Por que ler Lacan

Jacques Lacan figura entre os mais importantes psicanalistas do século 20 e sua leitura da obra freudiana – a partir da filosofia hegeliana, da linguística saussuriana e dos trabalhos de Levi-Strauss – deu origem a uma das principais escolas da psicanálise francesa. O artigo abaixo, da psicanalista Sandra Schaffa, percorre alguns dos pontos centrais de seu pensamento e como eles se articulam com a obra freudiana. Vale a leitura!

Por que ler Lacan

Por Sandra Lorenzon Schaffa*

É possível ler o texto freudiano reconhecendo que o inconsciente está estruturado como uma linguagem, como proposto por Jacques Lacan. Ele criticou a suposição largamente difundida de que a linguagem está a serviço da comunicação. Ao transformar o homem até mesmo em seu corpo, a linguagem não pode ser considerada propriedade humana secundária. O diálogo analítico fundamenta-se na consideração de que somos falados pela linguagem pois é nos momentos de falência do discurso que o desejo inconsciente manifesta uma verdade que o sujeito falante desconhece.

A tese lacaniana de que “O inconsciente está estruturado como uma linguagem” opõe-se à redução do inconsciente a uma reserva de pulsões selvagens que não foram domesticadas pelo Eu. O inconsciente lacaniano é o lugar onde a fala transferencial é mobilizada, onde o sujeito (do desejo) inconsciente se deixa ouvir e pronunciar uma verdade inédita, que escapa à simbolização.

“Wo Es war, soll Ich werden” (“Onde Id era, (ali) devo tornar-me”), Lacan sublinha que na tradução inglesa, que a versão brasileira Standard retomou: “Where the id was, there the ego shall be”, a introdução indevida dos artigos distorce a fórmula de Freud. A interpretação equivocada da sentença freudiana foi base de um modelo de análise, o da Psicologia do Eu. Esse modelo postulava que o processo da análise corresponderia ao desenvolvimento do Eu, “colonizador” das pulsões. Este modelo tem como corolário a suposição de que o Eu (supostamente) mais “desenvolvido” do analista serviria como norteador do processo analítico.

Lacan opõe-se agudamente a essa concepção da análise. Para designar o lugar do analista e o sentido de suas intervenções, propõe a teoria do sujeito suposto saber. O sujeito suposto saber é uma condição intrínseca à experiência da análise, um efeito da estrutura do diálogo analítico. O analista não deve se identificar com essa posição. Nessa concepção, portanto, o Eu do analista não intervém. Ao contrário, o analista deve dispor-se a ser destituído da condição do suposto saber que lhe é atribuído permitindo que, no lugar desse saber, se instaure um vazio. “Wo Es war, soll Ich werden”, a partir de Lacan, significa: “tenho que chegar ao lugar da minha verdade.”

A linguagem está no fundamento da intervenção analítica; entretanto, o texto de Lacan, com suas construções literárias barrocas, contrasta veementemente com a prosa clássica, com a clareza de exposição do pensamento freudiano. “A linguagem de Lacan utiliza-se da seguinte astúcia: a escrita dá sempre mais o que pensar do que achamos ter compreendido – como se cada frase tivesse um resto, que escapa da compreensão unívoca”, observa Alain Badiou. Tal astúcia, contudo, comporta efeitos paradoxais. A dificuldade que coloca aos leitores incita efeitos de imitação e de repetição patéticas do seu estilo.

Lacan chamou certa vez seus leitores da América Latina de lacano-americanos. Supunha que a distância de sua pessoa poderia favorecer a descoberta da significação pura de seu ensino. Que nos seja possível usufruir dessa condição de estranhamento, ler Lacan e ouvir com mais pureza a língua do psicanalista, seu enunciar renovador da descoberta da psicanálise.

*Sandra Lorenzon Schaffa é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

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