Mês: janeiro 2015

Psicanálise e cinema – “Livre”

Com a proximidade do Oscar, novos e bons filmes estão em cartaz. Um deles é “Livre”, baseado no livro homônimo de Cheryl Strayed que, aos 27, partiu sozinha para uma caminhada de 1700km, pela costa oeste dos Estados Unidos. Conhecida como Pacific Crest Trail, a trilha escolhida é desafiadora até para experientes montanhistas. No caso de Cheryl, além do percurso em si, a trajetória representou também uma intensa busca de si mesma. A psicanalista Eleonora Rosset fala sobre o filme sob um viés psicanalítico mas sem tirar a sua magia, para quem ainda não assistiu.

Por Eleonora Rosset*

“Livre”- Canadá, 2014

O luto faz agir estranhamente. Freud dizia que se não soubéssemos da perda que aquela pessoa sofreu, pensaríamos que ela enlouqueceu.

Assim, Cheryl foi atrás de drogas pesadas e sexo promíscuo quando sua mãe morreu. Queria se dopar para esquecer. Fazia tudo na vã tentativa de não pensar na dor que sentia. Achava que não aguentaria viver sem ela, que era seu norte. Aquela que protegia os filhos de um pai brutal. A que vivia cantando e amando as pequenas coisas da vida. Não que muitas vezes ela não tivesse desdenhado de seus conselhos.

A verdade é que só realizamos o tamanho da perda quando é muito tarde.

Mas a mãe (Laura Dern, cativante) tinha semeado bem a terra de sua filha (Reese Witherspoon, visceral). E ela se dá conta de que está se destruindo.

Começa então a viagem.

Ela cisma que vai fazer a trilha que vai do México à fronteira do Canadá. Compra o guia e lá vai Cheryl enfrentar os quase 1.700 quilômetros da Pacific Crest Trail. Deserto, montanhas, planícies áridas, florestas, neve. Paisagens deslumbrantes (fotografia de Yves Bélanger).

Muitas vezes é penoso para o espectador acompanhar Cheryl. Mas o caminho nos arrasta com ela.
Percebemos o medo, a dor física, a rebeldia e a coragem de enfrentar o desafio. Mas encarando as dificuldades do percurso, ela encontra energias até então desconhecidas. Porque a viagem mais importante é a interna. É o conhecimento de si mesma que ela busca.

E, finalmente, ela pode se lembrar de tudo. E chorar.

De repente, estamos iluminados. O rosto dela mudou. Encontrou o que tanto buscava.
Reese Wintherspoon está fantástica. Ela vive com todo o seu ser a história da verdadeira Cheryl Strayed, que perante a enormidade da tarefa a que se propôs, grita muito e com raiva, até que a paz é encontrada.

A presença distante de uma raposa que a acompanha, lembra a proteção da mãe. A natureza temida torna-se amiga e ela não está mais sozinha. Porque encontrou a mãe viva dentro dela mesma.

O diretor Jean-Marc Vallée, 51 anos, canadense, que dirigiu “Clube de Compras Dallas” no ano passado e ganhou três Oscars, leva o filme com talento, atento ao rosto expressivo de sua atriz, captando em “close” tudo que ela sente. Consegue mexer com o público do cinema.
Eu saí emocionada.

*Eleonora Rosset é psicanalista e membro da SBPSP. Tem um Blog sobre psicanálise e cinema. http://www.eleonorarosset.com.br/

Vida escolar, crescimento e constituição da subjetividade

A educação dos filhos é um processo complexo e não há fórmulas preconcebidas que ditam um suposto caminho “certo”. Apesar disso, há questões e aspectos sobre os quais podemos e devemos refletir quando testemunhamos – no papel de pais ou de analistas – o desenvolvimento emocional e físico das crianças.
No artigo abaixo, a psicanalista Alicia Lisondo faz exatamente isso, abordando com profundidade o momento de ingresso das crianças numa instituição escolar e os principais fatores implicados nesse processo.

O filho na escola: quando iniciar a inclusão da criança numa instituição escolar? Por que tomar esta decisão? Está na hora?

Por Alicia Beatriz Dorado de Lisondo*

Nossa ciência-arte, a psicanálise, estuda a singularidade do processo de constituição da subjetividade de um ser humano, num ambiente específico e único. O bebê humano não nasce maduro, pelo contrário, muito vulnerável, com potencialidades a realizar graças às funções parentais. Minha intenção não é dar respostas normativas, contrárias ao espírito da psicanálise, mas sim ajudar a pensar.

A creche e/ou escola é uma instituição com cultura e normas próprias. Um espaço diferente do lar. Mas para que a criança vivencie uma certa continuidade entre a família e a escola, os pais podem escolher um lugar em sintonia com seus valores, com sua postura ante o mundo, com condições reais de arcar com a distância geográfica e os custos econômicos, tendo em conta o bom senso. O que seria melhor para esta criança, neste momento de sua vida, com estes pais, nesta família? Qualquer decisão implica enfrentar riscos, lutos por aquilo que não foi escolhido, turbulência diante do novo e do desconhecido.

A instituição escolar precisa ser coerente com seus princípios formativos e pedagógicos. Eles não podem ser palavras vazias, protocolares e sim palavras encarnadas no dia a dia, plenas de sentido. Não ceder às pressões dos pais e da sociedade neste mundo pós-moderno não é tarefa fácil quando, às vezes, a infância é sacrificada e a adolescência sufocada. A aprovação no vestibular, por exemplo, pode tornar-se a única meta a alcançar, limitando atividades artísticas, sociais, esportivas, políticas, procura de eficiência competitiva e um lugar no mercado de trabalho.

CRECHES E ESCOLAS MATERNAIS

Para se desenvolver, o bebê precisa que as funções parentais possam lhe oferecer, por meio de um vínculo real e mental, uma experiência de segurança básica, de continuidade entre a vida pré-natal e pós-natal, um ritmo estável, uma estimulação adequada. Essas funções como “pais suficientemente bons”, no dizer de Winnicott, surgem espontaneamente, tendo a intuição como bússola privilegiada. Os pais modulam as terríveis ansiedades do bebê e são catalizadores semânticos para dar significação às expressões corporais, gestuais e sensoriais do filho por meio da linguagem pré-verbal. Se quando surge o laleio: “Ah!Ah!Ah”, este é escutado e interpretado pelos pais como MAMÃE, PAPAI ou PAPAR, a comunicação não cai no vazio.

Numa profunda relação misteriosa e inconsciente, assim, o bebê constrói seu SER, apropria-se da linguagem, dos valores e ideais da cultura apresentados pelos pais. Realiza as potencialidades presentes no seu repertório tecendo, com os fios do reconhecimento e da valorização do ambiente que festeja cada conquista, a autoestima.

O chute na bola de um toquinho de gente pode ser celebrado como o gol do ídolo. E diante da festa, o filho repete a façanha, uma e outra vez. Também pode aprender, muito além do exercício motor necessário para permitir experimentar distâncias e forças no espaço, a perder, a tolerar frustrações, a esperar a vez de uma próxima tentativa; a potência masculina está presente no acerto festejado e na perda suportada. A criança ganha confiança e segurança no exercício de suas reais possibilidades e o primeiro ano de vida é fundamental para construir os alicerces da personalidade.

A criança pequena precisa construir temporalidade e espacialidade. Então ela não percebe, não realiza a duração do período escolar. Seu frágil psiquismo não pode imaginar o retorno dos pais antes da possibilidade de simbolizar, há como que um desaparecimento dos seres conhecidos, um “nunca mais”, porque não há reversibilidade entre idas e voltas, partidas e chegadas, encontros e despedidas. Quando em sofrimento, um minuto pode ser eterno.

Quando a criança não tem as figuras primordiais introjetadas na sua mente e não pode simbolizar, ou seja, re-criar a presença dessas figuras quando ausentes, a separação dos pais pode ser vivida como um esfacelamento, uma queda sem fim no abismo infernal, uma aniquilação ou fragmentação do ser. A imagem da criança agarrada, colada ao corpo dos cuidadores em desespero evidencia essas agonias primitivas. Diferente da criança capaz de dizer tchau e se despedir, se separar, que segura um objeto acompanhante, “transicional”, que lhe ajuda a realizar a passagem entre o conhecido mundo familiar e o estranho mundo escolar.

Não menos preocupante é a criança que aparenta indiferença, apatia, desinteresse nos contatos humanos, porque se refugia em barreiras de diversas espessuras, fronteiras dos refúgios, como ocorre quando há estados autistas, de gravidade muito variada, em curso.

O bebê bem dotado tem radares para perceber os estados mentais inconscientes das pessoas próximas. Para garantir AMOR pode vir a se sobre-adaptar aos valores e ideais parentais impostos, numa submissão que pode aplastar desejos e manifestações do verdadeiro self. Exemplo em sala de análise: uma menina de 2 anos e 7 meses, hipotônica pela privação da exercitação do corpo no espaço (rastejar, engatinhar, explorar o ambiente, manusear objetos, brincar de jogar objetos de certa altura e ou a certa distância, etc.); quando a mãe a deixou no chão ante minha interpretação, ela olhava para a mãe e logo me olhava como que pedindo permissão para cada movimento que ousava realizar, timidamente. Pensei que minha paciente inibia a exploração motora do novo ambiente para obedecer a normas implícitas que proibiam o movimento, a fim de evitar TODOS os perigos e a ameaça de uma nova convulsão. Só que assim agindo, os pais, inconscientemente, freavam seu crescimento. Além das questões neurológicas, a convulsão era uma explosão da excitação que ela não tinha podido metabolizar.

Adaptação e sobre-adaptação são estados mentais diferentes. O primeiro pode indicar que a criança é capaz de assimilar o NOVO, aprender com as novas experiências, ampliar o mundo com as relações com outras crianças e professores.

Já na sobre-adaptação, no interjogo entre o nível de exigência imposto pelos pais e a qualidade da personalidade em formação, há uma obediência submissa, que deforma ao aplastar o SER. A criança se adapta ou silencia as emoções por que está sobre-adaptada? A criança quando chora, protesta, esperneia diante de cada separação, ou adoece repetidamente, estaria expressando a imaturidade para ingressar/e ou continuar numa escolinha maternal-creche? São conciliáveis: expectativas, exigências, desejos, obrigações, realizações, sonhos da mãe (laborais, profissionais, econômicos, pessoais) com os cuidados psíquicos de um filho na primeira infância? Como?

QUESTÕES PARA PENSAR:
– Quanto menor é a criança, mais ela precisa da convivência num ambiente que propicie o desenvolvimento da personalidade, através das funções parentais maduras.

– Quando necessário, apelar a uma instituição é importante, mesmo que seja por períodos os mais breves possíveis. Quais os critérios para buscar essa instituição escolar?

– No lar é aconselhável que os pais entrem em contato emocional com o filho oferecendo uma atenção qualificada para, espontaneamente, brincar, desenhar, pintar, cantar, dançar, conversar, colocar limites, num vínculo verdadeiro que contemple o amor, o ódio, a ternura, o sofrimento, a alegria. Limitar o uso de TV e aparelhos eletrônicos é necessário para privilegiar os contatos humanos.

– Os pais, como seres humanos, fazem o possível e não podem exigir para si próprios, a perfeição. A culpa é uma má companhia. A superproteção, a pretensão de evitar sofrimentos necessários para o filho, as falsas compensações, as seduções e as chantagens não ajudam a crescer.

– Há sinais que podem revelar o mal-estar psíquico de um filho: doenças frequentes do psicossoma, alteração dos ritmos fisiológicos (sono, alimentação, controle esfincteriano): apatia, tristeza, desinteresse, dificuldades ou recusa nos contatos humanos; exigência de ficar aderido, colado nos cuidadores; terrores noturnos; ataques de pânico ou de raiva prolongados e frequentes sem motivo aparente; impossibilidade de aceitar limites e frustrações dosadas; graves fobias; transtornos no desenvolvimento etc. Então que fazer além de observar, sofrer, insistir?

– Diante da consciência desse mal-estar é oportuno consultar um psicanalista de crianças e adolescentes para investigar a situação. O tempo não resolve perturbações mentais. O tempo pode potencializar fatores patogênicos.

Uma avaliação psicanalítica levantará hipóteses diagnósticas sobre a criança e seus vínculos, convocando os pais a pensarem sobre as transformações necessárias na personalidade do paciente e na família.
Na criança pequena as mudanças podem ser assombrosas pela força de vida do protagonista da consulta. E mais: as configurações que perturbam o desenvolvimento emocional podem não estar cristalizadas. O psicanalista tem a chance de entrar em cena antes das consequências perigosas da cronicidade do quadro.

*Alicia Beatriz Dorado de Lisondo é psicanalista e membro da SBPSP

“O FINAL DA NOSSA EXPLORAÇÃO É CHEGAR ONDE
INICIAMOS E CONHECER O LUGAR PELA PRIMEIRA VEZ”

T.S. ELIOT.

Ano Novo – Associações livres

Ano novo é momento de refletir. Refletir sobre o que passou e sobre o que está por vir. Passado e futuro conjugados no único tempo que nos pertence: o presente. Sobre o tema, vale a leitura das “Associações livres”, do psiquiatra e psicanalista Carlos de Almeida Vieira.

O Ano Novo – Associações livres

Por Carlos de Almeida Viera*

O novo ano, uma comemoração, um instante, um momento, o tempo. O tempo da virada, da mudança. Na batucada do samba, nos agudos sons dos sinos, nas cores mescladas dos fogos de artifício, no beijo na praia, na oração dentro dos templos, no abraço amigo, no casal fazendo amor e numa criança vindo ao mundo como o primeiro do ano. Naquele que já se foi, naquela que se amou bastante, no primeiro afago, no grito do nascimento, a mãe acolhendo, tudo pode ser um instante de passagem de ano.

Se o ano passa é porque o tempo se esvai ou foi J.L.Borges escreveu que só existe um tempo, o tempo do Presente. Ainda que se fale em passado ou mesmo em futuro, o tempo é sempre presentificado; na memória do que foi ou na fantasia do que estar por vir, mas eternamente no presente, na saudade da primeira namorada, no sal das lágrimas do primeiro luto, no imaginário do que se deseja acontecer, o tempo é sempre uma experiência forte de presente, no entanto é difícil experimentar o presente. Talvez ficar naquilo que se vive, principalmente quando se trata de um momento de prazer, logo vem o medo consciente ou inconsciente de perder. A natureza humana é muito estranha, às vezes, pois como é comum se perdurar no tempo da dor!

Ano novo! Novo pelo desconhecido que é, como tudo que é novo. A expectativa de viver preenche o espaço do tempo presente do dia de ano. Nesse momento lembro uma prosa de Drummond sobre as “Ilhas”: escreveu o poeta que uma maneira sensata de viver seria “uma relativa distância e uma não estorvada confraternização”. Juntos separados, a arte do bem viver. Nem fundidos nem distantes, essa dialética do amor pode fazer duas pessoas, um grupo de pessoas, tolerarem a convivência, experiência difícil pois implica respeitar as diferenças. Boa mensagem de um ano: vamos todos seguir o conselho do Poeta Gauche!

Outro mineiro, não menos importante, Cyro dos Anjos, mais um poeta da nossa rica Literatura escreveu: “Há um tempo de amar, devaneando, e há o de cuidar, com prudência, nos encargos da maturidade. Há o tempo de ser jovem, o de ser homem, e o de ser velho.”

Há o tempo do porvir, o desejo de amar mais, a possibilidade de lidar com conflitos e perdas sem perder a sanidade, ou tirando proveito de uma “insanidade temporal”.

Se o desejo é um sentir projetado no tempo futuro, mas presente, deixo o leitor refletir nosso momento histórico: que o ano novo traga educação, moradia, justiça para os que não usam “colarinho branco”, saúde a todos e atendimento aos que podem morrer nas portas dos hospitais sem serem acolhidos. Segurança individual e social, prevenindo crimes hediondos, e finalmente: vontade política e governamental para empreender mudanças, caso contrário continuaremos não deliciar um “peru assado”, e sim, “pessoas assadas” por projéteis intencionais, balas perdidas, falta de recursos para o mínimo de sobrevivência da população carente, ao contrário da minoria privilegiada do “gigante pela própria natureza”.

*Carlos de Almeida Vieira é médico psiquiatra, psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI) e da International Psychoanalytical Association (IPA/London).

Pequenos tiranos

Nas férias, o convívio com as crianças é mais intenso. Muitas vezes, não é fácil estabelecer limites, impor restrições e dizer “não”. Mas isso, ao contrário do que muitos pais imaginam, é bem mais importante do que parece, tanto para a educação como para o desenvolvimento emocional da criança. Sobre o tema, vale a leitura do texto abaixo, da psicanalista e membro da SBPSP, Marion Minerbo.

Pequenos tiranos

Por Marion Minerbo*

Todos conhecemos crianças que, desde cedo, já são pequenos tiranos. Quando contrariadas, explodem em crises de birra, deixando os pais perplexos e irritados. Estes tentam colocar limites, castigam, perdem a paciência e acabam batendo de frente, num verdadeiro braço de ferro com os pequenos. Exaustos, acabam se submetendo à tirania. Ou, com medo de perder o amor dos filhos, fazem tudo o que eles querem.

Essas atitudes acabam alimentando um círculo vicioso: a criança vai se tornando cada vez mais insuportável e incontrolável. Os pais, com razão, passam a sentir ódio da criança, que, obviamente, percebe e fica aterrorizada. Já não há prazer numa convivência em que todos sofrem. A criança se torna destrutiva e para de brincar, o que indica comprometimento grave no seu desenvolvimento emocional.

É preciso reconhecer que as detestáveis crises de birra são expressões de ódio – o qual, por sua vez, indica claramente a presença de sofrimento psíquico. Sim, mesmo crianças que, aparentemente, “têm de tudo”, podem estar sofrendo. Percebe-se que a palavra “birra” é péssima, porque nos induz a pensar em algum “defeito de caráter” (a criança é birrenta, mimada, má, tem personalidade forte), eximindo o adulto de se questionar de que forma ele pode estar contribuindo, inconscientemente, para gerar o sofrimento que se expressa através das crises de ódio.

A maior razão para o sofrimento psíquico da criança é a impossibilidade de estabelecer uma comunicação emocional profunda com o adulto significativo. Desde que nasce, a criança envia mensagens indicando necessidades emocionais básicas que precisam ser decodificadas e atendidas. Quando o adulto não decodifica, ou quando, em função de suas próprias questões inconscientes, interpreta a mensagem de maneira equivocada, dará respostas inadequadas a essas necessidades.

Ao receber respostas sistematicamente inadequadas, a criança sofre duas vezes: uma, porque aquela necessidade emocional não foi atendida; duas, porque se sente sozinho e abandonado, mesmo na presença do adulto. Há um pesadelo típico que mostra como a impossibilidade de se comunicar com outro ser humano é desesperadora: tentamos pedir ajuda a alguém que está ali perto, mas nossa voz não sai.

A interpretação suficientemente sintônica da mensagem da criança depende da capacidade de empatia dos pais. É preciso que eles consigam se colocar na pele da criança para tentar imaginar como é o mundo visto por ela. Precisam ser capazes de acessar a criança que eles foram, para traduzir o que ela está tentando lhes comunicar – às vezes de maneira muito torta, quase incompreensível. Infelizmente, ainda não há um google translator para nos ajudar a traduzir língua de criança em língua de adulto, e vice-versa.

*Marion Minerbo é psiquiatra, psicanalista e membro da SBPSP.