Entre o singular e o plural: identificação

Não é simples compreender a interface entre as esferas pública e privada e como ela afeta a subjetividade de cada indivíduo. De forma às vezes sutil, tudo o que acontece no mundo externo e objetivo afeta – de uma maneira ou de outra – aquilo que somos, nosso mundo interno. No cerne dessa interação encontra-se o fenômeno da identificação, que funciona tanto de fora para dentro, fazendo com que cada indivíduo incorpore aquilo que considera de valor; como de dentro para fora, atribuindo a pessoas ou coisas aspectos e características que apreciamos ou não. Sobre o tema, vale conferir o artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Ester Sandler.

Entre o singular e o plural: identificação

Por Ester Sandler*

Relações de causa e efeito não dão conta da interação entre o que se passa dentro de nós, nosso mundo interno e subjetivo, e o mundo externo, de realidade aparentemente objetiva. Os mesmos acontecimentos afetam cada indivíduo de forma diferente, e um mesmo indivíduo pode reagir a um mesmo estímulo de forma variada.

Tomo como exemplo as imagens impressionantes da maior manifestação já ocorrida na França. 3,7 milhões de pessoas se reuniram em Paris e outras cidades da França e do mundo; levavam cartazes com a frase “Je suis Charlie”, em desagravo ao atentado que não só matara 17 pessoas como ultrajara a França e seus ideais de: liberdade, igualdade, fraternidade. Mas o que foi capaz de mobilizar tantas pessoas, e com tanta rapidez, quando diariamente notícias de atrocidades de guerra e terrorismo, de violência urbana, envolvendo milhares de vítimas despertam pouco interesse e uma quase indiferença?

No Brasil, em 2013, um grupo de ativistas protestou contra o acréscimo de vinte centavos na tarifa do transporte público e, de repente, milhões de pessoas ocuparam as ruas de várias cidades do país durante meses, com as mais diferentes reivindicações. O preço da condução foi a gota d’água que transbordou o copo de insatisfações e indignações até então silenciosas. O que fez, nesse momento, que as pessoas sentissem necessidade e possibilidade de protestar?

A frase “Je suis Charlie” teve uma propagação viral e um papel vital nesses acontecimentos. Charlie não é o nome de uma pessoa, mas do cândido personagem Charlie Brown. A construção da frase, omitindo “revista” e usando a palavra “sou” mudou seu possível sentido, algo como “eu me solidarizo com os editores da revista Charlie”, ou “hoje eu me sinto atacado como eles foram”; contagiou milhões de pessoas por meio de um processo de identificação. Charlie virou uma pessoa, uma boa pessoa, próxima a mim, como eu e, finalmente, virou “eu mesmo fui atacado”.

No cotidiano, um mesmo gesto ou evento pode catalisar reações poderosas como esse slogan foi capaz de fazer. Às vezes um acontecimento de grande magnitude pode ser elaborado pelo indivíduo como uma experiência constitutiva e enriquecedora. Outras vezes, acontecimentos aparentemente insignificantes podem mobilizar emoções e reações violentas, incompreensíveis à primeira vista.

No indivíduo e no grupo a identificação é um fenômeno chave e funciona em dupla mão, de fora para dentro, incorporando aquilo que consideramos de valor, fundamentando a empatia. De dentro para fora, atribuindo a pessoas ou coisas aspectos que apreciamos ou não. Construímos assim, com esses filtros, nossa identidade e simultaneamente a concepção do mundo em que vivemos e das pessoas a nosso redor. Esse mecanismo, quando desbalanceado, é responsável pela formação de sintomas no indivíduo, e nos grupos: fobias, sentimentos de perseguição, preconceitos, bodes-expiatórios.

A Psicanálise aproxima o indivíduo de quem ele de fato é, fortalece sua identidade e também sua capacidade para se relacionar e respeitar diferenças. Pensar e refletir preponderam sobre o reagir. A capacidade para ver a vida como ela é não significa resignação, mas possibilidade de construção.

*Ester Sandler é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

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