Mês: fevereiro 2015

Entre interpretação e Rêverie: A mãe morta de André Green

“Entre interpretação e Rêverie: A mãe morta de André Green” é uma continuação do primeiro artigo que a psicanalista Talya Candi publicou neste Blog (https://psicanaliseblog.com.br/2014/09/22/sindrome-da-mae-morta/), abordando o conceito de “mãe morta”. Mais uma vez, Talya é precisa ao descrever como a experiência analítica com determinados pacientes é marcada por aquilo que se denominou “síndrome da mãe morta”. Nessas condições, o analista depara-se com um estado crônico de quase-morte, marcado por um desinvestimento maciço do eu do paciente, que impregna toda a relação analítica. Para quem se interessa pelo tema, vale a leitura.

Entre interpretação e Rêverie: A Mãe morta de André Green

Por Talya S. Candi*

A síndrome da mãe morta descrita por André Green é uma construção do campo analítico, da elaboração imaginativa do analista que percebe estar vivendo a relação analítica num estado crônico de quase-morte. Esta quase-morte decorre de um auto-desinvestimento maciço do Eu do paciente que acaba impregnando a relação analítica e provocando o que A. Green chama de “depressão de transferência”.

A “depressão de transferência” é, neste caso, uma medida drástica contra o desamparo absoluto e a ameaça iminente de não-existência. A síndrome da mãe morta faz parte dos quadros patológicos nos quais predomina um sofrimento narcísico que se manifesta por enorme dificuldade de ter uma consciência clara de si mesmo no mundo.

A hipótese trazida por A. Green é a seguinte: o que está sendo repetido compulsivamente na análise é uma experiência afetiva de não-encontro. Este não-encontro deixou como marca uma ferida que o tempo não conseguiu cicatrizar. Neste caso, o que não aconteceu ou que podia ter acontecido se torna mais verdadeiro do que qualquer coisa que acontece no presente ou que pode ainda acontecer no futuro. Na síndrome da mãe morta perdeu-se o que não aconteceu.

O psicanalista inglês Wilfred Bion nos lembra que suas conclusões teóricas foram desenvolvidas a partir de um contato íntimo com o inconsciente de seus pacientes, o que lhe permitiu fazer reconstruções plausíveis que procuram reinscrever o acidente psicopatológico numa continuidade lógica do funcionamento psíquico do paciente. Entre o sonho e a dor, Bion inventa um dos conceitos mais importantes da psicanálise contemporânea: o conceito de Rêverie. “Rever” significa sonhar, em francês. A Rêverie é um devaneio que surge na mente do analista e que serve para ajudá-lo a tecer hipóteses sobre os conflitos que o paciente não consegue comunicar.

A Mãe morta é uma rêverie que descreve a vivência de um sujeito aprisionado a um experiência afetiva não-vivida. A morte é a marca da não-resposta, já que quando o impulso não é acolhido e reconhecido por um outro que pode escutar o apelo da criança, este apelo não pode adquirir as qualidades afetivas que atestam a sua humanidade. O sujeito não pode se apropriar da seus impulsos e se sentir vivo e real.

É importantíssimo ainda dizer que o horror experimentado pela não-resposta gera uma dor excessiva que ataca a criação de sentido. O horror da não-resposta é uma catástrofe que causa um buraco na continuidade do ser. Estamos aqui no território do irrepresentável. Não cabe, portanto, esperar por lembranças nem relatos; somente uma lenta reconstrução do passado na situação analítica pode ajudar o paciente a libertar os pedaços aprisionados e talvez, pela primeira vez, conhecer e experimentar a vida que ele não conseguiu viver.

Na síndrome da mãe morta o que se repete no campo de força da relação analítica é a dor muda e sua incomunicabilidade .

Para mais detalhes :

T. Ogden: Reverie e interpretação :captando algo humano ( 2014 )

A. Green: A mãe morta ( 1982 )

T. Ogden: The fear of breakdown and the unlived life ( 2014 )

*Talya S. Candi é psicanalista e membro da SBPSP. É autora do livro “O aparelho psíquico de André Green”, publicado pela editora Escuta em 2010 .

A Nova Lei da Guarda Compartilhada

Quando um casal se separa, a guarda dos filhos emerge como uma questão central a ser considerada e, infelizmente, em torno da qual nascem os mais difíceis conflitos. No ano passado, uma alteração da nossa legislação tornou regra a guarda compartilhada, prevendo que o casal assuma em conjunto as tarefas e responsabilidades na criação dos filhos. A nova lei, portanto, exige dos pais separados uma postura de maior comprometimento e diálogo constante, algo que pode ser difícil de se alcançar diante da presença de mágoas e frustrações de um casamento que se desfez. O artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Telma Weiss, aborda o assunto com clareza e profundidade. Vale a leitura!

A Nova Lei da Guarda Compartilhada

Por Telma Kutnikas Weiss*

A guarda compartilhada que era uma opção, agora se torna norma.
Em dezembro de 2014 a Presidente sancionou o projeto aprovado pelo Congresso, que torna a guarda compartilhada regra no Brasil. Certamente é um estímulo ao diálogo, evitando um mal maior – a alienação parental: um dos pais, geralmente o que se sente abandonado por aquele que tomou a decisão de pôr fim à relação conjugal, passa a manipular os filhos para que se afastem do que “abandonou” o lar. Mas essas são exceções e não a regra.

Será que o legislador consegue mudar os costumes, as práticas de viver?
O articulista Hélio Schwartsman em um editorial da Folha de São Paulo em 14/01/2015, lembrou um bom ensinamento de Savigny, um dos maiores juristas alemães do século XIX: “Não é a vontade arbitrária do legislador que altera os costumes. Se queremos fazê-lo, melhor tentar a escola”.

O pressuposto dessa lei é permitir aos pais separados assumirem juntos as tarefas e responsabilidades na criação dos filhos. É uma mudança de perspectiva importante: fomentar o diálogo para uma posição mais responsável do ex-casal em relação aos filhos.

Guarda compartilhada não significa morar metade do tempo com a mãe e outra metade com o pai. Significa, principalmente, a participação do pai na educação dos seu filhos, trazendo mais equilíbrio das funções paterna e materna. Para que seja efetiva é fundamental que os pais consigam deixar de lado as mágoas e frustrações do casamento, o que sem dúvida é um desafio bem difícil.

Sendo uma modalidade mais evoluída de guarda, requer um certo grau de responsabilidade de ambos os pais. Mais ainda, exige amadurecimento emocional, assim como exige pensamento e muita reflexão.

O que fazer quando o casal não consegue se entender? Será que a responsabilidade de ser pai e mãe tem que ser convocada legalmente?

A prática clínica mostra que é muito difícil legislar sobre os afetos; que a decisão da guarda não resolve a questão da dor da separação.

Acompanho casos em que o juiz acordou a guarda compartilhada, mas o casal não conseguiu nenhum tipo de entendimento, pois a frustração com o fim do casamento é uma ferida que muitas vezes demora muito para cicatrizar. É uma dor narcísica que, quando não tratada e não cuidada, pode facilmente se transformar em ódio, em vingança.

Para que o ex-casal consiga construir um diálogo embasado no que é desejado – o bem-estar dos seus filhos – sugiro serem acompanhados por um profissional: um mediador, um psicólogo ou um psicanalista.

*Telma Kutnikas Weiss é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e Diretora do Instituto Brasileiro de Direito de Família.

Entre o singular e o plural: identificação

Não é simples compreender a interface entre as esferas pública e privada e como ela afeta a subjetividade de cada indivíduo. De forma às vezes sutil, tudo o que acontece no mundo externo e objetivo afeta – de uma maneira ou de outra – aquilo que somos, nosso mundo interno. No cerne dessa interação encontra-se o fenômeno da identificação, que funciona tanto de fora para dentro, fazendo com que cada indivíduo incorpore aquilo que considera de valor; como de dentro para fora, atribuindo a pessoas ou coisas aspectos e características que apreciamos ou não. Sobre o tema, vale conferir o artigo abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Ester Sandler.

Entre o singular e o plural: identificação

Por Ester Sandler*

Relações de causa e efeito não dão conta da interação entre o que se passa dentro de nós, nosso mundo interno e subjetivo, e o mundo externo, de realidade aparentemente objetiva. Os mesmos acontecimentos afetam cada indivíduo de forma diferente, e um mesmo indivíduo pode reagir a um mesmo estímulo de forma variada.

Tomo como exemplo as imagens impressionantes da maior manifestação já ocorrida na França. 3,7 milhões de pessoas se reuniram em Paris e outras cidades da França e do mundo; levavam cartazes com a frase “Je suis Charlie”, em desagravo ao atentado que não só matara 17 pessoas como ultrajara a França e seus ideais de: liberdade, igualdade, fraternidade. Mas o que foi capaz de mobilizar tantas pessoas, e com tanta rapidez, quando diariamente notícias de atrocidades de guerra e terrorismo, de violência urbana, envolvendo milhares de vítimas despertam pouco interesse e uma quase indiferença?

No Brasil, em 2013, um grupo de ativistas protestou contra o acréscimo de vinte centavos na tarifa do transporte público e, de repente, milhões de pessoas ocuparam as ruas de várias cidades do país durante meses, com as mais diferentes reivindicações. O preço da condução foi a gota d’água que transbordou o copo de insatisfações e indignações até então silenciosas. O que fez, nesse momento, que as pessoas sentissem necessidade e possibilidade de protestar?

A frase “Je suis Charlie” teve uma propagação viral e um papel vital nesses acontecimentos. Charlie não é o nome de uma pessoa, mas do cândido personagem Charlie Brown. A construção da frase, omitindo “revista” e usando a palavra “sou” mudou seu possível sentido, algo como “eu me solidarizo com os editores da revista Charlie”, ou “hoje eu me sinto atacado como eles foram”; contagiou milhões de pessoas por meio de um processo de identificação. Charlie virou uma pessoa, uma boa pessoa, próxima a mim, como eu e, finalmente, virou “eu mesmo fui atacado”.

No cotidiano, um mesmo gesto ou evento pode catalisar reações poderosas como esse slogan foi capaz de fazer. Às vezes um acontecimento de grande magnitude pode ser elaborado pelo indivíduo como uma experiência constitutiva e enriquecedora. Outras vezes, acontecimentos aparentemente insignificantes podem mobilizar emoções e reações violentas, incompreensíveis à primeira vista.

No indivíduo e no grupo a identificação é um fenômeno chave e funciona em dupla mão, de fora para dentro, incorporando aquilo que consideramos de valor, fundamentando a empatia. De dentro para fora, atribuindo a pessoas ou coisas aspectos que apreciamos ou não. Construímos assim, com esses filtros, nossa identidade e simultaneamente a concepção do mundo em que vivemos e das pessoas a nosso redor. Esse mecanismo, quando desbalanceado, é responsável pela formação de sintomas no indivíduo, e nos grupos: fobias, sentimentos de perseguição, preconceitos, bodes-expiatórios.

A Psicanálise aproxima o indivíduo de quem ele de fato é, fortalece sua identidade e também sua capacidade para se relacionar e respeitar diferenças. Pensar e refletir preponderam sobre o reagir. A capacidade para ver a vida como ela é não significa resignação, mas possibilidade de construção.

*Ester Sandler é psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.