Mês: junho 2015

INVESTIGAÇÕES CIENTÍFICAS E QUESTIONAMENTOS À “PSIQUIATRIA BIOLÓGICA”: A PSICANÁLISE TEM A VER COM ISTO?

Há um constante diálogo e uma eventual tensão quando consideramos a relação entre Psicanálise e Psiquiatria. Muito se discute até que ponto há um prevalecimento dos fatores neurobiológicos na determinação dos distúrbios mentais e, nessa medida, quais seriam os limites da prática psicanalítica em oposição ao uso dos medicamentos, no tratamento desses distúrbios. Sobre o tema, vale conferir a atual reflexão do psicanalista Paulo Duarte Guimarães Filho, que discute mudanças significativas na predominância até então pouco questionada dos aspectos biológicos de tais distúrbios.

Investigações científicas e questionamentos à Psiquiatria Biológica: a psicanálise tem a ver com isso?

Por Paulo Duarte Guimarães Filho*

As relações entre a psicanálise e a psiquiatria são bastante amplas. Talvez uma das mais importantes dessas relações não se dê de um modo direto. O desenvolvimento da neurociência nas últimas décadas teve consequências significativas na psiquiatria, levando mesmo à criação do termo “Psiquiatria Biológica”. Como o nome diz, foi havendo o prevalecimento de noções de que fatores neurobiológicos seriam os principais determinantes dos distúrbios mentais. Destacava-se aí, o papel que o crescimento dos conhecimentos da genética teria na elucidação dos quadros psiquiátricos e o das descobertas farmacológicas no seu tratamento. Muito compreensivelmente, o surgimento e a força ganha por esses pontos de vista atingiram seriamente a psicanálise como corpo de conhecimento e prática profissional. Essa situação, relacionada com o fato da psiquiatria usar recursos prestigiados das ciências naturais, levou em algumas áreas à noção de que a psiquiatria é que seria efetivamente científica, capaz de conhecimentos consistentes e de resultados efetivos na sua pratica terapêutica.

No entanto, em decorrência da própria continuação das investigações científicas na psiquiatria, tem havido mudanças marcantes no quadro acima e que tendem a ser pouco conhecidas na área psicanalítica. Tais mudanças, em grande parte se referem ao exagero do papel atribuído aos fatores neurobiológicos nos distúrbios mentais, o que também favoreceu a posturas desvalorizadoras da psicanálise. Assim, na medida em que esses exageros estão sendo corrigidos, se coloca a indagação sobre a necessidade dessa nova situação ser mais amplamente conhecida e explorada nos meios psicanalíticos. Informações detalhadas sobre essa nova situação estão disponíveis num trabalho, divulgado no Google: ”Psychiatrie biologique: une bulle speculative?”, de François Gonom.

Temos aí dados importantes, através de um amplo levantamento bibliográfico das mudanças que vem ocorrendo, e que têm sido publicadas em algumas das mais respeitadas revistas psiquiátricas e médicas, como, “Science”, “Nature”, “Nature Neuroscience”, “Journal of Nervous and Mental Disease”, “American Journal of Psychiatry” e várias outras. Como esta é uma notícia breve, vamos citar apenas dois dos temas presentes nessas publicações, se referindo a não confirmação de expectativas da psiquiatria biológica. Um deles é em torno do encontro de fatores genéticos, como causadores da maioria dos distúrbios mentais. Isto não tem ocorrido e, ao contrário, o que tem sido mais destacado é a importância da chamada epigenética, isto é, o estudo de como fatores ambientais têm um papel e interagem com os genéticos, para a expressão desses últimos. É bem claro que entre esses fatores ambientais estão os psicológicos, alvo central do estudo da psicanálise, havendo aí, de um modo indireto, uma indicação da validade de suas concepções. Para finalizar, outra questão de grande relevância nas revisões que estão sendo publicadas são os trabalhos evidenciando as limitações das expectativas farmacológicas na área psiquiátrica.

* Paulo Duarte Guimarães Filho* é psicanalista e membro efetivo da SBPSP.

Adolescência

A adolescência é um período de transição da vida infantil para a fase adulta. Trata-se de um momento crítico do desenvolvimento, no qual – além das mudanças físicas definitivas – o indivíduo vai construir novos valores e vivenciar experiências afetivas e sociais que necessitam outros e recém adquiridos recursos psíquicos. A formação de uma identidade adulta e o enfrentamento de conflitos gerados pela perda da infância e o ingresso em uma nova etapa são aspectos centrais dessa fase. Também para os pais o momento é crucial. Reconhecer que os filhos cresceram e estão prontos (ou quase prontos) para seguir adiante não é um processo fácil. Sobre o tema, vale ler o ótimo artigo do psicanalista e membro da SBPSP, David Levisky.

Adolescência

Por David Levisky*

A adolescência é um fenômeno universal, presente desde o surgimento do homem simbólico. Trata-se de um período crítico do desenvolvimento humano por ocasião da passagem da vida infantil para a vida adulta. Ela decorre das transformações hormonais revolucionárias responsáveis pelo crescimento e manifestações da sexualidade adulta com o inicio da puberdade, que gera mudanças primárias e secundárias da sexualidade. As primárias, com o surgimento da menstruação – fruto da capacidade de ovulação e seu ciclo na menina e da ejaculação com a produção de espermatozoides no menino. As secundárias se caracterizam pela distribuição dos pelos, gorduras, seios, pênis, mudanças de voz, peso e estatura.

O fenômeno central da adolescência é a busca da identidade adulta. Nesse processo de transição há uma crise oriunda de conflitos gerados pelas perdas da vida infantil, do corpo infantil e dos pais da infância até a aquisição de novos objetos de amor, de múltiplas experiências afetivas, intelectuais e sociais. Renovação de valores, de ideais de si, da autoestima e de recursos para lidar com as realidades internas e externas e maior tolerância às frustrações fazem parte desse porvir. Vivem ambivalências e contradições e tentam integrá-las em um sentimento de si, para serem capazes de conter indecisões, dúvidas, incertezas que requerem tempo e experiência de vida na busca de maior autonomia.

Eles atravessam fases depressivas, impulsivas, explosivas, passivas, hiperativas, momentos de onipotência, de negação da realidade, de inconsequência e baixo teor de responsabilidade até que uma sucessão de experiências exitosas e negativas contribuem para a construção de recursos psíquicos para desenvolver uma percepção mais clara de suas possibilidades e limites. A configuração de uma boa autoestima é fator fundamental na elaboração e evolução da personalidade e da identidade. Necessitam incorporar em seu eu aspectos masculinos e femininos da personalidade; tarefa complexa que depende de fatores intrínsecos dos jovens e de suas relações com os pais e sociedade durante a vida.

O tempo de duração e término da adolescência dependem de fatores múltiplos e implicam requisitos impostos pela sociedade para considerar um indivíduo como adulto. Nas culturas indígenas, por exemplo, era necessário – uma vez atingida a maturidade reprodutora –, ser capaz de enfrentar os ritos de passagem que definiriam as condições de ser adulto para aquela sociedade e cultura como: saber caçar, pescar, cultivar, cozinhar, lutar, defender sua família e território.

Nas sociedades contemporâneas os ritos de passagem estão diluídos entre os múltiplos recursos a serem desenvolvidos para fazer parte da vida adulta. Não é suficiente alcançar a capacidade reprodutora e ter uma profissão. É necessário aprender a dirigir carro ou moto, passar no vestibular, aprender línguas, fazer mestrado e, se possível doutorado e pós-doc. Tudo isso faz com que o período de transição se alargue, podendo chegar tardiamente. Alguns atingirão a plena maturidade somente após os 35 anos, constituindo o que alguns autores chamam de “geração canguru”. São jovens que não querem e não precisam abandonar a casa dos pais para terem uma vida afetiva, social, profissional autônomas. Vivem uma independência relativa às suas conveniências. Conservam os privilégios da vida adolescente e querem usufruir das vantagens da vida adulta. O alargamento do tempo de vida dos pais tende a criar condições facilitadoras para a permanência dos filhos em casa. Pais e filhos podem formar um conluio inconsciente que protela a entrada dos filhos na plenitude da vida adulta.

Pode-se afirmar que o término da adolescência é variável e dependente de fatores psicológicos, sociais, econômicos, culturais, religiosos, políticos e históricos de cada sociedade dentro de sua cultura.

A adolescência é um período de transição sempre turbulento – crise da adolescência – tanto para os jovens quanto para as famílias. A turbulência dos jovens advém não só das transformações orgânicas, mas, também, dos processos de mudanças psicológicos, sociais, econômicos, políticos, religiosos e históricos que interferem na constituição do aparelho psíquico, da vida afetiva e social.

Ao se desvencilharem do corpo infantil, dos pais da infância e do seu próprio modo de funcionamento enquanto crianças necessitam assimilar novas experiências afetivas com a descoberta de novos objetos de gratificação amorosa e sexual, definição da identidade sexual, capacidades intelectuais e da vida em geral. Processos que os capacitam a lidar com recursos criativos para lidar com incertezas, dúvidas, frustrações e decisões ao enfrentarem novos desafios.

Durante essa fase de transição, há um enfraquecimento do ego, isto é, das funções que administram as relação do jovem com ele mesmo e com a vida exterior. Neste período o jovem se torna vulnerável à emergência de quadros comportamentais que lembram desvios (patologias), visto que ficam impulsivos, prepotentes, tendem a negar a realidade, não medem adequadamente as consequências de seus atos e são, por natureza, instáveis, insaciáveis e pouco responsáveis. A intensidade desses fenômenos se agrava quanto mais complexo e sofrido tiverem sido os primeiros anos de vida.

Com o enfraquecimento do ego – das capacidades de administrar os vários elementos psíquicos que o compõe – há uma tendência a que tais conflitos do passado interfiram na organização dos sentimentos, na forma de ser, sentir, pensar e agir. A adolescência é considerada como um segundo nascimento – uma oportunidade para reconfigurar e reordenar valores, formas de lidar com as angústias, projetos e recursos para alcançar formas de realização. A primeira oportunidade para o desenvolvimento adequado da atividade psíquica começa no início da vida e até antes mesmo da criança nascer, no imaginário dos pais.

Na adolescência, o jovem tem condições para adquirir novos valores e desenvolver a capacidade de ser continente de seus afetos, sonhos, desejos, fantasias, frustrações e realizações. São também capazes de reparar, refazer erros cometidos e escolhas inadequadas de caminhos. Para isso é fundamental que sua autoestima seja preservada e revitalizada. Sua inserção social é significativamente diferente quando eles se sentem úteis, valorizados e participativos da vida social.

Há aspectos na adolescência que se modificam tão rapidamente como a moda e o linguajar. Outros, se modificam lentamente como valores, ideais, filosofias de vida, modos de lidar com o sofrimento psíquico e formas de se defender ou de enfrentar situações. Há, ainda, mudanças tão lentas que parecem imutáveis, mas que se transformam no longuíssimo tempo como a elaboração do Édipo. A metabolização das relações triangulares entre filhos, (mãe) funções maternas e (pai) funções paternas tendem a ser muito lentas.

As famílias também passam por um grau de transtorno diante das necessidades de se desvencilharem do filho da infância até que possam reconhecer o desenvolvimento do filho(a) e incorporar que ele(a) não necessita mais dos cuidados dos pais da infância.

A delinquência na adolescência é reflexo de falhas precoces nas relações afetivas do início da vida e que emergem nos comportamentos inconscientes durante a crise da adolescência.

Uma sociedade na qual a desfaçatez e a corrupção são normas de convivência, elas servem de modelo de identificação para jovens em plena reestruturação de sua personalidade. A delinquência pode ser um grito de alerta para aqueles que a escutam como “eu existo, eu quero ser considerado, alguém me tirou esse direito e condição”. Nestes jovens a ferida da autoestima vem de longa data e se transforma em um modo de ser no mundo. Surge uma dose de esperança quando medidas psicosocioeducativas são tomadas com vistas à reinserção psicossocial.

Quando se vive num país carente de pai e mãe simbólicos, onde os elementos internos e externos reguladores da vida social são fracos ou ausentes, autoriza-se as várias formas de violência.

A democracia interna e social dependem da eterna vigilância. Entenda-se, da eterna consciência necessária e desejável para se alcançar o equilíbrio entre os elementos construtivos e destrutivos que estão sempre presentes em todos nós. É na adolescência que se pode ter vivências que facilitam o aprender com as experiências no intuito de simbolizar, sublimar e de modular os impulsos para a inserção no convívio psicossocial.

Onde há um adolescente é necessário que haja um adulto (pai, mãe, professor, tio, padrinho, amigo) mais experiente que o confronte no sentido de refletir e ponderar sobre seus atos impulsivos. É da existência do conflito que o jovem desenvolverá pontos internos de referência para analisar e modular suas ações e valores. O adolescente contribui para o desenvolvimento dos pais e da sociedade adulta por ser a parte mais ativa e renovadora da sociedade. Crescemos com as confrontações dos jovens que nos fazem ver e pensar diferentemente do que estamos acostumados ao introduzirem novas formas de ser, sentir, pensar e agir. Simetrias e assimetrias nas relações, limites entre público e privado, noções de liberdade versus responsabilidades estão presentes e colocam os jovens em confronto consigo mesmos, com seus pais e a sociedade da qual fazem parte. São energias que mobilizam e dão sentido ao viver criativo.

* David Levisky é psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e tem especialização nas áreas da Infância e da Adolescência. É PhD em História Social (USP).

Psicanálise da família

O atendimento psicanalítico de família é uma modalidade bastante importante nas situações em que a criança ou o adolescente sintomáticos expressam, na verdade, algo que não pode ser metabolizado pelo grupo familiar. Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família e um aparelho psíquico que serve como sustentáculo para os filhos. Nesse processo, há uma comunicação que vai além daquilo que é conscientemente transmitido, com a possibilidade de que os filhos – em algum momento – manifestem algo que se instalou no grupo e que não pode ser elaborado. Sobre esse tema, vale conferir o artigo da psicanalista Vera Lamanno Adamo, especialista no assunto.

Psicanálise da Família

Por Vera Lamanno Adamo*

Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, mas todo mundo era surdo.

Isto foi o que disse uma jovem paciente, em meio a um surto psicótico, quando lhe perguntaram sobre a sua família.
Que deus é este que esta jovem criou? O que ele tinha para dizer que ninguém conseguia escutar? O que este deus, ela mesma, tentava dizer que ninguém conseguia ouvir? Estava ela reclamando a presença de um Outro para escutar e dar sentido ao que, ela mesma, mal conseguia ouvir a respeito de si?

A família transmite ao recém-nascido sua maneira de apreender o mundo externo e de organizar o seu espaço interno. Os pais transmitem consciente e inconscientemente a possibilidade de transformar experiências sensoriais e emocionais, em elementos para experimentar o mundo e representa-lo no espaço interior. O funcionamento psíquico dos pais serve de invólucro e de sustentáculo para os filhos, como uma matriz de sentido. Isto é, o funcionamento psíquico dos pais forma uma espécie de aparelho psíquico familiar constituído por um conjunto de recursos psíquicos que oferece à princípio, uma moderação das angustias insuportáveis para evitar uma sobrecarga as quais, posteriormente, podem ser restituídas em elementos utilizados para imaginação, pensamento, sonho.

Há todo um sistema inconsciente de operações exercido pela família para enfrentar ou se evadir do sofrimento mental, de suas histórias de amor e ódio, suas perdas, seus lutos, de suas experiências mais ou menos traumáticas.

As funções do aparelho psíquico familiar, primeiramente tecido pelo casal e que, posteriormente, passam a fazer parte de uma aparelhagem psíquica comum e partilhada por todos, fundamentam-se na capacidade do grupo de receber, conter, ligar e transformar as angustias de cada um, permitindo, assim, uma comunicação entre consciente e inconsciente, realidade interna e realidade externa. Este processamento favorece um trabalho de discriminação entre eu e outro, fantasia e realidade, acontecimentos atuais e acontecimentos passados.

Quando a família busca ajuda através de uma criança ou adolescente sintomáticos compreende-se este fenômeno como a manifestação de uma não metabolização do grupo de vivências muito intensas, experiências esparsas, não representadas, impensáveis.

Quanto mais a família apresenta-se (e muitas vezes por meio de gerações) impossibilitada de viver limitações, privações, doença, dor, sofrimento, morte e luto, mais se instalarão defesas grupais radicais, como por exemplo, recusa de diferenciação entre o que é e o que não é característico do humano, da vida, da morte, da temporalidade, do feminino e do masculino.
Todas as vezes que eles viajavam de perua Deus ia junto. Ele tentava falar, enfatizou a paciente, mas todo mundo era surdo.

Esta não seria a sua forma de dizer que estavam todos mudos e surdos para aquilo que necessitava ser dito, ouvido, contido e transformado em uma linguagem que contivesse sentido e significado ?

Escutar uma família, tarefa essencial de um trabalho analítico, diz respeito à capacidade do profissional de processar como a família efetua a comunicação entre consciente e inconsciente; entre os conflitos atuais e o funcionamento mais arcaico; como manejam a individualidade de cada um; como a família reconhece suas dificuldades enquanto grupo, se tende a projetar os conflitos em um ou mais de seus membros, ou fora dela, se tende a banalizar, minimizar ou anular suas dificuldades. Uma escuta investida de experiência emocional passível de sentido.

*Vera Lamanno Adamo é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas.

A “Divina Comédia” é aqui!

Falar sobre os nossos problemas sociais, políticos e econômicos – sob o viés da Psicanálise – não é tarefa simples. O psicanalista Carlos Vieira, disposto a refletir sobre o tema, tomou como ponto de partida a obra “A Divina Comédia”, do poeta Dante Alighieri, para construir alguns caminhos de compreensão do momento histórico atual. Vale a leitura!

A “Divina Comédia” é aqui!

Por Carlos Vieira*

Dante Alighieri escreveu seu poema há mais de setecentos anos. Atual, incisivo, pertinente, dramático, apaixonado, seu escrito é tido como uma obra religiosa, ética e política. Hoje, quero mostrar aos leitores alguns aspectos atuais e procedentes, a partir de questões políticas e éticas contidas no livro do Inferno, da Divina Comédia.

No esquema contido em seu canto, Dante classifica alguns pecados e tipos de pecadores. No pecado da Incontinência estão os luxuriosos, gulosos, avaros e pródigos; nos da Violência e Bestialidade encontramos os tiranos, assaltantes, usuários; nas Fraudes Simples classifica os traficantes, hipócritas, ladrões, maus conselheiros e falsários e, por último, o pecado da Traição, aqueles contra os parentes, a pátria, os hóspedes e benfeitores. Esses são os tipos de pecados e de personalidades que o Poeta visita no Inferno.

Na introdução à Divina Comédia (Editora 34-2009), o tradutor Eugenio Mauro frisa: “A meio caminho, ou seja, da duração expectável de sua vida, Dante, consciente de se haver desviado do reto procedimento, encontra-se perdido numa alegórica “Selva Escura”. Encontra aí a figura de Virgílio, o poeta latino que, a pedido da alma beata Beatriz, o grande amor da juventude de Dante, vem se lhe oferecer como guia para o Inferno e o Purgatório onde, pelo exemplo dos pecadores e de suas penas, Dante poderá encontrar o caminho da salvação.”

Pois bem, essa descrição dos tipos dantescos do Inferno não lembra ao leitor algum pais da América do Sul? A divina comédia é aqui mesmo. Com uma diferença: o intuito de Dante era procurar a Salvação! O dos nossos governantes, os nossos representantes do povo, os capitalistas selvagens da exploração do trabalho, os aristocratas e senhores de engenho não apontam para a Salvação, ou melhor, reparação dos seus erros. Estão a cada dia movidos por um canibalismo frenético que abocanha os nossos impostos para benefício próprio. Nunca nesse país se noticiou atos de corrupção, alguns comprovados, outros em processos de comprovação! E o nosso dinheiro suado, recolhido pelo fisco e supostamente destinado à saúde, moradia, cultura e educação? Na saúde, olhem para o caos da capital da República; na educação, o desprezo pelas universidades e o incremento de centros universitários da iniciativa privada, cobrando horrores para formar nossos jovens, diga-se de passagem, formação deficitária; na política habitacional alguma coisa está sendo feita, ainda longe do elementar e na cultura? Quem quer cultura nessa terra? Cultura é sinônimo de possibilidades de pensar, de refletir, de escolher seus governantes, de criar conflitos em direção ao crescimento.

Continuamos sendo manipulados, agora, não pelo Tio Sam mas por aqueles brasileiros que “amam” o Brasil(?). Será que os pecadores do Inferno Brasileiro do nosso Dante alberga o que Freud chamava de “oralidade sádica”, ou seja, pessoas movidas por uma voracidade constitucional, prima da inveja primária, que juntas praticam sem interrupção um vampirismo social? Aliás, em tempo, nunca se publicou tanto quanto hoje a literatura sobre vampiros. Vampiros falam de pessoas carentes, frustradas, mal-amadas, abandonadas que, para preencherem seu vazio, sugam o sangue fresco das suas vítimas, na doce ilusão de que ficarão plenos. O dito popular diz: taça de carente nunca transborda. Então caro leitor, enquanto os poderosos não fizerem um ato de reparação de suas culpas, estaremos e continuaremos sendo ovelhas de pastores do Mal. Parceria criativa dos grupos dominantes, capacidade de renunciar às fantasias de plenitude material, respeito, amor ao próximo, consideração, distribuição de renda, são palavras e termos que não habitam nesse país, no século 21.

O animal-humano a cada dia se torna mais animal do que humano. Aristóteles um dia escreveu: “É em primeiro lugar no ser vivo que é possível observar a autoridade do senhor e a do chefe político; com efeito, a alma governa o corpo com uma autoridade de senhor, e o intelecto regula o desejo (voracidade e inveja), o grifo é meu, com uma autoridade de chefe político e de rei.” (A Política).

No último canto, o Canto XXXIV, saindo do Inferno, Dante declama: “Tomamos esse caminho escondido/ ele e eu, para voltar ao claro mundo/ e, sem repouso algum consentido, /subimos, ele primo e eu segundo, /até surgir-nos essas coisas belas, /que o Céu conduz, por um vazio rotundo; saímos por ali, a rever as estrelas.”

*Carlos Vieira é psicanalista, membro da SBPSP e escreve semanalmente em sua coluna “Psicanálise da Vida Cotidiana”, no portal do O Globo.

Criatividade e simbolização: constituição psíquica em tempos de aceleração

Uma das principais marcas da atualidade é a aceleração do tempo. Vivemos, como dizem os filósofos, “tempos de aceleração”: tudo é para já para ou para ontem, as noções de alteridade, de respeito e cuidado com o outro, de atenção e paciência se perdem, em detrimento da pressa em conseguir solucionar as questões. A reflexão e a contenção das emoções são suprimidas e toda ação e toda decisão precisam ser cada vez mais agilizadas; a mente precisa funcionar na imediatez, na urgência e na instantaneidade. Como isso tudo se opera no nosso psiquismo e na sua constituição? Como fica a Psicanálise e qual o papel do trabalho analítico nesse contexto?
Tais questões são tema do artigo a seguir, da psicanalista e atual presidente da SBPSP, Nilde Parada Franch.

Criatividade e simbolização: constituição psíquica em tempos de aceleração

Por Nilde Parada Franch*

Tempos de aceleração

Tomando como referencia principal alguns textos da Prof. Olgaria Matos, Livre Docente da UNIFESP, procurarei caracterizar o que chamamos “Tempos de Aceleração”.

A aceleração do tempo está associada à cultura da ilimitaçāo, cuja estrutura é o consumo baseado no curto prazo, no descartável. Liga-se à “cultura do excesso”, como a anorexia, a bulimia, os esportes radicais e os games cada vez mais violentos.

Espaço e tempo não mais são definidos por referências mais familiares: o momento e o lugar mantêm uma espécie de aliança com a descontinuidade, com consequente fragmentação da vida e incertezas quanto à definição do si mesmo.
Instala-se o reino das imagens, das emoções primárias, o culto de ídolos e a violência surge como sinal da impotência em função da falta de auto regulação.
Banalizam-se as invenções, que tem perecimento prematuro e que se sucedem alucinantemente. Dai a sensação de um presente que foge, pois não permanece a ideia de duração e a lógica da continuidade.

A aceleração do tempo está na base de diversas formas de incivilidade, de desagregação dos grupos, pois as noções de alteridade, de respeito e cuidado com o outro, de atenção e paciência foram proscritos pela pressa em conseguir solucionar as questões. É tudo para já, ou para ontem. Respeito e admiração perdem sua dimensão simbólica. Os símbolos se embaralham, se confundem com as coisas em si, tomando seu lugar. Predominam as equações simbólicas , em que o símbolo não representa, ele é o objeto, ele é a coisa em si.

A temporalidade acelerada proscreve o tempo de reflexão, de contenção das emoções, dos impulsos e de soluções não violentas para os conflitos. Toda ação e toda decisão precisam ser cada vez mais agilizadas, e a mente tem que funcionar na imediatez, na urgência e na instantaneidade. Exige-se que o ser humano funcione como um super-homem com capacidades múltiplas e ilimitadas.
Paradoxalmente, cada vez mais se diagnosticam “distúrbios de atenção”. Atenção que pode ter sido implodida pelo excesso e pela urgência impostos pela aceleração do tempo.

A constituição do psíquico
Diante dessa realidade, dos fenômenos conhecidos como “tempos de aceleração”, o que podemos pensar sobre a constituição do psíquico?
Considero que nossa experiência analítica, e como psicanalistas, nos leva a acreditar na importância da contenção, da autocontenção e da regulação dos afetos, e da constituição de um aparelho para pensar, sonhar e elaborar as experiências emocionais.

Isso implica necessariamente consciência da passagem do tempo, da finitude, do reconhecimento do outro como necessário para as trocas vitais, e o trabalho do luto pelo que não se pode ser, ou ter, assim como a ampliação do possível.
Para isso, há que se desenvolver a capacidade de espera, “capacidade negativa”, a tolerância pelo não saber, a paciência, a sofrida busca do conhecimento e do autoconhecimento, que implica o doloroso encontro com as limitações do saber e do saber sobre si próprio.

Considero que o trabalho analítico vai na contramão dos tempos de aceleração. Surgem daí algumas importantes questões: Qual o papel da família, da escola, dos pensadores das ciências humanas na preservação da consciência da finitude, das limitações humanas, e na conquista do prazer pela descoberta? E a Psicanálise? E nós, psicanalistas?

*Nilde Parada Franch é psicanalista e atual presidente da SBPSP.