Mês: maio 2016

In-Tolerância ! O que a Psicanálise tem a dizer – parte 2

Sob o prisma das relações de alteridade e de responsabilidade, a questão ética nos coloca empaticamente relacionados com o outro em diversos graus

Por Ilana Waingort Novinsky*

A experiência clínica hoje aponta que não podemos limitar o nosso foco apenas à vida intrapsíquica presente e manifesta dos pacientes, sem prestar atenção ao que se passa ao nosso redor. Para realizarmos o trabalho analítico e lidar com os novos tipos de sofrimento e adoecimento que se apresentam em consultórios, é necessário resgatar os valores que nos colocam em reverência à alteridade, compreendida como matriz de uma ética individual e das relações humanas. Para acolhermos o outro, que é sempre diferente e estranho, é preciso poder reconhecermos que ele é um ser humano como eu.

É a relação com o outro, o pertencer a um grupo, o ser parte de uma comunidade o que constitui a condição fundamental para o nosso vir a ser e para o desenvolvimento da singularidade de cada um. A questão ética aqui se refere às condições necessárias para o acontecer humano, isto é, ao que permite a cada um de nós participar de uma comunidade.

Habitualmente a ética é vista como fruto do aprendizado, de algo que se acrescenta a uma personalidade que estaria se formando, se organizando, daí a importância dada à educação.

Entretanto, o trabalho do psicanalista inglês Donald W. Winnicott nos mostra que a questão ética faz parte da própria condição humana, do modo de ser de uma criança, do que lhe é originário. Há, desde o início da vida, segundo Winnicott, um pressentimento do ético: uma criança que tem a experiência de ser cuidada, recebe desta forma também um saber sobre a ética, um elemento fundante, sobre o qual inúmeros outros elementos psíquicos podem acontecer.

O que caracteriza o cuidado ético é a atitude que se exprime na consideração pelo outro e por suas necessidades. Na ausência desta atitude as ações do cuidar perdem sua motivação ética, se desvalorizam e deterioram. Quando este cuidado ético não acontece, temos a presença de fraturas nos fundamentos da ética da criança, e ocorrem fissuras psíquicas no seu desenvolvimento.

Nossos pacientes são testemunhas dessas fragmentações éticas, com seus inúmeros sofrimentos, como a perda do sentido de si e do contato com os outros. Podem sentir uma profunda solidão, sem alguém que os façam se sentir humanos e pertencendo à comunidade humana, e desenvolver assim uma visão niilista da existência. Aqueles que não experimentaram este cuidado ético fundante tendem a reproduzir comportamentos de violência explícita no nível social, tendências anti-sociais, através da participação em organizações delinquentes, como tentativas de sobrevivência psíquica.

Todo ser humano nasce numa experiência de “nós”, de pertencer a um grupo familiar e precisa viver a experiência de hospitalidade, como experiência fundante, neste seu grupo familiar e humano. Este cuidado é parte fundamental das condições ontológicas da constituição da pessoa humana, e sem ele a dimensão ética é apenas superficial ou impossível de ser acessada. Isto significa que sem a experiência de cuidado não temos como conviver e viver em um mundo hospitaleiro e solidário, com compaixão e tolerância. Cuidar, aqui, implica tolerar o outro: aquele que não foi cuidado, recebido como um outro, tem pouca possibilidade de poder receber também um outro, de tolerar a singularidade do outro.

A criança que encontra apenas figuras que encarnam força, mas que não lhe permitem ter as experiências fundantes aqui apontadas pode desenvolver ideais fantásticos de si mesma, desenraizada da condição humana. Pode também buscar a autoridade pelo negativo, entrando em uma sequência de comportamentos delinquentes na busca de quem a pare, de quem a devolva a uma ética da condição humana. Estas são situações que ocorrem a partir do sofrimento de crianças que viveram a violência e a intolerância.

Hoje, os indivíduos, famílias, grupos e instituições mostram-se incapazes, muitas vezes, de oferecerem estas formas fundamentais de cuidado, pois passam por graves descontinuidades e arcam com certo descrédito.

A proliferação de ideologias e grupos totalitários e a globalização de diferentes formas de intolerância, mais uma vez, atestam as falhas nos dispositivos de acolhimento e reconhecimento disponíveis no mundo contemporâneo. Uma sociedade tecnológica, de competição e da imagem revela, assim, pelo avesso as graves deficiências em mecanismos sociais de reconhecimento dos indivíduos em suas singularidades.

Os fenômenos totalitários chamam a atenção para a intensa demanda de inclusão e da busca de objetos capazes de fornecer sustentação e continência. É justamente a massa de indivíduos, avulsos e desamparados, a que mais se sente atraída pelas promessas de englobamento absoluto, proferidas pelas ideologias totalitárias e seus líderes.

Na questão da tolerância, a meu ver, não se trata de “tolerar, ou ter paciência” com o mais “fraco, infantil ou necessitado”, ou seja, de uma relação de poder. Trata-se de ver, sentir e viver com o Outro, de reconhecer como partilhamos as mesmas necessidades, fragilidades e angústias. Neste contexto a experiência de empatia surge como experiência humana fundamental.

Estamos aqui no campo do entre-nós, onde precisamos acolher o desproporcional, o trágico e o paradoxal, como aspectos inerentes ao nosso campo de experiências, estudos e reflexões. Desta forma, a perspectiva epistemológica usada tanto no estudo sobre a pessoa humana quanto nas relações de tolerância e intolerância, mais do que ser um elemento relacionado à teoria do conhecimento, expressa uma posição ética.

A questão da intolerância/tolerância, sob o prisma das relações de alteridade e da responsabilidade, nos coloca empaticamente relacionados em diversos graus com o Outro.

Quando não podemos mais acompanhar e sermos acompanhados nas nossas necessidades e vocações, estamos em meio à intolerância e em seu extremo, na barbárie: quando o Outro é usado, negado, em nome de objetivos e justificativas os mais variados. Não é apenas a ética que está em suspensão, mas ocorre uma destituição da pessoa humana em níveis tão profundos que a própria capacidade de atuação desaparece e o ser humano perde seu lugar, como ator psíquico e político, como ocorreu durante as perseguições e campos de concentração nazistas.

Uma reflexão psicanalítica sobre a questão da tolerância/intolerância, nos leva à questão das necessidades éticas fundamentais, sem as quais estamos condenados ao adoecimento e à barbárie – à intolerância.

*A psicanalista Ilana Waingort Novinsky é Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o texto acima é a segunda e última parte de um ensaio em que ela discute e intolerância.

In-Tolerância – O que a psicanálise tem a dizer?

 

 Na visão freudiana, o trabalho cotidiano de criar laços, estabelecer e sustentar relações e identificações, construindo valores e projetos,  é o único caminho para instaurar a tolerância entre os homens.

Por Ilana Waingort Novinsky *

Observamos todos os dias nos jornais, nas redes sociais ou na TV, conflitos, atentados e guerras causados pelos mais diversos tipos de intolerância  –xenofobia, racismo,antissemitismo, nacionalismos, homofobia–, que muitas vezes nos surpreendem por sua violência. No dia a dia, também experimentamos “pequenas” intolerâncias no trânsito, com vizinhos ou com nossos familiares. Todas estas situações causam angústia, insegurança, sofrimento e preocupação.

Como a psicanálise pode ajudar a compreender estas diversas demontrações de intolerância?

Sigmund Freud, com a criação da psicanálise, mudou para sempre a experiência humana. Seu legado representa uma força e uma abertura para que nos tornemos conscientes de nossa precariedade, das ambiguidades da existência humana e especialmente mais livres frente ao destino. Durante toda a vida e através de sua obra, Freud lutou contra a discriminação, a hipocrisia, contra a intolerância social ou política. Lutou sobretudo pela liberdade humana.

Os tempos sombrios em que viveu, sua trajetória pessoal, assim como o trabalho clínico com suas primeiras e mais importantes pacientes – as histéricas, foram as três vertentes fundamentais da formulação das teorias  freudianas.

Nestas três facetas encontramos experiências de intolerância: em sua história de vida, Schlomo Sigismund Freud sofreu, por sua origem judaica, inúmeras experiências de preconceito e discriminação;  no trabalho de construção da psicanálise, com as teorias sobre o inconsciente – o estranho e o inacessível em nós – e por sua visão da sexualidade foi, por muito tempo, duramente combatido.

A própria origem da psicanálise está repleta de experiências de perseguição e de intolerância, tanto por parte de uma moral hipócrita da época – que a rejeitava – quanto dos governos totalitários, como o nazismo e o stalinismo, que proibiram os estudos psicanalíticos e queimaram seus livros.

Por tudo isso podemos dizer que a psicanálise não apenas está apta a contribuir para a compreensão da intolerância, mas também tem, junto com outros campos de saber, um grande compromisso com esta questão.

Os mais de cem anos de prática psicanalítica hoje nos contam uma história de lutas pela tolerância com o Outro, pelo reconhecimento do estrangeiro que vive em cada um de nós, e para manter viva a psicanálise como prática não totalizadora, sempre aberta ao desconhecido.

Freud descreveu em seus textos teóricos e meta-psicológicos as bases do psiquismo na psicanálise, e o reconhecimento e a aceitação  – ou não – do outro, pelo que nos é estranho ou diferente. Já nos alertava, entretanto, que algo sempre permanecerá misterioso em nós, que o mal estar na cultura é o mal radical, inerente à condição humana, do qual não podemos nos livrar, apesar de tentarmos transformá-lo pela construção da civilização.

Como dizia Freud, o “narcisismo das pequenas diferenças” permite alguma satisfação “conveniente e relativamente inócua da inclinação para a agressão, através da qual a coesão entre os membros da comunidade torna-se mais fácil” (S. Freud, O Mal Estar na Civilização-1930, Imago Editora, 1969, p.136). Cita como exemplo a animosidade entre populações que habitam regiões próximas como os alemães do norte e os do sul, os ingleses e os escoceses, os portugueses e os espanhóis ou mesmo os  argentinos e os brasileiros. Esta é também a base de muitas formas de intolerância que vivemos cotidianamente.

De acordo com Freud, as relações de intolerância nos remetem às relações de agressividade primeva, “essa pulsão agressiva que é o derivado e o principal representante da pulsão de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo”. (Freud, 1930) Na espécie humana há, para Freud, uma constante luta entre uma pulsão de vida e outra de destruição e, portanto, “a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida”.

Criamos leis e regras na tentativa de controlar nosso desejo de causar dano ao outro, num processo a serviço de Eros, “cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, mais tarde, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade”. (Freud, 1930).

Na visão freudiana, o trabalho cotidiano de criar laços, estabelecer e sustentar relações e identificações, e a partir dessas práticas construir valores e projetos, é o único caminho que pode instaurar a tolerância entre os homens.

Ainda hoje estamos compreendendo o enorme legado de Freud e todas as implicações de suas descobertas.  A psicanálise criou uma nova definição do destino humano, colocando em nossas mãos os meios que permitem transformar situações antes consideradas irremediáveis.

Freud apontou que não precisamos ser vítimas do passado, ou do meio em que vivemos. Fez surgir um novo tipo de liberdade, ideia que era seu valor fundamental.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que contribuiu, através da psicanálise, para a modernidade e para a construção do homem moderno, Freud teve vida e obra marcadas pelas perseguições e pelo nazismo, frutos deste mesmo mundo que ele ajudou a criar.

Os psicanalistas, seus herdeiros, têm como missão levar adiante seu legado, através do estudo e da crítica tanto da própria prática clínica, quanto do mundo em que vivemos.  Ao desconfiar das respostas fechadas, simplistas e reducionistas muitas vezes dadas aos fenômenos humanos, podemos procurar contribuir para compreender a crescente complexidade do mundo com estranhas e dolorosas manifestações como a intolerância.

 

*A psicanalista Ilana Waingort Novinsky é  Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e o texto acima é primeira parte de um ensaio em que discute e intolerância.

 

O psicanalista no hospital

O psicanalista no hospital
Por Marília Ribeiro Alves*

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos.” (Rubem Alves)

Como é trabalhar com uma equipe multidisciplinar e não sozinho? Como é trabalhar sem o divã, sem agendamentos, sem horários fixos e sendo interrompido a todo instante? Como é trabalhar em um setting tão diferente do habitual? São perguntas que o psicanalista se faz quando pensa em trabalhar em um hospital.

O hospital é um lugar onde vários profissionais com formações diferentes atendem pessoas assustadas e fragilizadas emocionalmente à espera da visita cotidiana de um médico, do médico que trará o prognóstico de sua doença.

As pessoas hospitalizadas têm seu caminho de vida interrompido: deixaram de trabalhar, deixaram de estudar, em um momento adoeceram, pararam e se encontram ali, no leito de um hospital, distante de sua casa, de sua família, fora da rotina de seu dia a dia e, muitas vezes, sozinhos. Essa situação é mais evidente, principalmente, em hospitais públicos, lugar dos mais pobres e desamparados, o que os torna ainda mais desvalidos e inseguros.

Diante da descoberta de doenças graves, como o câncer e a AIDS, por exemplo, diante de procedimentos médicos invasivos, como a retirada de órgãos ou a amputação de membros, pacientes são tomados pela ansiedade e o medo da morte se presentifica.

A permanência em um hospital constitui-se portanto como um momento de reflexão profunda, momento de revisão de vida e de considerações sobre o futuro. O que fazer quando voltar para casa? Será que a vida será a mesma? Poderei fazer as mesmas coisas que fazia antes?

Pacientes terminais, principalmente, costumam fazer uma retrospectiva de sua vida. Revêem o que construíram e se perguntam como ficará sua família quando eles partirem. Falam de mágoas, de perdão e procuram deixar tudo resolvido. Diante da proximidade da morte, alguns pedem para rever determinadas pessoas com a finalidade de perdoá-las ou de serem perdoados.

Nesses casos e nesses momentos, a presença do psicanalista no hospital se consolida. A estrutura emocional adquirida por meio de sua análise pessoal, longa e frequente, lhe respalda para lidar e aguentar o intenso sofrimento físico e psíquico dos doentes.

Muitas vezes, basta estar presente para amparar o paciente nesse mergulho interior e oferecer-lhe uma escuta atenta, acolher seus conteúdos mentais, guiando-se pela atenção flutuante. Estar disponível para a interlocução e o diálogo, permite ao paciente associar livremente e expressar sua dor. O atendimento pode ser realizado no leito, nos corredores ou em qualquer outro lugar do hospital onde a presença do analista é solicitada.

O constrangimento de alguns pacientes em falar de suas questões íntimas em lugares coletivos, próximos de pessoas que não conhecem, é visível pelo tom de sua voz, e procuram falar baixo. Na hora da medicação, a auxiliar de enfermagem chega com o remédio que não pode esperar. As visitas do médico também têm prioridade e o atendimento é interrompido. Diferentemente de um consultório, onde o psicanalista atende com hora marcada, situações inesperadas acontecem a cada instante e não existe privacidade. No hospital, analista e analisando estão expostos.

Ademais, trabalhar com uma equipe multidisciplinar, muitas vezes fragmentada na qual cada um age isoladamente, tendo o prontuário como único meio de comunicação para dar ciência do estado emocional do paciente aos outros profissionais, é uma dificuldade suplementar.

Como é, então, trabalhar com tantas variáveis? Condição sine qua non é a disponibilidade para ouvir, escutar e acolher a angústia do paciente com uma escuta qualificada e diferenciada. Mesmo com todos esses obstáculos, o psicanalista tem um papel fundamental dentro da instituição, pois pode fazer o paciente sentir-se cuidado, olhado, considerado e compreendido.
Por outro lado, as experiências vividas em instituições enriquecem o psicanalista e o habilitam para o trabalho no consultório, ampliando sua visão de mundo, possibilitando-lhe entender a história pessoal de cada um e tratá-lo de forma mais humanizada.

*Marília Ribeiro Alves é membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, membro do Núcleo de Psicanálise de Santos e região, possui especialização em Psicologia Clínica pela PUC- SP e especialização em Psicologia e Saúde – Psicologia Hospitalar também pela PUC – SP.