Intersubjetividade, alteridade e terceiridade: por uma teoria psicanalítica viva para lidar com desafios da nossa época

Por Talya S. Candi*

Os múltiplos desafios da clínica na atualidade exigem que o psicanalista se debruce sobre os aspectos intersubjetivos da experiência analítica. Isto implica poder criar e construir junto com o paciente um dispositivo e uma linguagem feitos sob medida para permitir o desenvolvimento de uma relação baseada na confiança e na sinceridade. A descoberta da contratransferência inaugurou uma nova visão sobre o processo analítico, que não transcorre apenas do lado do paciente, mas também do lado do analista. A.Green (1975) nos sugere pensar a situação analítica a partir de uma concepção global da contratransferência que inclui diferentes aspectos de seu funcionamento mental desenvolvidos em suas experiências pessoais de análise e formação, em seu diálogo com teorias e colegas e sobretudo no contato com seus pacientes. A subjetividade do analista, seu corpo, suas crenças, pensamentos e história de vida estão implicados no processo analítico e devem ser cuidadosamente monitorados pois podem não só estabelecer conluios inconscientes com o analista, mas também e sobretudo se constituir numa das fontes mais valiosas para a elaboração da interpretação. Os conluios devem ser vistos como “nós interativos” que podem paralisar a imaginação e o pensamento criativo do analista e imobilizar o processo analítico. A analista inglesa Betty Joseph estudou em detalhes este tipo de conluio.

Não é possível, no entanto, que haja um verdadeiro processo de análise se o analista não se dedica a processos de identificação com o paciente, concordantes ou complementares, e se não tolera também momentos de indiscriminação e fusão. Em suas respectivas conceptualizações sobre o terceiro analítico, Green(1975) e Ogden (1994) postulam a ideia de que o objeto analítico é construído por paciente e analista. Para estes autores, os momentos de intensa empatia e ligação intersubjetiva devem se alternar dialeticamente com outros de maior distância e discriminação entre paciente e analista. Este vai-e-vem entre vivências de fusão e outras de discriminação, ligação e desligamento, junção e separação, mobiliza os afetos e as representações que promovem a criação do sentido e a simbolização. O progresso da análise leva ao crescimento da capacidade reflexiva compartilhada, o que permite ao paciente (e também ao analista) uma visão mais objetiva de si mesmo. Neste delicado contexto, a atuação do analista objetiva trabalhar a partir do segundo olhar, visando sempre se apropriar dos pedaços mais estranhos de si mesmo, das alteridades, de dentro e de fora, do inconsciente e dos outros que ameaçam o mundo ideal da plenitude narcísica. Para T. Ogden, a tarefa analítica deve envolver o esforço para ajudar o paciente a se tornar humano em um sentido mais amplo do que ele conseguiu até aquele momento. Ajudar o analisando a se tornar mais plenamente humano implica facilitar as tentativas do paciente de experimentar uma gama mais ampla de pensamentos, sentimentos e sensações percebidos como próprios na sua diferença, e que ele sente terem sido gerados no contexto de suas próprias relações presentes e passadas com outros seres humanos (inclusive com o analista). Neste contexto, a interpretação analítica torna-se o instrumento para expandir os vínculos entre as experiências emocionais significativas e promover novos vínculos que ampliem a rede do sentido e o repertório do que significa se sentir vivo .

*Talya S. Candi é psicanalista, membro da SBP-SP e a coordenadora do evento “Intersubjetividade, Alteridade, Terceiridade: Que conceitos são estes e sua relevância para a Psicanálise Contemporânea”, uma série de conferências e discussões que acontecem no sábado, 12 de março, na sede SBP-SP, a partir das 9h, numa iniciativa Diretoria Científica da SBP-SP.

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