Quem foi Melanie Klein?

Em 30 de março de 1882, há exatos 133 anos, nasceu a psicanalista Melanie Klein, na cidade de Viena. Seu caminho como psicanalista começou sob a orientação de Sandor Ferenczi, que a encorajou a desenvolver o trabalho analítico com crianças. Pioneira nessa área, Klein criou métodos e formulou importantes e inéditas teorias sobre o atendimento de crianças. Em 1926, tornou-se membro da “Sociedade Britânica de Psicanálise”. Até hoje, seu trabalho tem enorme prestígio e suas contribuições à Psicanálise Infantil, como criadora dessa modalidade clínica, são inegáveis. O artigo abaixo, dos psicanalistas Elias da Rocha Barros e Elizabeth da Rocha Barros, traz um completo panorama da trajetória de Melanie Klein e dos principais conceitos criados por ela. Vale a leitura!

Quem foi Melanie Klein?

Por Elias M da Rocha Barros & Elizabeth L. da Rocha Barros*

Melanie Klein, em três décadas de produção escrita, criou a principal corrente variante da psicanálise em relação à freudiana e introduziu pontos de vista originais que alguns consideram como complementares, outros como controversos.

Melanie Klein considerava-se uma freudiana parecendo não ter consciência dos profundos avanços que estava introduzindo na psicanálise e se surpreendeu quando uma de suas discípulas (Betty Joseph) lhe disse: “Agora já é tarde, você é uma kleiniana”, acentuando então que ela estava criando um novo sistema de pensamento.

Klein se distinguiu por muitas coisas. Ela é considerada a criadora da psicanálise de crianças por meio da técnica do brincar. Esta consistia em considerar o brincar da criança durante a sessão como equivalente à associação livre do adulto, ou seja como discurso alocutório, cujo significado emocional era equivalente ao sonho do adulto.

Ao analisar seus pequenos pacientes desenvolveu um entendimento muito profundo do funcionamento emocional do self infantil. Sua apreensão do mundo interno infantil e das formas por meio das quais as emoções lá adquirem significado contribuiu para o entendimento da personalidade adulta com seus núcleos infantis incrustados que persistem por toda a vida.

Em seu artigo “Nosso mundo adulto e suas raízes na infância” (1949), ela sintetiza algumas de suas descobertas. Nesse trabalho, acentuou que o entendimento profundo da personalidade da criança é a base para a compreensão da vida social. Escreve “(…) a técnica de brincar que desenvolvi na psicanálise de crianças muito pequenas e outros avanços resultantes do meu trabalho permitiram-me tirar novas conclusões sobre estágios muito iniciais da infância e camadas mais profundas do inconsciente e mais adiante (….) em uma psicanálise o paciente revive em relação ao psicanalista situações e emoções muito arcaicas. Portanto a relação com o psicanalista de vez em quando encerra, mesmo em adultos, aspectos muito infantis, tais como dependência excessiva e necessidade de ser guiado, acompanhado de uma desconfiança bastante irracional.” (p. 281)

Klein considera que o funcionamento arcaico das emoções infantis, muitas vezes datando de um período pré-verbal, persiste ao longo de nossas vidas e interfere no funcionamento adulto. A análise e o entendimento deste funcionamento favorecem o desenvolvimento e a criatividade. Para que este modo emocional de operar seja perceptível, é necessário que o analista desenvolva uma sensibilidade muito acurada e sutil de suas formas de manifestação na personalidade adulta.

O estudo do funcionamento mental do bebê abriu as portas para a investigação das atividades mentais primitivas características dos estados psicóticos e, em alguns casos, tratá-los. Suas observações permitiram um desenvolvimento muito grande das possibilidades de se falar sobre estes aspectos mais infantis e sobre núcleos mais primitivos da personalidade.

Um analista kleiniano procura dirigir-se diretamente ao funcionamento emocional de seu paciente, buscando mostrar não apenas como ele é como pessoa, mas como está sendo isto é, como ele estrutura suas emoções a partir de núcleos internos atribuidores de significado às vivências e às relações enquanto estas estão ocorrendo.

Klein amplia a noção de inconsciente ao propor que este é habitado sobretudo por fantasias inconscientes consideradas por ela representantes mentais das pulsões instintivas. Pascal dizia que os instintos são as razões do coração sobre as quais a razão nada sabe. Klein procura decifrar essas razões do coração através da compreensão do sentido e significado das fantasias inconscientes. Essa tem existência no inconsciente sob a forma de uma representação figurativa, tal como um fragmento de cena, que evoca estados e significados afetivos que por sua vez organizam as emoções enquanto as vivemos.

Na perspectiva kleiniana, todo impulso instintivo é dirigido a um objeto, palavra técnica que designa uma representação mental de uma pulsão ou instinto. Ao falarmos de objeto, imago, representação interna estamos no domínio da fantasia inconsciente. Klein escreve: “Essas imagos, que são uma imagem distorcida de forma fantástica dos objetos reais em que estão baseadas, se instalam não só no mundo externo, mas também dentro do ego, através do processo de incorporação.” Elisa M.de Ulhoa Cintra e Luiz Cláudio Figueiredo (2004) enfatizam que Melanie Klein tinha uma extraordinária capacidade para tornar visíveis processos mentais intangíveis. Eles citam Klein e comentam: “Sentir os pais como se fossem pessoas vivas dentro de seu corpo da mesma maneira concreta que profundas fantasias inconscientes são vividas. Isto é, dizem nossos autores, se esses pais “internos” se amam, se vivem em harmonia, desse mundo interior brota, de forma viva, um princípio de ordenação que ajuda a transformar o caos interior em cosmos. Por outro lado, se estão em guerra, em litígio, o caos se adensa e se aprofunda” (p. 95)

As fantasias do bebê existem muito incialmente sob a forma de sensações, que aos poucos adquirem uma figurabilidade interna. Um objeto interno, um dos conceitos centrais (e misteriosos) de seu sistema, é uma espécie de cidadão do mundo interno, uma representação figurativa capaz de evocar afetos, como se tivesse uma vida própria.

A mãe, ou sua representação parcial como seio alimentador, se constitui nesse sentido no primeiro objeto interno do bebê, podendo adquirir qualidades boas ou más conforme a função exercida. Tomemos como exemplo o caso de um bebê com fome. Este sente fome como parte de seu funcionamento fisiológico. Esta fome também é vivenciada no mundo psicológico dentro de uma subjetividade que está se constituindo sob a forma de uma representação figurativa, uma presença concreta de um objeto que frustra. Assim a fome é vivida como fruto de uma ação concreta de algo realmente existente dentro dele e vivida como uma figura persecutória. Esta adquire as qualidades de bom ou mau de acordo com os sentimentos que evoca. Bom quando alimentado e mau quando não satisfeito.

Progressivamente, estes objetos internos representantes do mundo externo, associados a moções pulsionais (agressivos, amorosos) se organizam em núcleos e vão constituir uma espécie de teatro interno onde os significados para as experiências vividas são gerados e passam a dar sentido às ações, crenças e percepções assim como a uma tonalidade afetiva que colore suas relações com o mundo externo e interno. Esses “climas” emocionais são expressos e evocados através das fantasias inconscientes.

Ao nascer, quando o bebê entra em contato com suas primeiras necessidades orgânicas, é dominado por um medo de desintegração, por algo que Klein denomina ansiedade de morte. Ela postula que esta é originária de uma estrutura instintiva, que Freud chamou de instinto de morte e que se contrapõem permanentemente ao seu oposto, o instinto de vida. Do ponto de vista do funcionamento mental, podemos descrever o embate permanente entre o instinto de vida e o de morte da seguinte maneira: diante da pressão exercida ao nível mental pelas necessidades físicas ligadas à sobrevivência, o bebê é colocado diante de duas possibilidades: ou se organiza para satisfazê-las ou para negá-las. Klein, pretendendo seguir Freud, considera que ao se organizar para satisfazer suas necessidades o bebê está sob a influência do instinto de vida e ao negá-las sob a influência do instinto de morte.

Em Klein, a pulsão de morte vivida como um impulso voltado contra si que ameaça a sua continuidade existencial se transforma na base do sentimento de destrutividade. De forma a dar conta dessa ameaça vivida como ansiedade de morte, a criança projeta para o exterior as qualidades destrutivas deste estado de espírito e assim, e, por momentos, a pessoa que dela cuida (a mãe, geralmente) é colorida por esta tonalidade ameaçadora que agride a criança. Torna-se, na linguagem psicanalítica kleiniana, um objeto mau e assim é internalizada. Quando esta mãe a satisfaz, atendendo-a, contendo sua ansiedade, ela é internalizada como objeto bom, capaz de compreendê-la, cuidar dela e se torna fonte de segurança. O recém nascido vive um mundo de extremos povoado por objetos bons e objetos maus num embate permanente.

Ao postular este tipo de funcionamento mental Melanie Klein cria uma psicanálise voltada para a descrição e compreensão dos estados afetivos e a natureza das relações estabelecidas com o mundo interno e externo.

Sem negar a importância do passado histórico isto é, das repressões inconscientes acumuladas durante o desenvolvimento, como fatores produtores tanto do desenvolvimento normal quanto patológico, da forma como Freud o faz, Melanie Klein, introduz uma particular concepção do desenvolvimento humano. Não são só as experiências vividas constituídas no passado histórico que geram o desenvolvimento e as patologias. Klein parte do conceito de instinto de morte ampliando-o e relacionando-o com o medo de não sobreviver, transformando-o assim em nossa principal fonte de ansiedade. Ao fazê-lo, ela redefine nossa relação com o passado histórico e com sua função na constituição de nossa identidade. Não é apenas o passado histórico e as repressões acumuladas durante a vida que se tornam parte e perturbam nossa subjetividade. Antes mesmo da formação do ego e do super-ego do bebê pequeno, já existiria uma força negativa (pulsão de morte) atuando, gerando defesas contra ansiedades iniciais, que vão, aos poucos, se corporificando em estruturas. Aquele nada que precederia ao bebê não é uma vazio! Ele vem preenchido de forças pulsionais que ameaçam a integridade do bebê, sua unidade, gerando uma ansiedade de aniquilamento, e um intercâmbio intenso entre o mundo interno e o externo, atuados através de um movimento permanente de projeção e introjeção de estados de espírito. De certa forma a ansiedade de morte torna-se o motor do desenvolvimento.

Ao nascer o bebê ainda não tem um ego ou self constituído, mas precursores deste, capaz de sentir ansiedade e dela se defender por meio de projeções e introjeções. Esses precursores (nunca integralmente definidos por ela) do ego do bebê, podem dividir-se ou ex-cindir-se (split), e serem projetados para fora. Assim, não são apenas os estados de espírito perturbadores que são projetados para fora, mas partes da própria personalidade. Aqui temos mais uma das grande novidades da psicanálise kleiniana. Isto significa que podemos perder funções mentais, viver parte de nossas vidas projetados (em fantasia) no mundo interno de outra pessoa. Ou podemos ter parte de nossas vidas vividas em identificação com aspectos da vida de outrem. Klein denomina este mecanismo de identificação projetiva.

A importância deste conceito pode ser avaliada ao dizermos que boa parte da psicanálise de 1950 para cá tem se dedicado a estudar a fenomenologia da identificação projetiva.

Em Freud, o que era projetado perdia-se, pois este concebia a projeção como um processo similar à evacuação. Já em Klein aquilo que é projetado para fora, isto é para dentro de um objeto, não só não é perdido, como também confere uma nova identidade a este objeto. Um indivíduo agressivo por exemplo, que projeta sua raiva para fora, não se limita a negá-la e atribuí-la ao outro. Este ao projetar torna-se temeroso do receptor para dentro do qual seus maus sentimentos foram projetados e, ao mesmo tempo, destituído de potência.

Este conceito modifica tanto a técnica psicanalítica quando nossa concepção das relações humanas e do desenvolvimento e é responsável pela preocupação com áreas até então não tratadas em psicanálise como seu foco central. A natureza dos afetos envolvidos nas relações humanas em geral, assim como presentes na relação analítica, tornam-se objeto de observação e investigação. O amadurecimento emocional depende do estabelecimento de relações emocionais genuínas e íntimas entre as pessoas. Estas preocupações originam-se na definição de identificação projetiva que introduz a ideia de que os indivíduos podem viver simultaneamente em diversos mundos (em fantasia), tais como o externo, o interno, no mundo interno do objeto interno ou no mundo interno do objeto externo. Isto ocorre em fantasia, mas como as projeções são concretamente vividas como reais, estas vivências adquirem fórum de realidade, pois o indivíduo perde a capacidade de discriminar entre a realidade interna e externa.

Para Donald Meltzer, um dos continuadores de Klein, recentemente falecido, esta hipótese representa um grande avanço sobre Freud, por proporcionar, através da interação dos processos projetivos e introjetivos, uma concepção de um teatro interno onde os significados das experiências emocionais são gerados, e que por sua vez, fornecem o cenário dentro do qual se desenvolvem as relações emocionais. Este mundo é constituído por um fluxo continuo de fantasias inconscientes e é construído pelos mecanismos projetivos e introjetivos intrínsecos ao modo de operar da mente humana.

E para completarmos este sumário diremos para finalizar que um dos conceitos centrais da teoria de Melanie Klein é o de mundo interno como temos visto. Este mundo interno, é preciso dizer, não é apenas o reflexo subjetivo do mundo externo, sua representação em duplo. Jean Laplanche, um dos grandes mestres da psicanálise contemporânea, comenta: “Estas imagos (internas) não são a lembrança de experiências reais mais antigas; são o depósito introjetado destas experiências, mas modificado pelo próprio processo de introjeção.” Assim, a representação interna que o bebê faz do mundo é resultado do próprio processo através do qual ela se internalizou, sendo este, por sua vez, governado pela natureza da ansiedade que o gerou. Aquilo que é introjetado será, por sua vez, novamente projetado e colorirá a natureza do receptor de sua projeção, podendo ser introjetado novamente agora modificado e assim sucessivamente.

*Elias M. da Rocha Barros e Elizabeth L. da Rocha Barros são psicanalistas e membros da SBPSP.

3 comentários

  1. Muito bom; esse texto traduz a importância da obra de M. Klein na compreensão da vida mental primitiva e abre novos horizontes dentro do campo da psicanálise.

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