Mês: março 2015

A tragédia produzida pelo copiloto suicida

Acontecimentos trágicos que colocam em evidência a violência humana fogem, muitas vezes, à nossa compreensão. O acidente aéreo da semana passada, após constatada a atitude consciente e deliberada do copiloto de derrubar o avião, passou a integrar esse rol de eventos para os quais, simplesmente, não encontramos explicações. A reflexão que segue abaixo, da psicanalista Elizabeth da Rocha Barros, não tem pretensão de explicar os motivos que levam uma pessoa a fazer isso, mas traz algumas hipóteses que nos ajudam a ver um pouco além do “ato de loucura” tão evidente em uma primeira avaliação.

A tragédia produzida pelo copiloto suicida

Por Elizabeth Lima da Rocha Barros*

Nesta semana ficamos chocados com a tragédia nos Alpes Franceses e nos demos conta de nossa vulnerabilidade. Dorrit Harazim escreveu no Globo desse domingo um excelente artigo sobre essa tragédia. Nos dizeres de uma jornalista francesa Alexandra Schwartzbrod “O Homem vence a Máquina.” Por mais avanços tecnológicos que consigamos desenvolver, estamos ainda à mercê do Homem com todas as intercorrências do significado do Humano.

No que nós analistas podemos contribuir para as inúmeras discussões que estão surgindo?
Desde o primeiro momento em que escutei sobre a TRAGÉDIA me lembrei dos adolescentes do Massacre de Columbine que mataram tantos jovens. Essa tragédia teria sido muito maior se os assassinos tivessem conseguido derrubar o teto da Escola, como era a sua intenção naquele dia. Nesse caso teriam morrido 600 alunos! Soubemos depois pela reconstrução de suas vidas que além de todas as dificuldades emocionais, predominava o sentimento de humilhação e inferioridade, despertadas por situações de bullying e desencantos amorosos. A impossibilidade de conviver com esses sentimentos foi o combustível de uma terrível vingança. Com esse ato parecem estar dizendo: seremos importantes, temidos e para sempre lembrados nessa morte/ assassinato/ suicídio grandioso em que a dor sentida pelas vítimas do bullying é transformada em um ato visando produzir uma dor imensa em todos os outros vitimados pela tragédia. A fragilidade se transforma em onipotência, a impotência em uma potência mortífera que deixa uma terra arrasada por mortes e sofrimentos que não terminarão nunca, a não ser com a própria morte.

Hoje temos mais informações sobre Lubitz. Essa minha associação com Colombine se confirma.
O medo de não vir a ser alguém, ou melhor, de sentir-se ninguém, o ser a não-pessoa, nos dizeres de Hanna Arendt, parece ser o centro do núcleo mental de Lubitz.

Dorrit relembra o ditado: “a mente é um excelente criado mas um tenebroso mestre”.

Lubitz só pôde se sentir sendo alguém, segundo sua versão mistificada, ao espatifar o avião contra a rocha. A não-pessoa se alimenta desse combustível de vingança e excitação silenciosa e calma, como sua respiração, para se sentir momentaneamente existindo com o poder de matar a todos e causar um enorme impacto de dor em todos e assim surpreender o mundo.

Há muitas discussões de medidas para prevenir tragédias como essas. No entanto, sabemos o quão difícil é prevenir atos individuais voltados para a destruição, pois o homem pode sempre encontrar uma maneira de impingir dor e sofrimento aos demais. Claro que a presença de outra pessoa na cabine irá ajudar a prevenir esse tipo de ato suicida por parte de pilotos. Creio que nós, analistas, deveríamos ser capazes de ajudar a sociedade como um todo a identificar aquelas situações que trazem em seu bojo o potencial de gerar vários Lubitz .

* Elizabeth Lima da Rocha Barros é membro e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).

Quem foi Melanie Klein?

Em 30 de março de 1882, há exatos 133 anos, nasceu a psicanalista Melanie Klein, na cidade de Viena. Seu caminho como psicanalista começou sob a orientação de Sandor Ferenczi, que a encorajou a desenvolver o trabalho analítico com crianças. Pioneira nessa área, Klein criou métodos e formulou importantes e inéditas teorias sobre o atendimento de crianças. Em 1926, tornou-se membro da “Sociedade Britânica de Psicanálise”. Até hoje, seu trabalho tem enorme prestígio e suas contribuições à Psicanálise Infantil, como criadora dessa modalidade clínica, são inegáveis. O artigo abaixo, dos psicanalistas Elias da Rocha Barros e Elizabeth da Rocha Barros, traz um completo panorama da trajetória de Melanie Klein e dos principais conceitos criados por ela. Vale a leitura!

Quem foi Melanie Klein?

Por Elias M da Rocha Barros & Elizabeth L. da Rocha Barros*

Melanie Klein, em três décadas de produção escrita, criou a principal corrente variante da psicanálise em relação à freudiana e introduziu pontos de vista originais que alguns consideram como complementares, outros como controversos.

Melanie Klein considerava-se uma freudiana parecendo não ter consciência dos profundos avanços que estava introduzindo na psicanálise e se surpreendeu quando uma de suas discípulas (Betty Joseph) lhe disse: “Agora já é tarde, você é uma kleiniana”, acentuando então que ela estava criando um novo sistema de pensamento.

Klein se distinguiu por muitas coisas. Ela é considerada a criadora da psicanálise de crianças por meio da técnica do brincar. Esta consistia em considerar o brincar da criança durante a sessão como equivalente à associação livre do adulto, ou seja como discurso alocutório, cujo significado emocional era equivalente ao sonho do adulto.

Ao analisar seus pequenos pacientes desenvolveu um entendimento muito profundo do funcionamento emocional do self infantil. Sua apreensão do mundo interno infantil e das formas por meio das quais as emoções lá adquirem significado contribuiu para o entendimento da personalidade adulta com seus núcleos infantis incrustados que persistem por toda a vida.

Em seu artigo “Nosso mundo adulto e suas raízes na infância” (1949), ela sintetiza algumas de suas descobertas. Nesse trabalho, acentuou que o entendimento profundo da personalidade da criança é a base para a compreensão da vida social. Escreve “(…) a técnica de brincar que desenvolvi na psicanálise de crianças muito pequenas e outros avanços resultantes do meu trabalho permitiram-me tirar novas conclusões sobre estágios muito iniciais da infância e camadas mais profundas do inconsciente e mais adiante (….) em uma psicanálise o paciente revive em relação ao psicanalista situações e emoções muito arcaicas. Portanto a relação com o psicanalista de vez em quando encerra, mesmo em adultos, aspectos muito infantis, tais como dependência excessiva e necessidade de ser guiado, acompanhado de uma desconfiança bastante irracional.” (p. 281)

Klein considera que o funcionamento arcaico das emoções infantis, muitas vezes datando de um período pré-verbal, persiste ao longo de nossas vidas e interfere no funcionamento adulto. A análise e o entendimento deste funcionamento favorecem o desenvolvimento e a criatividade. Para que este modo emocional de operar seja perceptível, é necessário que o analista desenvolva uma sensibilidade muito acurada e sutil de suas formas de manifestação na personalidade adulta.

O estudo do funcionamento mental do bebê abriu as portas para a investigação das atividades mentais primitivas características dos estados psicóticos e, em alguns casos, tratá-los. Suas observações permitiram um desenvolvimento muito grande das possibilidades de se falar sobre estes aspectos mais infantis e sobre núcleos mais primitivos da personalidade.

Um analista kleiniano procura dirigir-se diretamente ao funcionamento emocional de seu paciente, buscando mostrar não apenas como ele é como pessoa, mas como está sendo isto é, como ele estrutura suas emoções a partir de núcleos internos atribuidores de significado às vivências e às relações enquanto estas estão ocorrendo.

Klein amplia a noção de inconsciente ao propor que este é habitado sobretudo por fantasias inconscientes consideradas por ela representantes mentais das pulsões instintivas. Pascal dizia que os instintos são as razões do coração sobre as quais a razão nada sabe. Klein procura decifrar essas razões do coração através da compreensão do sentido e significado das fantasias inconscientes. Essa tem existência no inconsciente sob a forma de uma representação figurativa, tal como um fragmento de cena, que evoca estados e significados afetivos que por sua vez organizam as emoções enquanto as vivemos.

Na perspectiva kleiniana, todo impulso instintivo é dirigido a um objeto, palavra técnica que designa uma representação mental de uma pulsão ou instinto. Ao falarmos de objeto, imago, representação interna estamos no domínio da fantasia inconsciente. Klein escreve: “Essas imagos, que são uma imagem distorcida de forma fantástica dos objetos reais em que estão baseadas, se instalam não só no mundo externo, mas também dentro do ego, através do processo de incorporação.” Elisa M.de Ulhoa Cintra e Luiz Cláudio Figueiredo (2004) enfatizam que Melanie Klein tinha uma extraordinária capacidade para tornar visíveis processos mentais intangíveis. Eles citam Klein e comentam: “Sentir os pais como se fossem pessoas vivas dentro de seu corpo da mesma maneira concreta que profundas fantasias inconscientes são vividas. Isto é, dizem nossos autores, se esses pais “internos” se amam, se vivem em harmonia, desse mundo interior brota, de forma viva, um princípio de ordenação que ajuda a transformar o caos interior em cosmos. Por outro lado, se estão em guerra, em litígio, o caos se adensa e se aprofunda” (p. 95)

As fantasias do bebê existem muito incialmente sob a forma de sensações, que aos poucos adquirem uma figurabilidade interna. Um objeto interno, um dos conceitos centrais (e misteriosos) de seu sistema, é uma espécie de cidadão do mundo interno, uma representação figurativa capaz de evocar afetos, como se tivesse uma vida própria.

A mãe, ou sua representação parcial como seio alimentador, se constitui nesse sentido no primeiro objeto interno do bebê, podendo adquirir qualidades boas ou más conforme a função exercida. Tomemos como exemplo o caso de um bebê com fome. Este sente fome como parte de seu funcionamento fisiológico. Esta fome também é vivenciada no mundo psicológico dentro de uma subjetividade que está se constituindo sob a forma de uma representação figurativa, uma presença concreta de um objeto que frustra. Assim a fome é vivida como fruto de uma ação concreta de algo realmente existente dentro dele e vivida como uma figura persecutória. Esta adquire as qualidades de bom ou mau de acordo com os sentimentos que evoca. Bom quando alimentado e mau quando não satisfeito.

Progressivamente, estes objetos internos representantes do mundo externo, associados a moções pulsionais (agressivos, amorosos) se organizam em núcleos e vão constituir uma espécie de teatro interno onde os significados para as experiências vividas são gerados e passam a dar sentido às ações, crenças e percepções assim como a uma tonalidade afetiva que colore suas relações com o mundo externo e interno. Esses “climas” emocionais são expressos e evocados através das fantasias inconscientes.

Ao nascer, quando o bebê entra em contato com suas primeiras necessidades orgânicas, é dominado por um medo de desintegração, por algo que Klein denomina ansiedade de morte. Ela postula que esta é originária de uma estrutura instintiva, que Freud chamou de instinto de morte e que se contrapõem permanentemente ao seu oposto, o instinto de vida. Do ponto de vista do funcionamento mental, podemos descrever o embate permanente entre o instinto de vida e o de morte da seguinte maneira: diante da pressão exercida ao nível mental pelas necessidades físicas ligadas à sobrevivência, o bebê é colocado diante de duas possibilidades: ou se organiza para satisfazê-las ou para negá-las. Klein, pretendendo seguir Freud, considera que ao se organizar para satisfazer suas necessidades o bebê está sob a influência do instinto de vida e ao negá-las sob a influência do instinto de morte.

Em Klein, a pulsão de morte vivida como um impulso voltado contra si que ameaça a sua continuidade existencial se transforma na base do sentimento de destrutividade. De forma a dar conta dessa ameaça vivida como ansiedade de morte, a criança projeta para o exterior as qualidades destrutivas deste estado de espírito e assim, e, por momentos, a pessoa que dela cuida (a mãe, geralmente) é colorida por esta tonalidade ameaçadora que agride a criança. Torna-se, na linguagem psicanalítica kleiniana, um objeto mau e assim é internalizada. Quando esta mãe a satisfaz, atendendo-a, contendo sua ansiedade, ela é internalizada como objeto bom, capaz de compreendê-la, cuidar dela e se torna fonte de segurança. O recém nascido vive um mundo de extremos povoado por objetos bons e objetos maus num embate permanente.

Ao postular este tipo de funcionamento mental Melanie Klein cria uma psicanálise voltada para a descrição e compreensão dos estados afetivos e a natureza das relações estabelecidas com o mundo interno e externo.

Sem negar a importância do passado histórico isto é, das repressões inconscientes acumuladas durante o desenvolvimento, como fatores produtores tanto do desenvolvimento normal quanto patológico, da forma como Freud o faz, Melanie Klein, introduz uma particular concepção do desenvolvimento humano. Não são só as experiências vividas constituídas no passado histórico que geram o desenvolvimento e as patologias. Klein parte do conceito de instinto de morte ampliando-o e relacionando-o com o medo de não sobreviver, transformando-o assim em nossa principal fonte de ansiedade. Ao fazê-lo, ela redefine nossa relação com o passado histórico e com sua função na constituição de nossa identidade. Não é apenas o passado histórico e as repressões acumuladas durante a vida que se tornam parte e perturbam nossa subjetividade. Antes mesmo da formação do ego e do super-ego do bebê pequeno, já existiria uma força negativa (pulsão de morte) atuando, gerando defesas contra ansiedades iniciais, que vão, aos poucos, se corporificando em estruturas. Aquele nada que precederia ao bebê não é uma vazio! Ele vem preenchido de forças pulsionais que ameaçam a integridade do bebê, sua unidade, gerando uma ansiedade de aniquilamento, e um intercâmbio intenso entre o mundo interno e o externo, atuados através de um movimento permanente de projeção e introjeção de estados de espírito. De certa forma a ansiedade de morte torna-se o motor do desenvolvimento.

Ao nascer o bebê ainda não tem um ego ou self constituído, mas precursores deste, capaz de sentir ansiedade e dela se defender por meio de projeções e introjeções. Esses precursores (nunca integralmente definidos por ela) do ego do bebê, podem dividir-se ou ex-cindir-se (split), e serem projetados para fora. Assim, não são apenas os estados de espírito perturbadores que são projetados para fora, mas partes da própria personalidade. Aqui temos mais uma das grande novidades da psicanálise kleiniana. Isto significa que podemos perder funções mentais, viver parte de nossas vidas projetados (em fantasia) no mundo interno de outra pessoa. Ou podemos ter parte de nossas vidas vividas em identificação com aspectos da vida de outrem. Klein denomina este mecanismo de identificação projetiva.

A importância deste conceito pode ser avaliada ao dizermos que boa parte da psicanálise de 1950 para cá tem se dedicado a estudar a fenomenologia da identificação projetiva.

Em Freud, o que era projetado perdia-se, pois este concebia a projeção como um processo similar à evacuação. Já em Klein aquilo que é projetado para fora, isto é para dentro de um objeto, não só não é perdido, como também confere uma nova identidade a este objeto. Um indivíduo agressivo por exemplo, que projeta sua raiva para fora, não se limita a negá-la e atribuí-la ao outro. Este ao projetar torna-se temeroso do receptor para dentro do qual seus maus sentimentos foram projetados e, ao mesmo tempo, destituído de potência.

Este conceito modifica tanto a técnica psicanalítica quando nossa concepção das relações humanas e do desenvolvimento e é responsável pela preocupação com áreas até então não tratadas em psicanálise como seu foco central. A natureza dos afetos envolvidos nas relações humanas em geral, assim como presentes na relação analítica, tornam-se objeto de observação e investigação. O amadurecimento emocional depende do estabelecimento de relações emocionais genuínas e íntimas entre as pessoas. Estas preocupações originam-se na definição de identificação projetiva que introduz a ideia de que os indivíduos podem viver simultaneamente em diversos mundos (em fantasia), tais como o externo, o interno, no mundo interno do objeto interno ou no mundo interno do objeto externo. Isto ocorre em fantasia, mas como as projeções são concretamente vividas como reais, estas vivências adquirem fórum de realidade, pois o indivíduo perde a capacidade de discriminar entre a realidade interna e externa.

Para Donald Meltzer, um dos continuadores de Klein, recentemente falecido, esta hipótese representa um grande avanço sobre Freud, por proporcionar, através da interação dos processos projetivos e introjetivos, uma concepção de um teatro interno onde os significados das experiências emocionais são gerados, e que por sua vez, fornecem o cenário dentro do qual se desenvolvem as relações emocionais. Este mundo é constituído por um fluxo continuo de fantasias inconscientes e é construído pelos mecanismos projetivos e introjetivos intrínsecos ao modo de operar da mente humana.

E para completarmos este sumário diremos para finalizar que um dos conceitos centrais da teoria de Melanie Klein é o de mundo interno como temos visto. Este mundo interno, é preciso dizer, não é apenas o reflexo subjetivo do mundo externo, sua representação em duplo. Jean Laplanche, um dos grandes mestres da psicanálise contemporânea, comenta: “Estas imagos (internas) não são a lembrança de experiências reais mais antigas; são o depósito introjetado destas experiências, mas modificado pelo próprio processo de introjeção.” Assim, a representação interna que o bebê faz do mundo é resultado do próprio processo através do qual ela se internalizou, sendo este, por sua vez, governado pela natureza da ansiedade que o gerou. Aquilo que é introjetado será, por sua vez, novamente projetado e colorirá a natureza do receptor de sua projeção, podendo ser introjetado novamente agora modificado e assim sucessivamente.

*Elias M. da Rocha Barros e Elizabeth L. da Rocha Barros são psicanalistas e membros da SBPSP.

Função da Psicanálise

Afinal, para que serve a psicanálise? O que está em jogo durante o tratamento analítico? Qual o papel do psicanalista? Tais questões são discutidas no artigo abaixo, do psicanalista e membro da SBPSP Claudio Castelo Filho. Vale a leitura!

Função da Psicanálise

Por Claudio Castelo Filho*

Corroída pela própria rejeição de si mesma, uma pessoa não pode contar consigo mesma. Enfraquece, adoece, e fica cada vez mais a mercê dos grupos e da opinião alheia às quais não pode fazer face por não dispor de recursos com que contar. Uma pessoa que está de bem consigo própria pode pertencer a qualquer tipo de minoria (as pessoas que consideram e se valem do próprio discernimento, adquirido pela experiência e não por submissão a autoridades ou dogmas, sempre fazem parte de uma minoria), mas estando em maioria consigo mesma, poderá enfrentar e lidar com esse fato.

Considero que a única função de uma psicanálise é apresentar uma pessoa a ela mesma – a quem de fato é, não a quem acredita ser, ou considera que deveria ou seria o certo ser – para que possa, se assim quiser e se dispuser, “casar-se consigo”. Como ela mesma é a única pessoa de quem de fato não pode se separar, seria fundamental para sua qualidade de vida e possível felicidade que esteja num bom casamento com sua própria personalidade.

Não tente se curar de você mesmo! É como doença autoimune: devasta!

Mesmo que uma pessoa possa ter uma natureza como a do Japão, com terremoto, maremoto, vulcões, tufões, invernos rigorosos, pouca terra produtiva, o reconhecimento e respeito a essa natureza, considerando-a tal como realmente é, e não como seria bom que fosse ou como deveria ser, permite um grande desenvolvimento justamente por conta da necessidade de manejar e tirar partido dessa natureza. Brigar com ela ou negá-la certamente não resulta em boa coisa… E certamente o que lá fizeram evidencia o quanto de proveito conseguiram tirar dessa natureza. Como dizia Wilfred Bion: how to make the best of a bad job, ou como se diz em português: como tornar proveitoso um mal negócio. Obviamente o psicanalista não faz isso só. A cooperação e o interesse verdadeiro do analisando em conhecer a realidade, mesmo que a princípio possa se sentir muito incomodado com o que for percebendo, são fundamentais para a tarefa ir adiante. A atitude de verdadeira compaixão e simpatia humana por parte do analista é também fundamental. Isso só é possível para um analista que tenha tido ele mesmo a mais extensa e profunda análise de sua própria personalidade. E numa formação séria de um psicanalista essa é uma questão sine qua non..

Minha tarefa é a de auxiliar uma pessoa a usar seus próprios recursos psíquicos, aqueles que realmente tem, que são os passíveis de evoluir com o processo analítico, para pensar por si mesma. Paradoxalmente, o desenvolvimento da autonomia de um indivíduo e de sua possibilidade de pensar livre e criativamente é o que pode trazer as maiores contribuições reais para os grupos de que possa fazer parte. Basta considerar o exemplo de Freud.

* Claudio Castelo Filho é analista didata da SBPSP, doutor em Psicologia Social, professor livre docente em Psicologia Clínica pela USP.

claudio.castelo@uol.com.br

A prevenção ao uso indevido de drogas

O consumo excessivo de drogas é um fenômeno complexo que requer estudos e pesquisas de diferentes áreas. O problema não atinge apenas o usuário, mas repercute em sua organização familiar e na sociedade, de forma geral, configurando atualmente um dos mais graves problemas de saúde pública. Como nós, psicanalistas, podemos contribuir para essa discussão? O que torna a droga um caminho tão tentador e, ao mesmo tempo, tão perigoso, para aqueles que ingressam nesse universo? O artigo abaixo, da psicanalista Maria de Lurdes de Souza Zemel, trata do tema da prevenção e de como esse processo pode ser compreendido sob o viés da psicanálise. Vale a leitura!

A prevenção ao uso indevido de drogas – um grupo para educadores e trabalhadores de saúde mental na SBPSP

Por Maria de Lurdes de Souza Zemel*

Ao nos depararmos com o uso indevido de drogas nos assustamos e tendemos a assumir posições repressivas, policialescas e de negação. Acreditamos que nunca temos relação com o problema a menos que atinja nossas famílias.

Assim é com o crack, que é visto por nós como uma droga amaldiçoada e extremamente perigosa. Vamos usar o crack como exemplo: sempre o vimos como algo da periferia até que os “crackeiros“ atravessaram nossos caminhos expondo sua miséria, habitando os viadutos dos centros das cidades. Ao mostrarem seu abandono social eles nos desafiam a pensar sobre possibilidades de recuperação por meio de ações sociais. Visto por este ângulo, podemos cogitar se a droga é que é tão violenta ou se a vida dessas pessoas é tão descuidada que a droga faz uma grande companhia a elas.

As drogas oferecem uma possibilidade de mudança do nosso estado de consciência, ajudam a negar muitas das nossas dores psíquicas, principalmente as que não conseguimos nomear em determinados momentos da vida, criando a ilusão de um prazer que se pode obter por si mesmo prescindindo do outro e alimentando um sentimento de poder onipotente quando, em realidade, se está incapaz de desejar, fantasiar e fazer projetos reais na vida.

Elas nos dão uma pseudo-identidade, um sentimento de pertencimento: “Sou drogado”… “Sou dependente”… é o que eles nos dizem com arrogância.

Enquanto psicanalistas e estudiosos da mente humana, não vamos nos ocupar com ações repressivas em relação ao uso indevido de drogas, mas também não podemos mais negar sua presença nos nossos consultórios e nem nossa responsabilidade social com esse problema.

O DAC (Departamento de Atendimento a Comunidade), por meio do Setor de Parcerias e Convênios, organizou um projeto chamado “Encontros e Conversas” e está oferecendo gratuitamente à comunidade de educadores e cuidadores da saúde um grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas.

Esse grupo não pretende dar diretrizes de ações preventivas, mas pretende mostrar que para compreender e lidar com esse problema, precisamos também contar com um conhecimento sobre a pessoa que usa/abusa da droga. Que essa pessoa tem que ser respeitada na sua dor e que o caminho dela é traçado por ela e não pelo nosso desejo.

O grupo pretende mostrar que “prevenção” não quer dizer ações pré-estabelecidas, que só podem ser eficientes se o uso de drogas acabar. Existem ações chamadas “redução de danos” que protegem as pessoas que usam drogas quando é impossível parar com seu uso. É possível identificarmos as vulnerabilidades em crianças ou jovens ou em determinadas organizações sociais, como as famílias.

O fato é que precisamos enfrentar nossos preconceitos e entender que a prevenção não é uma ação que livra o ser humano bom desse demônio que se apossa dele para torná-lo um drogado. Que a droga não tem poderes de nos tornar o que não somos. Ela nos leva sim para caminhos estranhos, muitas vezes porque nossa “estranheza” favorece isso.

*Maria de Lurdes de Souza Zemel é psicanalista e Coordenadora do Grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas da SBPSP.

Envelhecimento e psicanálise

O envelhecimento é um fato inexorável da vida. O processo nos obriga a encarar não apenas a nossa finitude, como também as limitações do corpo que vão, aos poucos, tornando-se presentes. Quando vivemos em uma cultura que valoriza a juventude, envelhecer significa também ocupar um papel social menos valorizado, inferior. Tais questões, juntamente com todo o declínio das funções do corpo, podem causar imenso sofrimento psíquico e por esse motivo a psicanálise se propõe a pensá-las. Sobre o tema, vale conferir a entrevista abaixo, com a psicanalista Sylvia Salles Godoy*.

1) Porque as culturas ocidentais não aceitam (ou têm dificuldade em aceitar) o processo de envelhecimento?

A questão do envelhecimento, per se, além de envolver questões culturais tangencia o tema da finitude. Em outros termos, o mistério de vida e morte resvala e paira no imaginário da pessoa que envelhece. Para levar-se adiante o intuito de cotejar culturas seria necessário uma extensa pesquisa, que nos levaria a infinitas digressões. Se desdobrarmos essa questão tão somente no ocidente, já poderemos observar uma multiplicidade de culturas com diferenças cruciais. No velho continente, mais especificamente em países onde a população madura e idosa é de há muito tempo predominante, a aceitação e o convívio com a passagem do tempo se dão como um processo natural com todas as vicissitudes que lhe são peculiares. Mas, no novo mundo, em especial no Brasil, onde até pouco tempo atrás o contingente da população idosa se constituía em uma minoria, borbulha uma questão emergente: como é envelhecer em um país com predomínio de população jovem? O problema se acentua porque embora saibamos que a cultura está continuamente a se reconstituir, uma boa fatia dela por uma tendência conservadora persiste impregnada de valores e conceitos que, se no passado foram um eixo norteador, ao serem transmitidos de geração em geração, prossegue alimentando padrões que podem facilmente deslizar e confluir para uma zona de preconceitos com atitudes decorrentes.

2) Quais os fatores que poderiam ajudar as pessoas a encararem com menor resistência esse fato inexorável?

Para encarar com menor resistência é preciso examinar, antes de tudo, como a passagem do tempo incide em seus itinerários: no plano biológico, a medicina vem, cada vez mais, nos oferecendo recursos para contornar e suprir as manifestações de declínio inerentes aos órgãos e suas funções. Desde o mais elementar, que é o uso de óculos para se obter uma melhor definição da visão, as reposições hormonais que por certo contribuem para um prolongamento da vida sexual, até preenchimentos para ajustes estéticos etc. No plano subjetivo a questão se torna mais complexa porque vêm à tona indagações existenciais sobre o significado e sentidos da vida que passam a ocupar um lugar central na cena: o confrontar-se com a imagem de si mesmo num jogo de espelhos com a cultura de seu tempo e lugar a qual, tendo como paradigma padrões de estética, beleza e juventude e ainda, como pano de fundo uma equação de equivalência entre juventude e poder, vem exercer um fascínio e colocar em xeque a autoestima com tudo o que envolve e acarreta. Ou seja, uma busca de juventude eterna! Miragem?

3) Qual a contribuição da psicanálise nesse campo?

Acredito que a psicanálise é o mais sofisticado instrumento de mergulho no interior do ser e, por certo, pode contribuir enormemente para uma percepção mais refinada de si mesmo a cada momento de vida, sobretudo, quando temos que nos defrontar com mudanças cruciais e que pedem uma “arrumação da casa”.

4) O que é o conceito de envelhescência que você criou?

A autoria merece uma citação que é o que dá credibilidade à criação. Mario Prata, em uma crônica no jornal “O Estado de São Paulo” (publicada em 03/08/93) criou a expressão envelhescência, fase da vida na qual não se é mais jovem, mas ainda está longe de ser velho. Fez uma analogia com a adolescência, período da vida no qual não mais se é criança, nem chegou a ser adulto e que, assim como na primeira, estão presentes acentuadas mudanças físicas e psíquicas. O conceito, se assim o podemos denominar, refere-se à vivência do processo do qual ninguém escapa. Entendemos que esse processo carece de uma reavaliação de valores e de mudanças no modus vivendi que, se em algum momento foram legítimos, perderam a validade por decurso de prazo e se faz imprescindível um restauro da visão de mundo.

5) Há formas de lidar melhor com esse processo? O que podemos aprender com outras culturas? 

Por tratar-se de um processo, cada qual vai ter sua especificidade e modo particular de se recompor. Do meu ponto de vista, reitero ser a psicanálise o método por excelência para se reinventar novas formas de viver. Mas isso não impede que existam outros caminhos que possam ajudar as pessoas a conviverem e descobrirem os encantos de outros ciclos da vida que, desembaraçada de pré-conceitos, tem trânsito livre para novas experiências na A/Ventura da Envelhescência.

Para aprender com outras culturas, alguns sábios nos legaram ensinamentos.

Cícero no ano 44 A. C. em De Senectude recomenda:

Resistir à velhice: cuidados com a saúde, exercícios físicos moderados.

Beber e comer pouco, o suficiente para refazer suas forças sem as esmagar.

Cuidar do espírito e da alma, pois como uma lamparina, se não lhe vertermos óleo, ela se apaga.

Ter atividade intelectual, pois a memória diminui se não a exercitarmos.

Sêneca em Sobre o Sábio e a atitude diante da Morte diz:

Não soframos por antecipação! “Somos mais vítimas do nosso terror, do que dos perigos reais.”

Faz apologia: “… do encontro, da conversa a viva voz, do olhar, da convivência cotidiana. O importante não é viver, mas viver bem.”

Para melhor ilustrar, podemos fazer uma releitura e até exaltar princípios básicos do berço da nossa civilização:

Historicamente, em civilizações milenares onde não existia o confronto de castas e classes sociais, o envelhecimento era concebido como fonte de experiências e o idoso considerado guardião das tradições. O papel social do ancião era o de conselheiro, elo entre as origens e os deuses. “A concepção de ser velho se revestia assim de sacralidade […] na qual eram incumbidos de efetuar a ligação com os antepassados, unindo vivos e mortos em uma cadeia cósmica”. A velhice estava relacionada à noção de força vital e, por conseguinte, era uma etapa valorizada. Ou seja, cabia a eles a função social de lembrar, unindo o outrora ao presente. Pela narrativa oral de sua sabedoria, os velhos sedimentavam a perpetuação da comunidade através dos tempos.

Na Grécia e na Roma antiga, onde a longevidade só era possível entre as classes privilegiadas, destaca-se a imagem do sábio que revelava uma harmonia entre a idade biológica, a função social, e com poder de comandar a sociedade. (A idade desses velhos não ultrapassava os quarenta anos e os que chegavam aos sessenta eram uma exceção). Esta era a visão consoante com as ideologias que valorizavam a velhice, por ser ela a instância social que detinha o poder. Mas “Quando a Grécia deixa de ser gerontocrática, o ancião passa a ser diminuído, conforme revelam as comédias onde o idoso é ridicularizado”. Com as transformações sócio-políticas, na Grécia dos séculos IX, VIII a.C., deu-se uma ruptura da unicidade primordial. “Fragmentam-se o tempo e os mitos; a sociedade passa a se organizar em funções do poder” […] “Chronos o tempo, então, passa a ser o símbolo da destruição, e a velhice passa a ser entendida como o prenúncio da extinção de vida”. Essa mitologia reflete a problemática do poder numa sociedade dividida e hierarquizada. O medo da sucessão e o conflito de gerações revelam que a visão cíclica do existir é substituída por uma concepção bipartida, de modo que todos os opostos, inclusive velhice e juventude, passam a se contrapor. A partir dessa desconstrução da consciência dos opostos, “A noção de honra que estava associada à velhice passa a se conjurar sob o signo do poder”.

[1] A expectativa de vida no início do século XX era de 60 anos. Hoje é de 80/90.

Sylvia Salles Godoy é psicanalista e autora do livro Envelhescência – Um fenômeno da modernidade à luz da psicanálise, Ed. Escuta.

Perdas e lutos que enfrentamos ao longo da vida

A vida é um constante processo de perda e superação. Há diferentes tipos de perdas, mais ou menos intensas. Mais ou menos definitivas. Em todos os casos somos colocados diante da necessidade de viver o luto, enfrentar a ausência e a falta e elaborá-las, para que a vida siga em frente. Ao contrário do que alguns imaginam, mergulhar naquilo que gerou tristeza pode ser uma parte fundamental desse processo. O luto – enquanto trabalho a ser realizado a partir de uma perda – promove um maior nível de integração e amadurecimento da personalidade. Sobre o assunto, vale conferir o texto abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Sylvia Pupo.

Perdas e lutos que enfrentamos ao longo da vida
Por Sylvia Pupo*

“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, diz a última estrofe do samba, sugerindo que devemos ser inabaláveis frente aos tombos que a vida nos dá.

Com admiração, geralmente, são vistas as pessoas que não se abatem ante uma perda, golpe ou obstáculo. São estimuladas a mostrar força e quase ausência de sentimentos. “Bola pra frente!”. Como sinal de força e maturidade são instigadas a esquecer rapidamente o acontecido e prosseguir.

Há tantos tipos e intensidades de perdas e de lutos a fazer. Há lutos por mortes ou separações, pelas próprias expectativas não atingidas, por um filho que cresceu e nos obrigou a nos re-situar como pais; por formar-se e ter que procurar um emprego, pela perda da infância, pelo envelhecimento…Cada fase da vida é acompanhada de mudanças; mudanças que nos desalojam e podem ser sentidas como perdas, demandando um trabalho interno de luto. O que é sentido como perda para um, pode não afetar um outro da mesma maneira.

Desde pequenas separações, até perdas mais definitivas, os lutos a fazer são diários e seus efeitos e possibilidades de elaboração vão depender, dentre outros fatores, da história afetiva dos sujeitos e da qualidade de seus vínculos primeiros. Muitas, entretanto, são necessárias e estruturantes.

Algumas pessoas acabam criando “soluções maníacas” para lidar com uma situação de perda. Desenvolvem uma excitação que substitui a esperada tristeza. A tal da “volta por cima” pode incluir viagens, festas, gastos, drogas, esportes, comportamentos em excesso que visam ajudar a não pensar ou sentir.

Ao contrário, é necessário “dar a volta por baixo”, poder falar a respeito, sentir, entristecer-se e mergulhar para voltar à tona. Esta é uma etapa fundamental no trabalho de luto, termo sugerido por Freud, em relação ao processo para a elaboração de toda perda. O reconhecimento de uma perda é um passo fundamental para a sua aceitação.

O processo de luto é uma etapa natural e necessária, que quando terminado vai promover um maior nível de integração e amadurecimento da personalidade. Aqueles que puderem contar com acompanhamento psicoterápico podem se beneficiar muito disto, principalmente nestes momentos

É importante distinguirmos um luto “normal”, esperado, de um luto patológico, de duração prolongada, onde há transformação da tristeza em depressão. A tristeza é um estado natural, dentre outros, que se seguem a uma perda.

Numa sociedade em que a tristeza não pode ser tolerada e deve ser medicalizada há uma demanda de que sejamos sempre felizes e bem sucedidos, o espaço para a fragilidade e para a própria subjetividade é cada vez menor. O ritmo acelerado nos faz também atropelar as emoções e o tempo necessário para cada um finalizar seus processos.

O luto vai na direção oposta. Ele traz consigo uma necessidade temporária de recolhimento, de parada. Promove uma “regressão” como medida de economia psíquica até o momento em que a pessoa em questão possa retomar seu investimento no mundo. É um tempo de convalescença psíquica.

A impossibilidade de uma pessoa vivenciar as fases necessárias de um trabalho de luto, ou mesmo um prolongamento deste período, pode levar a estados cronificados de melancolia, ressentimento e desvitalização.

É importante, que além do trabalho de elaboração individual – com ou sem auxílio de uma psicoterapia – o apoio do grupo social e a utilização de recursos simbólicos e certos rituais presentes na Cultura como um auxílio na elaboração dessas etapas.

*Sylvia Pupo é psicanalista e membro da SBPSP

Bibliografia – Freud, .S. (1817[1915] /1988) “Luto e melancolia in Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.
“Volta por cima” samba de de Noite Ilustrada