Mês: setembro 2015

Psicanálise em cena

O diálogo da Psicanálise com a arte está na raiz do próprio pensamento freudiano que, ao formular suas teorias, fez uso de mitos e tragédias para costurar conceitos e formular hipóteses de compreensão da psique. No texto a seguir, a psicanalista Silvana Rea fala sobre duas óperas que serão encenadas em São Paulo e aproveita para contextualizar e explicar a tragédia de Édipo Rei e sua importância na teoria freudiana.

Psicanálise em cena

Por Silvana Rea*

Nos últimos dois fins de semana de novembro, o Teatro São Pedro, em São Paulo, apresentará em uma única récita duas óperas poucas vezes encenadas: Oedipus Rex de Igor Stravinsky com libreto de Jean Cocteau e O Homem dos Crocodilos, de Arrigo Barnabé com libreto de Alberto Muñoz.

Oportunidade única para assistir a duas obras primas, mas também oportunidade para assistir a fundamentos e conceitos psicanalíticos em cena.

Vamos começar com Oedipus Rex, ressaltando a importância do mito e da tragédia de Édipo Rei como organizador do pensamento de Freud e que culmina na formulação do complexo de Édipo, o fio que costura a teoria psicanalítica.

Mas antes de pensarmos em termos de complexo, é preciso lembrar que Édipo Rei é um mito grego que foi transportado da tradição oral para a forma de tragédia no teatro de Sófocles. Trata-se de uma narrativa que todos devem conhecer – o filho que, sem o saber, mata o pai e desposa a mãe.

Freud, em seu esforço para construir uma estrutura teórica que desse conta dos fenômenos que observava em sua clínica, apoiou-se neste mito grego para pensar as questões do desejo e da sexualidade humana. Em carta a seu amigo Fliess, em outubro de 1897, ele faz a primeira menção explicita a Édipo, considerando que a paixão pela mãe e os sentimentos hostis pelo pai descobertos em sua autoanálise, pudessem ser comuns a todos. Isto se confirmaria na força avassaladora que a encenação da peça provoca nos espectadores.

Mas Freud só vai pensar no mito como um complexo a partir de 1910. Para aqui chegar, precisou antes elaborar suas ideias sobre a sexualidade infantil e sobre a repressão, ou recalcamento.

Vamos então caminhar um pouco para trás. Em 1895, Freud, juntamente com Breuer, nota que a resistência das pacientes histéricas em lembrar aquilo que as afligia, indicava que certas ideias eram separadas da consciência e era esse desconhecimento (ou não lembrança) que gerava os sintomas. Ele começa a elaborar um tratamento que visa a recuperação e integração à consciência dessas ideias, inicialmente pela hipnose, posteriormente pela sugestão e por fim, pela associação livre.

Ou seja, as pacientes histéricas levam Freud à ideia de que uma força ativa fez com que essas ideias e lembranças fossem retiradas da consciência. Portanto, pensa ele, se há um resistência em lembrar, houve uma pressão que fez esquecer. Conclui, então, pela existência de uma resistência que exerce a força que reprime ou recalca. E mais, que há um mundo reprimido inconsciente.

Postular a existência de um inconsciente ativo dá sustentação à sua tese sobre a sexualidade infantil, formulada a partir de seu trabalho com pacientes histéricas e que provocou escândalo nos meios científicos do fim do século 19.

Sim, porque Freud passa a considerar que a histeria tem uma etiologia sexual, ligada a experiências infantis traumáticas que foram reprimidas. E como nota, contrariando sua hipótese inicial de que seriam vivências factuais, as pacientes fantasiam cenas e situações a partir de seu desejos sexuais; desejos infantis os quais, em última instância tem como objeto um de seus genitores. Isto o leva a postular que no inconsciente não há diferença entre realidade ou fantasia.

Agora sim, podemos começar a falar no Complexo de Édipo.

O que é um complexo? Trata-se de um conjunto de representações parcial ou totalmente inconscientes, relativas a situações infantis e que se organizam em função de desejos amorosos, de ódio e agressividade. O complexo de Édipo portanto, refere a uma rede de desejos que se expressam em fantasias ligadas ao parricídio e ao incesto.

Tomando como metáfora o mito e a tragédia de Sófocles, o Complexo de Édipo tem importância fundamental na teoria freudiana por seu valor estruturante da sexualidade e do psiquismo. Ele introduz a questão da alteridade e é o conceito instaurador do superego, da lei e da civilização. Fundamental na constituição da subjetividade, é o principal eixo de referência a partir do qual os sujeitos encontram suas diferentes formas de ser.

O modo de ser do Édipo de Stravinsky e Cocteau é o de um personagem, em parte buscando a verdade de suas origens a qualquer preço, em parte ocultando-a, desafiando o destino ao qual acaba submetido.

Vamos agora conhecer o modo de ser d’ O Homem dos Crocodilos, uma livre adaptação do caso clínico de Freud “História de uma neurose infantil”, conhecido como o Homem dos Lobos.

Dentro de um consultório psicanalítico, a narrativa da ópera desenvolve-se em uma, ou várias sessões de análise do compositor Antônio da Ponte, atormentado pela ideia de que um piano lhe cortará fora as mãos. A partir deste mote, traça uma viagem onírica pelos sonhos, fantasias e associações do paciente e da analista.

A análise de Serguei Pankejeff, o nobre russo apelidado de Homem dos Lobos, centra-se em um sonho: o sonho dos sete lobos brancos, que Freud relaciona com a cena primária. O que reafirma, para ele, o papel da sexualidade infantil na formação das neuroses. E como Pankejeff, Antônio passa por diversas análises sem sucesso, o que introduz a noção freudiana de compulsão a repetição.

Ou seja, a ideia aqui é a de que fantasias recalcadas infantis e ligadas ao Complexo de Édipo, experiências traumáticas que não podem ser recordadas, ressurgem de maneira disfarçada. Para Freud, aquilo que está reprimido – e portanto não lembrado – é expresso por uma atuação, repetidamente. Cada paciente começará sua análise movido por uma repetição desse tipo, que será vivenciada na relação com o analista naquilo que Freud denominou de transferência. Um fenômeno de atualização de experiências passadas à pessoa do analista, em busca de elaboração e ressignificação. Sem isso, repete-se.

Com a noção de compulsão a repetição, O Homem dos crocodilos também se configura como uma tragédia clássica. Antônio da Ponte sofre por algo que desconhece e contra o qual ele luta, mas que guia o seu destino. Aqui, não são os deuses, mas a força do inconsciente e a tendência do aparelho psíquico a repetir.

Bom espetáculo a todos.

 

*Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre e Doutora em Psicologia da Arte pelo Instituto de Psicologia da USP (IP-USP), editora da Revista Brasileira de Psicanálise.

 

Drogas, solidão e confusões

A dependência química é uma das mais graves formas de adoecimento mental e seus efeitos, geralmente, se alastram para muito além do indivíduo que consome a droga. Trata-se de uma questão de saúde pública, que repercute nas diferentes esferas sociais. Recentemente, o jornalista britânico Johann Hari publicou um segundo trabalho acerca do tema, sugerindo novas hipóteses sobre o vício que, se corretas, transformariam toda a estratégia dos profissionais envolvidos no combate às drogas. O artigo abaixo, da psiquiatra e psicanalista Adriana Rotelli Resende Rapeli, faz uma breve análise sobre o estudo e as suposições de Hari. Para quem se interessa pelo tema, vale a leitura!

Drogas, solidão e confusões.  

Por Adriana Rotelli Resende Rapeli*

Um amigo pediu minha opinião sobre o livro “Chasing the Scream”, do jornalista britânico Johann Hari, tal como vinculado pelas redes sociais há algumas semanas. Veja matéria aqui.

Pelo que li na internet, o jornalista entende que há razões sociais e políticas para que as drogas tenham sido proibidas nos EUA, há aproximadamente 100 anos. Os argumentos do artigo se baseiam em entrevistas que ele fez ao redor do mundo com pessoas que foram ou eram dependentes químicos e em resultados de experiências com ratos de laboratório, que mostravam que estes consumiam menos a água que continha substâncias químicas se houvesse mais ratos e opções de atividades em suas gaiolas. Completa citando a diminuição do consumo de heroína quando os soldados que lutaram no Vietnã voltavam para casa. Conclui que a dependência química seria causada pela solidão, pelo estresse e pela falta de opções sociais. E que a guerra às drogas, portanto, estaria usando estratégias equivocadas.

Eu me dispus a refletir sobre o assunto, sabendo que corro o risco de, do mesmo modo que a informação descontextualizada da internet e com objetivos de propaganda, causar efeitos reducionistas e simplificadores.

Na geração atual ou em antecedentes, raro é que alguma família em nosso meio não sofra com problemas mentais, entre eles a dependência química. O discurso de culpa está presente em muitas das famílias de dependentes químicos que atendi. Culpa que sobrepõe à rejeição, mágoas e ressentimentos que o dependente químico provocou ao longo de décadas. As frustrações repetidas tanto em relações familiares quanto na sociedade provocam o pior de nós mesmos, e as reações muitas vezes são de vingança, raiva e crueldade. Há um impasse: ou não conseguimos cuidar e daí somos mal cuidadores, ou a pessoa é má e merece o mau tratamento. Oscilamos entre a culpa e a raiva e desenvolvemos defesas emocionais diante de sofrimento, como a negação.

A situação não é simples. Não dá para equiparar humanos a ratos de laboratório. Embora essas experiências ampliem o entendimento dos mecanismos de ação de drogas, não dá para equiparar humanos a ratos, não somos só pavlovianos. Há que se considerar questões de personalidade e questões psiquiátricas que, juntas, desencadeiam, se somam ou pioram o quadro. Há fóbicos e deprimidos que desenvolvem dependência do álcool. Assim como indivíduos com transtornos de personalidade antissocial podem desenvolver múltiplas dependências. São tantas as variáveis que não se pode restringir a questões sociais mesmo que elas sejam sim importantes fatores que agravam tais condições. A solidão pode ser causa, mas também consequência da dependência química.

Do ponto de vista mais psicodinâmico, mesmo na dependência do cigarro vemos uma condição emocional de regressão, baixa tolerância a frustração, dependência e passividade (ainda que travestidas de hiperatividade). Débil vitalidade, histórias pessoais com retalhos de vivências de perda parcamente elaboradas e um escasso sentido de individualidade estão entre as configurações emocionais que comumente encontramos nos dependentes químicos.

Os casos mais benignos respondem positivamente – como na experiência do ratinho da gaiola –, quando expostos a uma maior diversidade de opções e atividades. Ou como os soldados que voltam da guerra e saem do medo e privações para uma estrutura social mais segura e confiável.

Mas a maioria das pessoas continua em sua guerra implacável, em que não há vencedores. E se restringem a comportamentos de adição de drogas que se tornam irracionais e limitadores, como o rato da gaiola vazia. Seu mundo assim se torna, vazio, nada existe, mesmo que a família, amigos e profissionais de saúde ainda estejam por perto.

Somos seres despreparados para a vida emocional, quando esta requer recursos ainda não desenvolvidos. Usamos drogas. E somos também seres despreparados para cuidar dos que estão sofrendo e adoecendo. Teremos que continuar buscando o grito (chasing the scream), ouvi-lo entendê-lo, traduzi-lo e talvez continuar colhendo mais perguntas do que respostas.

*Adriana Rotelli Resende Rapeli é psiquiatra, psicanalista pela SBPSP e SBPRJ.