Mês: abril 2015

Psicanálise em clínica extensa

Psicanálise em clínica extensa

Por Leda Herrmann*

Estamos em crise? Esta pergunta compreende, como resposta, tanto um sim, como um não.

Argumentos para o sim. Segundo Fabio Herrmann, a crise de mercado, de pacientes em consultórios, que já se manifestava na Europa e nos Estados Unidos a partir do final dos anos 70, deveu-se ao estreitamento da Psicanálise do amplo espectro de uma ciência do desvelamento do sentido humano para uma psicoterapia de consultório privado. Esse estreitamento favoreceu e fortaleceu o desenvolvimento de uma técnica terapêutica que se alimentava da produção teórica sobre o sujeito psíquico que ela mesma configurava. Uma clínica padrão foi se padronizando e se repetindo malgré as pressões que as alterações do mundo em que vivemos vinham impondo ao homem e ao seu mundo.

No século 21, os pacientes de psicanálise nos trazem características peculiares. Há uma alteração no sofrimento psíquico, que passa a se expressar pela passagem ao corpo a ao ato – como nas crises de pânico, nas adições às drogas, e nas dietas. Sua maneira de se expressar constrói um discurso na forma de afirmações, com poucas perguntas, evidenciando a dificuldade própria dos dias de hoje da autoexploração interior.

Também é difícil escutar o outro e constatamos, nos pacientes, urgência pela velocidade em receber respostas para o que não foi sequer perguntado. A subjetividade se modifica diante dessas condições do mundo, mundo que se faz conhecer por meio de informações e propagandas midiáticas transmitidas velozmente e não mais de forma direta. Nossa técnica padrão passa a ser constantemente desafiada.

E o “não” para a crise?

Frente às transformações no e do mundo contemporâneo, constrói-se uma clínica que amplia seus modos para além do padrão, tradição nas análises regulamentadas institucionalmente para a formação de analistas. Trata-se de uma clínica que vem se transformando nos quesitos de setting em relação à frequência, uso do divã e mesmo ao consultório privado. Passam a fazer parte do cardápio de nossa clínica as análises de baixa frequência semanal e em circunstâncias pouco convencionais, como atendimentos por skype ou telefone, em hospitais e em outras instituições que, se apresentam alterações de técnica, não se desviam de nosso invariante: o método interpretativo com que Freud inventou a Psicanálise.

Para resposta pelo não, estou me valendo da extensão da clínica. As peculiaridades da clínica extensa deste século 21 não se restringem ao enquadre. Ela responde à demanda da sociedade e passa a estar presente em instituições diversas que não se limitam a hospitais ou outras da área de saúde. No entanto, não tenho dúvidas em reconhecê-la clínica psicanalítica por duas das condições com que se apresenta. Por um lado a clínica extensa realiza-se pela ação do método interpretativo, nossa marca, que dá vez ao conteúdo latente (também poderíamos dizer, inconsciente), suporte dos sentidos que se mostram diretamente por palavras ou ações; por outro, cumpre função terapêutica – a cura no sentido apontado por Freud em 1926 no seu texto “A questão da análise leiga”, de possibilitar ao paciente o uso de seus recursos internos que estavam, até então, inacessíveis por força de repressão.

*Leda Herrmann é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de Andaimes do Real: A Construção de um Pensamento, Casa do Psicólogo, 2007.

Por que ler Lacan

Jacques Lacan figura entre os mais importantes psicanalistas do século 20 e sua leitura da obra freudiana – a partir da filosofia hegeliana, da linguística saussuriana e dos trabalhos de Levi-Strauss – deu origem a uma das principais escolas da psicanálise francesa. O artigo abaixo, da psicanalista Sandra Schaffa, percorre alguns dos pontos centrais de seu pensamento e como eles se articulam com a obra freudiana. Vale a leitura!

Por que ler Lacan

Por Sandra Lorenzon Schaffa*

É possível ler o texto freudiano reconhecendo que o inconsciente está estruturado como uma linguagem, como proposto por Jacques Lacan. Ele criticou a suposição largamente difundida de que a linguagem está a serviço da comunicação. Ao transformar o homem até mesmo em seu corpo, a linguagem não pode ser considerada propriedade humana secundária. O diálogo analítico fundamenta-se na consideração de que somos falados pela linguagem pois é nos momentos de falência do discurso que o desejo inconsciente manifesta uma verdade que o sujeito falante desconhece.

A tese lacaniana de que “O inconsciente está estruturado como uma linguagem” opõe-se à redução do inconsciente a uma reserva de pulsões selvagens que não foram domesticadas pelo Eu. O inconsciente lacaniano é o lugar onde a fala transferencial é mobilizada, onde o sujeito (do desejo) inconsciente se deixa ouvir e pronunciar uma verdade inédita, que escapa à simbolização.

“Wo Es war, soll Ich werden” (“Onde Id era, (ali) devo tornar-me”), Lacan sublinha que na tradução inglesa, que a versão brasileira Standard retomou: “Where the id was, there the ego shall be”, a introdução indevida dos artigos distorce a fórmula de Freud. A interpretação equivocada da sentença freudiana foi base de um modelo de análise, o da Psicologia do Eu. Esse modelo postulava que o processo da análise corresponderia ao desenvolvimento do Eu, “colonizador” das pulsões. Este modelo tem como corolário a suposição de que o Eu (supostamente) mais “desenvolvido” do analista serviria como norteador do processo analítico.

Lacan opõe-se agudamente a essa concepção da análise. Para designar o lugar do analista e o sentido de suas intervenções, propõe a teoria do sujeito suposto saber. O sujeito suposto saber é uma condição intrínseca à experiência da análise, um efeito da estrutura do diálogo analítico. O analista não deve se identificar com essa posição. Nessa concepção, portanto, o Eu do analista não intervém. Ao contrário, o analista deve dispor-se a ser destituído da condição do suposto saber que lhe é atribuído permitindo que, no lugar desse saber, se instaure um vazio. “Wo Es war, soll Ich werden”, a partir de Lacan, significa: “tenho que chegar ao lugar da minha verdade.”

A linguagem está no fundamento da intervenção analítica; entretanto, o texto de Lacan, com suas construções literárias barrocas, contrasta veementemente com a prosa clássica, com a clareza de exposição do pensamento freudiano. “A linguagem de Lacan utiliza-se da seguinte astúcia: a escrita dá sempre mais o que pensar do que achamos ter compreendido – como se cada frase tivesse um resto, que escapa da compreensão unívoca”, observa Alain Badiou. Tal astúcia, contudo, comporta efeitos paradoxais. A dificuldade que coloca aos leitores incita efeitos de imitação e de repetição patéticas do seu estilo.

Lacan chamou certa vez seus leitores da América Latina de lacano-americanos. Supunha que a distância de sua pessoa poderia favorecer a descoberta da significação pura de seu ensino. Que nos seja possível usufruir dessa condição de estranhamento, ler Lacan e ouvir com mais pureza a língua do psicanalista, seu enunciar renovador da descoberta da psicanálise.

*Sandra Lorenzon Schaffa é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E TECNOLOGIA

Atualmente, com os enormes avanços da tecnologia, as crianças estão cada vez mais expostas a aparelhos eletrônicos como smartphones, tablets, computadores e jogos em geral. Essa realidade – que é inerente ao nosso contexto histórico e cultural – afeta sensivelmente o seu desenvolvimento cognitivo e emocional e o seu debate mostra-se fundamental para reduzir alguns possíveis efeitos colaterais. Sobre o assunto, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Maria Aparecida Quesado Nicoletti*.

1) As crianças são expostas, cada vez mais cedo, a smartphones, iPads, computadores, jogos eletrônicos etc. De que forma isso afeta o desenvolvimento tanto cognitivo quanto emocional?
Depende muito da etapa da infância que se examina. Pela construção da pergunta entendo que a questão se refere a crianças que estão na faixa etária pré-escolar e no início do período de escolarização fundamental.

Nessa etapa do desenvolvimento, por volta dos quatro ou cinco anos, talvez o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança já deixou para trás os estágios primários da formação de sua psique. Seu corpo e sua mente estão ávidos por experiências novas e isso faz com que a criança incorpore rapidamente a linguagem corrente, nomes e atividades motoras variadas. Em geral, se lhe for dado a escolher o que fazer, as escolhas recairão sobre atividades prazerosas, sejam elas participar de jogos nos quais têm que fazer esforços físicos, seja interagir com computadores ou usar as mãos para manusear objetos.

Começam aqui algumas das dúvidas sobre o impacto que instrumentos e brinquedos computadorizados terão sobre o desenvolvimento infantil. Nota-se, em diversos espaços de comunicação, a existência de opiniões a favor e contra a exposição das crianças dessa faixa etária aos computadores.

Do ponto de vista da psicanálise, que busca o desenvolvimento saudável e harmonioso das crianças contemporâneas, inseridas em seu contexto de vida, a exposição aos computadores e às novas formas de vivenciar e de aprender o que tais instrumentos trazem consigo constitui movimento adequado para o desenvolvimento cognitivo e emocional infantil, sendo pouco provável que tais atividades tenham impactos negativos, a menos que entre em cena o excesso.
Em resumo, a interação da criança com os computadores faz parte da cultura de nossa época e como tal, não deve ser evitada. Sua influência só será ruim quando houver excesso ou deslocamento de intenção, quando o computador é oferecido de maneira contínua, para mudar o comportamento imediato da criança, como ocorre quando se quer que ela concentre sua atenção no jogo, enquanto seu comportamento está “dizendo” que ela precisa de interação com seus pais ou professores.

2) Qual o papel dos pais na imposição de limites ou no incentivo do aprendizado do uso de aparelhos tecnológicos?

A informática traz oportunidades de comunicação e de interação social que nunca foram experimentadas pelo Homem e, por isso mesmo, ainda não sabemos como lidar com isso. Certamente, não será impondo limites sem fornecer razões que a criança possa aceitar, ou incentivando a criança a usar computadores para aprender sem cuidar que a aprendizagem se dê a partir de uma base apropriada de compreensão, que os pais exercerão as melhores de suas influências. Em linhas gerais, pode-se aconselhar os pais a criarem espaços de participação das crianças no modo de vida da família, oferecendo oportunidades para que as mesmas usem não apenas computadores, mas brinquedos físicos, ouçam a leitura de livros, participem de jogos que exijam atividade física, evitando a rigidez da imposição. Acredito que a “chave do sucesso” para limite/incentivo seja a moderação do uso da tecnologia nessa fase de desenvolvimento precoce.

3) Em que medida o uso de computadores, iPads etc. pode afetar a socialização das crianças?

A socialização das crianças depende de um conjunto de circunstâncias de natureza cultural, que incluem as origens da família, sua situação socioeconômica, suas crenças e práticas religiosas, bem como a qualidade dos vínculos familiares. Computadores, em geral, não têm o poder de influenciar o processo de socialização, salvo onde ocorram falhas relacionadas com uma das dimensões acima citadas como, por exemplo, quando a família descuida da socialização da criança, não lhe oferecendo as vivências necessárias para seu desenvolvimento pleno.

4) Como a tecnologia pode estar sendo usada para facilitar o processo educacional ou mesmo suplantá-lo? (Por exemplo, em um restaurante, ao invés de ensinar algum comportamento, os pais dão um iPad na mão da criança para ela “não incomodar”).

Em uma determinada época, a família “terceirizou” a educação dos filhos para a escola, que, além da responsabilidade do ensino formal, passou a substituir a tarefa de exercer também a “paternidade”. No momento, será que vemos a “terceirização” para os aparelhos eletrônicos? Nota-se que muitos pais parecem estar abdicando da importante tarefa de educar, porque educação requer trabalho. Será que essas crianças se sentirão atendidas com amor ou sentir-se-ão abandonadas, por não encontrar espaço para interagir com seus genitores? O excesso do uso de aparelhos eletrônicos também pode ser observado em adultos. É comum ouvir queixas de adultos reclamando que o cônjuge não deixa o Ipad de lado e que, por isso é difícil conversar.

*Maria Aparecida Quesado Nicoletti é psicanalista e membro da SBPSP.