O lugar do idoso no mundo contemporâneo

Miriam Altman

Você já parou para pensar no lugar que o idoso ocupa na nossa sociedade? São pessoas que muito produziram: participaram da vida familiar, ajudaram na construção de projetos, de sonhos e da vida comunitária por muito tempo.

A velhice tem estado em pauta desde a antiguidade, mas só a partir do século passado foi possível consolidar a emergência do estudo do envelhecimento. O fato é que a expectativa de vida aumenta a cada ano em função do desenvolvimento da medicina e da tecnologia. Já que se aumenta a longevidade, não deveria a qualidade de vida aumentar também? Será que nós, tanto como indivíduo quanto como sociedade, estamos preparados para esta realidade?

O ponto é que muitos de nós, ao se aposentar, têm dificuldade de se inserir em alguma atividade produtiva. Como em nossa sociedade somos muitas vezes definidos pela atividade do trabalho e, inclusive, chegamos a construir a nossa identidade com base na profissão, diante da aposentadoria, perdemos o chão. Isso faz com que sentimentos de fracasso, impotência e inutilidade nos envolvam. “A casa cai”.

Mas por que, nesse momento tão importante de mudanças, esquecemos que somos humanos e podemos (e devemos) nos valorizar? Que podemos nos ocupar com diversas outras atividades, inclusive desenvolvendo novos gostos pessoais; ou desfrutando do tempo livre; ou ainda nos reinserindo no mercado de trabalho?

O processo de envelhecimento é um momento de vida delicado, assim como a adolescência. O corpo vai se transformando e somos direcionados a buscar soluções práticas, normalmente na medicina e na tecnologia.

Porém, essas mudanças ocorrem tanto no nível físico quanto psíquico. Não podemos negligenciar a mente. Esse é um momento de indagação, reflexão e descoberta. E, diferentemente da pressa que acomete a adolescência, esse projeto pode ser construído aos poucos, sem pressa, encarando os próprios medos.

Sendo assim, não são apenas os jovens que precisam buscar um caminho. Nós também precisamos. Porém, o processo de autoconhecimento não é simples e imediato, mesmo para quem tem experiência de vida. Consequentemente, em inúmeras ocasiões não conseguimos encontrá-lo sozinho. É necessário algum apoio para elaborar as perdas e ganhos e trabalhar tantas questões internas. Mas então por que é tão fácil procurar um médico e tão difícil procurar um psicoterapeuta ou analista?

A percepção da vida psíquica pode, para muitas pessoas, ser o início da busca por uma psicanálise. Às vezes, é desconfortável depararmo-nos com sentimentos e emoções que não “estavam no programa” ou que nos trazem angústias. A vida mental é experimentada como algo abstrato, não tem consistência, cor, tamanho. Não temos acesso a ela por meios conhecidos, como os sensoriais. A terapia é uma conversa diferente aonde estes aspectos da vida mental podem ser investigados tornando-nos mais aptos a um conhecimento e contato com as próprias emoções. Por ser algo dessa natureza, desconhecida e pouco tangível, muitas pessoas preferem dar atenção ao corpo e às doenças e, dessa forma, cuidar em primeiro lugar do corpo. Isso é muito importante, desde que não esqueçamos que temos também uma vida emocional que não pode ser negligenciada!

Por fim, toda crise tem um lado bom, já que, apesar das angústias e desconfortos, ela nos impulsiona a buscar soluções para resolver conflitos novos e também antigos. Com um maior autoconhecimento, podemos nos posicionar mais ativamente perante o mundo em constantes mudanças e escolher prudentemente nosso posicionamento na sociedade, definindo nosso lugar. Aproveite esse momento para se conhecer melhor e fazer algo produtivo pessoal e profissionalmente por você!

 

Miriam Altman é membro associado à SBPSP, mestre em Psicologia Clínica pela USP e tem especialização em psicoterapia psicanalítica pelo Sedes Sapientiae.

miriam@miriamaltman.psc.br

4 comentários

  1. Considerando que no envelhecimento há tantas mudanças, e que essas mudanças ocorrem tanto no nível físico quanto no psíquico, interessa-me o seguinte : 1) na Psicologia já existem estudos sobre a “psique do idoso” ? 2) há atendimentos específicos, como existe terapia de casal, etc…3) indique-me bibliografia relacionada, sim ? Gratíssima. Maria José.

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    1. Prezada Maria José

      O estudo do envelhecimento é uma área que tem crescido muito nos últimos anos e, como já deve saber, várias pesquisas vem sendo desenvolvidas. Devido à demanda dessa população , psicólogos e psicanalistas têm se debruçado sobre essa faixa etária. E como você mesma indaga essas disciplinas estão interessadas no psiquismo do idoso.

      Esses profissionais têm justamente se interessado nas especificidades que surgem nesse momento da vida que se caracteriza por um declínio de várias funções biológicas, mas também por características no funcionamento psíquico. Penso que uma dessas características pode ser a grande quantidade de perdas a que a pessoa esta sujeita. O que varia é a forma como cada um irá lidar com elas.

      Já existem, sim, atendimentos específicos para essa faixa etária. Aqui mesmo na nossa Sociedade temos encaminhamentos feitos através do Centro de Atendimento Clinico para pessoas acima de 60 anos. Sei também que existia na USP, na clinica do Apoiar um serviço parecido, não sei se continua. Acredito que devem haver outros que desconheço. Recomendo que procure minha dissertação no Google: psicoterapia para idosos miriam altman , ali voce vai encontrar nas referências vários livros interessantes que consultei, além de um artigo que escrevi. Espero que te ajude!

      Um abraço,
      Miriam

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