A prevenção ao uso indevido de drogas

O consumo excessivo de drogas é um fenômeno complexo que requer estudos e pesquisas de diferentes áreas. O problema não atinge apenas o usuário, mas repercute em sua organização familiar e na sociedade, de forma geral, configurando atualmente um dos mais graves problemas de saúde pública. Como nós, psicanalistas, podemos contribuir para essa discussão? O que torna a droga um caminho tão tentador e, ao mesmo tempo, tão perigoso, para aqueles que ingressam nesse universo? O artigo abaixo, da psicanalista Maria de Lurdes de Souza Zemel, trata do tema da prevenção e de como esse processo pode ser compreendido sob o viés da psicanálise. Vale a leitura!

A prevenção ao uso indevido de drogas – um grupo para educadores e trabalhadores de saúde mental na SBPSP

Por Maria de Lurdes de Souza Zemel*

Ao nos depararmos com o uso indevido de drogas nos assustamos e tendemos a assumir posições repressivas, policialescas e de negação. Acreditamos que nunca temos relação com o problema a menos que atinja nossas famílias.

Assim é com o crack, que é visto por nós como uma droga amaldiçoada e extremamente perigosa. Vamos usar o crack como exemplo: sempre o vimos como algo da periferia até que os “crackeiros“ atravessaram nossos caminhos expondo sua miséria, habitando os viadutos dos centros das cidades. Ao mostrarem seu abandono social eles nos desafiam a pensar sobre possibilidades de recuperação por meio de ações sociais. Visto por este ângulo, podemos cogitar se a droga é que é tão violenta ou se a vida dessas pessoas é tão descuidada que a droga faz uma grande companhia a elas.

As drogas oferecem uma possibilidade de mudança do nosso estado de consciência, ajudam a negar muitas das nossas dores psíquicas, principalmente as que não conseguimos nomear em determinados momentos da vida, criando a ilusão de um prazer que se pode obter por si mesmo prescindindo do outro e alimentando um sentimento de poder onipotente quando, em realidade, se está incapaz de desejar, fantasiar e fazer projetos reais na vida.

Elas nos dão uma pseudo-identidade, um sentimento de pertencimento: “Sou drogado”… “Sou dependente”… é o que eles nos dizem com arrogância.

Enquanto psicanalistas e estudiosos da mente humana, não vamos nos ocupar com ações repressivas em relação ao uso indevido de drogas, mas também não podemos mais negar sua presença nos nossos consultórios e nem nossa responsabilidade social com esse problema.

O DAC (Departamento de Atendimento a Comunidade), por meio do Setor de Parcerias e Convênios, organizou um projeto chamado “Encontros e Conversas” e está oferecendo gratuitamente à comunidade de educadores e cuidadores da saúde um grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas.

Esse grupo não pretende dar diretrizes de ações preventivas, mas pretende mostrar que para compreender e lidar com esse problema, precisamos também contar com um conhecimento sobre a pessoa que usa/abusa da droga. Que essa pessoa tem que ser respeitada na sua dor e que o caminho dela é traçado por ela e não pelo nosso desejo.

O grupo pretende mostrar que “prevenção” não quer dizer ações pré-estabelecidas, que só podem ser eficientes se o uso de drogas acabar. Existem ações chamadas “redução de danos” que protegem as pessoas que usam drogas quando é impossível parar com seu uso. É possível identificarmos as vulnerabilidades em crianças ou jovens ou em determinadas organizações sociais, como as famílias.

O fato é que precisamos enfrentar nossos preconceitos e entender que a prevenção não é uma ação que livra o ser humano bom desse demônio que se apossa dele para torná-lo um drogado. Que a droga não tem poderes de nos tornar o que não somos. Ela nos leva sim para caminhos estranhos, muitas vezes porque nossa “estranheza” favorece isso.

*Maria de Lurdes de Souza Zemel é psicanalista e Coordenadora do Grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas da SBPSP.

3 comentários

  1. Incrível iniciativa da Lurdinha Zemel!!!
    Tema importantíssimo de ser discutido a luz da psicanálise. Esse é o caminho para desmitificações e futuros avanços nessa área.
    Divulgarei com empolgação o grupo de encontros!
    Parabéns a todos os envolvidos!

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  2. Muito boa esta inciativa, a Lurdinha teve uma sacada perfeita que estava faltando no meio psicanalítico, pois encontros como estes compartilha o conhecimento de forma mutua sem ter o “saber análitico detido pelo professor e profissional”, parabéns equipe, só a imagem que achei um pouco inadequada, pois este tipo de administração de drogas é bem raro no Brasil.

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