Criatividade e simbolização: constituição psíquica em tempos de aceleração

Uma das principais marcas da atualidade é a aceleração do tempo. Vivemos, como dizem os filósofos, “tempos de aceleração”: tudo é para já para ou para ontem, as noções de alteridade, de respeito e cuidado com o outro, de atenção e paciência se perdem, em detrimento da pressa em conseguir solucionar as questões. A reflexão e a contenção das emoções são suprimidas e toda ação e toda decisão precisam ser cada vez mais agilizadas; a mente precisa funcionar na imediatez, na urgência e na instantaneidade. Como isso tudo se opera no nosso psiquismo e na sua constituição? Como fica a Psicanálise e qual o papel do trabalho analítico nesse contexto?
Tais questões são tema do artigo a seguir, da psicanalista e atual presidente da SBPSP, Nilde Parada Franch.

Criatividade e simbolização: constituição psíquica em tempos de aceleração

Por Nilde Parada Franch*

Tempos de aceleração

Tomando como referencia principal alguns textos da Prof. Olgaria Matos, Livre Docente da UNIFESP, procurarei caracterizar o que chamamos “Tempos de Aceleração”.

A aceleração do tempo está associada à cultura da ilimitaçāo, cuja estrutura é o consumo baseado no curto prazo, no descartável. Liga-se à “cultura do excesso”, como a anorexia, a bulimia, os esportes radicais e os games cada vez mais violentos.

Espaço e tempo não mais são definidos por referências mais familiares: o momento e o lugar mantêm uma espécie de aliança com a descontinuidade, com consequente fragmentação da vida e incertezas quanto à definição do si mesmo.
Instala-se o reino das imagens, das emoções primárias, o culto de ídolos e a violência surge como sinal da impotência em função da falta de auto regulação.
Banalizam-se as invenções, que tem perecimento prematuro e que se sucedem alucinantemente. Dai a sensação de um presente que foge, pois não permanece a ideia de duração e a lógica da continuidade.

A aceleração do tempo está na base de diversas formas de incivilidade, de desagregação dos grupos, pois as noções de alteridade, de respeito e cuidado com o outro, de atenção e paciência foram proscritos pela pressa em conseguir solucionar as questões. É tudo para já, ou para ontem. Respeito e admiração perdem sua dimensão simbólica. Os símbolos se embaralham, se confundem com as coisas em si, tomando seu lugar. Predominam as equações simbólicas , em que o símbolo não representa, ele é o objeto, ele é a coisa em si.

A temporalidade acelerada proscreve o tempo de reflexão, de contenção das emoções, dos impulsos e de soluções não violentas para os conflitos. Toda ação e toda decisão precisam ser cada vez mais agilizadas, e a mente tem que funcionar na imediatez, na urgência e na instantaneidade. Exige-se que o ser humano funcione como um super-homem com capacidades múltiplas e ilimitadas.
Paradoxalmente, cada vez mais se diagnosticam “distúrbios de atenção”. Atenção que pode ter sido implodida pelo excesso e pela urgência impostos pela aceleração do tempo.

A constituição do psíquico
Diante dessa realidade, dos fenômenos conhecidos como “tempos de aceleração”, o que podemos pensar sobre a constituição do psíquico?
Considero que nossa experiência analítica, e como psicanalistas, nos leva a acreditar na importância da contenção, da autocontenção e da regulação dos afetos, e da constituição de um aparelho para pensar, sonhar e elaborar as experiências emocionais.

Isso implica necessariamente consciência da passagem do tempo, da finitude, do reconhecimento do outro como necessário para as trocas vitais, e o trabalho do luto pelo que não se pode ser, ou ter, assim como a ampliação do possível.
Para isso, há que se desenvolver a capacidade de espera, “capacidade negativa”, a tolerância pelo não saber, a paciência, a sofrida busca do conhecimento e do autoconhecimento, que implica o doloroso encontro com as limitações do saber e do saber sobre si próprio.

Considero que o trabalho analítico vai na contramão dos tempos de aceleração. Surgem daí algumas importantes questões: Qual o papel da família, da escola, dos pensadores das ciências humanas na preservação da consciência da finitude, das limitações humanas, e na conquista do prazer pela descoberta? E a Psicanálise? E nós, psicanalistas?

*Nilde Parada Franch é psicanalista e atual presidente da SBPSP.

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