Psicanálise da família

O atendimento psicanalítico de família é uma modalidade bastante importante nas situações em que a criança ou o adolescente sintomáticos expressam, na verdade, algo que não pode ser metabolizado pelo grupo familiar. Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família e um aparelho psíquico que serve como sustentáculo para os filhos. Nesse processo, há uma comunicação que vai além daquilo que é conscientemente transmitido, com a possibilidade de que os filhos – em algum momento – manifestem algo que se instalou no grupo e que não pode ser elaborado. Sobre esse tema, vale conferir o artigo da psicanalista Vera Lamanno Adamo, especialista no assunto.

Psicanálise da Família

Por Vera Lamanno Adamo*

Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, mas todo mundo era surdo.

Isto foi o que disse uma jovem paciente, em meio a um surto psicótico, quando lhe perguntaram sobre a sua família.
Que deus é este que esta jovem criou? O que ele tinha para dizer que ninguém conseguia escutar? O que este deus, ela mesma, tentava dizer que ninguém conseguia ouvir? Estava ela reclamando a presença de um Outro para escutar e dar sentido ao que, ela mesma, mal conseguia ouvir a respeito de si?

A família transmite ao recém-nascido sua maneira de apreender o mundo externo e de organizar o seu espaço interno. Os pais transmitem consciente e inconscientemente a possibilidade de transformar experiências sensoriais e emocionais, em elementos para experimentar o mundo e representa-lo no espaço interior. O funcionamento psíquico dos pais serve de invólucro e de sustentáculo para os filhos, como uma matriz de sentido. Isto é, o funcionamento psíquico dos pais forma uma espécie de aparelho psíquico familiar constituído por um conjunto de recursos psíquicos que oferece à princípio, uma moderação das angustias insuportáveis para evitar uma sobrecarga as quais, posteriormente, podem ser restituídas em elementos utilizados para imaginação, pensamento, sonho.

Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família para enfrentar ou se evadir do sofrimento mental, de suas histórias de amor e ódio, suas perdas, seus lutos, de suas experiências mais ou menos traumáticas.

As funções do aparelho psíquico familiar, primeiramente tecido pelo casal e que, posteriormente, passam a fazer parte de uma aparelhagem psíquica comum e partilhada por todos, fundamentam-se na capacidade do grupo de receber, conter, ligar e transformar as angustias de cada um, permitindo, assim, uma comunicação entre consciente e inconsciente, realidade interna e realidade externa. Este processamento favorece um trabalho de discriminação entre eu e outro, fantasia e realidade, acontecimentos atuais e acontecimentos passados.

Quando a família busca ajuda através de uma criança ou adolescente sintomáticos compreende-se este fenômeno como a manifestação de uma não metabolização do grupo de vivências muito intensas, experiências esparsas, não representadas, impensáveis.

Quanto mais a família apresenta-se (e muitas vezes por meio de gerações) impossibilitada de viver limitações, privações, doença, dor, sofrimento, morte e luto, mais se instalarão defesas grupais radicais, como por exemplo, recusa de diferenciação entre o que é e o que não é característico do humano, da vida, da morte, da temporalidade, do feminino e do masculino.
Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, enfatizou a paciente, mas todo mundo era surdo.

Esta não seria a sua forma de dizer que estavam todos mudos e surdos para aquilo que necessitava ser dito, ouvido, contido e transformado em uma linguagem que contivesse sentido e significado ?

Escutar uma família, tarefa essencial de um trabalho analítico, diz respeito à capacidade do profissional de processar como a família efetua a comunicação entre consciente e inconsciente; entre os conflitos atuais e o funcionamento mais arcaico; como manejam a individualidade de cada um; como a família reconhece suas dificuldades enquanto grupo, se tende a projetar os conflitos em um ou mais de seus membros, ou fora dela, se tende a banalizar, minimizar ou anular suas dificuldades. Uma escuta investida de experiência emocional passível de sentido.

*Vera Lamanno Adamo é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas.

1 comentário

  1. A peça teatral Tribus, encenada no ano passado em Sampa é uma ótima metáfora para a “surdez” das relações familiares, onde o único deficiente auditivo da família se mostra o que mais apreende do que acontece a sua volta e busca escapar da indiferenciação entre seus pares.

    Curtir

Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s