Entre interpretação e Rêverie: A mãe morta de André Green

“Entre interpretação e Rêverie: A mãe morta de André Green” é uma continuação do primeiro artigo que a psicanalista Talya Candi publicou neste Blog (https://psicanaliseblog.com.br/2014/09/22/sindrome-da-mae-morta/), abordando o conceito de “mãe morta”. Mais uma vez, Talya é precisa ao descrever como a experiência analítica com determinados pacientes é marcada por aquilo que se denominou “síndrome da mãe morta”. Nessas condições, o analista depara-se com um estado crônico de quase-morte, marcado por um desinvestimento maciço do eu do paciente, que impregna toda a relação analítica. Para quem se interessa pelo tema, vale a leitura.

Entre interpretação e Rêverie: A Mãe morta de André Green

Por Talya S. Candi*

A síndrome da mãe morta descrita por André Green é uma construção do campo analítico, da elaboração imaginativa do analista que percebe estar vivendo a relação analítica num estado crônico de quase-morte. Esta quase-morte decorre de um auto-desinvestimento maciço do Eu do paciente que acaba impregnando a relação analítica e provocando o que A. Green chama de “depressão de transferência”.

A “depressão de transferência” é, neste caso, uma medida drástica contra o desamparo absoluto e a ameaça iminente de não-existência. A síndrome da mãe morta faz parte dos quadros patológicos nos quais predomina um sofrimento narcísico que se manifesta por enorme dificuldade de ter uma consciência clara de si mesmo no mundo.

A hipótese trazida por A. Green é a seguinte: o que está sendo repetido compulsivamente na análise é uma experiência afetiva de não-encontro. Este não-encontro deixou como marca uma ferida que o tempo não conseguiu cicatrizar. Neste caso, o que não aconteceu ou que podia ter acontecido se torna mais verdadeiro do que qualquer coisa que acontece no presente ou que pode ainda acontecer no futuro. Na síndrome da mãe morta perdeu-se o que não aconteceu.

O psicanalista inglês Wilfred Bion nos lembra que suas conclusões teóricas foram desenvolvidas a partir de um contato íntimo com o inconsciente de seus pacientes, o que lhe permitiu fazer reconstruções plausíveis que procuram reinscrever o acidente psicopatológico numa continuidade lógica do funcionamento psíquico do paciente. Entre o sonho e a dor, Bion inventa um dos conceitos mais importantes da psicanálise contemporânea: o conceito de Rêverie. “Rever” significa sonhar, em francês. A Rêverie é um devaneio que surge na mente do analista e que serve para ajudá-lo a tecer hipóteses sobre os conflitos que o paciente não consegue comunicar.

A Mãe morta é uma rêverie que descreve a vivência de um sujeito aprisionado a um experiência afetiva não-vivida. A morte é a marca da não-resposta, já que quando o impulso não é acolhido e reconhecido por um outro que pode escutar o apelo da criança, este apelo não pode adquirir as qualidades afetivas que atestam a sua humanidade. O sujeito não pode se apropriar da seus impulsos e se sentir vivo e real.

É importantíssimo ainda dizer que o horror experimentado pela não-resposta gera uma dor excessiva que ataca a criação de sentido. O horror da não-resposta é uma catástrofe que causa um buraco na continuidade do ser. Estamos aqui no território do irrepresentável. Não cabe, portanto, esperar por lembranças nem relatos; somente uma lenta reconstrução do passado na situação analítica pode ajudar o paciente a libertar os pedaços aprisionados e talvez, pela primeira vez, conhecer e experimentar a vida que ele não conseguiu viver.

Na síndrome da mãe morta o que se repete no campo de força da relação analítica é a dor muda e sua incomunicabilidade .

Para mais detalhes :

T. Ogden: Reverie e interpretação :captando algo humano ( 2014 )

A. Green: A mãe morta ( 1982 )

T. Ogden: The fear of breakdown and the unlived life ( 2014 )

*Talya S. Candi é psicanalista e membro da SBPSP. É autora do livro “O aparelho psíquico de André Green”, publicado pela editora Escuta em 2010 .

1 comentário

  1. Muito importante o artigo Tayla, gostei como fez um resumo compreensivo.Mas, suas considerações e o texto Green e Bion leva-nos pensar no desenvolvimento da função analitica para face a esse desafio. Patologia narcisista e mal elaborada na analise das partes psicoticas nossas, dos analistas obstruem a disponibilidade de fazer reverie. precisamos cuidar da nossa transferencia para não repetirmos o desastre que já aconteceu. Parabens pelo texto.

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