A travessia do deserto do luto

A perda de um filho pequeno constitui, provavelmente, uma das experiências mais traumáticas para alguém. Quando a criança vive apenas poucos dias após o nascimento, o sentimento de plenitude e felicidade são violentamente esmagados pela dor da perda, pela ausência de sentido, pela incompreensão e, claro, pela necessidade de viver o luto. Sobre o tema, vale conferir a entrevista abaixo, que a jornalista Camila Goytacaz – que perdeu um filho com 11 dias de vida – concedeu ao Jornal Zero Hora. O texto foi originariamente publicado no portal do veículo, em 23/05/2015.

Você teve uma experiência de morte muito próxima do nascimento, quando o seu corpo ainda tinha sinais claríssimos do período pós-parto. Como foi assimilar tudo isso?

O mais dolorido é isso: a gravidez é muito pública. Todo mundo sabe que você está grávida. No final da gestação ou logo depois que saiu da barriga, tem essa coisa evidente de “sumiu a barriga, então cadê o bebê?”. Essas perguntas vêm com muita frequência, de estranhos e de conhecidos. Você não se encontra: não sou mais aquela que eu era antes, não sou mais aquela grávida rechonchuda, quem sou eu? Para a mulher no puerpério (período pós-parto), somado ao momento da perda, do luto, é muito duro. Ela tem tudo que a puérpera tem, o leite, a nova forma do corpo, mas não tem o bebê. É uma incerteza, um grande vazio, um buraco. E você tem que viver a vida, sair na rua e falar: “O bebê morreu”.

Você se viu confrontada com essa situação muitas vezes?

Muitas. Eu ficava pensando: “Tomara que não seja eu que tenha que dar a notícia para essa pessoa. Tomara que alguém já tenha contado”. Esperava que elas já soubessem por alguém, me poupassem da pergunta. Esses primeiros dias, que para a mãe com bebê são tão gostosos, para a mãe que perdeu são muito doloridos. Acho que todos os lutos são muito solitários, mas o nosso é mais particular ainda. Nascimento e morte são muito próximos. É o impensável.

As pessoas, em geral, não sabem, não querem ou não conseguem falar sobre a morte e o luto. Você tinha vontade de falar sobre o José?

São dois extremos. Tem a turma que não fala, que não reconhece que aquilo aconteceu, “vamos continuar conversando normalmente e fingir que a gente não sabe”. Isso machuca demais. Você está vivendo em um buraco tão grande, é uma dor tão profunda, como é que elas podem continuar falando sobre amenidades? Eu buscava meu filho na escolinha e ninguém falava comigo, as mães se dissipavam. A diretora falou: “Pode ficar tranquila que a gente vai fingir que nada aconteceu”. E tem o outro extremo, o das pessoas que querem falar, não sabem o que dizer e falam coisas que também machucam: “Foi melhor assim”, “Imagina você ter um filho com problemas”, “Você pode ter outro filho.” Não é um sapato, é uma criança, é muito profundo para a gente simplificar. “Imagina se vivesse muito, aí você se apega e morre com dois, três anos.” Isso não ajuda. O que ajuda de verdade é o que vem do coração, um abraço.

Você usa uma expressão interessante, a “travessia do deserto do luto”.

Eu pensava: “Só aconteceu comigo? Não é possível. Será que sou a única? Não pode ser”. Eu estava num grupo virtual de 800 mães, não era possível que só o meu bebê tivesse morrido. Aí veio o lado jornalista, de querer apurar, comecei a ir atrás dessas pessoas, trocar experiências, e-mails, falar por telefone. Eram pessoas que eu não conhecia, mas se dispuseram a essa troca. E depois eu comecei a oferecer isso para outras. A travessia é muito solitária, um processo só meu, ninguém vai entender, por mais que queira. Mas outra mãe que viveu a mesma coisa me faz sentir menos sozinha. Aí comecei a sentir vontade de publicar. Eu sabia que tinha que atravessar aquele deserto só meu. As pessoas diziam que eu tinha que tomar um remedinho, somos a sociedade do remedinho. Eu queria sentir tudo mesmo, queria fazer a travessia, chegar um ano depois e dizer: vivi o processo, está resolvido, está acomodado.

Seu primogênito, Pedro, com dois anos e meio, esperava ansioso pelo irmão. Aguardava-o na janela, achando que o bebê tocaria a campainha. Como foi explicar para ele tudo que aconteceu?

Ele conseguia fazer as perguntas de uma criança de dois anos e meio. Um ano depois, a pergunta estava mais incrementada. Agora ele tem seis e meio e faz perguntas elaboradas. Aquela história de que o José mora numa nuvem satisfazia quando ele tinha três anos. Agora ele quer saber: “Onde é essa nuvem? Quem está lá com ele? O que eles fazem? Por que ele morreu e eu não?” Quando a Joana nasceu, ele a ensinava a respirar, achava que a qualquer momento ela poderia morrer também. A criança mistura a realidade e a fantasia. O Pedro achava que o José ia voltar. Teve um Natal em que ele disse que não queria presente, queria que trouxessem o irmão de volta. Eu tentava ser o mais franca possível, nem sempre conseguia. Ele se compadecia muito. Por outro lado, era ele que me salvava também. Ele me chamava para brincar. “Tá bom, mamãe. Depois você chora, agora vamos brincar.”

A gestação da Joana veio três meses depois da morte de José. Qual foi o sentimento?

Foi um susto. Fiz um esforço e pensei: cada filho é um filho, essa história é da Joana. O que eu vou viver nessa gravidez é dela. Fui até o final sentindo isso. Tinha medo? Morria de medo. Na véspera do dia em que ela nasceu, chorei um pouco pelo José, me abalei. Tem altos e baixos. As pessoas têm uma ilusão de que o processo do luto é linear. Lembro de uma vez que achei que estava ótima e encontrei uma pessoa que fazia ioga para gestantes comigo. Ela estava com o bebê, que seria da idade do meu, e falou: “Nossa, você já está deixando o seu em casa, tão pequenininho?” Aquilo pegou tão fundo que falei: “É, estou deixando”. Não tive coragem, sustentei a mentira. Fui para baixo de novo, depois voltei a subir. Mas no dia do parto dela me lembro que não tinha espaço para o José, era o momento dela, de me conectar com ela. Hoje me sinto mais forte, sinto que sou uma mãe para a Joana muito mais corajosa do que fui para o Pedro, porque entre os dois passei por essa perda.

Quem perde um filho tem menos medo da vida?

Não, tem menos medo da morte. Da vida não. A mãe que passa por isso já conhece um pouco a morte, já fez um contato com ela, então desmistifica um pouco. Claro que num primeiro momento não. Tinha muito medo de que acontecesse alguma coisa com o Pedro, estava traumatizada. Uma pequena queda em casa e eu já fiquei devastada, mas racionalmente fui criando uma casca. A mãe que passa por isso encara com mais naturalidade os percalços da vida porque a gente sabe que vai dar conta. E também se abala menos com problemas que não são problemas.

Redimensiona as coisas.

Ave, Maria! Eu via as minhas amigas sofrendo: “Ai, o meu bebê só quer colo”. Eu falava: “Você deveria dar graças a Deus porque o seu bebê está aí e só quer colo. O problema é o bebê que está lá na UTI e a mãe nunca pode pegar no colo”. Comecei a valorizar pequenos momentos, pequenas coisas tão preciosas. É muito louco o que vou te falar agora, mas me sinto mais feliz hoje, mais completa, por ter perdido o José. Não é que eu esteja feliz por ter perdido um filho, jamais. Mas por ter perdido um filho hoje eu vivo de uma maneira mais aqui e agora, mais presente, mais grata ao que ficou, ao que eu tenho.

Depois do período de um ano de luto, a sua felicidade tinha alguma parcela de culpa?

A gente lida mal com os processos de perda. Se você fica muito tempo sofrendo, o povo olha e diz: “Nossa, você ainda está nessa? Faz seis meses, pelo amor de Deus, sai dessa, toma um antidepressivo”. Se é rápido, se você está se divertindo: “Nossa, mas você já saiu do luto?”. Não tem um tempo certo. Eu me sentia culpada, sentia vergonha de estar me divertindo com meu filho, de estar namorando com o meu marido. É ser feliz e ser triste ao mesmo tempo, são processos que coexistem.

Como o José está presente na vida da família?

Nas brincadeiras, nas fantasias, nas histórias do cotidiano. Faz parte da história deles (Pedro e Joana). Eles usam um chapeuzinho de praia de pano que seria do José. Os dois falam: “Hoje sou eu que vou usar o chapéu do José!” É um objeto de uma criança que nunca existiu na vida deles, mas para eles é uma entidade presente. Às vezes surge um amiguinho com o mesmo nome: “Mamãe, ele se chama José, igual ao meu irmão que foi para o céu”. Acho que isso é o mais legal: encontrar um jeito de essa história ficar na família toda a vida.

Quem era a mãe lá do começo e quem é a mãe de hoje?

Eu me via naquela perfeição, “tudo vai dar certo, tudo está redondinho, mamãe, papai e filhinho”. Quando perdi o José, me caiu essa ficha de que não existe esse cenário idealizado, existe a vida de verdade, que tem tragédias, acidentes, mortes, perdas, e a gente é feliz com isso e apesar disso. O José ter morrido foi só um dos possíveis desfechos na minha vida. Estar vivo é isso, é lidar com essa fragilidade. A mãe de agora é essa mãe mais real. Me permito ser mais imperfeita. Planejar é só uma intenção, uma expectativa, não é nenhuma garantia de que vai acontecer. A qualquer momento tudo pode mudar.

11 comentários

  1. Achei emocionante e esclarecedora a entrevista, e vai servir muito com certeza para as mulheres que estão passando ou ainda vão passar por esse momento tão doloroso e inevitável da vida. É preciso muita coragem e amor de verdade para superar tudo isso !!!

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  2. Nossa… Este texto parece que foi escrito por mim e para mim… Estou passando por isso agora…. Perdi um filho com 1 mês e 1 semana de vida… Ainda não fez 1 mês que meu anjinho faleceu… Estou na fase em que muitas pessoas me perguntam sobre ele, outras sabem e não comentam… Tenho altos e baixos… Me sinto às vezes culpada de estar feliz ( tento me divertir e distrair) mesmo estando triste… Tenho um filho de 2 anos e meio, que frequentemente fala do irmão… Sempre que vê a foto do irmão beija e mostra para as pessoas com orgulho! Só sei que a dor é enorme e a saudade maior ainda! Estou lendo livros para tentar entender e me confortar sobre o por quê de tudo isso… Eles estão me ajudando… Gosto tb de conversar com amigos e conhecidos que já passaram por sofrimentos parecidos para saber o q fizeram para minimizar a dor… Suas experiências pessoais me ajudam muito… Só sei que acredito que ele está bem melhor agora do que quando estava no hospital e que um dia vamos nos reencontrar… Em breve tentarei engravidar de novo… Algumas pessoas falam que as vezes ele volta ( reencarna) mas no corpo do próximo filho ( mesmo sendo de outro sexo) … Gosto de acreditar nisso… Se for ele ou não, acho q nunca vou saber…. Mas isso me da muita força….

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    1. Obrigada por compartilhar conosco sua experiência. Ainda não tem um mês que perdi meu filho. Estou me sentindo sem chão, minha vida perdeu o sentido. É uma dor inexplicável.
      Bom ver pessoas q passaram pela mesma situação e hoje estão melhores. Porque no momento recente a impressão que tenho é que nunca mais serei feliz na vida. Obrigada!

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  3. Passei por perda de gêmeos , e o mais difícil é as pessoas dizer , Deus quis assim , se ficasse vivo teria problemas , ninguém entende que mãe é mãe para qualquer filho , faz 6 anos ,mas amo eles como no primeiro dia que descobri que estava gravida ..Parabéns vc expressou tudo que eu sinto ..

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  4. Parabéns pela sua força e pela coragem de enfrentar a perda, a tristeza e principalmente a felicidade que a vida te ofereceu.Obrigada por ter compartilhado com tantas pessoas essa experiência de perda, mas de vitória também.

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  5. Obrigada por compartilharem a entrevista. Fico muito aliviada de ver como, aos poucos, vamos plantando as sementes e fazendo com que o assunto luto torne-se menos tabu e que seja possível acolher e entender melhor os que passam por isso. Parabéns pelo lindo trabalho deste blog. Um abraço, Camila

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    1. Oi Camila,
      Muito obrigada pelo feedback e pela mensagem. E obrigada, acima de tudo, por ter compartilhado (não só na entrevista, mas também no livro) a sua experiência. Apesar de o luto ser um processo absolutamente individual e único, há também nele algo de universal, pois diz respeito a todos nós, sempre sujeitos às mais variadas perdas e mortes ao longo da vida. Ainda assim, permanece como tabu, como vc mencionou.
      Abraços, Luciana (equipe de assessoria de comunicação da SBPSP).

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    1. Perder um filho, mesmo na gestação como foi o meu caso, e por duas vezes… É a sensação de impotência mais latente que eu já senti. Não tem explicação. Exatamente como dito no texto, tem que sentir, viver e amadurecer.

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