INVESTIGAÇÕES CIENTÍFICAS E QUESTIONAMENTOS À “PSIQUIATRIA BIOLÓGICA”: A PSICANÁLISE TEM A VER COM ISTO?

Há um constante diálogo e uma eventual tensão quando consideramos a relação entre Psicanálise e Psiquiatria. Muito se discute até que ponto há um prevalecimento dos fatores neurobiológicos na determinação dos distúrbios mentais e, nessa medida, quais seriam os limites da prática psicanalítica em oposição ao uso dos medicamentos, no tratamento desses distúrbios. Sobre o tema, vale conferir a atual reflexão do psicanalista Paulo Duarte Guimarães Filho, que discute mudanças significativas na predominância até então pouco questionada dos aspectos biológicos de tais distúrbios.

Investigações científicas e questionamentos à Psiquiatria Biológica: a psicanálise tem a ver com isso?

Por Paulo Duarte Guimarães Filho*

As relações entre a psicanálise e a psiquiatria são bastante amplas. Talvez uma das mais importantes dessas relações não se dê de um modo direto. O desenvolvimento da neurociência nas últimas décadas teve consequências significativas na psiquiatria, levando mesmo à criação do termo “Psiquiatria Biológica”. Como o nome diz, foi havendo o prevalecimento de noções de que fatores neurobiológicos seriam os principais determinantes dos distúrbios mentais. Destacava-se aí, o papel que o crescimento dos conhecimentos da genética teria na elucidação dos quadros psiquiátricos e o das descobertas farmacológicas no seu tratamento. Muito compreensivelmente, o surgimento e a força ganha por esses pontos de vista atingiram seriamente a psicanálise como corpo de conhecimento e prática profissional. Essa situação, relacionada com o fato da psiquiatria usar recursos prestigiados das ciências naturais, levou em algumas áreas à noção de que a psiquiatria é que seria efetivamente científica, capaz de conhecimentos consistentes e de resultados efetivos na sua pratica terapêutica.

No entanto, em decorrência da própria continuação das investigações científicas na psiquiatria, tem havido mudanças marcantes no quadro acima e que tendem a ser pouco conhecidas na área psicanalítica. Tais mudanças, em grande parte se referem ao exagero do papel atribuído aos fatores neurobiológicos nos distúrbios mentais, o que também favoreceu a posturas desvalorizadoras da psicanálise. Assim, na medida em que esses exageros estão sendo corrigidos, se coloca a indagação sobre a necessidade dessa nova situação ser mais amplamente conhecida e explorada nos meios psicanalíticos. Informações detalhadas sobre essa nova situação estão disponíveis num trabalho, divulgado no Google: ”Psychiatrie biologique: une bulle speculative?”, de François Gonom.

Temos aí dados importantes, através de um amplo levantamento bibliográfico das mudanças que vem ocorrendo, e que têm sido publicadas em algumas das mais respeitadas revistas psiquiátricas e médicas, como, “Science”, “Nature”, “Nature Neuroscience”, “Journal of Nervous and Mental Disease”, “American Journal of Psychiatry” e várias outras. Como esta é uma notícia breve, vamos citar apenas dois dos temas presentes nessas publicações, se referindo a não confirmação de expectativas da psiquiatria biológica. Um deles é em torno do encontro de fatores genéticos, como causadores da maioria dos distúrbios mentais. Isto não tem ocorrido e, ao contrário, o que tem sido mais destacado é a importância da chamada epigenética, isto é, o estudo de como fatores ambientais têm um papel e interagem com os genéticos, para a expressão desses últimos. É bem claro que entre esses fatores ambientais estão os psicológicos, alvo central do estudo da psicanálise, havendo aí, de um modo indireto, uma indicação da validade de suas concepções. Para finalizar, outra questão de grande relevância nas revisões que estão sendo publicadas são os trabalhos evidenciando as limitações das expectativas farmacológicas na área psiquiátrica.

* Paulo Duarte Guimarães Filho* é psicanalista e membro efetivo da SBPSP.

2 comentários

  1. Muito bom. É a Psicanálise voltando a ter a coragem Ética de se posicionar no cenário da Saúde Mental sem perder sua especificidade (isto é, o espaço epistemológico e clínico para a validade do determinismo psíquico e do inconsciente). E sem se submeter ao mecanismo de defesa de “controle onipotente” do modelo biológico (relacionado com a extrapolação/exagero de sua conclusões e que, inevitavelmente, incorre no erro de “mitologia cerebral”): se alguma vez ocorreram extrapolações psicanalíticas em Saúde Mental, o certo é que elas foram menores do que as extrapolações biológicas/organicistas (qualquer pesquisador de boa-fé reconheceria isso). Portanto, nesse debate, o importante é reconhecer as especificidades e os limites de cada abordagem (e não de apenas uma delas). Assim, a Psicanálise não deve aceitar a “condição” de ter que usar uma roupa de um modelo pseudocientífico para ter a aparência de rigor e poder entrar no salão do debate. Ela deve mostrar que a exigência de um rigor – teórico, clínico, técnico e ético – justifica que o determinismo psíquico e o inconsciente (psicanalítico; e não um subconsciente cognitivo) sejam reconhecidos como trajes de gala dignos para adentrar neste salão de debate. Foi no exercício desse tipo de rigor (oposto ao pseudocientificismo) que Freud conseguiu sustentar a validade teórica e clínica da Psicanálise, fazendo com que esta atravessasse o paradigma organicista (e o mecanismo de “controle onipotente” por parte deste paradigma) do século XIX e início do século XX e se tornasse imprescindível na abordagem dos processos psíquicos presentes tanto no âmbito da vida cotidiana quanto na área da Saúde Mental.

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    1. Olá Fernando!

      Eu iria fazer uns comentários,mas, diante de sua exposição, devo me calar e parabenizá-lo.

      meus cumprimentos,

      Prof. Reinaldo Müller

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