autísticos estava com o tablet. Ele passava o dedinho e sucessivas figuras que o pai tinha carregado apareciam na tela. Em determinado momento, tentei ver o conteúdo. Me dei conta que era tão grande a minha dor e sofrimento que eu queria encontrar um sentido naquela envoltura imagética. Ele não me olhava, ele não estava em contato comigo e o uso que ele fazia desse tablet era passar o dedinho e ficar absolutamente absorto com a  imagem  aparecendo . Ele parecia não entender, não reconhecer cada imagem. Importava ter o controle pelas aparições e desaparições .  Estava focado nesse tablet que lhe dava uma proteção sensorial e o protegia do contato humano. Esse tablet é previsível, ele tem o controle. O ser humano é imprevisível em sua essência. Ele não estava sendo estimulado com o tablet assim usado, ele encontrava excitação em seu mundo próprio, isolado do mundo humano.

Eu acho que o importante é que os pais entendam que os efeitos dos recursos tecnológicos dependem de como eles estão sendo usados e que isso não os poupa das funções paternais. Com os adolescentes, é importante que os pais estejam perto para acompanhar, não para proibir. A possibilidade de conversar, de dialogar, pode permitir que valores e modelos sejam assimilados. A criança precisa de tempo para brincar e sonhar, o adolescente para ter seus devaneios, a vida nos grupos sociais, organizar os programas sociais presenciais, poder ter devaneios, descansar. Tem criança que tem agenda de executivo.

Acredita que outros profissionais, como fonoaudiólogos e pedagogos, podem se beneficiar desse recurso no tratamento?

Depende do uso que se faz. Se estão sendo usados para substituir a interação humana, eu desaconselho seu uso. O problema da criança autista – e isso é muito importante para conscientizar a comunidade –  não é que a criança fale ou deixe de falar. É uma questão do ser, da formação da personalidade, dos alicerces do ser humano. Os papagaios também falam. Não nos interessam essas falas mecânicas e repetitivas, automáticas, que são objetos autísticos assim como o tablet pode vir a ser. Nos interessa uma pessoa que seja autor de sua fala, que tenha construído uma subjetividade. Que sua fala seja uma linguagem, expressão de sua subjetividade, uma linguagem com um sentido num diálogo humano. É preciso ter para quem falar e ter um dizer próprio e singular. Então, o fonoaudiólogo pode ser um profissional que muito ajude no momento adequado, dependendo da concepção que tenha do ser humano e da aquisição da linguagem. Mas o paciente com estados  autistas está lutando para construir um sentido para sua existência. Às vezes, o próprio sentido de existir como ser humano. Ele não é só um aparelho fonoarticulatório. A criança pode se sentir invadida com espátulas e tentativas de recuperar o tônus muscular em momentos de muita angustia catastrófica, desmantelamento psíquico,  se sentir caindo aos pedaços.

Essas questões envolvendo tecnologias são mais comuns nos pacientes nativos digitais ou você percebe em outras idades também?

A tecnologia pode ser utilizada em todas as idades e os pais são um modelo de identificação. O mundo de hoje é muito desumano. Em uma cidade como São Paulo, não há muitos espaços seguros, arborizados, para a criança brincar, explorar o mundo, subir em arvores. A vida contemporânea dos casais faz com que as crianças sejam colocadas em creches, após a licença maternidade durante muitas horas por dia. O primeiro ano de vida é fundamental para criar vida psíquica, alicerce da personalidade. Quando a mãe dá o seio ao filho, ela dá muito  mais do que leite. A criança olha a mãe suficientemente boa, se encontra espelhada no seu rosto, escuta sua voz, saboreia o leite, sente-se segura no seu colo com um holding firme. Os sentidos estão integrados, harmonizados numa sinfonia poética: audição, vista, olfativo, gustativo, Kinestecico, cinestecico. A mãe é um seio pensante e um seio estético que lhe mostra o mistério do mundo. Em muitas situações, por falta de tempo, esgotamento, falta de conhecimento, conflitos na relação afetiva, uma difícil história transgeracional e um conjunto de fatores conhecidos e desconhecidos, muitas vezes o tablet surg como recurso autocalmante, um alívio para a família em desespero. É claro que a criança pode vir a ficar calma em seu mundo próprio- a paz do sepulcro-, mas aí a criança não lida com a raiva, com a frustração, com os limites, com a malcriação, não aprende a esperar, a tolerar, a criar outras alternativas, não chega o seio, pode chupar o paninho. As emoções, nos vínculos humano nutrem a mente. Joao a mamãe já chega aí, aguarda um pouquinho…Vai dar muito mais trabalho fazer uma criança de dois anos recolher os brinquedos e colocar em uma caixa do que fazer por ele Quando ele vive a experiência de juntar, guardar numa caixa, os brinquedos, ele encontra um continente. Ele pode juntar e esparramar e aí está a reversibilidade. O que acontece no seu mundo pode vir a ter um correlato com funções mentais. Essa criança de 18 meses precisa brincar com potes, encher potes e esvaziar potes, assim aprenderá a controlar esfíncteres; uma bexiga cheia é esvaziada. Ele perde urina, não seu ser que desaparece nessa urina. Essa possibilidade de brincar vai alimentar a vida mental. A criança precisa desenhar, contar e escutar histórias, brincar, criar personagens, dramatizar, explorar o mundo, interrogar, armar quebra-cabeças, dialogar, modelar… viver em vínculos humanos significativos.

 

 

Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é analista de crianças, adolescentes e adutos. Didata e docente do GEP Campinas e da SBPSP. Filiada à International Psychoanalytic Association. E-mail: alicia.beatriz.lisondo@gmail.com